ROSA NO MAR!

Rosa, rosa de amor purpurea e bella,

Quem entre os goivos te esfolhou da campa!

GARRETT.

Por uma praia arenosa,

Vagarosa

Divagava uma Donzella;

Dá largas ao pensamento,

Brinca o vento

Nos soltos cabellos della.

Leve ruga no semblante

Vem n’um instante,

Que n’outro instante se alisa;

Mais veloz que a sua ideia

Não volteia,

Não gira, não foge a brisa.

No virginal devaneio

Arfa o seio,

Pranto ao riso se mistura;

Doce rir dos céos encanto,

Leve pranto,

Que amargo não é, nem dura.

Nesse logar solitario,

—Seo fadario,—

De ver o mar se recreia;

De o ver, á tarde, dormente,

Docemente

Suspirar na branca areia.

Agora, qual sempre usava,

Divagava

Em seo pensar embebida;

Tinha no seio uma rosa

Melindrosa,

De verde musgo vestida.

Ia a virgem descuidosa,

Quando a rosa

Do seio no chão lhe cahe:

Vem um’onda bonançosa,

Qu’impiedosa

A flôr comsigo retrahe.

A meiga flôr sobrenada;

De agastada,

A virge’ a não quer deixar!

Bóia a flôr; a virgem bella,

Vai trás ella,

Rente, rente—á beiramar.

Vem a onda bonançosa,

Vem a rosa;

Foge a onda, a flôr tão bem.

Se a onda foge, a donzella

Vai sobre ella!

Mas foge, se a onda vem.

Muitas vezes enganada,

De enfadada

Não quer deixar de insistir;

Das vagas menos se espanta,

Nem com tanta

Presteza lhes quer fugir.

N’isto o mar que se encapella

A virgem bella

Recolhe e leva comsigo;

Tão fallaz em calmaria,

Como a fria

Polidez de um falso amigo.

Nas agoas alguns instantes,

Fluctuantes

Nadárão brancos vestidos:

Logo o mar todo bonança,

A praia cança

Com monotonos latidos.

Um doce nome querido

Foi ouvido,

Ia a noite em mais de meia:

Toda a praia perlustrárão,

Nem achárão

Mais que a flôr na branca areia.