O AMOR.

Amare amabam.

S. AGOST.

Amor! enlevo d’alma, arroubo, encanto

Desta existencia misera, onde existes?

Fino sentir ou magico transporte,

(O quer que seja que nos leva a extremos,

Aos quaes não basta a natureza humana;)

Sympathica attracção d’almas sinceras

Que unidas pelo amor, no amor se apurão,

Por quem suspiro, serás nome apenas?

A inutil chamma reseccou meos labios,

Mirrou-me o coração da vida em meio,

E á terra fez baixar a mente errada

Que entre nuvens, amor, por ti bradava!

Não te pude encontrar!—em vão meos annos

No louco intento esperdicei; gelados,

Uns após outros á cahir precipites

Na urna do passado os vi; eu triste,

Amor, por ti clamava;—e o meo deserto

Aos meos accentos reboava embalde.

Em vão meo coração por ti se fina,

Em vão minha alma te compr’hende e busca,

Em vão meos labios sofregos cubição

Libar a taça que aos mortaes off’reces!

Dizem-na funda, inexgotavel, meiga;

Em quanto a vejo rasa, amarga e dura!

Dizem-na balsamo, eu veneno a sorvo:

Prazer, doçura,—eu dôr e fel encontro!

Dobrei-me ás duras leis que me impozeste,

Curvei ao jugo teo meo collo humilde,

Feri-me aos teos ardentes passadores,

Prendi-me aos teos grilhões, rojei por terra...

E o lucro?... forão lagrimas perdidas,

Foi roxa cicatriz qu’inda conservo,

Desbotada a illusão e a vida exhausta!

Celeste emanação, gratos effluvios

Das roseiras do céo; bater macio

Das azas auri-brancas d’algum anjo,

Que roça em noite amiga a nossa esphera,

Centelha e luz do sol que nunca morre;

Es tudo, e mais do qu’isto:—es luz e vida,

Perfume, e vôo d’anjo mal sentido,

Peregrinas essencias trescalando!...

Tão bem passas veloz,—breve te apagas,

Como d’uma ave a sombra fugitiva,

Desgarrada voando á flôr de um lago!