AO ANNIVERSARIO DE UM CASAMENTO.
A MRS. A. N. V. DA G.
A filha d’Albion bem vinda seja
Ao solo brasileiro!
Bem vinda seja ás margens florescentes
Do Rio hospitaleiro!
Qu’importa que te acene a Patria ao longe,
Que vejas incessante
As memorias, os templos, os palacios
Da Cidade gigante?
A patria é onde quer que a vida temos
Sem penar e sem dôr;
Onde rostos amigos nos rodeião,
Onde temos amor:
Onde vozes amigas nos consolão
Na nossa desventura,
Onde alguns olhos chorarão doridos
Na erma sepultura;
A patria é onde a vida temos presa:
Aqui tão bem ha sol!
Tão bem a brisa corre fresca e leve
Da manhã no arrebol!
Aqui tão bem a terra produz flores,
Tão bem os céos têm côr;
Tão bem murmura o rio, e corre a fonte,
E os astros têm fulgor!
Aqui tão bem se arrelva o prado, o monte,
De mimoso tapiz;
Nas azas do silencio desce a noite
Tão bem sobre o infeliz!
A filha d’Albion bem vinda seja
Ao solo brasileiro;
Bem vinda seja ás margens florescentes
Do Rio hospitaleiro!
Compridos annos e folgados viva
Neste ditoso clima,
E veja á par dos filhos seos queridos
Crescer do esposo a estima!
Possa eu tão bem do seo feliz consorcio
De novo em cada anno
Soltar um hymno de amizade extreme,
Um canto mais que humano!
24 de Março.
CANTO INAUGURAL.
Á MEMORIA DO CONEGO JANUARIO DA CUNHA BARBOSA.
Onde essa voz ardente e sonorosa,
Essa voz que escutámos tantas vezes,
Polida como a lamina d’um gladio,
Essa voz onde está?
No rostro popular severa e forte,
No pulpito serena, amiga e branda,
Pelas naves do templo reboava,
Como oração piedosa!
E a mão segura, e a fronte audaciosa,
Onde um vulcão de ideias borbulhava,
E o generoso ardor de uma alma nobre
—Onde párão tão bem?
Novo Colombo audaz por novos mares,
A sonda em punho, os olho nas estrellas,
Co’as bronzeas quilhas retalhando as vagas
Do inhospito elemento;
Porfioso e tenaz no duro empenho,
No manto do porvir bordava ufano,
Sob os tropheos da liberdade sacra,
Os destinos da Patria!
Nocturno viajor que andou vagando
A noite inteira, a revolver-se em trevas,
Onde te foste, quando o sol roxeia
Nuvens de um céo mais puro?
Seccou-se a voz nas fauces resequidas,
Parou sem força o coração no peito,
Quando somente um pé firmava a custo
Na terra promettida!
E a mão cançada fraquejou ... pendeo-lhe,
Inda a vejo pendente, sobre os paginas
Da patria historia, onde gravou seo nome
Tarjado em letras d’oiro.
Pendeo-lhe ... quando a mente escandecida
Talvez quadro maior lhe affigurava
Que a luta acerba do Titan brioso,
Ultima prole de Saturno.
Inveja Claudiano pincel valido,
Que nos retrata o cataclysmo horrendo,
Que elle—poeta—não achou nos combros
Da ignivoma Tessalia!
Inveja!... mas ás formas do Gigante
Sorri-se o grande Homero;—e o cego Bardo
Da verde Erin, entre os heróes famosos
Prazenteiro o recebe!
Dorme, ó lutador, que assaz lutaste!
Dorme agora no gelido sudario;
Foi duro o afan, asperrima a contenda,
Será fundo o descanço.
Dorme, ó lutador, teo somno eterno;
Mas sobre a lousa do sepulchro humilde,
Como na vida foi, surja o teo busto
Austero e glorioso.
Columna inteira em combros derrocados,
Rolo encerado, que já beija as praias
Do remoto porvir,—seguro e salvo
Dos naufragios d’um seculo;
Dorme!—não serei eu quem te desperte,
Meos versos ... não serão:—palmas sem graça,
Ou pobre ramo d’arvore funerea,
Pyramidal cypreste.
São flôres que desfolha sobre um tumulo
Singelo, entre um rosal, quasi fagueiro,
Piedosa mão de peregrino extranho,
Que alli passou acaso!