QUEIXUMES.
I.
Onde estás, meo senhor, meos amores?
A que terras—tão longes!—fugiste?
Onde agora teos dias se escoão?
Por que foi que de mim te partiste?
II.
Não te lembras! quando eu te rogava
Não te fosses de mim tão azinha,
Prometteste-me breve ser minha
Tua vida, que o mar me roubava.
III.
Tão amigo do mar foste sempre,
Por que amigos talvez não achaste!
Nem carinhos, nem prantos te ameigão?
Nem por mim, que te amava, o deixaste?
IV.
Vejo além o logar onde estava
Tua esbelta fragata ancorada,
Mal soffrida jogando afagada
Do galerno que amigo a chamava.
V.
Da partida era o funebre instante,
Breve instante de afflictos terrores,
Quando o mar traiçoeiro, inconstante,
Me roubava meos puros amores!
VI.
Inda chóro essa noite medonha,
Longa noite de má despedida!
Teo amor me deixaste nos braços,
Nos teos braços levaste-me a vida!
VII.
Oh! cruel, que então foste commigo,
Que te hei feito que punes-me assim?
Teo navio que tantos levava,
Não podia levar mais a mim?
VIII.
Mas a mim!—que importava que eu fosse?
Não me ouvira a tormenta chorar,
E morrer me seria mais doce
Junto a ti,—que o meo triste penar!
IX.
Junto a ti me era a vida bem cara,
Oh! bem cara!—se ledo sorrias,
Se pensavas sosinho e profundo,
Se agras dôres comtigo curtias;
X.
Eu te amava, senhor!—Nem podia
Dentro em mim, convencer-me que fosse
Outra vida melhor, nem mais doce,
Nem que o amor se acabasse algum dia!
XI.
Mas o mar tem lindezas que encantão,
Tem lindezas, que o nauta namora,
Tão bem dizem que vozes descantão
No silencio pacato desta hora!
XII.
São de nymphas os mares pejados,
Tão bem dizem, que sabem magia,
Que suscitão cruel calmaria,
Só d’em torno dos seos namorados!
XIII.
Alta noite, bem perto, apparece,
Como leiva juncada de flôres,
Ilha fertil em faceis amores,
Onde o nauta da vida se esquece!
XIV.
Não te esqueças de mim!—Por Sevilha
Quando o peito de branco marfim
Perceberes na preta mantilha,
Sombreado por leve carmim;
XV.
Quando vires passar a Andalusa
Pelos montes, com ar magestoso,
Decantando nas modas de que usa
As loucuras do Cid amoroso;
XVI.
Quando vires a molle Odalisca.
De belleza e de extremos fadada,
Respirando perfumes da Arabia,
Em sericos tapises deitada;
XVII.
Quando a vires co’a fronte bem cheia
De riquezas, de graças ornada,
Pelo andar do elefante embalada,
Que alta escolta de eunuchos rodeia;
XVIII.
Quando vires a Grega vagando
Pelas Ilhas de Cós ou Megára,
Em sua lingoa, tão doce, cantando
Seos amores que o Turco roubara;
XIX.
Quando a vires no Carro de Homero,
Bella e grave e sisuda lavrando,
Pelos montes melifluos do Hymeto
A parelha de bois aguilhando;
XX.
Não te esqueção meos duros pesares,
Não te esqueças por ellas de mim,
Não te esqueças de mim pelos mares,
Não me esqueças na terra por fim!
XXI.
Se eu fosse homem, tão bem desejára
Percorrer estes campos de prata,
E este mundo, na tua fragata,
Co’uma esteira cingir d’onda amara.
XXII.
Qu’ria ver a andorinha coitada
Nos meos mastros fugida poisar,
E achar no convez abrigada,
Quando o vento começa a reinar!
XXIII.
Ver o mar de toninhas coberto,
Ver milhares de peixes brincar,
Ver a vida nesse amplo deserto
Mais valente, mais forte pular!
Oh! que o homem fosse eu, mulher tu fosses,
Ou fosse tempestade ou calmaria,
Ou fosse mar ou terra, Hespanha ou Grecia,
Só de ti, só de ti me lembraria!
O mar suas ondas inconstante volve,
Sem que o seo curso o mesmo rumo leve,
Assim dos homens a paixão se move,
Fallaz e vária, assim no peito ferve!
Meditados enganos sempre encobre
O mesmo que ao principio ardente amava;
Oxalá não diga eu que me enganava,
Que teo peito julguei constante e nobre!
Oh! que o homem fosse eu, mulher tu fosses,
Ou fosse tempestade ou calmaria,
Ou fosse mar ou terra, Hespanha ou Grecia,
Só de ti, só de ti me lembraria!