CONSOLAÇÃO NAS LAGRIMAS.

Las lágrimas puras que entónces se vierten,

Acaso divierten

En vez de doler.

ZORRILLA.

Como é bello á meia noite

O azul do céo transparente,

Quando a esphera d’alva lua

Vagueia mui docemente,

Quando a terra não ruidosa

Toda se cala dormente,

Quando o mar tranquillo e brando

Na areia chora fremente!

Como é bello este silencio

Da terra todo harmonia,

Que aos céos a mente arrebata

Cheia de meiga poesia!

Como é bella a luz que brilha

Do mar na viva ardentia!

Este pranto como é doce

Que entorna a melancolia!

Esta aragem como é branda

Que enruga a face do mar,

Que na terra passa e morre

Sem nas folhas susurrar!

Os sons d’aereo instrumento

Quizera agora escutar,

Quizera magoas pungentes

Neste silencio olvidar!

O azul do céo, nem da lua

A doce luz reflectida,

Nem o mar beijando a praia,

Nem a terra adormecida,

Nem meigos sons, nem perfumes,

Nem a brisa mal sentida,

Nem quanto agrada e deleita,

Nem quanto embelleza a vida;

Nada é melhor que este pranto

Em silencio gotejado,

Meigo e doce, e pouco e pouco

Do coração despegado;

Não soro de fel, mas sancto

Frescor em peito chagado;

Não espremido entre dores,

Mas quasi em prazer coado!