DESESPERANÇA.
Antes d’espirar el dia,
Vi morir á mi esperanza.
ZARATE.
Que m’importa do mundo a inclemencia
E esta vida cruel, amargada?
Des’que os olhos abri á existencia
Um vislumbre de amor não achei!
Nem uma hora tranquilla e fadada,
Nem um gozo me foi lenitivo;
Mas no mundo maldicto, em que vivo,
Quantas ancias, meu Deos, não provei!
Já bastante lutei com meu fado!
Quando outr’ora corri descuidoso
Traz de um bem, não real, mas sonhado,
Transbordava de sonhos gentis:
Eu julgava que a um peito brioso
Ou que a uma alma, que facil s’inflamma
Por virtudes, por gloria, ou por fama,
Era facil aqui ser feliz.
Via o mundo ao travez dos meos prantos
A sorrir-se p’ra mim caroavel,
Reflectindo celestes encantos,
Que era visto d’um prysma ao travez:
Hoje trevas em manto palpavel
Me circundão,—nem já por acerto
Vejo triste nos prantos, que verto,
Luz do céo reflectida outra vez!
Que me resta na terra?—Estas flores,
Afagadas do sopro da brisa,
Disputando do sol os fulgores,
Balançadas no debil hastil!
Estas fontes de prata, que frisa
Brando vento,—estas nuvens brilhantes,
Estas selvas sem fim, susurrantes,
Estes céos do gigante Brasil;
Nada já me renova a esperança,
Que jaz morta, qual flôr resequida;
Só me resta a querida lembrança
Que o martyrio se acaba nos céos:
Foge pois, ô minha alma, da vida;
Foge, foge da vida mesquinha,
Leva timida esp’rança, caminha,
Té parar na presença de Deos!
Qu’estes gozos de ethereos prazeres,
Que esta fonte de luz que illumina,
Que estes vagos phantasmas de seres,
Que scismando só posso enxergar;
Que os amores de essencia divina,
Que eu concebo e procuro e não vejo,
Que este fundo e cançado desejo,
Deos somente t’os póde fartar.
Vai assim a medrosa donzella,
Pura e casta na ingenua belleza,
Buscar luz á remota capella,
Branca cera na pallida mão:
Tudo é sombra, silencio e tristeza!
Mas ao toque do fogo sagrado,
Arde em chammas o cirio apagado,
Já rutila brilhante clarão.