OS BEIJOS.

Amo uns suspiros quebrados

Sobre uns labios nacarados

A gemer, a soluçar;

Como a onda bonançosa,

Que n’uma praia arenosa

Vem tristemente expirar!

Amo ouvir uma voz pura,

Uns accentos de ternura,

Que trazem vida e calor;

Que se derramão a medo,

Como temendo o segredo

Revelar do occulto amor!

Amo a lagrima que chora

Tema virgem que descora,

Presa d’interna afflicção;

Amo um riso, um gesto vivo,

Um olhar honesto, esquivo,

Que alvoroça o coração.

Porêm mais que o olhar honesto,

Mais que o riso e brando gesto,

Mais do que o pranto a correr,

Mais que a voz, quando amor jura,

Que um suspiro de ternura,

Que vem aos labios morrer;

Amo o leve som de um beijo,

Quando rompe o véo do pejo,

Mal sentido a murmurar:

É viva flôr de esperança,

Que nos promette bonança,

Como a flôr do nenuphar.

Mente o olhar, mesmo em donzella,

Mente a voz que amor assella,

Mente o riso, mente a dôr;

Mente o cançado desejo;

Só não mente o som de um beijo,

Primicias de um longo amor!

Beijos que são? Duas vidas,

São duas almas unidas,

Que o mesmo fogo consume:

São laço estreito de amores;

Porque são os labios flores

De que os beijos são perfume!

Beijos que são?—Ai do peito,

Sello breve, laço estreito

D’um cançado bem querer;

Saibo dos gozos divinos,

Que nos labios femininos

Quiz Deos bondoso verter.

Já por feliz me tivera,

Triste de mim! se eu pudera

Dizer o que os beijos são:

Sei que inspirão luz e calma,

Sei que dão remanso á alma,

Que trazem fogo a paixão.

Sei que são flôr de esperança;

Que nos promettem bonança,

Como a flôr do nenuphar:

Quem fruio um ledo beijo,

Ter não póde outro desejo,

Nada já póde gozar.

Sei que delles não se esquece

Triste velho, que esmorece

Á mingoa de coração:

Viva estrella em noite escura,

Viva braza em cinza pura,

Em neve algente um vulcão.

Sei que fruil-os uma hora

De ventura seductora,

É subir em vida aos céos,

É fugir da vida escassa,

Roubar ao tempo que passa

Um dos momentos de Deos.

Sei que são flôr de esperança,

Que nos promettem bonança,

Como a flôr do nenuphar!

Quem os fruio, o que espera?

Já gozou, já não tem era,

Já não tem mais que esperar.