DIES IRAE.
Jaz o mundo corrupto!—a terra ingrata
Fructos de maldicção produz somente;
E em quanto os homens ao mercado affluem,
Vazio o templo do Senhor se enluta,
Empoeira-se o altar, e pelas naves,
Gretadas, rotas pela mão do tempo,
De canticos e preces deslembradas,
A voz de Deos já não rebôa immensa!
Tudo porêm conserva o mesmo aspecto:
O sol gyrando, e na apparencia o mesmo,
Do anno as quadras compassado alterna;
E os astros, seos irmãos, gravitão sempre
D’abobada celeste. A terra é a mesma;
As aguas pelos valles se deslisão,
Ou d’alpestres montanhas se despenhão
Co’os mesmos sons, co’a mesma queda: as brisas
Inda conversão nos soturnos bosques;
A mulher, a mais bella creatura,
Nas suas proprias perfeições compraz-se,
Como quando, no Eden, as pulchras formas
Pasmou de ver representadas n’agua,
E de as ver se ufanou. Inda conserva
O mesmo orgulho e intelligencia o homem,
O rei da creação, o deos creado,
De quando vinhão, por pedir-lhe os nomes,
Cetaceos, aves e os reptis e aquellas
Creaturas-montanhas, que passárão
Entre Adão e Noé á flor da terra!
Tudo o mesmo se mostra; mas a alma,
Esse mundo interior, esse outro templo,
Onde gravára o proprio Deos seo nome,
Como os templos de pedra, jaz sem lume,
Jaz como o predio a desfazer-se em ruinas,
Onde um guarda solicito não móra,
E entregue as aves más, que em chilros pregão,
Que alli na ausencia do senhor imperão.
Da divina bondade cheio o vaso
Já transborda de cholera e justiça
E o largo rio do perdão saudavel,
Que mais não corra, impece: Sanctas aguas
Por cuja causa os seculos já virão,
Sem justa punição, offensas graves;
Que o Senhor consentisse persistirem
Os máos no mal, á espera d’emmendal-os;
Que triumphasse a malvadeza; e o crime,
Vexando os bons, senhoreasse a terra.
Mas Deos, que fôra outrora pae clemente,
Dando começo ao reino da justiça,
Em austero juiz se ha convertido.
Como um carro, que vae d’encontro ao abysmo,
Perfaz o sol precipite o seo gyro,
Indo a tocar a temerosa méta
Prevista dos prophetas. Um archanjo
Com mão robusta inda retem os élos
Da cadeia do tempo, em quanto a outra
Da vida o livro volumoso sélla
Com sete bronzeos sellos. Deos offeso
Tira os olhos do mundo, e o mundo ha sido!
Quem podera pintar as discordancias
Em que labora a natureza! Crescem
Da terra igneos vapores, suffocando
O que respira, o que tem vida: os montes
Em crateras se rásgão, que vomitão
Fumo e lava incessante; o mar s’empola
E em furia ardendo, arroja aos altos cimos
Crusados vagalhões, qual se tentára
Sôvertel-os: os ventos se contrastão!
Novos prodigios, novos monstros surgem!
O mar se torna em sangue, o sol em fogo,
O Universo em mansão d’afflictas dores,
O homem soffre, blasphema e desespera,
E vendo os mundos desabar precipites,
Um grito sólta d’horroroso transe,
Como de náo, que em alto mar s’afunda
E rola os restos n’amplidão das aguas.
Satisfez-se o Senhor. Que resta?—O cháos,
O horror, a confusão, o vulto enorme
Do tempo, que escurece o fundo abysmo,
Onde por todo o sempre jaz captivo;
E da morte o cadaver gigantesco
Quasi occupando a superficie inteira
D’um mar de chumbo, escuro e sem rumores.
Da gloria do Senhor um raio apenas,
Lá dos confins do espaço despedido,
Fere da morte o rosto macilento
De tudo quanto foi, e quanto existe!