EPICEDIO.
Passa la bella donna e par che dorma.
TASSO.
Seo rosto pallido e bello
Já não tem vida nem côr!
Sobre elle a morte descança,
Involta em baço pallor.
Cerrárão-se olhos tão puros,
Que tinhão tanto fulgor;
Coração que tanto amava
Já hoje não sente amor;
Que o anjo bello da morte
A par desse anjo baixou!
Trocárão brandas palavras,
Que Deos sómente escutou.
Ventura, prazer, ledice
D’uma outra vida cantou;
E o anjo puro da terra
Prazer da terra engeitou.
Depois co’as azas candentes
O formoso anjo do céo
Roçou-lhe a face mimosa,
Cubrio-lhe o rosto co’um véo.
Depois o corpo engraçado
Deixou a terra sem vida,
De tenue pallor coberto,
—Verniz de estatua esquecida.
E bella assim, como um lirio
Murcho da sésta ao ardor,
Teve a innocencia dos anjos,
Tendo o viver d’uma flôr.
Foi breve!—mas a desgraça
A testa não lhe enrugou,
E aos pés do Deos que a creára
Alma inda virgem levou.
Sáe da larva a borboleta,
Sáe da rocha o diamante,
De um cadaver mudo e frio
Sáe uma alma radiante.
Não choremos essa morte,
Não choremos casos taes;
Quando a terra perde um justo,
Conta um anjo o céo de mais.