SOFFRIMENTO.

Meo Deos, Senhor meo Deos, o que ha no mundo

Que não seja soffrer?

O homem nasce, e vive um só instante,

E soffre até morrer!

A flôr ao menos, nesse breve espaço

Do seo doce viver,

Encanta os ares com celeste aroma,

Querida até morrer.

É breve o romper d’alva, mas ao menos

Traz comsigo prazer;

E o homem nasce e vive um só instante:

E soffre até morrer!

Meo peito de gemer já está cançado,

Meos olhos de chorar;

E eu soffro ainda, e já não posso alivio

Sequer no pranto achar!

Já farto de viver, em meia vida,

Quebrado pela dôr,

Meos annos hei passado, uns após outros,

Sem paz e sem amor.

O amor que eu tanto amava do imo peito,

Que nunca pude achar,

Que em balde procurei, na flôr, na planta,

No prado, e terra, e mar!

E agora o que sou eu?—Pallido espectro,

Que da campa fugiu;

Flôr ceifada em botão; imagem triste

De um ente que existio...

Não escutes, meo Deos, esta blasfemia;

Perdão, Senhor, perdão!

Minha alma sinto ainda,—sinto, escuto

Bater-me o coração.

Quando roja meo corpo sobre a terra,

Quando me afflige a dôr,

Minha alma aos céos se eleva, como o incenso,

Como o aroma da flôr.

E eu bemdigo o teo nome eterno e sancto,

Bemdigo a minha dôr,

Que vai além da terra aos céos infindos

Prender-me ao creador.

Bemdigo o nome teo, que uma outra vida

Me fez descortinar,

Uma outra vida, onde não ha só trevas,

E nem ha só penar.