FLÔR DE BELLEZA.
Não vejas!... se a vires...—Eu sei porque o digo:
Tu morres de amor.
MACEDO.
Se fosse rainha aquella
Em cuja fronte singela,
Como em tela delicada
Luz da belleza o condão,
Fôras rainha adorada;
Mas rainha seductora,
Que exige preitos n’uma hora
E n’outra hora adoração.
Fôras rainha! e ditosos
Teus vassallos extremosos,
Que a renderem-te seus preitos
Beijárão-te a nivea mão.
Pedes amor e respeitos!
Quem não ama a formosura,
Quem não respeita a candura
D’um sincero coração?
Mas antes que nos curvemos
Ante a belleza que vemos,
Tua angelica bondade
Conquista a nossa affeição:
Não es mulher, mas deidade,
Uma fada seductora,
Que nos pede amor agora,
Logo mais—adoração.
Quando pois, cheia de graças,
Entre a turba alegre passas,
Entre a turba sequiosa
De beijar-te a nivea mão;
Dizem uns: quanto é formosa!
Eu porêm, sei que es mais bella
Nos dotes da alma singela,
Nas prendas do coração.
Passa rapida a belleza,
Como flôr que a natureza
Cria em jardim melindroso,
Ou n’um agreste torrão:
Passa como um som queixoso,
Como felizes instantes,
Como as juras dos amantes,
Como extremos da paixão.
Mas d’alma a vida é mais fina,
Exhala essencia divina,
Que avigora e fortifica
O dorido coração;
Morto o corpo, ainda fica,
Como em rosal arrancado,
Leve aroma derramado,
Dos espaços na extensão.