O ANJO DA HARMONIA.

Respira tanta doçura

O teu canto, que por certo

Abranda a penha mais dura.

BOCAGE.

Revela tanto amor, tão branda sôa

A tua doce voz canora e pura,

Que o homem de a escutar sente no peito

Infiltrar-se-lhe um raio de ventura.

Solta-se a alma das prisões terrenas,

O mundo, a vida, o soffrimento esquece,

E embalada n’um ether deleitoso,

Como Alcyon nas aguas, adormece!

Da noite a placidez é menos grata

A quem sósinho e taciturno vela,

Quando, perdido n’outros mundos, nota

A meiga luz de fugitiva estrella.

Sensações menos doces, menos vagas,

Desperta o barco leve, que se avista

Ao pôr do sol, na extrema do horisonte,

Quando n’um mar de luz nos foge á vista.

Das aves o cantar é menos fresco,

É menos triste a fonte que serpeia,

Menos queixoso o mar, que enternecido,

Beija na praia a scintillante areia.

Vagas na terra, suspiroso archanjo,

Derramando torrentes de harmonia

Sobre as chagas mortaes,—balsamo sancto

Que as mais profundas magoas alivia.

Vagas na terra, merencoria e bella;

Mas quando deste mundo ao céo tornares,

Juntarás teus ternissimos accentos

Aos puros sons dos mysticos altares.

E os anjos na mansão das harmonias,

Encostados ás harpas diamantinas,

Folgarão de te ouvir celestes carmes

Deduzidos em notas peregrinas.

E dirão:—Nunca ás plagas do infinito

Subio mais terna voz, mais fresca e pura!

Se o corpo é de mulher, sua alma é vaso,

Onde o incenso de Deos se afina e apura.