NOTAS.

PRIMEIROS CANTOS. POESIAS AMERICANAS.

Tacápe ([pag. 4]), arma offensiva, especie de maça contundente, usada na guerra e nos sacrificios. A etymologia desta palavra indica que os Indios os endurecião ao fogo, como costumavão fazer aos seos arcos: Tatá-pe quer dizer «no fogo».


Boré ([pag. 5]), instrumento musico de guerra; dá apenas algumas notas, porêm mais asperas, e talvez mais fortes que as da Trompa.


Piaga ([pag. 6]), piagé, piaches, piayes; os autores portuguezes escreverão pagé, como em verdade ainda hoje se diz no Pará. Era ao mesmo tempo o sacerdote e o medico, o augure e cantor dos indigenas do Brazil. (Veja-se a nota correspondente nos Ultimos Cantos [pag. 419].)


Anhangá ([pag. 7]), genio do mal, o mesmo que Lery chama Aignan e Hans Staden Ingange.


Manitôs ([pag. 7]) uns como penates que os indios da America do norte veneravão. O seo desapparecimento augurava grandes calamidades ás tribus, de que elles houvessem desertado.


TABYRA.

«Tobajaras—o povo senhor.»

([Pag. 150].)

Ces Tobaïares qui réclamaient l’anteriorité dans la domination du pays, et qui se donnaient un titre équivalent à celui de seigneurs de la contrée. Ferdinand Denis.

«Tobajaras são os indios principaes do Brazil, e pretendem elles serem os primeiros povoadores e senhores da terra. O nome, que tomarão, o mostra; porque yara quer dizer senhores, tobá quer dizer rosto; e vem a dizer que são os senhores do rosto da terra, que elles tem pella fronteira do maritimo em comparação do sertão.»—Padre SIMAM DE VASCONCELLOS. Noticias do Brazil. L. 1. n. 156.

Escrevendo Tobajaras segui, por ser mais euphonico, a ortographia do Padre Vasconcellos. Convem todavia confessar que se não deveria dizer Tobajaras, como este Chronista, mas Tabajaras ou Tabaiaras, com Ferdinand Denis, o que mais se conforma com a etymologia, «Taba e Iara ou Yara.» Tabajaras é litteralmente como se dissessemos, os senhores ou dominadores das Aldeias.

Por isso mesmo que os Tobajaras occupavão o littoral, é de suppor que elles fossem antes os conquistadores, que os primeiros povoadores do paiz. Os conquistadores, como homens que erão, carentes das mais simples noções da agricultura, deverião de preferencia escolher as praias como mais mimosas da natureza e mais fartas, recalcando assim para o centro das matas os incolas primitivos do paiz. É isto o que sabemos da historia de todos os povos barbaros. Os Tobajaras portanto dominárão pela conquista e quadra-lhes optimamente o nome que tomárão de senhores das aldeias—de Tabajaras.

«Potiguares lá vem denodados.»

([Pag. 152].)

Dizem uns Potiguares ou Petiguares, outros Pitigoares. Delles escreve o Padre Vasconcellos:

«Em segundo logar (depois dos Tobajaras) os Potiguares forão sempre indios de valor, e se fizerão estimar pelas armas, que por longos annos moverão contra os Tobajaras: nas quaes tiverão encontros dignos de historia; porêm não me posso deter em contallos,... punhão em campo vinte até trinta mil arcos.»—Not. do Brazil. L. 1. n. 157.


SEXTILHAS DE FREI ANTÃO.

([Pag. 196].)

Os vocabulos que emprego nestas sextilhas se achão todos no Diccionario de Moraes, bem que as mais das vezes no sentido antiquado. É assim que uso de «porêm, porende» em vez de «por isso»; de «perol» em vez de «porêm»; de «ora, embora» em vez de «agora, em boa hora» etc.


GULNARE E MUSTAPHÁ.

Diz a Princeza D. Joanna ([pag. 221]):

«Qu’eu tenha escravos, e mouros,

Rainha de Portugal.»

A Chronica de Cister tão bem diz, fallando da Princeza D. Thereza, filha de Sancho I.:

«Viuendo a santa raynha, foy Deos servido levar para si a el-Rey seu pay, a quem succedeo no reyno dom Afonso o segundo do nome.»

«Raynha (diz Fr. Luiz de Sousa) lhe chamão as historias antigas, que era o titulo com que então se tratavam as filhas dos reys.»—H. de S. D.—L. 1. C. 11.


ULTIMOS CANTOS.

O GIGANTE DE PEDRA.

([Pag. 275].)

Alguns dos principaes montes da enseada do Rio de Janeiro parecem aos que vem do Norte ou do Sul representar uma figura humana de colossal grandeza: este capricho da natureza foi conhecido dos primeiros navegantes portugueses com a denominação de «frade de pedra», que agora se chama «o gigante de pedra.»—Áquelle objecto se fez esta poesia.


...... extincta a antiga crença

Dos Tamoyos, dos Pagés.

([Pag. 278].)

Tamoyos erão os primeiros habitantes do Rio.—Pagés erão os sacerdotes, os augures, os medicos dos indigenas de todo o litoral do Brazil—os mesmos a que nos «Primeiros Cantos» dei o nome de piagas. Eis o que n’aquella obra escrevi a este respeito ([pag. 417]).—«Piagé—Piache—Piaye ou Piaga, que mais se conforma á nossa pronuncia, era ao mesmo tempo o sacerdote e o medico, o augure e o cantor dos indigenas do Brazil e de outras partes da America.» E em outra nota accrescentei: «Erão anachoretas austeros, que habitavão cavernas hediondas, nas quaes, sob pena de morte, não penetravão profanos. Vivendo rigida e sobriamente, depois de um longo e terrivel noviciato, ainda mais rigido que a sua vida, erão elles um objecto de culto e de respeito para todos;—erão os dominadores dos chefes—a balisa formidavel, que felizmente se erguia entre o conhecido e o desconhecido—entre a tão exigua sciencia d’aquelles homens, e a tão desejada revelação dos espiritos.»—Hans Staden escreve Paygi; Payé lê-se em uma das obras do Padre Vasconcellos, nome que tambem lhes dá Laet na sua «Descripção das Indias occidentaes.» Lery e Damião de Goes escrevem Pagé, orthographia que agora adoptamos.


Sons do murmuré.

([Pag. 278].)

Murémuré escreve o padre Vasconcellos nas suas «Noticias Curiosas»: collige-se que é um instrumento feito de ossos de defuntos, como alguns outros, de que se servião.


Em Guanabara esplendida.

([Pag. 278].)

Guanabara—a enseada do Rio de Janeiro.—Escreve-se indifferentemente Genabara ou Ganabara. Lery diz na sua obra «Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil» en ceste riviere de Ganabara. Southey (History of Brasil) accrescenta em uma nota, que Nicolau Barré datava desta maneira as suas cartas: Ad flumen Genabara in Brasilia etc.


O guáu cadente e vário.

([Pag. 278].)

Guáu—dansa. «São mui dados a saltar e dansar de differentes modos, a que chamão guau em geral.»—VASCONCELLOS. Noticias Curiosas L. 1.—n. 143.


E das ygaras concavas.

([Pag. 278].)

Ygaras—erão canoas, feitas de ordinario de um só toro de madeira.


Os cantos da janubia.

([Pag. 279].)

Janubia.—Lery escreve diversamente: des cornets, qu’ils nomment inubia de la grosseur et longueur d’une demie pique, mais par le bout d’embas larges d’environ un demi pied comme un hautbois.—Obra cit. pag. 202.


LEITO DE FOLHAS VERDES.

A arasoya na cinta me apertarão.

([Pag. 281].)

Arasoya era o fraldão de pennas, moda entre elles. Laet chama assoyave a uns mantos inteiros: não sei de que mantos quer o author fallar. Hans Staden (collecção de Ternaux pag. 108) dá o mesmo nome a uma especie de cocar preso ao pescoço, e passando além da cabeça, com quanto a este ornato Lery dê o nome de Yenpenamby. Quanto a arasoya, eis o que se lê na obra já citada deste author (pag. 103): Pour la fin de leurs esquippages, recouvrans de leurs voisins de grandes plumes d’austruches, de couleurs grises, accommodans tous les tuyaux serrez d’un costé, et le reste qui s’esparpille en rond en façon d’un petit pavillon ou d’une rose, ils en font un grand pennache, qu’ils appellent araroye: le quel estant lié sur leurs reins avec une corde de cotton, l’estroit devers la chair, et le large en dehors, quand ils en sont enharnachez etc.


Y-JUCA-PYRAMA.

([Pag. 281].)

O titulo desta poesia, traduzido litteralmente da lingua tupi, vale tanto como se em portuguez dissessemos «o que ha de ser morto, e que é digno de ser morto.»


No meio das tabas.

([Pag. 281].)

Taba—aldeia de indios, composta de differentes habitações, a que chamavão ocas. Quando estas habitações se achavão isoladas, ou fossem levantadas para o abrigo de uma ou já para o de muitas familias, tomavão o nome de Tejupab ou Tejupabas.


São todos Tymbiras.

([Pag. 281].)

Tymbiras—tapuyas, que habitão o interior da provincia do Maranhão.


As armas quebrando.

([Pag. 282].)

Por este acto declaravão firmadas as pazes. Vieira faz menção desta solemnidade quando, em uma informação ao monarcha portuguez, se occupa da alliança feita entre os missionarios por parte dos portugueses e dos Nhe-engaybas de Marajó.


Assola-se o tecto.

([Pag. 282].)

A descripção das cerimonias, com que elles usavão matar os seus prisioneiros de guerra, é rigorosamente exacta, ainda que não adoptamos dos authores senão aquillo em que todos ou a maior parte concordão. Veja-se Hans Staden—cap. 28—dos usos e costumes dos Tupinambás.—Noticia do Brazil, cap. 171 e 172. Noticias Curiosas L. 1. n. 188 e Lery cap. XV.


Entesa-se a corda da embira...

([Pag. 282].)

Chamava-se mussurana a corda com que se atava o prisioneiro.—«Et une longue corde nommée massarana, avec laquelle ils les attachent (les captifs) quand ils doivent être assomés.» (H. Staden, pag. 300.) Musurana escreve Ferdinand Denis, accrescentando que era feita de algodão. É possivel que em algumas tribus fosse feita desta materia, mas convem notar que na maior parte dellas era uso fabricarem-se cordas de embira.


Adorna-se a maça com pennas gentis.

([Pag. 282].)

A maça do sacrificio não era o mesmo que a ordinaria, e tinha mais a differença dos ornatos que se lhe juntava, e do esmero com que era trabalhada. Lavravão e pintavão todo o punho—embagadura, como o chamavão—com desenhos e relevos a seu modo curiosos, e della deixavão pendente uma borla de pennas delicadas e de cores differentes, sendo a folha ornada de mosaicos.—«Pintão (diz H. Staden, pag. 301) a massa do sacrificio, a que chamão iverapeme, com a qual deve ser sacrificado o prisioneiro: passão-lhe por cima uma materia viscosa, e tomando depois a casca dos ovos de um passaro chamado Mackukawa de côr parda escura, reduzem-n’as a pó, e com elle salpicão toda a massa. Preparada a iverapeme, e adornada de pennas, suspendem-n’a em uma cabana inhabitada, e cantão em redor della toda a noite.»—Ferdinand Denis, accrescentando-lhe o artigo francez, escreve Liverapeme, que diz ser feita de páo-ferro e com mosaicos de diferentes cores. Vasconcellos dá-lhe o nome de Tangapema, que é o termo do diccionario braziliano.


Brilhante enduápe no corpo lhe cingem.

([Pag. 282].)

Enduápe—fraldão de pennas de que se servião os guerreiros: damos a denominação de arasoya a aquelles de que usavão as mulheres. «Ils font avec de plumes d’autruches une espèce d’ornement de forme ronde, qu’ils attachent au bas du dos, quand ils vont à quelque grande fête: ils le nomment enduap.» H. Staden. Pag. 270. Vasconcellos trata do enduápe sem lhe dar nome algum especial. «Pela cintura apertão uma larga zona: desta pende até os joelhos um largo fraldão a modo tragico, e de tão grande roda como é a de um ordinario chapeo de sol.» Noticias Curiosas L. 1. n. 129.


Sombreia-lhe a fronte gentil kanitar.

([Pag. 282].)

Kanitar—é o nome do pennacho ou cocar, de que usavão os guerreiros de raça tupi, quando em marcha para a guerra, ou se aprestavão para alguma solemnidade, d’importancia igual a esta. «Ils ont aussi l’habitude de s’attacher sur la tête un bouquet de plumes rouges qu’ils nomment Kanittare» (H. Staden).—Usão de umas corôas a que chamão acanggetar (Laet). Os primeiros portuguezes escreverão acangatar, que litteralmente quer dizer «enfeite ou ornato da cabeça».


MARABÁ.

([Pag. 296].)

Encontramos na «Chronica da Companhia» um trecho que explica a significação desta palavra, e a idéa desta breve composição.

«Tinha certa velha enterrado vivo um menino, filho de sua nora, no mesmo ponto em que o parira, por ser filho a que chamão «marabá» que quer dizer de mistura (aborrecivel entre esta gente).» VASCONCELLOS, Ch. da Comp., L. 3. n. 27.


Formosos como um beija-flor.

([Pag. 297].)

Os indigenas chamavão ao beija-flor «Coaracy-aba» «raios», ou mais litteralmente «cabellos do sol».


A MÃE D’AGUA.

([Pag. 302].)

A mãe d’agua é uma naiada moderna, um espirito que habita no fundo dos rios. Acredita-se em muitas partes do Brazil que é uma mulher formosa com longos cabellos de oiro, que lhe servem como de vestido, com olhos que exercem inexplicavel fascinação, e voz tão harmoniosa que ninguem, que a escute, resiste á tentação de se atirar as aguas para que mais de perto a ouça e contemple. O mesmo que as serêas, tem sobre ellas a vantagem de serem creaturas de formas perfeitas, e dellas se distinguem em fascinarem tanto com o brilho da formosura, como com a doçura da voz, e de attrahirem principalmente os meninos.


RETRACTAÇÃO.

([Pag. 366].)

Indisculpavel descuido seria, deixar de mencionar o nome do Sr. D. Carlos Guido, a quem devo ter composto a poesia que tem por titulo «Retractação». Foi este o ensejo. Poucos dias depois de publicados os «Segundos Cantos», recebi uma carta do Sr. Guido: era uma critica, mas critica benevola, cheia de enthusiasmo, escripta sem pretenção alguma e ao correr da pena. Agradou-me, porque me agrada sempre conversar com os meus amigos, e era um amigo que me escrevia, um poeta talentoso, que então pela primeira vez se me revelava como tal,—joven enthusiasta, e cujo coração é como uma pedra de toque da mais exquisita sensibilidade.

Tendo percorrido com a sua analyse algumas das composições do meu 2. volume, accrescentava elle:

«Dir-se-hia que a sua palinodia é um chuveiro de pedras crystallisadas, agradaveis de se vêr, porque são prysmas, que reflectem as mais pronunciadas, fortes e soberbas cores; porêm que devião converter-se em instrumentos terriveis de vingança, quando chegassem até a mesquinha mulher, a quem fossem dirigidos, como um anathema fulminante.

«Se eu não tivesse tanta confiança nos instinctos do coração, que o levão a exhalar o seu amor só onde acha fogo, fidelidade e caricias, pensaria talvez que aquella mulher existe, e então eu faria ao poeta amargas reflexões sobre a crueldade, de que usou para com ella.»

Aceitei a censura, e dirigindo-me ao Sr. Guido escrevi a Retractação, versos filhos d’aquelle momento, e inspirados pela leitura recente da sua carta. Se algum apreço delles faço na actualidade, é por ter feito vibrar a lyra doirada do poeta argentino. Consuelo foi o titulo que deu aos seus versos, e era effectivamente um canto de consolação e de esperança: perdi ha muito o authographo dos versos do Sr. Guido; mas o sentido, a suavidade, a sentida sympathia do seu canto, esses me ficarão no coração.—Consolações e esperanças!—Doces são, por certo, as lagrimas, que sobre nós derramão os olhos de um amigo, ainda que não acreditemos no raio de esperança, que elle s’esforça por entranhar em nossa alma. Efficazes forão as suas consolações; mas ainda mal que os seus votos não tenhão de ser realizados nunca!