SAUDADES.
A MINHA IRMÃ.
J. A. de M.
I.
Eras criança ainda; mas teu rosto
De ver-me ao lado teu se espanejava
Á luz fugaz de um infantil sorriso!
Eras criança ainda; mas teus olhos
De uma brandura angelica, indizivel,
De sympathicas lagrimas turbavão-se
Ao ver-me o aspecto merencorio e triste;
E amigo refrigerio me sopravão,
Um balsamo divino sobre as chagas
Do coração, que a dôr me espedaçava!
A luz de uma razão que desabrocha,
As leves graças, que a innocencia adornão,
Os infantis requebros, as meiguices
De uma alma ingenua e pura—em ti brilhavão.
Eu, gasto pela dôr antes de tempo,
Conhecendo por ti o que era a infancia,
Remoçava de ver teu rosto bello.
Pouco era vel-o!—em ti me transformava;
Bebendo a tua vida em longos tragos,
Todo o teu ser em mim se transfundia:
Meu era o teu viver, sem que o soubesses,
Tua innocencia, tuas graças minhas:
Não, não era ditoso em taes momentos,
Mas de que era infeliz me deslembrava!
Tinhas sobre mim poder immenso,
Indizivel condão, e o não sabias!
Assim da tarde a brisa corre a terra,
Embalsamando o ar e o céo de aromas:
Enreda-se entre flores suspirosa,
Geme entre as flores que o luar prateia,
E não sabe, e não vê, quantos queixumes
Apaga—quantas magoas alivia!
Assim, durante a noite, o passarinho
Em moita de jasmins derrama occulto
Merencorias canções nos mansos ares;
E não sabe, o feliz, de quantos olhos
Tristes, mas doces lagrimas, arranca!
II.
Perderão-te os meus olhos um momento!
E na volta o meu rosto transtornado,
As vestes luctuosas, que eu trajava,
O mudo, amargo pranto que eu vertia,
Annuncio triste foi de uma desdita,
Qual jámais sentirás: teus tenros annos
Pouparão-te essa dôr, que não tem nome.
De quando sobre as bordas de um sepulchro
Anceia um filho, e nas feições queridas
D’um pai, d’um conselheiro, d’um amigo
O sello eterno vae gravando a morte!
Escutei suas ultimas palavras,
Repassado de dôr!—junto ao seu leito,
De joelhos, em lagrimas banhado,
Recebi os seus ultimos suspiros.
E a luz funerea e triste que lançarão
Seus olhos turvos ao partir da vida
De pallido clarão cobrio meu rosto,
No meu amargo pranto reflectindo
O cançado porvir que me aguardava!
Tu nada viste, não; mas só de ver-me,
Flôr que sorrias ao nascer da aurora
No denso musgo dos teus verdes annos,
A procella imminente presentiste,
Curvaste o leve hastil, e sobre a terra
Da noite o puro aljofar derramaste.
III.
O encanto se quebrára!—duros fados
Inda outra vez de ti me separavão.
Assim dois ramos verdes juntos crescem
N’um mesmo tronco; mas se o raio os toca,
Lascado o mais robusto cahe sem graça
De rojo sobre o chão, em quanto o outro
Da primavera as galas pavoneia!
Já não ha quem de novo unil-os possa,
Quem os force a vingar e a florir juntos!
Parti, dizendo adeus á minha infancia,
Aos sitios que eu amei, aos rostos caros,
Que eu já no berço conheci,—áquelles
De quem máo grado, a ausencia, o tempo, a morte
E a incerteza cruel do meu destino,
Não me posso lembrar sem ter saudades,
Sem que aos meus olhos lagrimas despontem.
Parti! sulquei as vagas do oceano;
Nas horas melancolicas da tarde,
Volvendo atraz o coração e o rosto,
Onde o sol, onde a esp’rança me ficava,
Misturei meus tristissimos gemidos
Aos sibilos dos ventos nas enxarcias!
Revolvido e cavado o negro abysmo,
Rugia indomito a meus pés: sorvia
No fragor da procella os meus soluços.
Vago triste e sosinho sobre os mares,
—Dizia eu entre mim,—na companhia
De crestados, de rispidos marujos,
Mais duros que o seu concavo madeiro!
Ave educada nas floridas selvas,
Vim da praia beijar a fina areia.
Subitaneo tufão arrebatou-me,
Perdi a verde relva, o brando ninho,
Nem jamais casarei doces gorgeios
Ao saudoso rugir dos meus palmares;
Porêm a branca angelica mimosa,
Com seu candor enamorando as aguas,
Florece ás margens do meu patrio rio.
IV.
Largo espaço de terras estrangeiras
E de climas inhospitos e duros
Interpoz-se entre nós!—Ao ver nublado
Um céo d’inverno e as arvores sem folhas,
De neve as altas serras branqueadas,
E entre esta natureza fria e morta
A espaços derramadas pelos valles
Triste oliveira, ou funebre cypreste,
O coração se me apertou no peito.
Arrasados de lagrimas os olhos,
Segui no pensamento as andorinhas,
Nos invejados vôos!—procuravão,
Como eu tambem nos sonhos que mentião,
A terra que um sol calido vigora,
E em frouxa languidez estende os nervos.
Patria da luz, das flores!—nunca eu veja
O sol, que adoro tanto, ir afundar-se
Nestes da Europa revoltosos mares;
Nem tibia lua, involta em nuvens densas,
Luzindo mortuaria sobre os campos
De frios sues queimados.—Ai! dizia,
Ai d’aquelle que um fado aventureiro,
Qual destroço de misero naufragio,
A longinqua e remota plaga arroja!
Ai d’aquelle que em terras estrangeiras
Corta nas azas do desejo o espaço,
Em quanto a realidade o vexa entorno
E oppresso o coração de dôr estala!
Onde a pedra, onde o seio em que descance?
Que arbusto ha de prestar-lhe grata sombra
E olentes flores derramar co’a brisa
Na fronte encandecida? Peregrino,
Em toda a parte forasteiro o chamão!
Insensivel a dôr, na sua marcha,
Não, não attende ao termo da jornada;
Mas volta atraz o rosto,—e entre as sombras
Confusas do horisonte—encherga apenas
O debil fio da esperança teso,
E da ingrata distancia adelgaçado!
E todavia amei! pude um momento
Vêr perto a doce imagem debruçada
Nas aguas do Mondego,—ouvir-lhe um terno
Suspiro do imo peito, mais ameno,
Mais saudoso que as auras encantadas,
Que entre os seus salgueiraes morão loquaces!
Foi um momento só!—talvez agora
Nas mesmas aguas se repete imagem
Dos meus sonhos de então!—talvez a brisa,
Nas folhas dos salgueiros murmurando,
Meu nome junto ao seu repete aos echos,
Que eu, triste e longe della, escuto ainda!
Sim, amei; fosse embora um só momento!
Meu sangue, requeimado ao sol dos tropicos,
Em vivas labaredas conflagrou-se.
Feliz n’aquelle incendio ardeo minha alma,
Um anno, talvez mais! Qual foi primeiro
A soltar, a romper tão doces laços
Não podera dizel-o, em que o quizesse.
Tão louco estava então,—dores tão cruas,
Magoas tantas depois me acabrunharão,
Que desse meu passado extincta a idéa,
Deixou-me apenas um soffrer confuso,
Como quem de um máo sonho se recorda!
Assim, depois de arder um denso bosque
Dos ventos a mercê revôa a cinza
N’um paramo deserto! Nada resta;
Nem se quer a vereda solitaria,
A cuja extremidade o amor velava!
V.
Rotos na infancia os laços de familia,
Os fados me vedavão reatal-os,
Ter a meu lado uma consorte amada,
Rever-me na affeição dos filhos caros,
Viver nelles, curar do seu futuro
E neste empenho consumir meus dias;
Mas ao menos, pensava,—ser-me-ha dado
Amimar e suster nos meus joelhos
Da minha irmã querida a tenra prole,
Inclinal-a a piedade, e ao relatar-lhe
Os successos da minha vida errante,
Innocular-lhe o dom fatal das lagrimas!
Essa mesma esperança não me illude;
Ave educada nas floridas selvas,
Um tufão me expellio do patrio ninho.
As tardes dos meus dias borrascosos
Não terei de passar, sentado á porta
Do abrigo de meus paes,—nem longe delle,
Verei tranquillo aproximar-se o inverno,
E pôr do sol dos meus cançados annos!