O COMETA.

AO SR. FRANCISCO SUTERO DOS REIS.

Non est potestas, quae comparetur ei
qui factus est ut nullum timeret.

JOB.

Eis nos céos rutilando igneo cometa!

A immensa cabelleira o espaço alastra,

E o nucleo, como um sol tingido em sangue,

Alvacento luzir vérte agoireiro

Sobre a pavida terra.

Poderosos do mundo, grandes, povo,

Dos labios removei a taça ingente,

Que em vossas festas gyra; eis que rutila

O sanguineo cometa em céos infindos!...

Pobres mortaes,—sois vermes!

O Senhor o formou terrivel, grande;

Como indocil corsel que morde o freio,

Retinha-o só a mão do Omnipotente.

Alfim lhe disse:—Vai, Senhor dos Mundos,

Senhor do espaço infindo.

E qual louco temido, ardendo em furia,

Que ao vento solta a coma desgrenhada,

E vai, nescio de si, livre de ferros,

De encontro ás duras rochas,—tal progrede

O cometa incansavel.

Se na marcha veloz encontra um mundo,

O mundo em mil pedaços se converte;

Mil centelhas de luz brilhão no espaço

A esmo, como um tronco pelas vagas

Infrenes combatido.

Se junto d’outro mundo acaso passa,

Comsigo o arrastra e leva transformado;

A cauda portentosa o enlaça e prende,

E a astro vai com elle, como argueiro

Em turbilhão levado.

Como Leviathan perturba os mares,

Elle perturba o espaço;—como a lava,

Elle marcha incessante e sempre;—eterno,

Marcou-lhe largo gyro a lei que o rege,

—As vezes o infinito.

Elle carece então da eternidade!

E aos homens diz—e magestoso e grande

Que jamais o verão; e passa, e longe

Se entranha em céos sem fim, como se perde

Um barco no horisonte!