QUANDO NAS HORAS.
And dost thou ask, what secret woe
I bear, corroding joy and youth?
And wilt thou vainly seek to know
A pang e’en thou must fail to soothe?
BYRON.
I.
Quando nas horas que comtigo passo,
Do amor mais casto, do mais doce enlevo.
Sentindo um raio d’esperança amiga,
Que as densas trevas da minha alma aclara;
Teus meigos olhos sobre os meus se fitão.
Sorvo o perfume que tua alma exhala,
Gozo o sorriso que os teus labios vertem
E as doces notas que o prazer m’entranhão:
Tu me perguntas por que um riso amargo,
Funebre e triste me descora os labios;
Por que uma nuvem de pezares gravida
Tolda o meu rosto;
Por que um suspiro de abafada angustia,
Um ai do peito, que exhalar não ouso,
O meigo encanto dos teus sonhos quebra
N’um breve instante!
Raio de amor, que sobre mim resplendes,
Ou sol que bates n’um profundo abysmo,
E a verde-negra superficie tinges
De côr chumbada com reflexos d’oiro;
Se vês luzente a superficie amiga,
E á luz que espalhas aclarar-se o abysmo,
Sol bemfazejo, que te importão fezes,
Se lá no fundo adormecidas jazem?
Talvez se as viras, encobrindo os olhos,
De horror fugindo ao temeroso aspecto,
Os brandos lumes, d’onde amor distillas
Breve apagáras.
Não me perguntes por que soffro triste,
Por que da morte o negro espectro invoco,
Por que, cansado desta vida, almejo
A paz dos tumulos.
Nem ver procures a cratera hiante
Do peito meu, qu’inda fumega em cinzas,
Do peito meu, onde crueis travárão
Pleitos, não crimes, mas paixões que abrasão.
Dá que nas horas que comtigo passo
Do amor mais casto e do mais doce enlevo,
Durma o passado e do porvir m’esqueça,
E o meu presente de te amar se ameigue.
II.
Se algum suspiro de abafada angustia,
Se um ai do peito que exhalar não ouso,
O meigo encanto dos teus sonhos quebra;
Tu me perdôa.
Cansado e triste de viver soffrendo,
Da morte amiga o negro espectro invoco,
Affiz-me as dores, e só torva ideia
Me apraz agora.
Talvez na pedra d’um sepulchro frio
Melhor folgára de me ver deitado,
Sentir nos olhos estancado o pranto
E amodorrado o padecer no peito.
Talvez folgára minha sombra triste,
Vagando em tomo d’uma campa lisa,
De ver-te as formas, de contar teus passos,
E de escutar tua oração piedosa.
Talvez folgára, quando pranto amargo
Dos olhos teus me rorejasse a campa,
Dos meigos labios, onde amor temperas,
Meu nome ouvindo!
Oh! sim, folgára de sentir a brisa,
Correndo em tomo ao moimento meu,
E tu sósinha no sepulchro humilde,
Guardando os tristes deslembrados ossos!
Junto ao meu corpo guardarei teu leito,
Onde os teus restos junto aos meus descancem;
E o mesmo sol, e a mesma lua e brisa
Juntos nos vejão.
E quando o anjo espedaçar as campas
Ao som da trompa de fragor horrendo,
Que ha de o lethargo despertar dos mortos
Na vida eterna;
Primeiro em ti se fitarão meus olhos:
Hei de alegrar-me de te ver commigo,
E as nossas almas subirão reunidas
Á eterna face do juiz superno.
E deste amor, por que ambos nós passamos,
O galardão lhe pediremos ambos,
Viver unidos na mansão dos justos,
Ou nos tormentos da eternal gehenna!
III.
No em tanto a vida soportar já devo,
Soffrer o peso da existencia ingloria,
E revolvendo o coração chagado,
Nos seus estragos numerar meus dias.
Na terra existo, como um som queixoso,
Um echo surdo, que entre as fragas dorme,
Ou como a fonte, que entre as pedras corre,
Ou como a folha sob os pés calcada.
Uma alma em pena, que procura os restos
Não sepultados,—uma flôr que murcha,
D’uma harpa a corda, que por fim rebenta,
Ou luz que morre.
Prazer não acho de avistar lua
Pallida e bella na soidão do espaço;
Nem vivos astros, nem perfumes gratos
Me dão consolo.
Nada percebo nos confusos roncos
Do mar, que bate as solitarias praias;
Nem nos gemidos da frondosa selva,
Que o sopro amigo de uma aragem move.
Conviva infausto d’um festim, que odeio,
Ás proprias galas que vaidosa ostenta
A natureza—não se ri minha alma,
Nem de as notar meu coração se alegra.
E sinto o mesmo que sentira o frio,
Mudo cadaver dos festins do Egypto,
Se ver pudesse, contemplando o nada
Das vãs grandezas.
Mas já que os olhos sobre mim pousaste,
Teus meigos olhos, donde o amor lampeja;
Pois que os teus labios para mim se abrirão,
Teus meigos labios;
Já que o perfume da tua alma d’anjo
Embalsamou-me o coração de aromas;
Já que os prazeres da eternal morada
De longe, em sonhos, antevi comtigo:
Já posso a vida supportar, já devo
Sofrer o peso da existencia inutil;
Já do passado e do porvir me esqueço,
E o meu presente de te amar se ameiga.