A LENDA DOS CYSNES
Da praia longinqua, na areia doirada,
O Cysne pensava, fitando a Alvorada:
—«Que immensa ventura, na minha mudez,
Se dado me fôsse cantar uma vez!»
—«Meu canto seria, na luz do arrebol,
Dos hymnos mais altos á gloria do Sol…»
Não é das gaivotas e gansos do lago
O canto que em sonhos ardentes afago;
É quando nos bosques as aves escuto
Que a inveja confrange minh'alma de luto.
Se a Aurora se lança do cume dos montes,
Até d'alegria murmuram as fontes;
Só eu, passeando o meu tedio supremo,
Nem rio, nem choro, nem canto, nem gemo.
Oh Sol, que já vejo surgindo do Mar,
Tem dó de quem, mudo, não pode cantar!»—
E o Cysne, em silencio, chorava, escutando
A orchestra das aves que passam em bando.
Das aguas rompia a quadriga d'Apollo,
E o pobre a cabeça escondia no collo…
Mas Phebo detem-se nas nuvens ao vê-lo,
Com feixes de raios no fulvo cabello,
E diz-lhe, sorrindo, n'um halo de fogo:
—«No Olympo sagrado ouviu-se o teu rogo…»—
E nesse momento a Lyra Sem Par,
Da mão luminosa deixou resvalar…
O Cysne, orgulhoso da graça divina,
Da Lyra d'Apollo as cordas afina,
E rompe cantando… Calaram-se as fontes,
Calaram-se as aves… As urzes dos montes
Tremiam de goso a ouvi-lo cantar…
E o vento sonhava na espuma do Mar.
O Cysne cantava, tirando da Lyra
Um hymno que nunca na terra se ouvira;
Não pára, nem sente, na sua emoção,
Que a vida lhe foge naquella canção.
Mas quando, entre nuvens, a tarde cahia
No enlevo do canto que a essa hora gemia,
E Apollo no seio de Thetis desceu,
O pobre do Cysne, cantando, morreu…
Gemeram as aves; choraram as fontes;
Torceu-se nas hastes a giesta dos montes,
E o mar soluçava na tarde sombria,
Que o manto de luto com astros tecia.
Sollicita espera-o, das aguas á beira,
Do Cysne, já morto, fiel companheira;
Espera que o Esposo de prompto regresse,
Mas treme e suspira, que a Noite já desce…
As aguas luzentes parecem-lhe, ao vê-las,
Um panno d'enterro picado d'estrellas.
Então, no seu luto, sentindo que morre,
Oceanos e praias distantes percorre;
Mergulha nas aguas, colleia nas ondas,
Espreita as galeras de velas redondas,
Que ao longe parece que vão a voar…
E o Cysne não volta, não pode voltar!
Chorosa viuva, nas aguas deslisa,
Levada na fresca salsugem da brisa…
No seu abondono nem sente canseira;
Caminha, caminha, fiel companheira,
Chorando o perdido, desfeito casal…
Tão funda era a mágoa, tão grande o seu mal,
Que o peito sentindo de dor estalar,
—De dor e d'angustia começa a cantar!
E canta com tanta ternura e paixão,
Que a Vida lhe foge naquella canção.
As aves despertam; calaram-se as fontes;
Nas hastes tremiam as urzes dos montes;
A Lua escutava; detinha-se a Aurora,
E as vagas gemiam no vento que chora…
Na terra, no espaço, nos astros, no ceu,
Mais alta harmonia ninguem concebeu;
E os Deuses recebem, ouvindo-a, a chorar,
A alma do Cysne que expira a cantar…
Desde esse momento, no Olympo onde entraram,
Em honra dos Cysnes que tanto se amaram,
Das almas que foram leaes e sinceras,
Se Venus se mostra, surgindo da bruma,
São elles que tiram, nas altas espheras,
A concha de nácar, cercada de espuma…