16
Ha vinte annos já, que andas na Terra,
Ha vinte dias só, que te conheço!
Eu andava perdido pela serra,
E o que eu era então, já não pareço.
Ha vinte dias só que te conheço,
Ó meu beijo de Luz! minha Chymera!
És a Graça de Deus (com qu'estremeço)
Talvez, o que no mundo, inda me espera.
Sonho da minh'alma! Ó meu ceu d'estio!
Pois não tens piedade d'este frio
Que sinto em mim, na minha solidão!
Minha bençam de Christo, promettida,
Não serás tu a Paz da minha vida?
Oh! não me digas não, que és Illuzão!
Quinta Almeida. Funchal, abril, 1898.
17
Riquinha
Soffrer callada as suas proprias dôres
E chorar como suas as dos mais,
Tal a Rainha do seu nome, em flôres
Transforma pedras e em sorrisos ais.
A toda a parte leva o sol e amores,
É a Saude dos Enfermos nos Cazaes;
E, no mar-alto, os velhos pescadores
Invocam-n'a entre espuma e temporaes!
Quem será ella, tão piedoza e dôce!
Com uns taes olhos que não tinha visto
Será a Virgem? Oxalá que fosse!
Oh! flôr mais bella do jardim d'esta Ilha!
Fôra outrora, talvez, filha de Christo,
Se Christo houvesse tido alguma filha!
18
O Teu Retrato
Deus fez a noite com o teu olhar,
Deus fez as ondas com os teus cabellos;
Com a tua coragem fez castellos
Que poz, como defeza, á beira-mar.
Com um sorriso teu, fez o luar
(Que é sorriso de noite, ao viandante)
E eu que andava pelo mundo, errante,
Já não ando perdido em alto-mar!
Do ceu de Portugal fez a tua alma!
E ao vêr-te sempre assim, tão pura e calma,
Da minha Noite, eu fiz a Claridade!
Ó meu anjo de luz e de esperança,
Será em ti afinal que descança
O triste fim da minha mocidade!
19
Sestança
Ia em meio da minha Mocidade,
Perdido d'affeições, ao vento agreste,
Quando na Vida tu me appareceste,
Sestança, minha Irmã da Caridade!
Ninguem de mim dó teve, nem piedade,
Ninguem n'a tinha, só tu a tiveste:
Quantas velas á Virgem accendeste!
Quantas rezas nos templos da cidade!
Que te fiz eu, Espelho das Mulheres!
Para assim merecer um tal cuidado
E tudo quanto ainda me fizeres?
Bemdito seja Deus que me escutou!
Bemdito seja o Pae que te ha procriado!
Bemdita seja a Mãe que te gerou!
Ilha da Madeira. Quinta da Saude, 29-7-1898.
20
Emilias
(A UMA SENHORA QUE NÃO QUER SER EMILIA)
Emilia és, quer queiras, ou não queiras:
Que lindo nome o teu, soante de brizas!
É um nome de pastoras e moleiras,
Loira morgada do solar dos Nizas!
Muitas Emilias ha, entre ceifeiras,
Ha Emilias nos serões das descamizas...
Se tu, Senhor! dás nome ás Amendoeiras
Com o nome de Emilia é que as baptizas!
Que Santa Emilia te acompanhe, Rainha!
E com a tua Mãe seja madrinha,
Quando ella, um dia, te levar á Igreja!
E, ó pura Gloria, que em teus olhos brilha!
Dôces presagios meus, que a tua filha
Seja loira tambem e Emilia seja!