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Placidamente, bate-me no peito
Meu coração que tanto tem batido!
E para mim, inda este mundo é estreito
P'ra conter tudo, quanto eu hei soffrido.
Meus dias vão passando como as agoas
Que o vento leva em ondas, ao mar-alto,
E se de noite eu oiço aquellas mágoas
Já não descanço mais, em sobresalto.
Placidamente, bate-me no peito
Meu coração em luctas tão desfeito,
Que com a Vida, a Dôr hei confundido.
E se se ganha a Paz com o soffrimento,
Deixae-me entrar emfim n'esse Convento...
Pois ha quem tenha, assim como eu, soffrido!

Berne, maio, 1896.

6

Apparição

Á VIRGEM SANTISSIMA

Pelas espadas que tu tens no peito,
Pelos teus olhos rôxos de chorar,
Pelo manto que trazes de astros feito,
Por esse modo tão lindo de andar;
Por essa graça e esse suave geito,
Pelo sorriso (que é de sol e luar)
Por te ouvir assim sobre o meu leito,
Por essa voz, baixinho: «Ha-de sarar...»
Por tantas bençãos que eu sinto n'alma,
Quando chegando vens, assim tão calma,
Pela cinta que trazes, côr dos ceus:
Adivinhei teu nome, Apparição!
Pois consultando manso o coração
Senti dizer em mim «A Mãe de Deus!»

Lausanna, junho, 1896.