EM 8 DE NISAN

A aldeia de Bethania fica a hora e meia de Jerusalem. Sobre a collina em que ella assenta ergue-se, modesta e affastada das outras habitações, a casa de Simão, o Leproso. Tem esta a forma tipica de uma piramide rectangular truncada, e na parte superior um terraço onde florescem nos canteiros roseiras de Jerichó.

Em frente da porta, ladeada de duas janellas a deseguaes alturas, um pequeno largo coberto pela enorme abobada de verdura de grossas arvores seculares, coevas talvez dos ultimos grandes profetas.

A agua de uma fonte visinha, jorrando natural da fenda de um rochedo, cae sobre uma pia ampla, de architectura romana, espalhando no ambiente notas cristallinas, e fazendo-nos pensar na Samaritana da lenda...

Um tronco de arvore carcomido pelo tempo e tombado no solo convida ao descanso e á meditação.

Uma longa estrada, aberta pelo rodar dos carriões, vae desde ali serpeando por entre o matto, ora subindo, ora descendo, em curvas graciosas, até que chega aos terrenos cultivados onde o trigo verdeja e as papoulas entreoccultam as suas manchas rubras. Ergue-se então o Monte das Oliveiras, de um verde acinzentado; da sua macissa ramagem surgem, majestosos, dois altissimos cedros antigos como Babylonia, e em volta dos quaes esvoaça um bando de pombas brancas.

Aquelle monte, á esquerda, rude, penhascoso, de côr turva, é o Monte do Escandalo; e chama-se Cedron o riosinho que apparece na linha inferior da encosta, e que, muito calmo e prateado, vae sumir-se alem no Valle de Josaphat, onde dormem em seus sepulcros caiádos as ossadas dos profetas e patriarchas.

Lá ao longe, no fundo do quadro e sobre terreno irregular, alonga-se a cidade de Jerusalem com as suas casarias de configuração muito geometrica, amontoadas como um forte punhado de dados. Mal se distinguem as ruas estreitas, com apparencia suja nas velhas cantarias.

A cidade vae n'um plano ascendente, que se quebra para lá da encosta:—é ali a antiga Sião do tempo do grande rei David. Mais clara, vem descendo a cidade nova, terminando junto do Monte Moriah onde, segundo diz a lenda, Abrahão esteve prestes a immolar seu filho Isaac, em sacrificio ao Senhor. Por isso n'aquelle monte se alevanta, mudo como um misterio, o grande Templo, a casa do Deus que «foi, é e ha-de ser»: Jehovat. A Torre Antonia, a um dos angulos do vastissimo quadrado, que fecha o recinto vedado a profanos, é como uma sentinella de Tiberio, na sua attenta quietação.

Para alem da cidade, a perder de vista, alonga-se o campo inculto, onde o carrasco e a urze predominam, e onde raras palmeiras deixam pender suas folhas esfarrapadas. Pequenos logarejos clareiam aqui e ali; muito nos longes, divisa-se a collina de Mizpa e a cordilheira de Gabaão entestando no firmamento azul e alegre.

Vae declinando o sol d'uma formosa tarde do começo da primavera, que entorna regaços de seiva, de canticos e de cores por sobre todo o harmonioso quadro. A brisa, ainda morna, traz-nos o aroma dos trigaes, de mistura com o resinoso do matto, que morenisa a pelle e põe nos labios um sabor acre. Os rebanhos tilintam vagamente; vão cantando na estrada as cotovias.

GAMALIEL, que chegou da cidade, arrimado ao seu bordão, as barbas brancas doiradas pelo sol, dirige-se á casa de Simão, e, clamando:

Eleazar, meu caro, honrado ebionita,
Recebe de um amigo a cordeal visita.

ELEAZAR assomou logo a uma das janellas. É um rapaz de vinte e tantos annos, franzino e melancólico.

És tu, Gamaliel? Que idéa bemfaseja
Teus passos dirigiu assim, para que eu veja
Á porta do modesto e humilde lavrador
Aquelle que possue o nome de doutor
Notavel e profundo?

GAMALIEL

É pobre a moradia,
Amigo?—Não encerra a vil hypocrisia,
Ornamento dos maus e da nefanda casta,
Que faz do sacerdocio uma arma. Isto me basta.

ELEAZAR

É que a virtude leva ás almas refrigerio
Tal, como á flôr o pranto envolto no misterio;
Pranto suave, meigo e virginal e ardente,
Que uma estrella chorou silenciosamente...

GAMALIEL

É que a bondade espalha a sua luz divina
E pura, como o Sol que a todos illumina...

E baixinho, encostando-se ao peitoril da janella onde Eleazar se conservou:

O que tenho a dizer-te é coisa de segredo.
Escuta-me portanto aqui.

ELEAZAR

Porquê? Tens medo
De que minhas irmãs...?

GAMALIEL

O assumpto é muito grave,
E receio que a dôr ainda mais se crave
Nas almas feminis do que na tua.

Bem o comprehendeu Eleazar. Eil-o que se retira da janella, e saíndo de casa, accode logo ao secreto chamamento.

Amigo,
Uma nova cruel:—o Mestre...

ELEAZAR, estremecendo

Algum perigo
É imminente?

GAMALIEL

Aquella estupida gentalha
Ridicula, mesquinha, hipocrita e canalha
Prepara com misterio o plano vingador,

E está na posição terrivel do condôr,
Pairando ao ver a presa incauta. A esta hora,
Em casa de Kaiapha...—É sabbado hoje? Embora!
—... O Conselho procura, extravasando o fel,
Garantir-se o poder no povo d'Israel.

ELEAZAR

Prendendo o Mestre?

GAMALIEL

Sim! Razões tem para tudo
O seu pensar feroz, indómito e agúdo!
Amor divino? Qual! Apenas o receio
De perder o logar no execravel meio:
D'um lado, a ambição, por mais que abuse e coma,
E d'outro o servilismo ás leis que vem de Roma!

N'um brusco movimento deixou transparecer todo o rancor que o domina e que se expande, emfim, n'uma invocação:

A Virgem de Sião suspira ha muito já!...
—Ó terra de Jacob! Heroes de Josaphat!
Que é feito do vigor da tua fala, Isaías?
E das lamentações sinceras, Jeremías?
Profeta Ezequiel, a tua voz potente
Jámais ribombará por todo o Oriente,
Fazendo estremecer o despota cezareo,
Como o gládio de Deus, terrivel, incendiario,
Que na vasta amplidão a olhar o mundo assôma,
Que sepultou Gomorrha e destruiu Sodôma?!

ELEAZAR, com o olhar vago:

Vergonha! opprobrio!...

GAMALIEL, que enxugára á manga da tunica uma santa lagrima de enthusiasmo civico:

Ai! desde que um idumeu
Conseguiu transviar o nobre povo, o hebreu,
E nos hombros depoz o manto purpurino...
Maldito! que deixaste um rasto viperino,
Um rasto de peçonha! Infame! Rei protervo,O teu nome recorda o luto e um acervo
De horrores!—Certo dia, ousaste no portal
Da casa do Senhor dar poiso á immortalAguia romana!...—Vil, nascido de idumeus,
O Cezar tambem morre: a aguia eterna é Deus!
... Que tristeza, ao pensar n'uma tão negra historia!
—Do nome do tiranno o filho honra a memoria.
Surge um brado, a Nação protesta, grita, lucta...
Afinal, para quê? sem forças, dissoluta?...
—Eu vi por toda a parte erguerem-se madeiros;
Vi morrerem na cruz milhões de prisioneiros,
Gritando «Jehovat!» nas ancias da agonia!
E ao passo que na morte o hebreu se contorcia,
E filhas e mulher's davam á luz o pranto,
O incendio voraz lavrava o Logar Santo!
—Depois?... Depois mais nada. O Cezar nos esmaga,
Revolvendo o punhal na apodrecida chaga!
Seja procurador Coponio, ou seja Marco,
Ou Rufo, ou Grato, ou Poncio, a nação é um charco
Onde vivem, senís, as rãs do servilismo...
É provincia romana; e viva o cezarismo!

E ri amargamente n'uma cascalhada ironica de velho rabbino, apertando, convulso, o cajado na mão ossuda onde as veias resaltam.

ELEAZAR, suggestionado pelas palavras do velho:

Não! não! Resurgirás, eleita do Senhor,
D'esta funda apathía e d'este grande horror!
Judéa, serás livre! Elias não morreu,
Porque revive n'um que tem o verbo seu,
E elle ha de trazer a guerra e o exterminio!
Se é branco o seu vestido, ai! pode ser sanguineo!...
Abaterás o orgulho, o despotismo, a infamia!
O povo quer vingança atroz: pois bem, derrame-a
Sem minimo temor da colera dos ceus!

GAMALIEL, n'um clarão de esperança:

Já temos o preciso: um Homem!

MARIA, que tinha saído de casa e que ouviu as ultimas palavras:

Não!—Um Deus!

Alta, morena, olhos negros, de languidez oriental. Negras devem ser tambem as suas tranças occultas a olhares mundanaes. As roupagens escuras, que lhe descem até aos pés, cáem suavemente em prégas regulares e castas como as de Suzanna. O seu olhar é sempre vago e tranquillo; os seus gestos sempre em accordo com as serenas emoções da alma.

É bello o teu falar, mas como de cegueira
Pelo amor patrio estás vencido! De maneira
Que apenas bastaria um pulso valoroso
Para despedaçar o monstro ambicioso
De fausto e de poder que se revolve além,
N'aquella babylonia? Então, Jerusalem,
Movida por um braço, embora resoluto,
Poderia colher o ambicionado fructo
Da plena liberdade em meio da revolta?
—Vae longe, muito longe, o tempo... que não volta!
A Judéa prefére a honra em mil pedaços,
Cheia de timidez, crusando inerme os braços,
Inhabil para a lucta e com horror á morte...
A tribu de Levy, aquella cujo porte,
Sendo mais senhoril e nobre, inspiraria
Coragem ao vencido e alguma simpathia
Ao vencedor, que faz? Conspira contra o povo.
—Onde encontraste, irmão, o excitante novo,
Que possa dar alento a quem succumbe exangue,
Que os nervos fortaleça e retempére o sangue?

GAMALIEL

Ha sempre em casos taes...

ELEAZAR

a força d'um athleta!

MARIA

Tem muito mais poder o verbo d'um profeta!
Ha de ser elle, sim! prégando a perfeição
Das coisas divinaes a toda a multidão,Que se contorce afflicta em negro paroxismo,
Descrente de Moysés, propensa ao paganismo.
Nem ferro, nem madeiro: apenas a palavra,
Que ao entranhar-se em nós suavemente lavra,
Pesada, como o arado á terra bemfasejo,
Subtil, como o poisar castissimo d'um beijo!

GAMALIEL

E quem te diz que não? Eu julgo indifferente
Que tenhamos no Mestre aquelle descendente
Do nome de David ao mundo promettido
Pelo Senhor. Amal-o é todo o meu sentido.
Porque bem vejo a força enorme, o poderío
Que exerce na cidade. É mais que prestadío
Á Patria um homem tal!

ELEAZAR

A sua mão convulsa,
Brandindo um azorrague, os vendilhões expulsa
Para longe do sitio ás preces consagrado...

MARIA

E o seu falar murmúra ás vezes tão magoado!...
—Regenéra a mulher atreita ás bacchanaes
E que mercadejava as graças corporaes;
Ascende até o amor aos pobres, ás creanças,
Aos tristes e aos nús, e dá mil esperanças
N'um reino que elle sabe e que ninguem conhece...

ELEAZAR

Quando, porem, troveja irado, mais parece
Que vibra no seu peito a propria voz de Deus!

MARIA

Oh! sim! que é de temer o divinal prestigio!...

ELEAZAR

Que deixa em seu caminho um profundo vestigio...

GAMALIEL, ao ouvido de Eleazar, aproveitando o ensejo dado por Maria, que foi sentar-se junto da fonte:

Mas o povo nem sempre acceita um bom aviso,
E Deus pode morrer... quando fôr mais preciso.

ELEAZAR, com o intuito de afastar o negro pensamento, que a todos trez opprime no intimo:

O Mestre não virá. Alegra-me a certeza
De que foge ao Conselho a ambicionada preza.
Começa em breve a Paschoa, e entre os forasteiros
Ainda não chegou nem um dos companheiros
Do Mestre.

GAMALIEL

Vae o Sol no termo da viagem:
Torno para a cidade.

E novamente em segredo:

Eleazar, coragem!
No teu silencio tens a minha vida e a tua.

ELEAZAR, abeirando-se muito a elle, supplicante:

Se te constar, porem, que o plano continúa
E mais se desenvolve...

GAMALIEL

Hei de dizer-te, amigo.

ELEAZAR, saúdando-o:

Que não te fuja Deus!

GAMALIEL, saúdando-o:

Fique o Senhor comtigo!

Saúda tambem Maria, e, retomando o caminho da cidade, vae-se ao longo da estrada, um pouco alquebrado, cadenciando os passos pelo bater do bordão no solo poeirento.

ELEAZAR sentou-se no tronco d'arvore, pensando; e, como respondendo aos proprios pensamentos:

Ninguem pode roubal-o á proxima agonía.
Morrerá na cidade. A horrivel profecia
Aponta-lhe, cruel, a inevitavel a sorte...
Ha muito que de longe anda a espreital-o a morte!

Martha e Simão de Bethania saíram de casa. Ella é uma rapariguita de desoito annos, irrequieta, buliçosa, muito infantil; elle, um velho cujo cabello e barba ha muito branquearam; nas mãos o trabalho da lavoura poz-lhe grossos callos e deformou-lhe os dedos; e no rosto a lépra deixou-lhe vestigios indeleveis em manchas avermelhadas.

MARTHA

No que pensa o meu irmão?

ELEAZAR

Em nada penso.

MARTHA

Duvido.
Ha n'esse olhar definido
Vislumbre d'inquietação.

SIMÃO

Se tu pensas na lavoura,
Fazes mal, que o dia de hoje,
Emquanto o Sol não nos foge,
Prohibe que, scismadora,
A mente se occupe assim
De coisas que não respeitam
A Deus.

MARIA, em longa abstracção, junto da fonte, como se ninguem a ouvisse:

Aquelles que engeitam
O pensar, mesmo o ruim,
São como as ondas brutaes,
Que lançam á rocha dura
A espuma de cuja alvura
Ellas são as mães e os paes...

SIMÃO, chasqueando-a, mas com meiguice:

Sempre has de ser renitente
Em respeitar a doutrina
De Moysés!

MARIA, com amargo sorriso:

O que ella ensina
É por vezes incoherente.
De ouvil-a já estou cançada,
E nem assim me convence.

MARTHA encostada ao hombro do irmão, que se conserva sentado:

Não falas?

SIMÃO

Deixa-o! Que pense,
Uma vez que isso lhe agrada!

ELEAZAR

Mas como sois curiosos
Do que se passa por fóra
De vossas almas!

MARTHA

Agora
Vem discursos lamentosos,
Recriminações, aposto!
Grande mau!

ELEAZAR sorrindo contrafeito:

Grande creança!

MARTHA picada no seu amor proprio:

Não te inspiro confiança?

ELEAZAR condescendente:

Inspiras, sim.

MARTHA

Pois não gosto
De segredos—Que tristeza!...
Não percebo! Porque, em summa,
Não vejo razão nenhuma
Para tal! Não ha riqueza?
A nossa vida, porem,
É feliz; a privação
Nunca nos veio affligir,
Nem ameaça o porvir,
Não é verdade? Simão,
Este bom velho leal,
Que tanto e tanto nos ama,
Dá-nos meza, casa, cama,
E conselho paternal;
Tu retribues a amizade,
Auxiliando-o na vida.Achámos uma guarida
Nas trevas da orfandade:
Temos familia! Por isso
Para nós a vida é clara
Assim como a luz. A seara
É verdadeiro macisso
De pão; agua na fonte;
Lenha nas faldas do monte...
Nada vejo, d'importancia,
Que não tenhamos. Então,
Quero saber o motivo
Por que estás tão pensativo...

E rindo muito:

E com cara de chorão!

ELEAZAR

E tenho de que sorrir?

MARIA em longa abstração, como se ninguem a ouvisse:

Quem pensa é como quem sonha...
E como a vida é risonha,
Quando se pode dormir!...

ELEAZAR perseguido pelo olhar inquiridor de Martha:

A minha alma atribulada
Profundo misterio aninha...
Sê caridosa, irmãsinha,
Não me perguntes mais nada!

MARTHA afastando-se logo com muito despeito:

Ai! não pergunto!

SIMÃO que de parte estivera rindo dos dois:

Uma idéa,
Que talvez seja bem dita:
Vou fazer uma visita
Ao José d'Arimathéa.
Vem commigo. Pode ser
Que tenhas n'este passeio
O prompto e seguro meio
Da tristeza espairecer.

ELEAZAR

Dizes bem.

SIMÃO

Acceitas?

ELEAZAR

Sim.

SIMÃO

Afinal é sempre o velho
Quem dá o melhor conselho!

ELEAZAR ás irmãs:

Adeus!

E beijando Martha, que o evita d'arremeço:

Tu foges de mim?
Não vens beijar-me, teimosa!
É então uma vingança?

MARTHA, deixando explodir o seu despeito:

São arrufos... de creança!

ELEAZAR beijando-a á viva força:

São os espinhos da rosa!

Vão-se Eleazar e Simão. Succede grande silencio.

MARTHA foi á beira da estrada e segue-os com o olhar. Depois, appreensiva, com vago receio:

Nunca o vi assim como hoje...

MARIA em longa abstracção, como se ninguem a ouvisse:

«Espairecer»... Puro engano!
O pensamento não sae...
É como a sombra que vae
Correndo atraz de quem foge...

MARTHA que lançou para longe a tristeza, despertada pelo cantar mais proximo d'uma cotovia.

Como o tempo está formoso
E se prepara, amoroso,
Para a Paschoa d'este anno!

N'uma corrida, eil-a junto da irmã que ficára sentada á beira da fonte. Um beijo resôa na face de Maria e logo aos pés d'esta se senta Martha.

Achamos isto um encanto!
Como elles acham, porem,
Que tudo é feio.

MARIA

Elles, quem?

MARTHA com o cotovello apoiado no joelho de Maria, o olhar limpido erguido para o olhar da irmã:

Os Dose, que gostam tanto
De dizer mal de Judá.
A Galiléa! Não ha
Para elles outro mundo!
Têem sincera affeição,
Tributam amor profundo
Ao paiz de Salomão!

MARIA desculpando-os:

A sua terra natal...
—Todos dizem que em verdade
É um paiz ideal
A Galilêa.

MARTHA

Quem ha de
Duvidar, se elle inspirou
Os galanteios doirados
D'aquelles apaixonados...
—Como elles, ninguem amou!

Depois de alguma hesitação reconstituiu na memoria o cantico, e recita-o, com um sorriso humido nos labios, em tom plangente, repassado de languidez. Maria quedou o olhar no fio d'agua, e vae brincando com elle, deixando-o deslisar por entre os dedos finos e alongados.

«É formoso o meu amante,
Formoso como nenhum,
E como o cédro elegante...
É formoso o meu amante,
Formoso como nenhum...
«São de perfumes e odores
Suas faces purpurinas,
Dois ramalhetes de flores...
E suas mãos dois primores
Das pedrarias mais finas.
«O seu corpo deslumbrante
Do marfim o brilho tem...
—Eu aqui... Elle distante...
Onde está o meu amante,
Filhas de Jerusalem?»

Olhando de fito para a irmã:

Esta idéa é mesmo linda!

MARIA com frieza, como a da corrente d'agua que entre os seus dedos vae deslisando:

Amôres...

MARTHA

Muito falados!
Olha que outros bem-amados
Como estes não houve ainda!
E quando elle se transporta,
Descrevendo a sua amante?
Não pode ser mais galante!
Queres ouvir?

MARIA

Que m'importa!...

MARTHA

«És formosa entre as formosas!
Como tu não ha nenhuma!
Tens no rosto duas rosas...
És formosa entre as formosas!
Como tu não ha nenhuma!
«Duas pombas tens no olhar
Onde transluz a bondade.
Os teus cabellos sem parFazem-me sempre lembrar
As cabrinhas de Galaad...
«Tua bocca é tão fagueira!
Quando sorrís com ternura,
Julgo vêr n'uma ribeira,
Unidinhas em fileira,
Ovelhas de casta alvura!
«Oh! que suaves martirios
Em tuas caricias francas!
São teus seios—que delirios!
—Como duas corças brancas
A pastarem entre os lirios!»

Indiscretos ouviram Martha desde o meio da recitação. Claudia e o seu sequito passavam pela estrada, e a curiosidade fez que a mulher de Poncio Pilado detivesse os lecticarios com um gesto. Apeou-se da liteira; sem ser presentida, avançou, cautelosa, e com ella a sua escrava e confidente Geda.

Os soldados que escoltam a liteira ficaram immoveis; e o sol poente, avermelhando-lhes as couraças e os capacetes, parece tel-os transformado em estatuas de sangue. Na mão de um d'elles, que á frente caminhava, brilha o pilo de oiro, emblema heraldico da casa de Poncio.

Claudia é uma mulher alta e formosa, cujo rosto a idade ainda não enrugou, mas do qual fugiram as rosadas côres da mocidade, que a pintura e o artificio em vão tentam simular. Typo de matrona donairosa, fanatica do deus Phallus, tomando por modelo no amor a divina Julia, consorte de Tiberio, illustre messallina—lassata, sed non satiata. A tunica azul celeste apertada pelo largo cinto de oiro contorna-lhe a base do tronco esculptural. Um diadema, egual aos braceletes, que se lhe enroscam na carne, refulge no ebano de seus cabellos, e dá-lhe a majestade olympica do perfil das medalhas de Agrippina.

CLAUDIA em tom faceto de cortezã affeita ao jogo de gracejos nos triclinios de má nota da velha Roma:

Muito bem!

Ergueu-se Maria em sobresalto, e, reconhecendo a mulher de Poncio, dirige-se apressada para casa, levando comsigo a irmã; mas á porta detem-se.

Que formosa poesia
Cheia de amor e de melancolia!
Ha quem diga no Lácio
Que é impossivel encontrar primores
Que não sejam de Ovidio nos «Amores»
Nos «Epodos» de Horacio...
—É que ninguem conhece quanto val'
A doce poesia oriental!
—Isso é de Salomão?

MARTHA muito a mêdo:

Senhora...

CLAUDIA

Pois eu sou tão lisongeira,
Para ouvir-te apeei-me da liteira...
E foges?—A razão?

E como não colhesse resposta, prosegue sardonicamente:

Tambem me odeias, tu, gentil creança?
—Quando ha de fazer-se uma alliança
Entre Roma e Judéa?
Ganhariamos todos, com certeza:
Nós, simpathia; vós, delicadeza.
Darei a Poncio a idéa.

Olhando de fito para Maria, que permaneceu immovel com labios contraídos e os punhos cerrados:

Conheces-me tambem?

MARIA por entre dentes:

Perfeitamente.

CLAUDIA

Se não me engano, a tua alma sente
Por mim o mesmo affecto...
Mas que mal vos fiz eu? Por ser casada
Com Poncio, devo estar acorrentada
A um odio tão directo?

MARIA fitando-a resoluta, mas serena:

É que tu desconheces o rancor
Que tem toda a Judéa ao vencedor!
Fossem mil as nações
Caídas sobre nós! Odio profundo
Teriamos então a todo o mundo
E ás suas gerações!
—Ninguem pediu que ouvisses o falar
Da minha irmã. De mais, vindo escutar
Fizeste muito mal...
És Claudia; quer dizer: alguma coisa
Que nos merece tédio, e que repoisa
Sobre um vil pedestal
Todo feito de lama e impudicicia!
Justamente porque és uma patricia
Deves ter o criterio
De não brincar co'as cinzas ainda quentes,
Porque nós detestamos intendentes
E amantes de Tiberio!

Dois soldados olham rapidos para Claudia e logo n'um movimento impulsivo de mercenarios servis apoderam-se de Maria, que não resiste. Martha soltou um grito; succedeu-lhe longo silencio interrompido apenas pelo murmurio da agua e pelo chôro suffocado de Martha, que não desamparou a irmã.

CLAUDIA deixando cair as palavras uma a uma, como gôtas de chumbo derretido:

Terrivel quando odeio, e meiga quando estimo.
A todo o sentimento o da maldade encimo,
Se acaso á minha face o insulto e o desdem
Me forem arrojados por alguem!
Uma frase, um olhar—tanto me basta;
Pois como sou nervosa, em mim logo se engasta,
Qual sanguineo brilhante, a fébre da matança,
Dos deuses o prazer dulcissimo: a Vingança!

Mas em rapido movimento, como obedecendo a pensamento occulto, faz signal aos soldados, que logo abandonam Maria. Depois, com acerado sorriso de maldade:

Agradece, mulher, a mim e ao teu Deus
Esta disposição d'espirito, e os meus
Bons nervos hoje; e grava, em summa, na memoria
Que o insulto nem sempre é uma gloria!

MARIA muito vexada pela insultante benevolencia de Claudia:

Eu não pedi perdão...

CLAUDIA victoriosa pelo effeito que o perdão causou no animo independente da patriotica filha d'Israel:

E quem diz tal, judía?
Fui eu que perdoei...—Offendes-te?

MARTHA supplicante ao ouvido da irmã, que ia responder:

Maria...

CLAUDIA rindo, satisfeita, feliz:

Maria... Nome formoso,
Que tem um rythmo éoleo!
Merece logar honroso,
Por Jove, no Capitolio!

E volta para a liteira.

A ESCRAVA GEDA ajudando-a a accomodar-se nas almofadas da liteira:

Nunca te vi assim...

CLAUDIA

Diverte me a bondade,
Ás vezes...

O CENTURIÃO AMPÍO ao sequito:

A caminho!

Os lecticarios põem a liteira aos hombros.

CLAUDIA

Á porta da cidade
Haveremos de estar antes da noite. Anceio
Por que termine em bréve este infeliz passeio,
Sem novo encontro mau.—Ó palida judía,
Pode ser que eu te veja ainda... Até um dia
Tem saúde até lá, que o ferro vingadorDetesta a gente magra, e tem maior furor
Ao trespassar um cólo arredondado e terno...

MARIA

Descansa: não hei de ir incommodar-te ao inferno!

Claudia solta uma gargalhada, correspondida n'um murmurio pela soldadesca; e Maria, affagando Martha, que não cessou de chorar, leva-a comsigo para casa.

Apparecem então os fariseus Benjamim e Josué, cautelosos, o olhar obliquo circumdando o terreno, como bons espiões: concretisação grotesca da hipocrisia sacerdotal da época. Mantos negros, andar pausado, mitras de feitio semelhante á dos outros judeus, mas de maior dimensão. Debaixo dos braços, os rôlos de Escriptura. Compostura beatifica. Benjamim, um pouco alquebrado, por calculo, parece não querer levantar do chão o olhar para as coisas superiores ao pó da terra; Josué, pelo contrario, conserva-os erguidos ao ceu como para não os baixar ás coisas mundanaes. Claro é que de quando em quando a compostura perde-se, e os velhacos manifestam-se.

BENJAMIM

Não ha que duvidar: chegaram todos.

JOSUÉ

Viste bem, Benjamim? seria engano...

BENJAMIM

Engano o que? Se affirmo, se até juro
Ter visto o Mestre e os dose companheiros.
Tomaram pela horta do Simão,
E em bréve hão de estar n'aquella casa.

E approxima-se da casa do Leproso. Detem-se; prestando attenção, ouve a distancia o murmurio festivo do povo que, saúda com Hossannas! a chegada do Rabbi da Galiléa.

Eu não te digo?... O povo já começa
A correr ao encontro. Dentro em pouco,
Vae por esta Bethania uma celeuma,
Que nem no Templo em dia de festejo!
Eis portanto o momento ambicionado
De cumprirmos as ordens recebidas...

JOSUÉ, timido, covarde, circumvagando o olhar:

Mas Benjamim...

BENJAMIM

O que é?

JOSUÉ

Sinceramente,
Vou achando pesada esta incumbencia.
É que nós somos dois: elles são tantos!...

BENJAMIM

Em verdade te digo; principío
A estar arrependido de indicar-te
Para meu ajudante n'esta empreza!
Hanan mandou que fossemos prudentes:
Devemos ter prudencia. Hanan mandou
Que tomassemos nota do que vissemos:
Tudo o que virmos lhe será contado.
Hanan mandou que fosse descoberto
O melhor paradeiro onde, em segredo,
Se podesse prender o Nazareno,
Muito em segredo, sim, para evitar
Protestos e tumultos: pois, meu caro,
Havemos de encontral-o!

JOSUÉ

Estás bem certo?...

BENJAMIM velhacamente, animando-o:

E não vejo que mal nos ameace.
O ex-Grande Sacerdote é simplesmente
Quem se entrega aos revezes d'este jogo.
Se perde ou ganha, o caso é lá com elle;
E nós de qualquer forma ganharemos
Não só a consciencia de homens probos,
Leaes respeitadores de Moysés...

JOSUÉ unctuosamente:

O que á minha alma traz doce conforto...

BENJAMIM

... Mas tambem o dinheiro promettido,
Que não menos conforta as nossas bolsas.

JOSUÉ com desinteresse hypocrita:

Tens um sistema de encarar a vida!...

BENJAMIM

É forçoso que nós nos convençamos
De que, se os bons principios se defendem,
Tambem se deve garantir ao corpo
A delicia das bôas digestões...
Á custa do dinheiro do Conselho!
—Ouve portanto o que é mister cumprir:
Tu vaes para a cidade; a bréve trecho
Procurarás o ex-Sacerdote... E então
Dir-lhe-ás que o profeta e os companheiros
Chegaram a Bethania era sol-posto;
Que decerto aqui ficam toda a noite,
E que eu não deixarei de estar álerta.

JOSUÉ

Perfeitamente.

BENJAMIM

Espéra! De manhã,
Logo que vejas os clarões do dia,
Has de esperar por mim...

JOSUÉ

Que sitio indicas?

BENJAMIM

Não distante da entrada principal
Do Templo. Dado o caso que eu não chegue,
Commigo has de encontrar-te...

JOSUÉ

E onde?

BENJAMIM

Aqui.

JOSUÉ

Muito bem!

BENJAMIM

Percebeste?

JOSUÉ

Que pergunta!
Como quem desenrola o «Pentateuco»
E passa a vista pelo que elle diz.
—A proposito: guarda-me estes rôlos.

BENJAMIM acceitando-os e juntando-os aos seus:

Tens razão. As Sagradas Escripturas
Iriam pezar muito no caminho.
Mas deves ir com um, pois é preciso
Para te dar o aspecto d'homem sério.

JOSUÉ

Ao romper da manhã...

BENJAMIM

Vae-te! Vem gente!

E tomam para lados oppostos, revestidos de sua compostura habitual.

Quatro homens assomaram á porta do Leproso; são Eleazar acompanhado de João, Simão Pedra e Matheus.

João é um bello tipo da raça judaica do norte. Alto, robusto, espadaúdo e ainda imberbe. Os louros cabellos de genuino galileu caem-lhe sobre os hombros em fartos anneis. Olhar azul, meigo; gesto largo e suave, na quietação d'alma; mas desordenado e brusco, se a colera o determina. Voz intensa, possante, cadenciada, de homem habituado a falar ao ar livre, na grande extensão da superficie das aguas.

Mais velho do que elle, Simão Pedra deixa transparecer em toda a sua figura suavidade extranha em creatura humana. De Capharnaum, galileu tambem e tambem robusto homem do mar, o seu rosto é circumdado pelos annelados cabellos e pela barba comprida, bipartida, e tão loura, que mais parece branca. Olhar penetrante, mas bondoso e ligeiramente accentuado por um vinco entre os supercilios, o que torna a sua fisionomia um pouco severa. Gesto sempre sereno; voz protectora, paternal.

Matheus é mais velho do que João e mais novo do que Simão Pedra. Baixo, de forte musculatura, barba ruiva bipartida; olhos meùdos e muito vivos de antigo publicano. Todavia o conjuncto da fisionomia é attrahente por uma expressão de rude franqueza que n'elle predomina. Voz quasi homofona, de homem metódico, que raras vezes se enthusiasma ou sensibilisa, e que tem da vida uma noção segura.

Os trez trazem na cabeça turbante á moda egypcia, com as pontas caídas ao longo das costas. Os mantos e as tunicas empoeirados mostram que foi grande o percurso que fizeram os romeiros.

JOÃO resfolegando:

Amigos, n'este sitio ha fresco e liberdade!

MATHEUS

E ficam bem á vista os muros da cidade...
Não sei o que adivinho!...

JOÃO

Ao largo esse receio!
Muito mais me entristece a nuvem má que veio
Escurecer ao Mestre o doce olhar...

SIMÃO PEDRA, com o braço direito sobre o hombro de Eleazar, n'uma intimidade muito amiga:

Meu caro,
Que justissimo orgulho eu tenho, se comparo
O tempo que passou a este em que hoje estamos:
O verbo illuminando a treva e os recamos
Do manto a que se abriga uma ambição enorme;
As contorsões finaes do animal disforme
Que viu a luz no Horeb ao sopro de Moysés,
Rojando-se afinal vencido a nossos pés!

ELEAZAR descrente, mas muito timido, querendo occultar o que lhe vae n'alma:

E julgas que não tarda em despontar o dia
Tão desejado?

SIMÃO PEDRA

Eu?! Pois quem duvidaría?
—A doutrina do Mestre é como o grão de trigo,
Que o lavrador dispõe no seu terreno amigo.
Que mais cuidados tem o bom do lavrador?
Não tem nem um cuidado. A terra, em seu labor,
Se encarrega de dar ao germe, ao simples grão,
A força e o poder da multiplicação.
Se o lavrador depois no campo seu repára
E vê brilhar ao sol a refulgente seára,Exclama, commovido: Abençoada terra,
Que assim tanta bondade e tanto amor encerra!

ELEAZAR, quasi a medo:

Mas se acaso acontece o lavrador morrer...?

SIMÃO PEDRA

Quem passa pela estrada e attenta no crescer
Do risonho trigal, diz logo, reverente:
Bemdito quem dispoz na terra esta semente!

ELEAZAR, depois de grande hesitação:

Escuta, Simão Pedra: Ás furias do Conselho
Não curvareis, talvez, humildes, o joelho?...

SIMÃO PEDRA

Nunca!

ELEAZAR

Nem fugireis?

JOÃO que se erguera, rapido e violento:

Nenhum de nós!

Judas sae de casa de Simão e vae sentar-se, pensativo, junto da fonte. Bem o viu João: mas, dissimulando, continúa ainda mais violento, e, dando ás palavras uma intenção reservada:

Nenhum...
Dos que têem do Mestre a patria por commum!
Posso dizer bem alto, amigo: os seus patricios
Nunca hão de vacilar perante os sacrificios.
Se acaso o Mestre fôr levado de vencida,
Qualquer de nós dará por elle a propria vida!
Quem ha de recusar-se a tal? Filippe, André,
Thaddeu, Nathaniel, Simão, Matheus, Thomé,
Iago, o publicano, ou Simão Pedra?—Não!
Julga-me alguem covarde, a mim, ou a meu irmão?
—Vês pois, Eleazar, qual seja o nosso intento.