JUDAS

Não falaste de mim...

JOÃO muito secco e terminante:

Por méro esquecimento.

E vae para junto de Matheus, como para evitar maior explicação.

ELEAZAR ao ouvido de Simão Pedra:

Pareceu-me o contrario...

SIMÃO PEDRA triste e confidencial:

É sempre assim co'o Judas...

Judas tem quando muito trinta e dois annos. É um homem em toda a força da vida, conformação máscula, de virilidade quasi selvagem. Estatura regular. Elle proprio vae dizer-nos d'onde é, e qual a côr dos seus cabellos naturalmente revoltos, curtos e encaracolados. Barba cerrada; pélle morena. Olhar profundo e d'infinita melancolia, que de fórma notavel contrasta da rudeza do resto da figura. Os dentes alvos brilham entre os labios vermelhos; e quando irado, o labio inferior que é grosso, sensual, estremece-lhe como o d'um touro em circo romano. É uma d'essas creaturas que não sabemos se devam inspirar-nos simpathia, se conservar no nosso espirito a idéa de repulsão que a principio nos dispertaram. Gestos angulosos e rigidos; mãos, braços e peito cabelludos; andar pesado. Voz de tonalidades irregulares; extremamente meiga e cariciosa na dôr, extremamente vibrante, herculea na cólera.

JUDAS amarga, mas serenamente, depois de ter meditado por algum tempo:

Que mal te fiz, João? Chego a pensar que estudas
As tuas aggressões áquelle que te présa!
Eu tenho uma alma branca, e a consciencia illésa.
De injurias contra mim tu sempre estás faminto!
Que mal te fiz, João? Tu pensas que não sinto...
(E crê que muita vez isto me vem á idéa)
... Ter nascido em Judá e não na Galiléa?
Sou culpado de quê? De ter a pélle escura?
De ter cabello negro? Isto é para censura?

MATHEUS conciliadôr:

Mas se elle já te disse...