JUDAS

E eu digo que, em verdade,
Prefiro lealmente o odio a esta amizade!

E volta aos seus pensamentos dominantes.

MARTHA, assomando a uma das janellas, n'uma risadinha infantil:

Vinde ceiar, que são horas.
Não quereis?

SIMÃO PEDRA, aproveitando a inconsciente intervenção de Martha

Nem se duvída!

MARTHA

Pois deixae-vos de demoras,
Aliás vae-se a comida!
—Uma ceia improvisada
Mas nem por isso mesquinha,
Podeis crêr.

SIMÃO PEDRA

A caminhada
Que fizemos foi damninha...
Por aguçar o appetite.

MARTHA intimativamente, retirando-se da janella:

Dize que venham depressa,
Porque, faltando ao convite,
Sem vós a ceia começa!

JOÃO a Matheus e a Eleazar, continuando a conversa interrompida e n'um tom de voz inaudivel para Judas:

Dizeis que elle é honesto e probo e crente, em summa
Que para ser dos bons não falta a coisa alguma...
Talvez que seja assim como dizeis. No entanto,
Se para o seu olhar o meu olhar levanto...
—É tectrico e sombrio aquelle olhar revêsso!
Pensando sempre! Em quê?—Amigos, bem conheço
Que pode ser fatal este misterio vivo!
Qualquer de nós é meigo, alegre e expansivo...
—Quizeram confiar-lhe a bolsa do dinheiro:
Não procederam bem.

SIMÃO PEDRA que se reunira aos tres, carregando o semblante:

Porquê?

JOÃO em tom leviano:

O embusteiro
Apenas retribue a prova de amizade
Gastando em seu proveito o que é da sociedade.

SIMÃO PEDRA, que não poude reprimir um sobresalto, tornando-se ainda mais severo:

Já não te quero ouvir nem mais uma palavra!No teu peito leal um sentimento lavra
Improprio de quem és! Lá dentro direi tudo.
Depois do que te ouvi, não posso ficar mudo!

ELEAZAR conciliador:

Então!

MATHEUS detendo Simão Pedra, que ia para entrar em casa do Leproso:

Menos calor!

JOÃO repêso, meigo, supplicante:

Oh! cala-te, por Deus!
Não vás exacerbar ao nosso Mestre os seus
Desgostos; porque, emfim, sou muito leviano...
Proveio o que me ouviste apenas de um engano...
Simão Pedra, desculpa!

Á supplica de João succede algum silencio: todos têem o olhar em Simão Pedra, aguardando o desenlace.

SIMÃO PEDRA sorrindo, afinal, benevolo:

Eu sei que és razoavel.
Já tinha como certa a confissão louvavel,
Que logo surgiria á simples ameaça...

JOÃO abraçando-o effusivamente:

Devemos collocar ao longe o que a desgraça
Procura intrometter no nosso coração!

MATHEUS

O Mestre é que diz bem: nasceste d'um trovão,
Mas tens dentro do peito os risos da bonança!

SIMÃO PEDRA

Não voltes a magoal-o.

JOÃO

Hei de mudar, descansa.

Encaminha-se para casa, mas

SIMÃO PEDRA detendo-o e apontando para Judas, que nada ouviu do que se passára:

E fala-lhe, João: não vês como ficou?

JOÃO com bonhomía:

Judas, deixa-te d'isso! Anda d'ahi!

JUDAS olhando lealmente para elle e com um sorriso de reconciliado:

Eu vou.

Mas fica, e só os quatro entram para casa.

Judas está agora sósinho, sempre sentado junto da fonte, novamente immerso nas suas meditações. Anoiteceu. O luar vem rompendo, illuminando toda a paísagem e coando-se pelas folhas do arvoredo. Uma paz enorme reina em todo o quadro. Calaram-se as cotovias, calaram-se os rebanhos; apenas os ralos se fazem ouvir, estridulos. Muito distante, porém, distinguem-se os sons mal definidos de uma melodia: são os ultimos romeiros, que veem para a festa da Paschoa tangendo psalterio, frauta e pandeiro. É um himno melancólico, dolente, ao pausado compasso da andadura. Pouco a pouco os sons definem-se, approximam-se. A aragem fresca e perfumada balouça docemente o arvoredo.

JUDAS solta um suspiro, e erguendo o olhar, expandindo a sua alma:

Porque motivo, ó Deus, esta injustiça?
Desegualdade sem razão, medonha!
Uma alma pura, virginal, submissa;
Outra, vertendo em lagrimas peçonha!
—Ah! fatal e profundo sentimento,
Que tens do abismo a attracção e o horror!
És para mim dulcissimo tormento,
E sendo um grande amor... não és amor!
Um desejo voraz, ardente, furia,
Que a força da vontade não arranca!
Tem sonhos de volupia, de luxuria,
Com as palpitações da carne branca!
Transforma o ideal em verdadeiro
E a minha alma timida conduz
A seductor e vago paradeiro,
Onde eu estreito um cólo e uns braços nús!
Não morrerás? não has de ter um fim,
Ó tenebrosa e infernal tortura, Que pareces viver dentro de mim
A construir a minha sepultura?
—Quem te ordena que leves a maldade
A fazer-me avançar para o impossivel?
Porque segrédas tu que a castidade
Nem sempre pode ser irresistivel
Ás seducções frenéticas do amor?
E porque vens mostrar-me, sensual,
Certa nudez, e em todo o seu fulgor
Um monte de oiro junto d'um punhal?
—Como és infame! Sim! Com violencia
Levas minh'alma fraca aos empurrões.
E, como a Daniel, a Consciencia
Queres deitar á cova dos leões!
—Oh! nunca! Podes crêr que te resisto!
Hei de salvar minh'alma moribunda,
Arrancar-te de mim, e, depois d'isto,
Escarrar-te no corpo, besta immunda!

E ergue-se de subito; mas o seu olhar detem-se, vendo no limiar da porta o vulto de Maria destacando-se no fundo de luz amarelada que vem do interior da casa.

Maria, ao reconhecer Judas, parou hesitante. Sobre o quadril esquerdo traz apoiada uma amphora de grés. Tem uns momentos d'indecisão. Alguma coisa extraordinaria occulta-se n'aquellas duas almas... Depois, Maria, como animada de forte resolução, encaminha-se para a fonte, passando pela frente de Judas, natural e serena. Elle seguiu-a com o olhar e quedou-se a contemplal-a. Maria põe a amphora sob a corrente d'agua, e espera que encha.

Os romeiros aproximam-se com o seu tanger plangente.

Dir-se-ía que uma lagrima resvalou no rosto de Judas, cujo olhar está agora fito no chão. Mas, por fim, com expressão de resignado, eil-o que se dirige para casa, onde entra a passos lentos.

A amphora transborda. Maria põe-na sobre o quadril e dá alguns passos. Parou: negro pensamento lhe atravessa o espirito; olha para as bandas da cidade com expressão de temor, como se d'ali podesse vir desgraça para algum ente querido... Entra depois em casa, serenamente, fechando a porta.

Os romeiros, cinco apenas, passam na estrada, tangendo os seus instrumentos, e vão-se afastando, afastando gradualmente, os sons sumindo-se pouco a pouco na distancia. A lua sobe com lentidão; paira em todo o quadro a quietação muda da Natureza adormecida...

Mas um vulto suspeito e cauteloso deslisa na sombra, e dir-se-ía que esse vulto é Benjamim.