JUDAS
Medonho!
—A infamia de Caím.
JOÃO
É proveitoso, e muito!
Feliz coincidencia! E eu que tinha o intuito,No que inda ha pouco ouviste em frase rude e chã,
De falar d'esse crime o qual desde manhã
Tanto me preoccupa.
Muito ironico:
Á tua consciencia
Não pode causar damno esta coincidencia...
És tão sincero, és tão leal e virtuoso!...
—Mas devo confessar-te...
JUDAS sereno e sempre sentado:
O quê?
JOÃO
Que estou ancioso
De ha muito por que tu expliques o motivo,
Que te obrigou a ser cruel e offensivo
Para quem te consagra uma affeição fraterna.
Exaltando-se pouco a pouco, mau grado seu:
O que possues em ti, Judas, que assim governa
O teu entendimento? É sempre em vão que eu scismo
No misterio que abriu na tua frente um abismo
Cercado de fataes e nús despenhadeiros,
Affastando-te assim dos nossos companheiros,
Sem que nenhum pezar lá dentro te remorda.
E indicando a corda com que prende a tunica á cintura:
Somos na união eguaes a esta corda,
Que as estrigas de linho unidas fortemente
Fizeram tão subtil, mas que é tão resistente.
Na sólida affeição, unificados, somos
Assim como n'um fructo os solidarios gommos.
—Desfia-se, porem, a corda, ao que parece;
E julgo ver no fructo um gommo que apodrece...
JUDAS com affectada bonhomía:
Chiméras, illusões...
JOÃO
Talvez.—Mas quando penso
Que o teu profundo mal pode tornar immensoO crime, e que será depois intempestivo
O arrependimento... Em summa, não me esquivo
A dizer-te o que tenho a corroer-me a entranha:
Nunca simpathisei comtigo; não se amanha
Com a tua frieza a ardencia do meu peito.
É por isto que eu sou dos Dôse o mais affeito
A observar-te.