SEGUNDA JORNADA

EM 9 DE NISAN

Estamos em casa de Simão de Bethania.

A casa de entrada é ampla. N'uma das paredes abrem-se as duas janellas tendo ao centro a porta; por ellas vemos o aprazivel sitio já nosso conhecido e a fonte d'onde a agua dimana. Na parede, que nos fica á direita, outra janella olha para Jerusalem e para a estrada que á cidade conduz; na da esquerda, pequena porta com trez degraus dá communicação para o interior.

Em volta da casa, a todo o comprimento das paredes, largo e baixo poial, onde existem em descuidosa promiscuidade varios utensilios da vida domestica, pratos, amphoras, onde o estilo ainda egypcio se revela; pequenos copos de barro pintalgados, almofadas de velho tecido da Syria, pedaços d'esteira de junco do Jordão. Não distante da janella fronteira á cidade, pequena meza redonda cercada de camilhas denuncía tambem a influencia do triclinio nos costumes da Judéa.

A lampada de cobre, que do tecto pende, tem ainda nos seus quatro bicos os morrões que a apagada luz na vespera deixara. É dia claro, festivamente bello; o sol dardeja e as cigarras vibram.

No triclinio trez homens estão deitados: Simão Pedra, Matheus e o Leproso. Comem vagarosamente restos de legumes e peixe secco temperados com oleo de oliveira doce, de que estivera cheio e amplo graal collocado no centro da meza. Duas infusas junto de Simão; pedaços de pão levedo em frente de cada commensal.

Não distante da porta, Judas está sentado no poial, as pernas cruzadas sob a tunica, e tendo nos joelhos um grande rôlo aberto onde lê attento as Sagradas Escripturas.

João, no limiar da porta, sem manto, a tunica á cintura aconchegada por uma velha corda de linho que foi branco, braços cruzados,—medita e lança de quando em quando olhares furtivos e penetrantes, que prescrutam Judas.

MATHEUS

De ha muito que não como, e sem lisonja o digo,
Um pão com tal sabor. Que saboroso trigo!
Não achas?

SIMÃO PEDRA

Fabricado em casa do Simão...

SIMÃO

Obrigado. Outro copo?

SIMÃO PEDRA

O vinho é de Ascalão.
Conhece-se a distancia apenas pelo aroma.

SIMÃO

Continuam a dar-lhe enorme apreço em Roma
Para onde vão toneis sobre toneis!

MATHEUS que n'um movimento de cabeça concordára e que bebera depois d'aspirar o bom perfume:

Pudera!
O amor entre os pagãos á embriaguez prospéra.

SIMÃO apresentando outra infusa:

Temos agora aqui magnifica cerveja.

SIMÃO PEDRA

De cevada?

SIMÃO

Não é.

MATHEUS

De peros?

SIMÃO

De cereja
Cultivada em Ramá.

Com sorriso amigo, Simão Pedra e Matheus estendem os copos para Simão que n'elles verte o nectar rubro e espumante. Cheio o seu, bebem os trez em silencio e com recolhimento.

SIMÃO PEDRA pousando o copo onde o olhar pensativo está fixando:

Olhae como é profundo
Este segredo!

MATHEUS

Qual?

SIMÃO PEDRA

Por um processo immundo,
Pela fermentação, consegue-se tirar
Da materia um licor tão grato ao paladar.

JOÃO que parecia estranho a tudo, fala emfim, com o olhar cravado em Judas, que continúa lendo:

Não acontece o mesmo a tudo que fermenta.
Ha certas podridões que geram peçonhenta
Bebida a que nem Deus o rude effeito acalma.
Entrando pela vista, é digirida na alma!
E sinto que n'esta hora a dôr que me aniquila
Provem d'esse veneno horrivel que distila
Muito perto de mim com lugubre misterio.
Inutil procurar um doce refrigerio,
Por que elle é semelhante á nodoa, que onde cae
Arredonda-se, alastra, afunda-se e não sae!

Judas ergue para elle o olhar inquiridor; mas João já se retirou para alem da porta e passeia em frente d'ella como para espairecer os negros pensamentos.

Judas voltou á leitura sempre silencioso.

SIMÃO quasi em segredo aos seus dois commensaes:

Nunca ouvi tal falar da bôca do João.

SIMÃO PEDRA tristemente:

E o caso é que tambem começo a achar razão
A tudo que elle diz.

Abandonam o triclinio reunindo-se junto da proxima janella, onde conversam em voz baixa sem que Judas possa ouvil-os.

MATHEUS

O Judas, francamente,No que hontem se passou, deu prova de demente,
Ou de infiel ao Mestre e cinico impostor!

SIMÃO

Hontem?

MATHEUS

Á noite.

SIMÃO

O quê? Dizei-me, por favor.
Não sei do que falaes.

MATHEUS

Passou-se tudo aqui.
Durante a ceia. Não ouviste?

SIMÃO

Não; sahi,
Mas foi por pouco tempo.

SIMÃO PEDRA muito confidencial:

Então eis o motivo...
—Durante toda a noite esteve pensativo
E por mais d'uma vez fugiu-nos á conversa
Com palavras banaes e frias. Tão submersa
Tinha em meditações a alma, que ninguem
Deixou de perceber...

SIMÃO

Percebi eu tambem
Que, muito mais que outr'ora, havia no seu rosto
A fiel expressão d'um intimo desgosto.

SIMÃO PEDRA

Maria, aquella honesta e bôa rapariga,
Desejando seguir a usança muito antiga
No povo do Senhor, a de render um preito
De sincera amizade e natural respeito
Ao viajante illustre a quem se dá guarida,
Abeirou-se da mesa, e, muito commovida,
Derramou sobre o Mestre um perfumado unguentoDe nardo puro. Então, infame sentimento
De Judas se apodéra. Em vez de prazenteiro
E alegre como nós, aquelle companheiro
Reputado fiel, só tem uma censura
Para galardoar a prova de ternura:
—«Melhor fôra, elle diz, que esse custoso nardo
Se tivesse vendido. Eu, que o dinheiro guardo,
Saberia guardar tambem zelosamente
A importancia da venda a todos pertencente,
Entregando-a depois em meu e vosso nome
Áquelles que teem frio e áquelles que teem fome.»

SIMÃO como assombrado:

Mas isso foi um insulto! E o mestre?

SIMÃO PEDRA

Respondeu
Brandamente, como é velho costume seu.

SIMÃO

Nem siquer suspeitaes a causa?

MATHEUS

Tarde ou cedo,
Alguem desvendará por certo este segredo.

E vão-se os trez para alem da porta, onde ficam ainda conversando, encaminhando-se por fim para mais distante.

JOÃO tinha voltado, e encostára-se a uma das camilhas, observando sempre Judas. Como não possa conter o que sente em si, aproveita o ensejo de estar a sós com elle para expandir-se. Começa, porem, em tom sereno, como procurando dominar-se:

O que estás lendo? O assumpto é grave, ao que supponho.
Reparo em que lhe dás toda a attenção.