JUDAS

Não creio!
A morte é vasto abismo...

MARIA, dogmatica:

Abismo, cujo seio
Não poderá conter o que era illimitado!

JUDAS acobardado:

Que dizes tu, mulher?!

MARIA em tom profetico:

Que dorme inanimado
O insecto no casúlo; ao sepulcro sombrio
Elle proprio deu forma, urdindo-o, fio a fio,
Vagaroso, em silencio, estranho ao mundo vário,
Como o trabalhador que não requer salário
E que só tem por fim realisar o plano
De ha muito concebido. Em vão o olhar humano
Procura descobrir o que existe no centro
Do casúlo: o misterio é silencioso dentro.
Mas depois, certo dia, o homem vê, absôrto,
Que o sepulcro é aberto e não encerra o morto!

JUDAS tomado de vago terror:

Justos ceus!

MARIA animando-se:

Has de vêr, com a tua alma inquieta,
Saír do seu casúlo a enorme borboleta,
Que n'esta hora talvez as palpebras descerra,
Encher de luz o espaço e de pavôr a terra,
Da grandeza de Deus ser vivo testemunho...

JUDAS trémulo:

E caír sobre mim co'o azorrague em punho!

MARIA terrivelmente:

Emquanto não voltar, os olhos do covarde
Hão de vêl-o assim como hontem o vi á tarde:
Co'o respirar opprésso, o corpo no madeiro,
Nas angustias da morte, a olhar-te, justiceiro!

JUDAS caminhando d'um para outro lado, desvairado:

Não pode ser, não creio...

MARIA perseguindo-o:

Ha de falar-te, Judas,
Á tua consciencia abjecta!

JUDAS tentando occultar o rosto:

Não me illudas,
Que eu nada vejo!

MARIA erguendo o braço:

Vês pairando sobre ti
O Remorso, o fantasma eterno!...

JUDAS que seguira com o olhar o movimento de Maria, fixa-o na muralha, e apontando tambem, trémulo, allucinado:

Ali! ali!
Co'aquelle olhar azul que a morte mais esfria!
Ergue a fronte... descerra os labios... Ah! dir-se-ia
Que vae falar-me!—Oh! cala-te! Fui eu
Que te entreguei, ó Mestre, ao inimigo teu!
Não me accuses, que sinto em mim a accusação;
Tem os dentes da cobra e as garras do leão!
Anda aqui dentro—ouviste?—a esfarrapar-me todo!
Fica-me pôdre o craneo, e o peito fica em lôdo,
Para ser tão nojenta a apparencia que eu tome,
Que nem os proprios cães matem comigo a fome!

E apontando de novo, como um vidente:

O respirar opprésso... o corpo no madeiro...
Nas angustias da morte a olhar-me justiceiro...
Exactamente!—Eléva os olhos para os ceus;
A agonia final chegou: fala com Deus...
A cabeça descae no peito: vae morrer...

E n'um grito dilacerante, fugindo para junto da caverna:

Ai! não! deixa-me em paz! Não! não! Não quero vêr!

E resvalando o corpo ao longo dos penhascos, cáe de bruços no chão, o rosto occulto nas mãos, gemendo, offegante.

MARIA mais compadecida agora, mas com a voz repassada de austeridade:

Insultáste-me ha pouco ainda. Eu tudo esquéço.
Tenho a razão bem clara, e tu és um possésso.
Quanto ao Mestre, lá tens em ti a accusação...
A tua alma está sendo, ó torpe vendilhão,
Passiva e sem vigor n'este fatal momento
Assim como o enforcado a baloiçar ao vento...
—Adeus.

E entra na cidade vagarosamente, sem olhar para traz.

Ha um grande silencio entrecortado apenas pelos gemidos mal suffocados de Judas. Pouco a pouco, vão-lhe voltando as forças, e então

JUDAS erguendo a cabeça e como acordado pela impressão que no seu espirito deixaram as ultimas palavras de Maria:

«O enforcado?...»

E ergue-se com custo. Interrogando a sua consciencia:

Emfim para que existo?

Pensa. Tendo apoiado a mão direita na cintura, o contacto da corda com que cinge a tunica desperta-lhe a attenção e aviva-lhe na memoria aquellas palavras de João que elle repéte machinalmente:

«As estrigas de linho...»

E prevendo o effeito:

Um laço... um nó...

Resoluto:

—É isto!

Então, desatando a corda, dobrando-a em duas, formando um nó corredio, vae monologando, febríl, nervosa, sêccamente:

Para que hei de fugir, ouvindo a cada instante
Correr atraz de mim um grito retumbante
E vingador? Fugir?... Sob o azul dos ceus
Quem pode combater a cólera de Deus?
Inda que fuja sempre, eu sempre retrocedo,
Porque é fugir do Eterno o mesmo que estar quedo!
Não fugirei!—Se fico, atrocidades cruas...Hei de ser arrastado ahi por essas ruas,
Padecerei do povo horríficos flagellos:
Vir alguem arrancar-me os olhos, os cabellos,
E transformar em lama o corpo do homicida!
—Não! Prefiro morrer... por ter amor á vida!

De súbito, n'um grito de independencia, muito egoista:

Eu prefiro morrer! Que se escancáre o espaço
Da treva! Sim, ó Morte, eu quero o teu abraço!
A maldição eterna o Eterno em mim derrame-a!
Que importa! Serei grande até na propria infamia!

Allucinado novamente:

Odeio-te, Virtude! odeio-te, Verdade!
Renego do respeito e amor á Divindade!
Eu creio só na Morte... e basta-me esta corda!

E ri, ri convulso. Batendo com a mão no peito:

Álerta, monstro! Olá! monstro hediondo, accorda,
Para insultar a Vida, essa madrasta bruta,
Que faz d'uma alma honesta uma alma dissoluta!
E tu, ó Mundo, pae d'este animal disforme,
Vem lançar-lhe no corpo o teu escarro enorme!

E desapparece por entre os penhascos, correndo doidamente.

É já manhã clara: o horisonte purpurisa-se e doira-se. Chilreiam passarinhos não distante. No Templo começam os canticos matutinos, e as vozes das mulheres e das creanças chegam até nós em plangente e languida melodía. Calam-se de súbito os gorgeios e paira em todo o ambiente grande serenidade, como se toda a Natureza estivesse escutando.

João apparece á porta da cidade seguido por Gamaliel, Simão Pedra, Eleazar, Simão de Bethania e por mulheres, homens e creanças. Caminham todos silenciosamente, respeitosos, para ouvirem o novo profeta. Vem João apenas com a tunica, descalso, a cabeça e o peito a descoberto, os braços cruzados, o olhar em extasi. Chegados á parte superior do pequeno oiteiro, João parou. Os companheiros ficam junto d'elle. As mulheres com os filhinhos ás cavalleiras nos hombros, ao uso oriental, tomam para a direita, e os homens para a esquerda do terreno inferior; sentam-se no chão, já secco pelo vento, formando um semi-circulo em frente do profeta novo. Sentaram-se tambem os companheiros. O vulto de João, destaca-se fortemente do horisonte rubro, onde o sol vem rompendo, triunfal.

E é então que

JOÃO solta a sua voz inspirada de orador apocalyptico, de gesto amplo e vigoroso, emquanto muito ao longe os canticos proseguem:

Quem tem ouvidos, oiça o que Elle manifesta!
Elle é o Omnipotente; Elle o principio e o fim;
Elle quem libertou da escravidão funesta
O povo d'Israel... Elle descansa em mim.
Elle é o Omnipotente! Elle o principio e o fim!
Seja bemdito quem ouvir e conservar
As palavras que encerra a minha profecia!
Quem tem ouvidos, oiça! e purifique o olhar,
Porque já não vem longe o tenebroso dia
Em que todos vereis a minha profecia!
—Despenham se na terra os astros refulgentes;
O Sol veste de negro, a Lua é côr de sangue;
Varíam de logar ilhas e continentes;
A Grandeza estremece e vem caír exangue...
O Sol veste de negro, a Lua é côr de sangue...
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Escripto em 1888-1890

Acabado de imprimir aos 5 dias do mez d'Outubro de 1901 na Imprensa de Libanio da Silva Rua do Norte, 87 a 103

Lisboa

Nota do transcritor:

Foram corrigidos diversos erros tipográficos. Na lista que segue estão as alterações mais importantes.

Pág.OriginalCorrigido
20abnadonam Mariaabandonam Maria
18Pois eu sou touPois eu sou tão
25JÕAO PEDRA, com o braço direitoSIMÃO PEDRA, com o braço direito
30a aragem fresca e permadaa aragem fresca e perfumada