JUDAS
Inda não é bastante
Odiar-te! Se de ti fizesse minha amante,
Como eu satisfaria este voraz desejo:
Ferindo em cada olhar, mordendo em cada beijo!
Que ventura, meu Deus! sermos no crime os dois,
Fruir o teu amor, e arrojar depois
O teu corpo e a paixão de que hoje ainda te nutres
Aos ventres bestiaes dos ávidos abutres!
—Mulher, posso matar-te! Ao largo! tenho medo!...
MARIA muito calma:
P'ra sempre guardarei, Judas, o teu segredo:
O mundo é tão cruel que aleives não reprime,
Se junto da virtude elle descobre o crime.
Mas entretanto... foge!
JUDAS rindo febril:
Acaso me suppões
Tão cobarde que vá fugir sem ter razões
Mais fortes que o teu odio e a tua hypocrisia?
MARIA
E se o Mestre voltar?
JUDAS rindo:
Que doida fantasía!
MARIA
Se o visses novamente?
JUDAS de subito receioso:
Eu? vêl-o?