QUARTA JORNADA

EM 15 DE NISAN

Estamos n'um dos sitios mais tristes e isolados junto da muralha de Jerusalem. A denegrida alvenaria sobreposta é como gigantea molle, á indecisa luz da madrugada. Ceu torvo, onde as nuvens carregadas desfilam mansamente.

Das juncturas das pedras da muralha pendem aqui e alem longas hervas parasitas balouçadas pela aragem fria, e que parecem, á frouxa luz, corpos sem vida de suppliciados.

Abre-se na muralha pequena porta, á qual se chega por tortuoso e natural caminho, que, não distante d'ella, passa por sobre um pequenino outeiro. Parallelamente á muralha, alonga-se uma continuidade de penhascos onde os cardos vegetam, e algumas figueiras bravas se contorcem rachiticas. Junto ao sólo, uma caverna abre a sua negra fauce misteriosa.

Para alem do pequeno outeiro comprehendido entre a muralha e os penhascos, mal distinguimos ainda o horisonte vasto, árido, sêcco, argiloso e triste.

Choveu. Pairam no ambiente exhalações humidas. Relampagos fuzilam de quando em quando; os distantes trovões ribombam roucamente.

A custo o dia vem rompendo; os galos cantam ao longe, ao desafio.

O ultimo relampago deixou nos vêr junto da porta um soldado romano que é Ampío, fazendo sentinella. Sob a arcada dois vultos estão deitados: são Lauso e Fábio, tambem soldados de Tiberio, porque as sentinellas foram reforçadas na vespera por ordem de Poncio.

AMPÍO, tocando com o pé no corpo de um dos que dormem:

Erguei-vos, camaradas, pois não deve
O negro deus do somno tal imperio
Exercer sobre vós, quando do Olympo
Cáem com furia as cóleras de Jove.

LAUSO accordando:

Novamente começa a tempestade?

FÁBIO, erguendo-se logo; voz de homem dado ao alcool e praguento:

Foi aquelle patife do Vulcano,
Que lhe enviou fornecimento novo.

LAUSO erguendo-se:

Pois ainda troveja?

AMPÍO

Muito ao longe.

FÁBIO

O peior é que Phébo, com certeza,
Não vem tão cedo.

AMPÍO

Os galos já cantaram
Das bandas do Levante, amigo Fábio.

LAUSO

Olha! alguem se dirige para aqui.

FÁBIO rindo:

Talvez seja Noctifer, deus das trevas.

E os trez esperam, encostados ás lanças. São seis miseros mercadores avergados ao peso de seus fardos. Quando chegaram em frente dos soldados.

UM MERCADOR em tom submisso:

É permittida a entrada aos mercadores?

AMPÍO

A dúvida, meu velho, está sómente
Em pagarem tributo ao publicano.

O MERCADOR

Decerto que pagamos, como é de uso;
Mas quando vi trez guardas junto á porta.
Fiquei suppondo alguma novidade...

AMPÍO

Pois quê! não morreu hontem o profeta?
Nada mais facil do que haver rebeldes...
Conhecemos a vossa grande astucia
E o vosso rancor, judeus malditos!

O MERCADOR por entre dentes:

Maldita Roma!...

FÁBIO com uma risada alvar:

Eh! lá! Vê como falas,
Que o teu rei já não vive!

O MERCADOR muito seccamente:

Da Judéa
Ha muito que fugiu a realeza!

E os mercadores entram na cidade, seguidos pelos trez soldados que d'elles chasqueiam.

A tempestade vae acalmando; as ultimas nuvens passam mais serenas. Um vulto d'homem arrasta-se, vagaroso, para fóra da caverna, como se fôra um animal silvestre. A custo saíu e a custo distendeu, para se erguer, os membros entorpecidos. É Judas. Traz sobre si a tunica sómente, esfarrapada e suja; cabeça a descoberto, o corpo enlameado, os pés descalsos.

JUDAS, que permaneceu por longo tempo com o olhar erguido para o ceu, a voz muito enfraquecida:

Vem o dia a nascer das regiões eternas.
Depois de ter lançado as iras justiceiras,
O grande firmamento agora é mudo e quedo.
Na penumbra, os chacaes regressam ás cavernas,
E vão pedir a noite ás fendas do rochedo
As aves agoureiras.

E olhando para a caverna d'onde saíu:

Nunca tornes a ouvir o minimo sussurro,Ó treva de amargura e negras maldições!
Ó antro, que animei co'o halito do crime,
Cae de novo em mudez! As aguas do enxurro
Hão de lavar-te ainda, ó meu algoz sublime,
Das tectricas visões!

Com a cabeça apoiada n'uma das mãos e o cotovello na outra, move-se com passos incertos, indecisos. Senta-se n'um monticulo de pedras; e depois, como reconstruindo mentalmente o que se passou na ante-vespera:

Estavam a dormir ao pé das oliveiras,
E a Lua derramava em cheio nas clareiras
O argentino olhar, o seu formoso pranto.
Fui na frente da escolta, e ao avistar-lhe o manto,
Caminhei para elle. Ergueu-se, olhou, sorriu...
Mas ficou-se indeciso apenas descobriu
Dos archotes a luz na solidão campestre.
—Adiantei-me. «Deus seja comtigo, Mestre.»
Fitou-me silencioso. Aproveitando o ensejo,
Dei-lhe a mão desleal, e um repellente beijo
Depuz n'aquella face imperturbavel... Ai!
Co'um latido feroz toda a matilha sae
Da sombra do arvoredo e cerca-o n'um momento!
Aos amigos leaes occorre o pensamento
Heroico de empregar a força. A gritaria
Desperta o olival da funda lethargia.
Cresce o tumulto. Um ferro ergue-se ameaçador...
Contra mim? Não sei bem, porque me invade o horror.
Por entre a ramalhada, aos pios, uma c'ruja
Espavorida vae dizendo-me que fuja.

E erguendo-se de chofre, animando-se:

Percorro velozmente os grandes olivaes;
Quando abandono a sombra, entro nos matagaes;
O manto esfarrapado o rasto meu indica,
Depois a propria carne! A alma, porem, não fica,
Pois se olho para traz, sobre a verdura espessaPersegue-me, a rolar em sangue, uma cabeça.
Termina de repente o estenso matagal,
Foge-me a terra, e vou caír n'um tremedal
Onde tenho uma lucta encarniçada e louca:
A lama em borbotões entra-me pela bocca,
Os limos que eu encontro agitam-se irrequietos,
Voam por sobre mim, zumbindo, mil insectos,
Fogem nuvens de rãs para logares occultos,
E o seu coaxar parece arremetter insultos!
Mas saio vencedor e a terra firme alcanço;
Então quero parar... mas corro sem descanso.
As forças vão fugindo, e julgo que do peito
O coração rebenta exanime e desfeito!
Não se demora o rio: é tempo emfim! D'um alto
Vejo a Lua a brilhar no espelho da agua; salto,
Alheio á dôr do corpo, e emquanto vou nadando
Sinistramente ao longe um lobo fica uivando.
Chego á margem; depois entro por um atalho
Escuro e pedregoso onde caíu o orvalho...
Afinal, afinal, ó grande Deus, consigo
Descobrir de repente o mais seguro abrigo!

Abeirando-se da caverna:

Sem saber onde estou, a estremecer d'horror,
Esfarrapado, ardendo em febre, sem vigor,
Ouvindo sempre ao longe uns gritos de tortura,
Venho enterrar-me aqui, na treva da amargura,
Onde encontro por fim, núas e desgrenhadas,
A Consciencia a chorar, a Infamia ás gargalhadas!

Ri convulso, com a cabeça entre as mãos. E o écho da caverna responde-lhe longamente...

Depois de grande silencio, solta um suspiro d'alívio, e, com os braços pendentes, a cabeça descaída sobre o peito:

Eliminei a causa, e agora nem procura
A minh'alma saber se existe ou já não duraO effeito. Um assassino é o que vejo em ti,
Judas!

Apertando na mão um pequeno sacco de coiro que em si guardava.

O coração refugiou-se aqui
Transformado em dinheiro. É prata reluzente,
Mas se queres vêr sangue, enterra n'elle o dente!
E falas de ambição, tu que possues a marca
Das filhas sem pudor do velho patriarcha!...
Relembras o incesto horrendo de Thamar,
E o crime de Ruben, que ousou enxovalhar
A honra de seu pae no leito da madrasta!...
E falas de ambição, tu, cuja voz arrasta
Em de redor de mim o grande amontoado
Das velhas podridões da carne e do peccado!

Ferido por um rapido pensamento:

—Vou arrojar ao Templo este dinheiro infame,
E talvez que o Senhor o seu perdão derrame...

Mas detendo-se, hesitante:

Tenho medo... não sei...

E supersticioso:

Era de madrugada
E eu ia caminhando em terras d'Ephraím
Quando um sapo surgiu d'entre risonha mésse
Para vir espreitar meus passos junto á estrada.
Esmaguei o!—Se alguem agora me fizesse
A mesma cousa, a mim?

Compadecído:

Meus olhos, vêde a luz que o firmamento inunda,
Que a luz tambem se fez para os olhos da serpente!
Rasteja para longe, ó animal mesquinho,
Deixando atraz de ti a escuridão profunda...Rasteja para longe... e ségue o teu caminho
Silenciosamente...

A passos lentos, vae-se, costeando a muralha até dobrar o angulo que ella fórma.

Duas mulheres, com os rostos occultos por densos véos, sáem da cidade. Alguns passos dados, páram como avergadas pelo cansaço ou pela dôr. São Maria de Bethania e sua irmã Martha.

MARIA com o braço pela cintura de Martha, e a voz muito suave e muito resignada:

Fica perto da cidade
O sepulcro: é no jardim
Do José d'Arimathéa.
Ao aroma do jasmim
Casa-me o aroma da rosa...
É tudo meigo e silente
N'aquelle triste remanso
Onde elle dorme. A corrente,
Que vae regar os pomares,
Tem uns murmurios tão doces
E tão cheios de misterio...

MARTHA

Maria, irmã, se tu fosses
Contaminar o teu corpo?
É prohibido na Lei
Ir a um sepulcro...

MARIA

Decerto...

MARTHA

É um crime.

MARIA

Sim; bem sei.
Mas devo eu conjecturar
Que os negros vermes da terra
Contaminem moradia
Que tanto perfume encerra? As borboletas sómente,
Aereos beijos de amor,
Hão de poisar junto d'elle
Como poisam n'uma flôr,
Indo contar em seguida
Aos espinhos do balseiro
Quanta fragancia divina
Exhala aquelle canteiro.
... Ao passo que eu viverei
Na grande dôr do meu pranto,
Como a aranha silenciosa
Que fez a teia n'um canto.
—No ceu da minha existencia
Pairavam tranquillamente
Dois flócos de nuvem, que era
Como o fumo transparente...
Andavam pairando assim
Despreoccupados os dois,
Para ao sopro d'uma aragem
Se desfazerem depois...
Fumo illusorio que sobe
Mansamente pelo ar
E que se esvae n'um instante
P'ra nunca mais se juntar...

MARTHA

Ó minha irmã!...

E abraçadas, com as frontes reclinadas no hombro uma da outra, soluçam longamente.

Vem então da cidade outra mulher, que pelo trajar romano logo se reconhece ser Claudia.

CLAUDIA chegando junto de Maria e Martha, cujos rostos se conservam occultos, pára; e depois, poisando a mão no hombro de Maria, diz com voz muito meiga:

Porque choras?

MARIA que se voltou, reconhecendo-a e baixinho á irmã:

Ella?!

MARTHA receiosa:

Claudia!...

CLAUDIA

Que motivo
Gerou no teu seio a Dôr,
A negra mãe do gemido?
Conta-me tudo, mulher.
—Morreu-te um filho, o esposo,
Ou um irmão...

MARTHA ao ouvido de Maria:

Oh! meu Deus!
Como o seu falar é outro!

CLAUDIA

Tambem eu soffro ha trez dias
D'um enorme soffrimento,
E quero que na cidade
Fiquem todos conhecendo
Quanto Claudia é bondosa,
Claudia, que o povo despreza,
E quanto chora tambem
Pela morte do Profeta.

MARIA absôrta:

O que oiço!

CLAUDIA

D'uma mulher
Taes lamentos recebi,
Que um novo ser despertou
De chofre dentro de mim.
Sonhei depois, e que sonho!
Nem mesmo o posso contar...
Tão cheio de quietação,
De suavidade e de paz,
Que fiquei por muito tempo
Absorta, de madrugada,
Ao construir na memoria Todo o sonho que sonhara.
—Eu fugira para longe,
Para um paiz tão distante,
Que este mundo em que vivemos
Não me ficava ao alcance;
E alguem cercado de luz
E de meigas creancinhas
Veio alegre ao meu encontro
Nas paragens infinitas...

MARIA

O que te disse?

CLAUDIA

Não sei...
Apenas sei que, accordando,
Não conheci a minh'alma
Transformada por encanto;
E por que um plano de morte
Estava urdido em segredo
Contra o bondoso Profeta,
Logo intentei desfazel-o,
Supplicando a meu marido
Que em seu favor empregasse
Todo o auxilio. Impossivel!
A suprema divindade
Caíra em somno profundo
No seu grande leito azul,
Deixando que o Nazareno
Expirasse n'uma cruz!...

MARIA baixinho á irmã:

E eu que ainda a accusava!...

CLAUDIA

A minha dôr reparti
Comtigo; deves portanto
Confiar tudo de mim...

MARIA espansiva:

Para quê, se tudo sabes?

CLAUDIA

Tudo sei?...

MARIA

Pois que em Judá
Nenhum rosto de mulher
Por mais ninguem chorará
N'este momento.

CLAUDIA

Por Elle?

MARIA animando-se:

Sim, por Elle, Homem-Misterio,
Que voou, como o aroma
Da pobre rosa pendida
Sobre a haste, dolorida
Pela mágua da saúdade...
—Vinde comigo, mulheres,
Orvalhar co'o vosso pranto
A boceta em que dormita
Aquelle celeste encanto.
Ide colher á campina
Braçados de malmequeres,
D'alfazema e rosmaninho,
E vinde, vinde comigo
Dispol-os naquelle ninho...
E vós, ó mães, que trazeis
No ventre o fructo do amor,
Purificae-o aspirando
O perfume e o calor,
Que se evolam brandamente
Do sepulcro sorridente,
Como as nuvens que perpassam...
... Fumo illusorio, que sobe
Com lentidão pelo ar, E que se esvae n'um instante,
P'ra nunca mais se juntar...

E cala-se, a voz estrangulada pelas lagrimas.

CLAUDIA suspeitosa:

Estas palavras?... Judía,
Impossivel existirem
Dois corações como o teu!

MARIA

Já não o tenho: morreu.

CLAUDIA

Como te chamas?

E vendo o rosto de Maria que se desvelára:

Maria!

MARIA caíndo de joelhos e beijando-lhe as mãos:

Sim! que se roja a teus pés
Humildemente contricta,
Para dizer-te: mulher,
Sê bemdita, sê bemdita!

CLAUDIA com a voz cheia de bondade, obrigando Maria a erguer-se e abraçando-a:

Ergue-te, ó alma sublime,
Que encheste de luz a treva
E que tiveste o condão
De abafar a voz do crime
Co'o soluço do perdão.
—Tambem eu ia levar-lhe
O meu pranto dolorido
Como nunca tive igual.
És a mulher que fugiu
Para o reino do Ideal...
A terra é muito mesquinha,
E o vôo da andorinha
Convida a voar tambem...

Cingindo com os braços Maria e Martha:

Partamos, sim, pela estrada Que nos conduz ao misterio.
Sorri ao longe a alvorada...
Vamos tranquillas, serenas,
Bater a cada poisada,
E sejam nossas palavras:

Levando-as comsigo docemente:

Vinde comnosco, mulheres,
Orvalhar co'o vosso pranto
A boceta em que dormita
Aquelle celeste encanto.
Ide colher á campina
Braçados de malmequeres,
De alfazema e rosmaninho...

E vão-se as trez pela estrada a caminho do sepulcro.

O firmamento agora é limpo. Raras estrellas brilham ainda. A luz da madrugada define-se, e a brisa traz os perfumes dos vergeis e trigaes de Gethsemani. Por um pequeno atalho cinco homens avançam para a cidade: João, Gamaliel, Simão Pedra, Eleazar e Simão de Bethania. Todos denunciam no andar e no rosto o abatimento moral em que se encontram, a irresolução, o receio. Chegados em frente da muralha:

SIMÃO PEDRA que viera junto de João:

Não entres na cidade...

ELEAZAR

És muito conhecido.
O Conselho não tem desviado o sentido
Dos amigos do Mestre.

SIMÃO

Olha que talvez pense
Em prender-te, e depois nada ha que recompense
O inutil sacrificio.

SIMÃO PEDRA

Ao teu valor opponho
Todo o meu raciocinio.

JOÃO que ficára immovel olhando para a muralha da cidade:

Ainda julgo um sonho!...

GAMALIEL encostado ao bordão, a meia voz, rancoroso:

Sobre a cruz aviltante, assim como o homicida,
Como o escravo traidor, como o ladrão!...

JOÃO irrompendo:

Ó Vida,
E continúas tu dando vigor a quem,
Depois de infamia tal, dorme em Jerusalem!
Profetas de Sião, da campa alevantae-vos
Para escrever ali com sanguinarios laivos
Esta nefanda historia, este inarravel crime!
Dobrae Jerusalem, como se dobra um vime,
E que a mão do Senhor, terrivel, iracundo,
Em látegos crueis com ella açoite o Mundo!

SIMÃO PEDRA

Co'a doutrina do Mestre o odio não se casa...

GAMALIEL por entre dentes:

Mas tambem cicatriza a f'rida o ferro em braza!

JOÃO desalentado:

E assim tudo acabou!...—Saúdosa Galilea,
Onde sorris tranquilla, ó minha pobre aldeia!...
Quantas recordações do teu ceu, do teu ar,
Dos dias que passei no teu sereno mar,
Das noites que dormi na relva da campina,
Tão descuidoso! Mãe da excepcional doutrina,
Que encheu d'enthusiasmo e risos seductores
As almas infantis d'ingénuos pescadores,
Fazendo-os caminhar atraz d'uma visão,
Confiados, como vae por entre a cerração
A barquinha velleira ao descobrir farol!
Prados, que sois jardins, e onde o rouxinol
Canta serenamente em noites estivaes;
Macieiras em flôr; regatos que passaes,
Ondeando, como ondeia á brisa, levemente,Da aldeã virginal a trança refulgente...
Montanhas de Nain; e tu, ó grande monte,
Que te elevas no fundo azul do horisonte,
Redondo como um seio a amamentar os astros...
Meigo Genezareth, campos, cabanas, mastros,
Rochedos, alcantís, seáras e pastagens,
Que bordam a primor tuas alegres margens...
—Eis aqui finalmente a horrivel derrocada!
A solida affeição dos Dôse feita em nada;
A cegueira vencendo; a Luz amortecida;
A tripudiar em nós um ladrão homicida;
E eu, no meio de tudo, extactico e absôrto,
Buscando o olhar de Deus na pallidez d'um morto!...
—E assim tudo acabou!

GAMALIEL avançando para elle nervosamente:

Quem fala de acabar?
O fogo ainda não se extinguiu no altar
Da nossa consciencia, e os rubros holocaustos
Onde fomos depôr as almas ainda exhaustos
Não deixaram de todo os nossos corações!

JOÃO desanimado:

Que havemos de fazer?...

GAMALIEL animando-se e animando-o:

Povos, religiões,
Autoridades, leis, é tudo movediço
E débil como ao sôpro um tímido aranhiço!

SIMÃO PEDRA

Queres dizer então...

ELEAZAR

A lucta?!

GAMALIEL

Braço a braço,
Não se deve luctar. Seria um erro crasso
Instituir o Bem co'o ferro. Não! Deixae
Esse erroneo principio aos filhos de Schammai!

JOÃO erguendo-se:

O que pensas?

GAMALIEL

Que chega a ser um attentado
Á memoria do Mestre abandonar o arado
Com que elle andou lavrando a consciencia humana!
Eu quero a lucta, sim, mas nunca a lucta insana,
Que esfria os corações e purpurisa as ruas!
Não quero vêr brilhar ao sol espadas nuas!
Impiedades brutaes, odeio-as e renego-as!

SIMÃO PEDRA

Mas faláste de lucta.

GAMALIEL

Humilde, mas sem trégoas;
Branda, mas incisiva; humana... mas divina!
Como arma, aquelle dom secreto que extermina,
Ferindo os corações sem que haja soffrimento.
Ruge, como o trovão e géme como o vento,
Murmúra como a fonte e estála como o raio,
Tem a ardencia do fogo e a alvura do desmaio;
Dolente, acaricía; em furias, escalavra!
Esta arma triunfante, esta arma...

JOÃO com o olhar brilhante:

É a palavra!

Mas logo receioso:

Falar ás multidões...?

SIMÃO PEDRA tambem receioso:

Continuar...?

GAMALIEL

Decerto!
Entrando no porvir que Elle deixou aberto.
Pois que o Mestre morreu, a alguem cumpre seguir
O caminho traçado entrando no porvir,
E esse alguem és tu!

JOÃO n'um sobresalto:

Eu?

ELEAZAR abraçando-se n'elle, espansivo:

Sim, João!

SIMÃO incitando-o:

Ninguem
Melhor que tu!

SIMÃO PEDRA secundando já agora Gamaliel:

Qual é de nós o que mais tem
O verbo inspirador, altivo e fulgorante?

JOÃO indeciso:

Simão, Gamaliel, amigos... Ai!

GAMALIEL

Ávante!

ELEAZAR

Para gloria do Mestre!

SIMÃO

E gloria tua!

SIMÃO PEDRA

E nossa!

GAMALIEL

É bella a occasião...

JOÃO

E quem vos diz que eu possa?...

SIMÃO PEDRA

Serás novo profeta, aproveitando o exemplo...

GAMALIEL agarrando João por um braço:

Vão começar agora os canticos no Templo.
Anda comnosco!

ELEAZAR

Vem!

SIMÃO PEDRA

Sê forte!

GAMALIEL querendo arrastal-o comsigo:

N'um instante,
De povo te verás cercado...

JOÃO n'uma grande espansão:

Ávante! Ávante!
É preciso arrancar ao morbido lethargo.
A doutrina do Mestre!

GAMALIEL em doida alegria:

Emfim!

JOÃO cheio de ardente enthusiasmo messianico:

É meu o encargo!
O caminho do Bem eu vejo, como outr'ora
A escada de Jacob á luz da meiga aurora.
Por ella vae subindo um côro triunfal
Proclamando no Espaço o amor universal
E a guerra sem clemencia ás abjecções e ao vicio.
Ávante! Não desabe o sólido edificio
De que o Mestre assentou as bases! O thesoiro
Da palavra, caíndo em grande chuva de oiro,
Enriqueça de novo a consciencia humana!
Inspira-me, Senhor! a minha estrada aplana!
Tu, que fizeste a luz, tu que fizeste o dia,
Uma scentelha só do genio teu envia
Ao meu cerebro! Dá-me a força necessaria
Que torne a minha voz da tua a emissaria!
—Vamos, Gamaliel!

GAMALIEL como n'um grito de rebelião, avançando para a cidade:

Gloria ao profeta novo!

JOÃO vibrantemente:

Dou a minha alma a Deus, e a minha vida ao Povo!

Entram todos na cidade, ouvindo-se logo a voz de

GAMALIEL bradando:

Negra Jerusalem, escuta, ó assassina,
D'aquelle que morreu a divinal doutrina!

E depois, mais distante:

Ouve, Jerusalem, que matas os profetas,
As palavras que são do teu Senhor dilétas!

E os brados do velho doutor da Lei proseguem por longo tempo cada vez menos distinctos, á medida que o grupo se interna pelas estreitas e tortuosas ruas da cidade.

No entretanto, Judas voltou do Templo em cuja caixa fôra lançar o dinheiro da traição, e quedou-se encostado á muralha junto ao angulo. D'ali ouvira as ultimas palavras de João e os brados de Gamaliel.

JUDAS com desdem:

«Gloria ao profeta novo!»—Insensatos! João,
Vaes procurar a Morte! E eu... a expiação!

Toma pela estrada e n'ella caminha, affastando-se da cidade, mas, vendo alguem que se approxima, recúa e estáca.

Maria?!

MARIA parando tambem:

Judas!

JUDAS, desvairado:

Ah! cobarde salteador
D'estrada! Vens talvez trazer o teu amor?
O olhar, que seduzia, infunde repugnancia!
O hálito d'outr'ora, a virginal frangancia,
Que me embriagava, enója! Hálito, corpo, olhar,
Ao largo! Vae, mulher! Não poderei amar
A carne do meu crime! Odeio-te!

MARIA, reposta da primeira impressão, serenamente:

Não vim
Trazer o meu amor.