PROLOGO
As sciencias historicas e sociaes transformam-se actualmente sob o poderoso influxo dos factos, principios e methodos das sciencias da natureza. A archeologia é a principal das vias por onde se opéra esta grande transformação. Relacionada por uma parte com a geologia, a paleontologia e a anthropologia, e por outra parte com a historia, tem aproximado, attrahido, ligado estas sciencias que a differença das idades e dos methodos respectivos por tantos annos conservára afastadas e independentes umas das outras.
A tradição e a auctoridade d’aquelles que o precederam guiam e esclarecem o historiador. Ao naturalista falta-lhe a tradição; tem apenas os vestigios dos factos para os explicar e relacionar; mas, por isso mesmo, afaz-se a observar, analysar, comparar e induzir com toda a força que dá o exercicio ás faculdades intellectuaes, e com a independencia a que o espirito humano se habitua, desprendido inteiramente de opiniões antecipadas e de systemas preconcebidos. O historiador principia pelo mais antigo dos factos que a tradição refere, e deduz depois chronologicamente todos os outros até chegar á actualidade. O geologo segue o caminho inverso; começa pelos factos contemporaneos e, induzindo do conhecido para o desconhecido, interpretando pelo presente o passado, remonta-se, de vestigio em vestigio, até á origem da terra. Ninguem lhe contou, ninguem deixou escripta a historia do planeta que habitamos. É elle quem a cria, quem a inventa, observando e interpretando os vestigios materiaes dos factos que lhe revelam na sua evolução incessante as phases principaes da vida do globo. Os documentos que a natureza offerece ao naturalista não exprimem senão a verdade rigorosa e exacta. Os documentos que o historiador aprecia, traçados por mãos humanas, muitas vezes a desfiguram e falseam. Mente o homem, a natureza não.
As condições do archeologo que estuda as epocas prehistoricas são identicas ás do naturalista, e como naturalista ha de proceder se quizer chegar ao conhecimento da verdade. Em primeiro logar falta-lhe inteiramente a tradição verbal ou escripta; tem de cingir-se á significação exacta e rigorosa dos vestigios que observa. Em segundo logar a qualidade d’estes vestigios, o modo como se encontram nas camadas superficiaes da crusta da terra, os restos fosseis que lhes andam associados, fazem da archeologia prehistorica uma como parte da paleontologia humana. Aqui pois desapparece de todo a differença entre o archeologo e o naturalista.
Na archeologia dos tempos historicos, com quanto se considerem já os factos á luz da historia, subsiste todavia, como elemento essencial da interpretação d’elles, a analyse dos monumentos, a apreciação dos productos da arte, correspondentes em cada seculo aos fosseis ou aos outros vestigios em que o geologo, á força de observar e comparar, chega a constituir e a lêr a historia da terra. O historiador não póde pois deixar de ser archeologo; tem de aproveitar-se das luzes que a archeologia lhe presta; e não raras vezes acontece indicarem-lhe os monumentos a verdade alterada pela tradição. Não ha muitos annos, por exemplo, que a historia nos representava os wisigodos como gente que não chegara a cultivar as artes. As descobertas de alguns capiteis em Toledo e do thesouro de Guarrazar corrigiram a falsidade historica, mostrando-nos até que ponto elles se elevaram na esculptura da pedra e dos metaes, e tambem na architectura, porque de certo não fabricariam esplendidas coroas votivas de ouro e de pedras preciosas, nem esculpiriam delicados capiteis para templos de pedra e barro ou de madeira, como diziam terem sido em Hespanha os dos successores dos romanos na dominação da Peninsula.
Quem considerar portanto a archeologia a esta luz, como poderoso elemento de critica para o historiador, e como a principal das vias por onde os methodos e noções das sciencias da natureza passam para as sciencias historicas e sociaes, necessariamente concluirá ser o seu estudo uma necessidade impreterivel para qualquer povo que não queira ficar estacionario ou retardado áquem d’aquelles que o facho da sciencia allumia na vanguarda da civilisação. Sobe de ponto a necessidade em Portugal, de quem o poeta diria ainda hoje, como ha tres seculos:
E não sei por que influxo do destino
Não tem um ledo orgulho e geral gosto,
Que os animos levanta de contino
A ter para trabalhos ledo o rosto.
A superioridade relativa da Hespanha em comprehender e apreciar os estudos archeologicos claramente se nos patentêa em publicações de tal interesse e magnitude, quaes são os Monumentos arquitetonicos e o Museo español de antigüedades; e em monographias como aquellas que das suas respectivas provincias escreveram os srs. Villa-amil, Gongora, Sivelo, etc. Todas estas obras e alguns jornaes scientificos e litterarios contêem grande copia de subsidios para o estudo da archeologia hespanhola. Mas até hoje ninguem a tratára ainda comparativa e syntheticamente. Para isto sería mister considerar tambem as antiguidades portuguezas, e Portugal não poderia offerecer a qualquer escriptor hespanhol senão alguma rara memoria ou um ou outro artigo nos jornaes litterarios. Entre nós até certo ponto facilita-se a empreza, porque, se, por uma parte, a Hespanha nos subministra em tantas publicações, noticias e estampas dos seus monumentos, por outra parte, temos os nossos tão proximo de nós, que as distancias serão o menor dos obstaculos para quem pretender estudal-os ou descrevel-os.
Terá chegado a occasião opportuna de aproveitar taes elementos e de contribuir para o commum progresso de Hespanha e de Portugal com um dos maiores serviços litterarios que actualmente se lhes poderiam prestar? Crêmos que sim, e por isso intentámos escrever a Introducção á Archeologia da Peninsula, cuja parte primeira, comprehendendo as antiguidades prehistoricas sahe por agora á luz do dia.
Este assumpto pouca ou nenhuma attenção tem merecido aos governos hespanhoes e portuguezes, e cá e lá o publico mal lhe comprehende ainda a maxima importancia. Todavia ha quarenta annos que Nilsson publicou a primeira edição do seu livro ácerca dos habitantes primitivos da Scandinavia. E desde essa epoca, na Suecia, Allemanha, Inglaterra, França, Belgica, Suissa, em todos os paizes cultos, o estudo das antiguidades prehistoricas tem constituido um verdadeiro movimento scientifico, de certo o mais notavel e o mais caracteristico do nosso tempo. Provam a existencia e a intensidade d’esse movimento a exploração das cavernas e de outras estações prehistoricas, a fundação de museus, a celebração de congressos, e finalmente a publicação de livros e jornaes, destinados para registrar as descobertas que todos os dias estão fazendo, ou para divulgar a nova sciencia entre aquelles a quem interessa conhecer as origens e o desenvolvimento de civilisação humana.
A archeologia prehistorica tem ainda outra grande importancia. Estudando os mais antigos dos vestigios do homem na face da terra, contribue a par com algumas das sciencias naturaes para a solução do grande problema da origem das especies. Convém advertir que os conhecimentos modernamente adquiridos n’este ponto interessante refazem a biologia nas suas doutrinas fundamentaes e abrem novo e largo caminho á philosophia. A paleontologia humana demonstra já a existencia do homem nos mais antigos dos tempos quaternarios. Acompanha-a n’essa demonstração a archeologia prehistorica, e vae mais longe ainda rebuscar nas camadas pliocenas e miocenas dos terrenos terciarios, onde aquella sciencia nada até hoje descobriu, as provas da habitação da terra pelo homem em epocas em que as condições geographicas, zoologicas e botanicas mal deixam acreditar na possibilidade de similhante facto.
O desejo de conhecer as origens dos povos e os primordios da nossa especie na face da terra é natural a todo o espirito illustrado, e distingue até as raças mais cultas d’aquellas que permanecem no estado selvagem ou n’um grau inferior de civilisação. Ora quem quizer satisfazer este desejo, soccorrendo-se unicamente aos dados scientificos, ha de pedil-os tanto á historia natural como á archeologia prehistorica. O que ellas já hoje nos dizem, apesar de insufficiente para a completa solução do problema, é todavia muito em comparação da total ignorancia em que a este respeito estavam os naturalistas ainda ha poucos annos.
O problema da origem das especies liga-se naturalmente com a doutrina da evolução que a archeologia prehistorica demonstra com evidencia na parte que respeita á industria humana. O fundamento d’esta doutrina vem a ser que a natureza não produz as cousas logo de principio completas ou acabadas, porém no estado rudimentar, do qual se elevam por graus successivos, por modificações infinitamente pequenas, até á sua fórma precisa e determinada; e que, chegadas a este ponto, começam a padecer alterações inversas, até se dissolverem pela total desaggregação das suas partes constituintes. Chamam-se lei de progressão ou integração aquella que regula as primeiras, e lei de regressão ou dissolução aquella que regula as segundas de taes alterações.
A cellula, o elemento fundamental, irreductivel dos seres vivos, nasce, cresce, atrophia-se e morre. O homem, cada animal, cada vegetal como a cellula; a humanidade como o homem ou a especie como o individuo; e, se chegar a demonstrar-se a hypothese de Laplace, a terra como os organismos, o systema planetario como a terra. A humanidade inteira e cada uma de suas partes, cada raça, cada povo, estão pois sujeitas a estas leis universaes. O progresso é portanto uma condição necessaria e fatal, e a civilisação ha de considerar-se não um effeito da arte, mas uma phase tão natural da vida da humanidade, como o crescimento dos orgãos nos animaes ou o desabrochar da flor nos vegetaes.
O descobrimento dos primeiros e disformes instrumentos que o homem fabricou e de que fez uso na terra serve para demonstrar a lei da integração ou o progresso na industria e na civilisação humana. A serie progressiva manifesta-se claramente no machado, por exemplo: ao de pedra lascada succedeu o de pedra polida; a este o de cobre; ao de cobre o de bronze; a este finalmente o de ferro. A integração patentêa-se da mesma sorte nos outros productos da industria, e continúa depois nos tempos historicos pelas varias manifestações do espirito humano, nas artes, nos costumes, na politica, etc. Os estacionamentos e até as regressões locaes, temporarias, não invalidam a regra geral, cuja verificação se ha de fazer comparando entre si, não os periodos pouco distantes, porém as eras principaes, sem attender aos longos seculos de elaboração que as separam.
Mais do que em geral se pensa, interessa ao individuo e á sociedade esse estudo comparativo. Quem de boa fé e despreoccupadamente o emprehender concluirá por certo que as faculdades humanas são por extremo perfectiveis; que nos tempos primitivos o homem, arriscado sempre a servir de pasto ás feras que o cercavam e com as quaes tinha de luctar, armado apenas de paus e pedras, para se defender da sua voracidade, ou para lhes disputar a posse das cavernas ou a colheita dos fructos da terra, que o homem, só pelos seus proprios esforços, pelo trabalho que desenvolve os orgãos, pelo exercicio que aperfeiçôa as faculdades, se elevaria d’aquellas miseraveis condições aos commodos e gozos do estado civilisado. Assim adquirirá uma fé viva na perfectibilidade, em que o progresso tende a diminuir a somma dos males e a augmentar a dos bens, e, guiado por esta convicção consoladora e salutar, trabalhará para se aperfeiçoar a si proprio e aos seus similhantes. Facil se lhe tornará tambem prevêr os resultados da applicação de taes principios á educação physica e moral. A criança está para o adulto, como o selvagem para o homem civilisado. A mesma lei, que transforma o primeiro no segundo, permitte desenvolver as faculdades infantís, e aproximal-as, em vez de, como tantas vezes acontece, as desviar do typo da perfeição. Finalmente, um povo, inspirado pela fé em que o seu futuro dependeria dos seus proprios costumes, dos meios que pozesse para se aperfeiçoar physica e moralmente, esse povo, convencido pelo estudo do passado de quanto póde a natureza humana, e illustrado pela sciencia, elevar-se-hia a uma civilisação superior a todas que têem existido, e chegaria a dominar, ou melhor que dominar, a civilisar os outros povos da terra.
Nas origens e primeiros desenvolvimentos das civilisações antigas a fé viva na intervenção miraculosa de potencias sobrenaturaes era o estimulo forte que incitava os povos aos grandes commettimentos, que cega e inconscientemente os conduzia aos grandes bens ou aos grandes males. Nas civilisações modernas uma fé similhante nas forças naturaes, no alto poder e na grande perfectibilidade das faculdades com que Deus dotou o homem, substituirá de certo aquelle incentivo, mas sem expôr aos mesmos perigos, porque, em vez de impedir lhe, facilitar-lhe-ha o conhecimento da verdade. Temos infelizmente por impossivel cumprir-se inteiramente aquella prophecia do poeta:
Un jour tout sera bien, voilá notre espérance,
Tout est bien aujourd’hui, voilá l’illusion.
Mas, assim como a curva se aproxima cada vez mais da asymptota, sem chegar a tocal-a, assim tambem o homem, sem poder chegar á perfeição absoluta, aproximar-se-ha, se quizer, cada vez mais a este sublime ideal.
INTRODUCÇÃO
Á ARCHEOLOGIA DA PENINSULA
CAPITULO I
ESTUDOS PREHISTORICOS
Os erros geocentrico e anthropocentrico e o progresso das sciencias.—Machados de pedra.—Opiniões dos antigos e do vulgo ácerca da sua origem.—Mercati entrevê a verdade.—Demonstrações de Jussieu e de Mahudel.—Opiniões de auctores hespanhoes e portuguezes.—Primeira definição das idades prehistoricas.—O homem fossil.—Schmerling.—Boucher de Perthes.—Os sabios francezes e inglezes.—Inversão das opiniões em França e Inglaterra.—Conferencia internacional.—Resultados definitivos.—Estudos prehistoricos em Hespanha e Portugal.
Obcecados pela ignorancia e desvanecidos pelo orgulho, os homens acreditaram por muito tempo dois erros capitaes, oppostos e contrarios ao progresso da sciencia e ao desenvolvimento da humanidade. Consistia um, que chamam geocentrico, em suppor a terra, plana e immovel, o centro do Universo; o outro, anthropocentrico[1], em julgar tambem o homem centro e fim unico e ultimo de toda a creação. E tanto esses erros se tinham arraigado, durante a longa infancia do genero humano, que, só porque proclamaram o movimento da terra, no seculo XVI Copernico passava por doido, e, no seculo XVII Galileu, por não ser posto a tormento ou lançado ás chammas, tinha de abjurar, perante a Inquisição de Roma, as crenças scientificas.
Todos sabem que, depois da epoca memoravel do renascimento, a demonstração do primeiro erro foi uma das causas que mais contribuiram para elevar a humanidade acima dos apertados horisontes em que a idade media a confrangera. O segundo, porém, continuou a dominar o animo dos naturalistas a ponto que, na primeira metade do seculo XIX, Cuvier e a maior parte não acabaram comsigo a acreditar em que existisse nas entranhas da terra algum vestigio fossil do homem entre os dos outros mammaes, contemporaneos dos ultimos phenomenos que alteraram a face do globo. Cediam assim ao geral influxo do erro anthropocentrico, segundo o qual, a especie humana, a ultima na ordem das creações successivas, sómente poderia apparecer depois que os varios agentes da natureza houvessem longamente preparado a configuração actual dos continentes, que tinham de servir-lhe de berço e de vivenda.
Do erro anthropocentrico derivava-se tambem naturalmente a crença na civilisação primordial e na consecutiva decadencia da humanidade; e portanto, cousa impossivel parecia o descobrirem-se objectos da industria humana que provassem exactamente o contrario, isto é, que o homem progredira e se aperfeiçoára gradualmente, passando do estado selvagem a civilisações cada vez menos imperfeitas.
Os machados de pedra, que em grande numero apparecem sepultados na terra em todas as partes do mundo, foram por muito tempo considerados, não como productos da industria humana, mas como effeitos miraculosos da cholera dos deuses ou resultas incomprehensiveis das forças naturaes. O vulgo chama-lhes ainda hoje pedras de raio, como em Grecia e Roma lhes chamavam ceraunias[2]. E, tambem como os povos modernos, os gregos e romanos lhes attribuiam virtudes mysteriosas e curativas. Na Grecia, particularmente, era opinião commum que Jupiter as arrojára do céo, e sobre certos montes convisinhos do mar Caspio e no da Chymera, no Epiro, mais do que em qualquer outra parte. Em razão do que, lhes rendiam culto e as collocavam em logares reservados. Não falta quem supponha que os sacerdotes de Cybele se serviam com facas ou machados de pedra para espontaneamente se mutilar em honra de Atys. Entre os hebreus era uso fazer a circumcisão com instrumentos de pedra[3], venerados talvez como sagrada recordação da remota antiguidade.
Parece que as betylas que os antigos traziam comsigo e consultavam como oraculos, fabricadas pelo céo, não seriam senão as ceraunias achadas na terra. Algumas vezes estas mesmas pedras substituiam a imagem de Jupiter; pois na fórma de machado adoravam os Carios aquelle que denominavam Labradæus. Sotaco e Plinio dizem que as ceraunias eram á maneira de machados (similes securibus). A maior parte dos auctores não fazem distincção entre as betylas e as ceraunias. Outros porém entendem que as primeiras seriam propriamente os machados e as segundas as pontas de frechas.
Um poeta da decadencia, Marbodeo, descreveu nos seguintes versos a origem, usos e virtudes das ceraunias ou pedras de raio:
Ventorum rabie cùm turbidus æstuat aër
Cùm tonat horrendum, cum fulminat igneus æther,
Nubibus illisis, cœlo cadit iste lapillus,
Cujus apud græcos exstat de fulmine nomen.
Illis quippe locis quos constat fulmine tactos
Iste lapis tantùm reperire posse putatur.
Unde cerauneos est græco nomine dictus,
Nam, quod nos fulmen, Græci dixere ceraunum,
Qui castè gerunt hunc à fulmine non ferientur
Sed neque navigio per flumina vel mare vectus,
Turbine mergetur, nec fulmine percutietur.
Ad causas etiam, vincendaque prœlia prodest.
Et dulces somnos et dulcia somnia præstat.
Huic dantur binæ species, totidem que colores
Cristallo similem Germania mittere fertur,
Cœruleo tantum infectum, rutiloque colore
Mittit et Hispanus similem fulgore Pyropi.
Os escriptores da idade media repetiram as fabulas antigamente acreditadas das ceraunias. Comtudo já Lucrecio dissera em bellissimos versos como os homens primeiro se tinham servido das pedras e paus por armas, e sómente mais tarde as haviam feito de bronze, e por fim de ferro:
Arma antiqua manus, ungues, dentesque fuerunt,
Et lapides, et item silvarum fragmina rami,
Et flammæ atque ignes, postquam sunt cognita primum.
Posterius ferri vis ærisque reperta;
Et prior æris erat quam ferri cognitus usus.
Mas esta asserção, bem como outras do grande poeta, sómente no seculo XIX poderia ser demonstrada e comprehendida.
Mercati, medico e antiquario illustre do seculo XVI, foi quem primeiro tentou demonstrar que as ceraunias seriam antes as armas lapideas que os primeiros homens usaram, do que productos mysteriosos do raio. Entretanto, era tão commum esta ultima opinião, que o auctor, apezar da força dos argumentos que produziu, não se declarou terminantemente a favor da outra, á qual apenas se mostrou inclinado. N’um dos seus livros, que é uma descripção das riquissimas collecções do museu Vaticano, para onde Sixto V o escolhera para director, n’esse livro publicado e annotado em 1715 por outro medico insigne, João Maria Lancisi, descreve Mercati e figura em estampas illustrativas os machados de pedra e as facas ou lascas ou as pontas de frechas, e affirma terem sido feitas de pederneira. Alguns outros escriptores do seculo XVI, como Aldrovando e Conrado Gesner, fallaram das armas de pedra e das excavações onde appareciam, todavia ninguem o fez tão expressa e positivamente como Mercati. Na Peninsula em 1534, Beuter, historiador de Valencia, deu noticia de muitas armas de pedra, apparecidas em Cariñena de Aragão, e de alguns craneos atravessados por ellas e na mesma excavação descobertos[4].
Nos seculos XVII e XVIII o exame das pedras denominadas ceraunias e a sua comparação com as armas de que ainda hoje se servem certos povos selvagens, mostrou a alguns desabusados observadores a origem e fins communs de umas e de outras. É sobre tudo notavel a memoria apresentada em 1723 por Jussieu á Academia das sciencias de Pariz, com a demonstração rigorosa de que as ceraunias ou pedras de raio não eram mais que as armas ou instrumentos fabricados e usados pelos primitivos habitantes da Europa, antes que a civilisação lhes ensinasse a extrahir e obrar os metaes. Dez annos depois, Mahudel sustenta a mesma opinião n’uma memoria que offerece á Academia de inscripções e bellas letras. Mas estes votos particulares não mudam o sentir do vulgo a respeito das ceraunias ou pedras de raio.
Em Hespanha o padre Torrubia dizia-as pedras figuradas pela natureza[5]. Em Portugal o padre João Baptista de Castro explicava assim a sua formação: «A pedra de corisco é distincta do raio; não obstante cahir juntamente com elle da nuvem; porque entre as exhalações sêccas, de que o raio se fórma, sobem tambem algumas particulas de materia terrestre e viscosa, as quaes pelo vigor do fogo se accendem e se tornam em massa empedernida, combatida ao depois pelo vigor do frio. Toma ella varias fórmas segundo a diversidade da nuvem em que se fórma, porque ou é de figura de pyramide, ou de ovo, ou de cunha, ou tambem redonda»[6].
O capitão Luiz Marinho de Azevedo no seu livro da fundação, antiguidades e grandezas de Lisboa, cita Plinio, Mario Nigro e Solino que disseram abundantes de ceraunias os campos de Lisboa ou da Lusitania, e trata de indagar se estas pedras seriam ou não d’aquellas que se formam da gomma de certa arvore da ilha de Cadiz, de que falla Estrabão. D. Antonio de Souza Macedo[7], tratando da invenção das armas diz: «Aonde não havia ferros, páos e pedras foram armas (e ainda entre nações de Africa e America o são) páos tostados ao fogo». Bluteau no Vocabulario, definindo a pedra de corisco, cita um auctor que diz que quem trouxer comsigo uma não poderá ser ferido de raios nem afogar-se. Conclue porém com a seguinte observação. «Eu tenho uma, mas nem com ella me quizera eu expôr a raios ou naufragios».
O padre Theodoro d’Almeida[8] chama contos de velhas ás explicações que davam da formação das pedras de raio, e mostra que não podem ser geradas nas nuvens. Foi mais adiante n’este ponto em Hespanha, pelo mesmo tempo, Marin y Mendoza, que mui claramente affirma a existencia das idades ante-historicas. Referindo-se aos homens primitivos diz: «Conocidos los estragos que causaba la voracidade del fuego, aprendieron que era poderoso no sólo para exterminar, sino tambien para penetrar y convertir las materias, por cuyo medio hallaron el cobre y hierro. Juzgase que se inventó de estos dos metales, primero el cobre, por ser más facil de labrar y hallar-se en mayor abundancia, y asi cultivaban con cobre la tierra, y se encuentran formadas armas de él para pelear, entre los más antiguos guerreros; pero con el tiempo, llegando á experimentar la fineza del hierro, lo preferieron para la labranza y fabrica de espadas... Es de creer que antes de inventar-se el hierro ó que lo supiesen aplicar para los instrumentos de guerra, se ensayasen poniendo en los extremos de los maderos y lanzas, huesos ó pedernales, y lo mismo harian con los cuchillos para cortar, del modo que lo usaban los americanos»[9].
D. fr. Manuel do Cenaculo, n’um livro inedito, descrevendo as espadas de cobre ou de bronze que appareceram na diocese de Beja, em excavações que mandou fazer, admitte egualmente a existencia da idade de bronze, anterior á invenção do ferro, e cita a obra mencionada de Marin y Mendoza[10]. Antecedentemente, em 1733, Martinho de Mendonça de Pina escrevera uma dissertação ácerca das Antas de Portugal, que anda impressa entre as Memorias da Academia Real de Historia[11]. Mas Eccard e Goguet, no meiado do seculo passado, foram aquelles que primeiro definiram com mais clareza as tres idades ante-historicas da pedra, do bronze e do ferro, o primeiro inquirindo as origens dos germanos, o segundo historiando os progressos sociaes dos povos antigos[12]. Havia porém um grande obstaculo a que esta idéa se vulgarisasse e fosse geralmente acreditada. As ceraunias appareciam em varias camadas da crusta da terra. Ora, se ellas tivessem servido de armas aos homens primitivos, porque não se descobririam tambem e conjuntamente nos mesmos terrenos ossos humanos no estado fossil? Á paleontologia competiria por tanto decidir a questão, mostrando se o homem teria ou não coexistido com a formação dos terrenos, onde aquellas pedras singulares tinham ficado sepultadas. Mas o atrazo e, portanto, a incompetencia da paleontologia eram taes que já n’este seculo Cuvier, elevando-a á categoria de sciencia, sustentava que nenhuma das descobertas, antecedentemente feitas, auctorisava a crêr na existencia do homem fossil. A reducção do homo diluvii testis de Scheuchzer ao genero das salamandras, reducção feita pelo celebre naturalista, depois de ter examinado o pretendido fossil humano, ainda mais o firmou nas idéas em que estava ácerca do recente apparecimento da nossa especie na superficie da terra[13]. É verdade que em 1774, Esper encontrára na caverna de Gaileurenth, na Baviera, ossadas humanas de mistura com esqueletos, evidentemente fosseis, de grandes alimarias antidiluvianas, e differentes de todas as especies actuaes. E alguns annos depois, em 1797, J. Frére achára em Hoxne, no condado de Suffolk, varios machados de pedra, juntos com ossadas de animaes igualmente desapparecidos. Mas esses factos, apezar de expressivos e concludentes, não bastaram para destruir a crença geral do vulgo e dos sabios ácerca da origem recente de genero humano.
Achados similhantes, feitos já n’este seculo por Crahay no læss de Caberg, junto de Maestricht, na Hollanda; por Ami Boué em Lahr, na margem direita do Rheno, defronte de Strasburg; pelo conde Breuner em alluviões da Austria; e finalmente por Tournal e Christol em cavernas da França meridional, todos antes de 1830, não influiram mais que os outros no animo preoccupado dos naturalistas.
Em 1823, Buchland, celebre geologo inglez, deu á luz uma obra intitulada Reliquiæ diluvianæ, com a descripção da caverna de Kinklake e com a exposição de todos os factos então conhecidos favoraveis á hypothese da coexistencia do homem e dos animaes antidiluvianos. Mas o desejo que o dominava de concordar as descobertas da sciencia com a chronologia da biblia o impediu de se render á evidencia d’esses factos.
Seis annos depois, em setembro de 1829, tiveram principio os estudos e investigações de Schmerling, que explorou mais de quarenta cavernas nas collinas de calcareo carbonifero da provincia de Liége. Nas muitas excavações que ordenou e dirigiu achou instrumentos de pedra e de osso juntamente com restos fosseis do mammouth, do rhinoceros tichorinus, da hyena e do urso das cavernas. N’algumas lhe appareceram tambem ossadas humanas, e nas de Engis o celebre craneo conhecido por este nome, e que o proprio Schmerling disse assimilhar-se mais aos craneos dos ethiopes que aos dos europeus. Este incansavel explorador demonstrou, pelas condições em que appareciam os ossos dos homens e dos animaes fosseis, serem todos contemporaneos, e terem ficado sepultados da mesma maneira entre os materiaes que as aguas introduziam nas cavernas, passando pelas fendas estreitas das suas paredes[14]. Lyell accusa os professores da universidade de Liége, collegas de Schmerling, de terem deixado passar um quarto de seculo, sem se importarem de attestar a verdade das descobertas que viam fazer; e accusa-se tambem a si proprio de ter passado em 1833 em Liége, sem visitar as cavernas exploradas, estando já então publicado o primeiro tomo da obra em que o illustre professor expunha o resultado das suas laboriosas investigações, e tendo visto com os seus proprios olhos a collecção dos objectos que este descobrira.
Em 1835, Joly, professor do lyceu de Montpellier, achou numa caverna da provincia de Lozére o craneo de um urso com signaes manifestos de ter sido ferido por uma frecha. Em pequena distancia achou tambem um fragmento de louça com vestigios dos dedos humanos que o tinham moldado. Proclamou o explorador a importancia da sua descoberta, que foi acolhida, como as outras que a precederam, com a mesma commum indifferença.
Por essa epoca entrou Boucher de Perthes n’aquella grande e memoravel lucta da qual, mais tarde, haveria de sair vencedor da incredulidade e indifferença dos sabios e das academias. Estudando com attenção as camadas diluvianas da Normandia e da Picardia, communicou, durante alguns annos, em diversas memorias á Sociedade de emulação de Abbeville os seus importantes descobrimentos. Datam de 1842 as primeiras communicações de Boucher de Perthes á Academia das sciencias de Pariz, e de 1846 a primeira impressão do livro com que pretendeu divulgar as suas idéas respectivas á antiguidade do genero humano[15].
As explorações em que Boucher de Perthes andou associado a innumeros operarios, a quem soube communicar o interesse e até o enthusiasmo que o animava, fizeram-se, pelo espaço de muitos annos, em varios terrenos diluviaes, entre outros nos de Saint-Acheul, Saint-Roch-les-Amiens, Hôpital, Moulin-Quignon e Menchecourt-les-Abbeville. Depois de ter colligido muitos productos da industria humana e muitos fosseis antidiluvianos que provavam a antiguidade do terreno, é que escreveu e em 1846 imprimiu o seu livro da Industria primitiva, que apresentou á Academia das sciencias de Pariz, em agosto de 1846. A Academia nomeou uma commissão que, apezar de todas as instancias de Boucher de Perthes, não chegou a ir a Abbeville, nem a fazer qualquer exame para confirmar ou destruir as suas asserções. Elle porém não descançou em quanto não resolveu alguns sabios auctorisados a irem observar os terrenos explorados e sanccionar os descobrimentos que n’elles se tinham feito. Estes visitantes, posto que, pela maior parte, predispostos contra a opinião defendida por Boucher de Perthes, sahiam de Abbeville convertidos. Tal era a evidencia dos factos que alli verificavam.
Em 1859 alguns geologos inglezes, os srs. Falconer, Prestwich, Evans, Godwin, Austen, Flower e Mylne, começaram a visitar uma e muitas vezes Abbeville, e a acreditar em Inglaterra as descobertas de Boucher de Perthes. O proprio Lyell fez tambem a peregrinação, e, de impugnador que era, tornou-se estrenuo defensor da opinião d’aquelles que julgam o apparecimento do homem, na terra, anterior á epoca geologica actual. No anno de 1860 a Sociedade de anthropologia de Pariz examinou alguns dos objectos descobertos em Abbeville; e o resultado de uma discussão em que tomaram parte os srs. Castelnau, Baillarger, Broca, Bertillon, Trelot, Verneuil, Lagneau, G. Saint-Hilaire e Pouchet, foi favoravel a Boucher de Perthes. Conseguiu este em 1863 fazer acceitar pelo Estado a offerta do seu museu, constituido principalmente com os objectos encontrados em Abbeville. A acceitação da offerta, antecedentemente rejeitada, era já uma prova de que a França começava em fim a fazer justiça aos trabalhos e á dedicação do infatigavel explorador.
N’esse mesmo anno descobriu-se pela primeira vez em Abbeville um osso humano fossil, o que anteriormente não tinha sido possivel. Na pedreira de Moulin-Quignon appareceu a celebre maxilla conhecida por esse nome. Examinou-a o sr. Quatrefages, e apresentou na Academia das sciencias um parecer em que a reputava authentica e, portanto, um fossil humano. Mas, coisa notavel! ao passo que os naturalistas francezes se convertiam e principiavam a pôr a realidade dos factos acima da auctoridade de Cuvier, os geologos inglezes, tomados de subita desconfiança, suscitada talvez pela força da opinião publica que em Inglaterra se proclamava adversa ás novas idéas, reconsideravam, pelo menos alguns, e, depois de terem proclamado a veracidade das descobertas de Boucher de Perthes, entraram em 1863 a impugnar não sómente os factos anteriores, mas tambem a authenticidade da maxilla recentemente descoberta. O proprio Falconer, outr’ora ardente pregoeiro das novidades de Abbeville, escreveu ao Times, em seu nome e no de muitos dos seus compatriotas que o tinham acompanhado áquella cidade, confessando que todos se tinham enganado, que todos tinham sido illudidos por uma fraude que então sómente reconheciam. Agora, pois, mudadas as scenas, eram Quatrefages e outros sabios francezes que sustentavam contra os inglezes serem realidades e não falsificações os celebres descobrimentos de Boucher de Perthes. De tal discordancia resultou uma conferencia entre os srs. Delafosse, Daubrée, Hébert, Gaudry, Buteux, abbade Bourgeois e A. Edwards por parte da França; e Falconer, Prestwich, Carpenter e Busk, todos membros da Sociedade real de Londres, por parte da Inglaterra. Foram eleitos presidente o sr. H. Milne-Edwards e secretario o sr. Delesse.
Em maio de 1863 os conferentes reuniram-se por tres vezes no Museu de historia natural. N’estas tres sessões, pelo exame das pederneiras e da maxilla, julgaram os inglezes achar novos indicios contra a authenticidade de taes objectos. E, como parecesse impossivel chegarem a algum accordo, resolveram apresentar-se de repente em Abbeville, para fazer uma inquirição scientifica nos logares explorados, e resolver assim cabalmente, e de uma vez para sempre, as duvidas occorridas em Inglaterra ácêrca dos descobrimentos de Boucher de Perthes.
Tomada esta resolução no dia 11 de tarde, logo no dia seguinte os sabios francezes e inglezes se apresentaram, sem que ninguem os esperasse, em Abbeville. O sr. Milne-Edwards redigiu e enviou á Academia das sciencias de Pariz um relatorio d’este processo interessante. Descreveu minuciosamente o exame feito pelos conferentes em Abbeville, e apontou as provas que a todos deixaram convencidos da authenticidade da maxilla e dos instrumentos de silex. Convém saber que, serrada a maxilla, n’uma das sessões do Museu, tinha apparecido no canal da arteria dentaria uma areia acinzentada que pareceu aos inglezes um signal de falsificação, porque não viam nas estampas, que representavam os terrenos de Moulin-Quignon, areia da mesma côr. Verificou-se porém n’aquelles terrenos a existencia de uma camada de areia cinzenta que não tinha sido indicada nos mappas, e assim o signal que era antes negativo, desde logo se tornou positivo. Por outra parte, as suspeitas respectivas aos machados de pedra inteiramente se desvaneceram, quando outros similhantes se descobriram em excavações, feitas á vista dos naturalistas inglezes e francezes.
Os resultados d’esta conferencia memoravel, desde as sessões no Museu até ao accordão final dos naturalistas, nem que de antemão fossem combinados, teriam mais decisiva influencia no animo d’aquelles que receiavam ainda admitir, como verdadeiros, os modernos descobrimentos. Na França e n’outros paizes da Europa, n’algumas partes da America, Asia e Africa, trabalhadores incançaveis se dedicam animados de zêlo ardente á exploração dos terrenos sedimentares, das cavernas, das turfeiras, dos dolmens, dos tumulos, das palafittas ou cidades lacustres e finalmente dos kiokkenmoddings ou rebotalhos das cozinhas dos homens primitivos. Publicam-se livros, memorias e jornaes destinados a divulgar os achados dos exploradores. Patentêam-se as Academias aos novos estudos. Fundam-se museus para se depositarem os objectos encontrados. Celebram-se congressos para os archeologos de todas as nações communicarem entre si as suas descobertas e resolverem as duvidas que, sómente pelo conselho de muitos, podem ser resolvidas.
A Peninsula não tem permanecido de todo estranha a este grande movimento scientifico. Desde 1860 que o sr. Carlos Ribeiro busca os vestigios da industria primitiva nos terrenos de Portugal e principalmente nos sedimentares do valle do Tejo. Os srs. Pereira da Costa e Delgado exploraram varias estações humanas prehistoricas do valle do Tejo, e publicaram em 1865 e 1867 os descobrimentos que fizeram de restos humanos fosseis e de instrumentos de osso ou de pederneira antidiluvianos. O sr. Pereira da Costa estudou tambem as antas ou dolmens de Portugal, dos quaes escreveu uma interessante memoria, impressa em 1868.
Em Hespanha D. Cassiano de Prado, engenheiro de minas, já fallecido, foi quem primeiramente se occupou dos estudos prehistoricos. Na sua Descripção physica e geologica da provincia de Madrid, impressa em 1864, se vê que desde 1851 se empenhava em colligir instrumentos de silex, sem todavia saber ao certo o que fossem. Em 1862, indo a Madrid os srs. Verneuil e Lartet (filho), exploraram na companhia de D. Cassiano a celebre estação de San Isidro, pouco distante d’aquella cidade. Desde então dedicou-se com ardor a estes estudos e emprehendeu varias explorações, nas quaes colligiu fosseis humanos e de animaes e muitos instrumentos da industria primitiva. Depois, muitos geologos e amadores têem contribuido em Hespanha para augmentar o peculio dos conhecimentos prehistoricos. Exploraram os srs. Vilanova em 1866 a cova de Monduber e a Cueva Negra na provincia de Valencia; Lartet em 1866 as cavernas de Castella a Velha; Vilamil y Castro em 1868 e 1869 alguns tumulos da Galiza; Gongora as cavernas e outras antiguidades prehistoricas da Andaluzia; Garay as minas abandonadas de Rio Tinto; Jagor a caverna de Balzola; Rada y Delgado as de Cangas de Onis e Colunga. Os srs. Vilanova y Piera e F. M. Tubino fazem explorações, assistem a congressos europeus, e publicam artigos importantes sobre o assumpto. Na Academia de historia lêem dissertações os srs. Benavides, Amador de los Rios, Saavedra e Fernandez Guerra. O sr. D. José Amador de los Rios conseguiu que no Museu archeologico nacional, fundado em 1869 em Madrid, se designasse uma secção para os objectos prehistoricos. Começados, pois, ao mesmo tempo os estudos prehistoricos em Hespanha e Portugal, os nossos visinhos, apezar das dissenções intestinas, têem-se adiantado a ponto de rivalisar hoje com os povos mais civilisados. Entre nós o movimento principiado pela commissão geologica não se propagou no paiz, e, alli mesmo, cremos ter sido destruido por audazes reformadores que não respeitaram nem as instituições mais importantes e mais sagradas da instrucção popular. Apenas o sr. Carlos Ribeiro communicou á Academia real das sciencias uma memoria com a descripção dos silex e quartzites lascados que se conservam nas collecções da secção geologica da direcção geral dos trabalhos geodesicos, em 1872, e publicou em 1873 o relatorio do congresso de Bruxellas, onde dignamente nos representára no anno anterior.
Exploradores não os ha; collectores são raros. Sabemos dos srs. Judice no Algarve, Gabriel Pereira em Evora, Martins Sarmento em Guimarães, e de ninguem mais. São desfavoraveis as condições de Portugal, n’este ponto, relativamente aos outros povos cultos. Do abatimento em que estamos só poderia erguer-nos a iniciativa dos governos alliada á dedicação de todos aquelles a quem não são indifferentes o progresso da sciencia e o passado e o futuro da humanidade[16].