NOTAS DE RODAPÉ:

[1] Geocentrico, de , Terra, e kentron, centro. Anthropocentrico, de anthrôpos, homem, e kentron, centro.

[2] Ceraunia, de keraunos, raio.

[3] Tulit ilico Sephora acutissimam petram, et circumcidit præputium filii sui... Exod. IV, 25. Eo tempore ait Dominus ad Josue. Fac tibi cultros lapideos et circumcide secundò filios Israel. Josué, V, 2.

[4] Historia y progresos de la arqueologia prehistorica, por Don Francisco Maria Tubino.—Museo español de antigüedades, tomo I, pag. 1 a 21.

[5] Ibidem.

[6] Na Recreação proveitosa que deu á luz com o pseudonymo de Custodio Jesam, Barata, anagramma de João Baptista de Castro.

[7] Eva e Ave, p. 1.ª, cap. XXI.

[8] Recreação Philosophica, tomo VI, pag. 466.

[9] Historia de la milicia española, tomo I, pag. 33.

[10] Vida de S. Sizenando e Historia de Beja, sua patria. Ms. da bibliotheca publica de Evora.

[11] Collecção dos documentos e Memorias da Academia Real de Historia Portugueza. Tomo XIV; conferencia de 30 de julho de 1733.

[12] Historia y progreso de la arqueologia prehistorica, por Don Francisco Maria Tubino. Museo español de antigüedades, tomo I, pag. 1 a 21.

[13] Discours sur les revolutions du globe.

[14] Recherches sur les ossements fossiles découverts dans les cavernes de la province de Liége. Liége 1833 e 1834.

[15] De l’Industrie primitive, ou des Arts à leur origine. Pariz 1846. A segunda edição sahiu logo no anno seguinte com este titulo: Antiquités celtiques et diluviennes. Mémoire sur l’Industrie primitive et les Arts à leur origine. Pariz 1847. Imprimiram-se posteriormente os tomos II e III.

[16] Depois de escripto este capitulo, correu a noticia das grandes explorações, emprehendidas pelo sr. Martins Sarmento nas ruinas da Citania, perto de Guimarães. São muito notaveis os vestigios encontrados, correspondentes a varias civilisações. No fim do volume em nota especial tractaremos do assumpto.

CAPITULO II
ANTIGUIDADE DO HOMEM

Constituição da crusta da terra.—Rochas sedimentares.—Serie geologica.—Rochas plutonicas.—Rochas metamorphicas.—Classificação dos terrenos estratificados.—Duração relativa d’estas formações.—Computo e provas da antiguidade do homem, deduzidas 1.º da vegetação florestal da Dinamarca; 2.º dos sedimentos fluviaes; 3.º do desgaste das terras pelas aguas affluentes aos rios.—Antiguidade do homem na Peninsula.—Clima glaciario.—Fauna correlativa.—Effeitos da fusão dos gelos.—Hypothese de Adhémar ácerca da epoca glaciaria.—Epocas glaciaria e preglaciaria.—Diluvios periodicos.—Comparação de ambos os hemispherios.—Proporção das aguas e das terras.—Factos comprobativos.—Outras causas astronomicas.—Causas geographicas.—Gulf Stream.—Sahara.

A observação da superficie da terra, os estudos, as viagens, as explorações patentearam a configuração dos continentes, a extensão e profundidade dos mares, a fórma, direcção e altura das cordilheiras, o curso dos rios, os limites das planicies e todas as mais particularidades da geographia physica. Mas, para conhecer a fabrica da crusta, a natureza das suas rochas constituintes, a disposição relativa das suas camadas, não basta já a vista exterior, importa necessariamente perscrutar a estructura intima, bem como se hão de dissecar as carnes do corpo, a fim de descobrir os segredos da organisação humana. Os logares mais adequados para se examinar a crusta da terra serão, portanto, aquelles onde a natureza ou a arte pozeram descobertas de alto abaixo e no sentido da espessura as varias camadas integrantes: logares taes como as ribas desnudadas pelas aguas; as escarpas das estradas, os poços profundos das minas; e finalmente as encostas nuas e aprumadas, quaes são as do monte da Pyramide nas terras do Novo Mexico dos Estados Unidos.

Das rochas que assim se patentêam, umas são estratificadas, sobrepostas á maneira das folhas de um livro; contam-se debaixo até cima; seguem-se por grande espaço sem jamais se confundirem. Outras são irregulares; não se estendem em camadas; não se prolongam em direcções definidas; não constituem series inalteraveis; nem têem nenhuma especie de estratificação. Outras em fim, por seus caracteres mixtos, parece participarem da natureza tanto das primeiras como das segundas.

Uma das circumstancias mais notaveis e importantes das rochas estratificadas é conterem fosseis ou restos de seres organisados, fóra das condições actuaes e normaes da sua existencia. E, como a organisação dos animaes e a dos vegetaes padeceram mudanças grandes e profundas nas varias epocas, servem muito bem estes caracteres dos fosseis para determinar quaes dos terrenos têem as mesmas idades e quaes idades differentes.

A serie das camadas sedimentares não se encontra completa n’uma só região. Mas os terrenos que faltam n’umas partes apparecem n’outras; e assim, por meio de observações em diversos logares da crusta da terra, se tem formado a collecção inteira. Seja qual for o numero dos terrenos que faltem em qualquer região, aquelles que subsistem conservam sempre as suas posições relativas. Se representarmos a serie pelas letras A, B, C, D, E, F, G,....., contando debaixo para cima, poderão faltar B ou D ou F, porém jamais A apparecerá por cima de B, ou E por cima de G. Em menos palavras, ha sómente interpolações, e não transposições na serie geologica.

As rochas estratificadas formam-se no fundo da agua com os materiaes por ella carreados, bem como hoje se formam outras similhantes rochas no fundo dos mares ou dos lagos, ou nos alveos dos rios. Chamam-se por isso sedimentares. Umas vezes são parallelas entre si e com o horisonte; outras vezes parallelas entre si e discordantes com o horisonte em angulos variaveis. Outras vezes finalmente, além de discordarem com o horisonte, discordam tambem entre si. Nas montanhas é onde apparecem maiores discordancias, chegando ás vezes as camadas a aproximar-se da vertical.

Estes grandes desvios das rochas sedimentares provam a existencia de causas que as levantaram, fenderam e tiraram da sua situação primitiva, parallela ao horisonte. Quaes foram essas causas dil-o-ha o exame das outras rochas que se encontram na crusta da terra.

Com effeito as rochas não estratificadas, que servem de base ás sedimentares ou se elevam por meio d’ellas, são crystallinas, como vitreas, e em tudo analogas áquellas que ainda hoje se formam nos vulcões. Geradas pois pela acção do fogo, consistem em massas que, do estado de fusão ignea, passaram ao estado solido por via do arrefecimento.

D’estas ultimas rochas de origem ignea ou plutonica, umas precederam as sedimentares, outras formaram-se depois, alevantando as camadas estratificadas, irrompendo por meio d’ellas, alterando-lhes a estructura e destruindo-lhes os vestigios dos seres organisados. Foi uma verdadeira metamorphose; e, por isso, se denominaram metamorphicas aquellas que a padeceram.

Mas o estudo mais interessante e mais fecundo de consequencias para a historia dos seres organisados é o das camadas sedimentares. A variedade das faunas e floras, correspondentes a cada grupo de terrenos, a serie regular e ascendente de organismos cada vez mais complexos provam com evidencia a diversidade das condições, em que elles se desenvolveram, e a successão de periodos, que, por caracteres peremptorios, se distinguem uns dos outros.

Geralmente os geologos fazem dos terrenos respectivos a esses varios periodos tres grandes grupos fundamentaes, convém a saber: terrenos inferiores ou primarios ou paleozoicos; terrenos medios ou secundarios ou mesozoicos; e finalmente terrenos superiores ou terciarios ou neozoicos[17]. Cada grupo tem portanto tres nomes diversos. O primeiro refere-se á posição em que está relativamente aos outros; o segundo ao tempo em que se formou; o terceiro á idade das especies que contém no estado fossil.

D’estes tres grupos separam-se naturalmente os mais antigos dos terrenos primarios, nos quaes ou faltam os fosseis ou são rarissimos e correspondem aos mais simples dos organismos. A esses terrenos chamam primordiaes. Por outra parte, em cima ou depois dos ultimos terrenos superiores ou neozoicos ou terciarios, depositaram-se ainda outros que denominaram quaternarios, em cuja epoca se continuou a formar e a desenvolver a fauna da actualidade, que teve os seus principios nos ultimos tempos da epoca anterior.

Acharemos assim a historia da terra dividida em cinco idades correspondentes aos principaes grupos dos terrenos, como se verá mais claramente da tabella seguinte:

SEDIMENTOS OU CAMADAS CONSTITUINTES DA CRUSTA DA TERRA

IdadesTerrenos
QuaternariaXIVAlluvio
XIIIDiluvio
TerciariaXIIPlioceno
XIMioceno
XEoceno
SecundariaIXCretaceo
VIIIJurassico
VIITriassico
PrimariaVIPermico
VCarbonifero
IVDevonico
PrimordialIIISilurico
IICambrico
ILaurentiaco[18]

Os caracteres das rochas estratificadas, e mais em particular os fosseis, não nos demonstram a idade absoluta de cada terreno ou de cada grupo de terrenos, porem sómente a idade relativa de uns comparados com os outros. A espessura das camadas dá idéa da duração das formações respectivas, sem comtudo indicar o numero de seculos.

A possança total dos sedimentos constituintes de crusta da terra tem-se computado pouco mais ou menos em 43 kilometros; competindo 23 kilometros aos terrenos da idade primordial; 14 aos da idade primaria; 5 aos da idade secundaria; 1 aos da idade terciaria e finalmente 150 ou 200 metros aos da idade quaternaria.

Representando por 100 unidades a duração total da vida no globo terraqueo, desde o apparecimento dos primeiros seres organicos até ao tempo presente, acharemos expressa em unidades e partes da unidade a duração particular de cada idade pela fórma seguinte[19]:

Idade primordial 53,6
” primaria 32,1
” secundaria 11,5
” terciaria 2,3
” quaternaria 0,5
Somma total 100,0

Assim é que a duração da primeira idade, d’aquella em que não havia ainda nenhuns organismos terrestres, porém sómente os que habitavam as aguas, equivale, por si só, a mais de metade da duração total. A duração da idade quaternaria ou d’aquella em que o homem tem vivido na terra apenas chega a ser 5 decimas de cada unidade da duração total das cinco idades. Mas, se, como alguns opinam, elle existisse já no periodo mioceno da idade terciaria, então o tempo da sua duração sería representado por 1 a 2 unidades das 100 que se fizeram corresponder ao espaço total das cinco idades. Adiante veremos que as provas mais certas da existencia do homem na terra não remontam além dos tempos quaternarios.

No fim da idade terciaria appareceram os mammaes agigantados: elephantes, rhinocerontes, ursos, hippopotamos de especies particulares que povoaram a Europa, e se extinguiram nos primeiros tempos da idade quaternaria. Os restos fosseis d’esses animaes, descobertos juntamente com productos da primitiva industria, provam que em epocas remotissimas em que o clima, a fauna, a flora, a configuração dos continentes, a distribuição relativa das terras e das aguas eram mui differentes das actuaes, já o homem existia na superficie do globo.

Nem se diga que sería possivel ficarem esses objectos sepultados em terrenos muito mais antigos do que elles, bem como hoje em qualquer jazigo de fosseis podem accidentalmente enterrar-se vestigios da industria moderna. As condições em que se fizeram aquellas descobertas demonstraram serem da mesma idade os objectos afeiçoados pela mão do homem e os restos fosseis das alimarias perdidas.

Certas cavernas, por exemplo, contêem depositos formados por materiaes, que, por occasião de grandes e remotas inundações, a agua arrastou de fóra para dentro. Entre esses materiaes que nas mesmas epocas se agglomeravam nos terrenos proximos, d’onde mais tarde eram transportados para o interior das cavernas, apparecem conjuntamente ossos humanos, rudes instrumentos de pedra e ossos dos animaes extinctos[20]. Em fim, se ainda alguma duvida restasse, inteiramente se desvaneceria em vista ou das fracturas e entalhos, tantas vezes observados nos ossos d’aquelles animaes, e praticados intencionalmente pela mão do homem; ou dos esboços de certas especies perdidas traçados em instrumentos da industria humana, como se têem encontrado em varias estações prehistoricas, ou finalmente das armas de pedra cravadas nos proprios craneos.

Muitos dos geologos modernos consideram a apparição da especie humana sobre a terra como caracter distinctivo da idade quaternaria, e acreditam que, abaixo das camadas inferiores dos terrenos d’essa idade, não se descobriu ainda vestigio nenhum authentico da existencia do homem. Alguns, porém, como os srs. Desnoyers, Abbade Bourgeois, Delaunay, Hamy e Carlos Ribeiro julgam possuir provas em contrario, achadas nos terrenos miocenos e pliocenos da idade terciaria[21]. Mas, ainda que os vestigios do homem não ultrapassem os limites das epocas quaternarias, nem por isso, ainda assim, deixaria de ser remotissima a sua antiguidade. Factos interessantes e calculos de grande curiosidade, colligidos por Lubbock, o demonstram com evidencia[22].

As faias dão hoje em dia a feição proeminente á vegetação florestal da Dinamarca. Prova-se porém que nem sempre assim foi, que nos logares baixos e pantanosos de certas florestas, na turfa que os enche, ficaram conservados primeiramente, na maior profundidade, os abetos que por agora não vegetam espontaneos n’aquelle paiz: depois mais acima os carvalhos e as betulas brancas hoje raras: em fim a camada superior consiste principalmente em individuos da betula verrucosa, representante do periodo actual que muito bem se podera dizer das faias. Ora o professor Steenstrup achou instrumentos de pedra por entre os troncos dos abetos, representantes da primeira e mais antiga das vegetações florestaes, que vestiram a Dinamarca nos tempos quaternarios. E, como, por outra parte, se encontram nos kjokkenmödings, ou rebotalhos das cozinhas dos homens prehistoricos, os esqueletos do gallo do matto ou tetraz grande das serras que se alimenta dos rebentões tenros dos pinheiros, concluiremos com certeza que os primeiros habitantes da Dinamarca foram contemporaneos das antigas e perdidas florestas abietinas, e pertenceram portanto a uma epoca muito differente da actual pelas condições physicas e botanicas d’aquelle paiz. Além d’isto, pretendem alguns que aos tres periodos florestaes caracterisados o primeiro pelos abetos, o segundo pelos carvalhos e betulas brancas, e o terceiro pelas faias, correspondessem as tres idades principaes da humanidade assignaladas pelo uso da pedra, do bronze e do ferro. Seja, porém, como for, é indubitavel que esta successão de vegetações florestaes differentes, não poderia effeituar-se senão em longuissimo espaço de tempo, e que portanto o homem não poderia presencial-as, sem ter apparecido em eras muito remotas na superficie da terra.

O sr. Morlot, na Suissa, intentou determinar mais circumstanciadamente a duração de cada uma idade. No logar onde a torrente da Tinière se lança no lago de Genova, junto de Villeneuve, tem-se formado um cone de cascalho e alluviões. Este cone foi aberto na extensão de 325 metros, e na profundidade de 10ᵐ,4 para se construir uma via ferrea. O exame dos objectos encontrados nas camadas, pelo corte descobertas, mostrou corresponderem á epoca romana as da profundidade de 1ᵐ,14; á epoca do bronze as da profundidade de 2ᵐ,97, e finalmente á epoca da pedra polida as da profundidade de 5ᵐ,69. Como as camadas se tinham depositado com grande regularidade, calculou o observador que, sendo de 1600 annos a idade das romanas, a das correspondentes á epoca do bronze sería de 3000 a 4000 annos, e a das respectivas á epoca da pedra polida de 5000 a 7000 annos.

O sr. Gilliéron fez um calculo similhante para determinar a idade das habitações lacustres da ponte de Thièle, e achou a antiguidade de 6000 a 7000 annos para a epoca da pedra polida.

No Egypto o sr. Horner, calculando a elevação media secular do terreno em volta dos monumentos, por effeito das inundações do Nilo; depois, abrindo poços a profundidades maiores, achou vestigios da industria humana que teriam, segundo esses calculos, 13000 e mais annos.

O sr. Forel mostrou as causas de erros, inherentes a estes calculos e a difficuldade de as evitar todas. Tentou porém, por meio de um processo differente, determinar a antiguidade do periodo geologico actual, que chegou a computar em 100000 annos. As observações fêl-as no lago Léman; e para os seus calculos recorreu á regra de falsa posição que permitte achar os limites maximo e minimo, acima e abaixo dos quaes fica excluida a possibilidade de errar. Eis aqui o processo de Forel, preferido por Quatrefages a todos os outros, com quanto lhe pareça haver até certo ponto exageração no resultado obtido: «A agua do Rhodano, sobre tudo por occasião das cheias, causadas pela fusão da neve, entra no lago turva, e sahe d’elle extremamente limpida. O lodo, assim depositado, vae enchendo o lago, e entulha já uma parte da grande cavidade que occuparam os gelos da epoca quaternaria. O sr. Forel determinou primeiramente o volume annual do deposito do lodo. Indagou depois, tomando por fundamento as sondagens effeituadas por de La Béche, o volume do lago actual. Chegou por este modo a avaliar o tempo necessario para que o lodo do Rhodano chegue a entulhar o lago. Depois, admittindo que a parte já entulhada do Léman primitivo teria uma profundidade media e egual á do Léman actual, comparou as superficies alluviaes já formadas com a superficie do proprio lago. Achou a proporção de 1 para 3. Estas planicies foram por tanto depositadas durante um espaço de tempo egual á terça parte d’aquelle que sería necessario para entulhar o lago actual. Ora, como ellas começaram a formar-se immediatamente depois do desapparecimento das geleiras, segue-se que o seu principio corresponderá ao da epoca geologica moderna»[23].

O dr. Dickeson, de Natchez, achou um sacro humano com alguns ossos do mastodonte de Ohio no valle do Mississipi. O dr. Usher reputou o primeiro e os segundos todos contemporaneos. O sr. Bennet-Dowler computou em 158400 annos o tempo necessario para a formação dos depositos alluviaes do Mississipi. Este mesmo calculo daria a idade de 57000 annos aos mais recentes dos craneos fosseis da America. Julgam porém os naturalistas da Europa que estes e outros similhantes factos, referidos do Novo-Mundo, carecem de confirmação para ter força probativa.

O Mississipi tem sido objecto de muitos estudos a fim de determinar a idade dos depositos formados pelas suas aguas, estudos duplicadamente interessantes, porque os seus resultados são tambem applicaveis a formações analogas da Europa. Riddle, Carpenter, Forskey, Humphreys e Abbot chegaram a avaliar com a possivel aproximação, por meio de innumeras experiencias e observações, as quantidades dos materiaes carreados pelas aguas em cada anno, a espessura e as outras dimensões do delta, e finalmente a parte d’aquelles mesmos materiaes não incorporados no delta, por serem expellidos para o Oceano. Entrando em calculo com essas observações, computou Lyell em 100000 annos a antiguidade do delta do Mississipi, e, por analogia, suppoz não seriam menos antigos os depositos alluviaes do valle do Somme, em França, onde apparecem instrumentos de silex e os restos fosseis do mammouth e da hyena.

Conduz tambem a este mesmo resultado um processo muito differente. Das observações feitas no Mississipi e de outras similhantes no Ganges, Rhodano, Danubio e outros rios concluiu Geikie poder representar pela media de ¹⁄₆₀₀₀ de pé a camada que perdem em cada anno as terras lavadas pelas aguas affluentes aos rios. Esse é o termo medio, porque nas planicies, por correrem lentas e escoadas as aguas, a perda é menor, ¹⁄₁₀₈₀₀ de pé; e nas vertentes lateraes dos valles, pela sua inclinação que accelera a corrente do liquido, a perda é maior, ¹⁄₁₂₀₀ de pé. Ora o sr. Lubbock applicando esses calculos á excavação do valle do Somme que tem a profundidade de 200 pés, concluiu que a sua idade e, portanto, a dos mais antigos dos depositos, onde se encontram instrumentos de silex, sería de 100000 a 240000 annos[24]. Faltam dados geologicos e archeologicos para calcular a antiguidade do homem na Peninsula. Todavia é singularmente notavel que os vestigios da industria primitiva, encontrados na estação de San Isidro, perto de Madrid, similhantes aos do valle do Somme, e, por isso, attribuiveis á mesma epoca prehistorica, estejam tambem n’uma altura similhante acima do leito actual do Manzanares. Sendo admissivel, como o é no valle do Somme, que as aguas do rio tenham excavado o terreno desde aquella estação até ao leito actual, o calculo daria aos vestigios ali encontrados uma idade comprehendida entre 80000 e 167000 annos. Mas, da possibilidade ou probabilidade de tal excavação, sómente poderão informar os geologos hespanhoes, conhecedores da disposição e dos caracteres das margens do Manzanares no sitio de San Isidro.

Na idade quaternaria houve uma ou mais epocas em que se tornou glacial o clima da Europa. As geleiras extenderam-se até á latitude temperada da Sicilia, deixando por varias regiões as rochas erraticas, provas evidentes da sua existencia. Com esses vestigios apparecem tambem os restos fosseis do rangifer, do boi almiscarado, do urso e de outros quadrupedes que na Europa não habitam já senão as regiões arcticas ou os nevados cumes dos Alpes e dos Pyreneus. O sr. A. Milne Edward mostrou que muitas especies de aves, proprias dos climas frios, e communs durante a epoca glacial, emigraram juntamente com aquelles mammaes para as regiões mais frias, quando a temperatura se elevou e as geleiras se fundiram no centro e no Meio-dia da Europa. Em fim nos mares Britannicos e até no Mediterraneo têem apparecido conchas de especies que se não encontram actualmente senão nos mares glaciaes. Assim, tantos e tão probativos são os vestigios do clima glacial nas regiões temperadas da Europa, que ninguem contesta hoje esse facto notavel.

Por outra parte, os depositos quaternarios immediatamente collocados por cima das camadas terciarias, soltos, sem consistencia, compostos quasi exclusivamente de lehm (mistura de areia e argila), de laess (mistura de areia e calcareo), de areias, cascalhos e calhaus, parece terem sido formados por violentas e prolongadas submersões de terras, que antecedentemente estariam sêccas e superiores ao nivel das aguas. Concordam os geologos em dar o nome expressivo de Diluvium a essas formações cuja origem naturalmente lhes trazia á lembrança a grande catastrophe commemorada até aos nossos dias nas tradições de alguns povos.

Se admittirmos pois que a temperatura da Europa baixou a ponto de se cobrirem de neve os montes e as planicies, formando-se geleiras, similhantes áquellas que ainda hoje subsistem na Suissa; se admittirmos mais que uma subsequente elevação de temperatura fundisse as massas enormes de gelo, inundando e submergindo as terras do continente europeu, explicaremos assim não sómente a fauna da epoca glacial, mas tambem a formação dos vastos e profundos depositos do diluvio.

Adhémar imaginou uma hypothese ingenhosissima para ligar e explicar todos os factos referidos da epoca glaciaria pela mesma causa geral[25]. O phenomeno astronomico da precessão dos equinoxios consiste na lenta deslocação do eixo da terra de oeste para leste. Depende da direcção d’esta linha a desegual duração das estações nos dois hemispherios, tendo presentemente a primavera e o estio das regiões boreaes, sommados, mais sete dias que o outono e o inverno. No hemispherio austral acontece o contrario. É a somma do outono e do inverno que excede em sete dias a da primavera com o estio. E, como durante aquellas estações a terra perde mais calor do que n’estas ultimas, segue-se evidentemente que a perda annual do calor será maior no hemispherio do sul que no hemispherio do norte, e portanto que a temperatura do primeiro será inferior á do segundo. O que, em verdade, se observa e se prova pela maior extensão dos gelos, que no sul impedem a navegação em latitudes correspondentes áquellas, em que se faz livre e desembaraçada no hemispherio do norte.

Mas como a posição do eixo vae mudando sempre lentamente, chegará um dia em que a differença entre as durações das estações nos dois hemispherios desapparecerá, tornando-se todas eguaes tanto ao norte como ao sul do equador. N’essa epoca a temperatura será muito menos differente nas latitudes dos dois hemispherios, sería até egual, se não fossem as causas locaes, como os ventos, as correntes, a altitude, a proximidade da agua, etc. Depois começará outra vez a apparecer a differença entre as durações das estações, não aquella que já foi designada, porém a inversa, isto é, a primavera e o verão tornar-se-hão maiores no hemispherio austral e menores no hemispherio boreal, exactamente o contrario de hoje. O cyclo completo d’estes movimentos abrange 21000 annos. Ha de pois decorrer esse espaço de tempo a fim de que a differença das estações torne a ser mathematicamente tal qual agora se observa.

Depois d’esta brevissima exposição do fundamento principal da hypothese, comprehender-se-ha facilmente que a temperatura maxima de um hemispherio deverá corresponder ao maior excesso da duração da primavera e do estio sobre a das outras duas estações; e a temperatura minima ao maior excesso da duração do outono e do inverno sobre a da primavera e do estio. Portanto o espaço de tempo decorrido entre o momento da temperatura maxima e o da temperatura minima será egual á metade de 21000 ou 10500 annos. A ultima vez que esta maxima correspondeu ao hemispherio boreal foi em 1248, o que está dizendo que até esse anno a temperatura foi sempre augmentando; começou então a diminuir e continúa e continuará até ao anno de 11748, em que chegará ao seu minimo grau. Mas a epoca anterior correspondente deve ter sido 21000 annos antes de 11748 ou 9252 annos antes de Jesus Christo. Tal sería pois, na opinião de Adhémar, a epoca glaciaria, a epoca do rangifer, bisonte, urso, em fim a epoca dos homens que se serviam das armas e instrumentos de pedra lascada e de osso.

Suppõe-se porém que antecedentemente houvera já uma outra epoca glaciaria, caracterisada pela apparição do rhinoceronte e dos ursos das cavernas. Na Suissa conhecem-se provas da existencia de dois periodos de frio separados por um intervallo, durante o qual o clima se conservou temperado. Ora, segundo a lei de precessão dos equinoxios, essa epoca sería 21000 annos antes ou 30252 annos antes de Christo. E a epoca denominada preglaciaria, quando um clima temperado favoreceu o desenvolvimento do hippopotamo e do elephante antigo e dos primeiros dos homens, conhecidos por vestigios incontestaveis, sería 10500 annos antes ou em 40752 antes de Christo.

A hypothese de Adhémar não explicaria unicamente a alternação dos climas durante a idade quaternaria. Sendo deseguaes as calotes de gelo dos dois hemispherios, pois a do sul aproxima-se do equador muito mais que a do norte, o centro de gravidade da terra deverá deslocar-se para a parte das massas maiores. N’esta deslocação successiva, o centro da terra passará de 10500 em 10500 annos pelo plano do equador, mudando-se de um para outro hemispherio, alterando portanto as condições de equilibrio, e fazendo com que as aguas de uma corram para a outra parte, e formem um diluvio. O hemispherio austral está hoje mais coberto de agua, porque o centro de gravidade se deslocou para esta parte, em razão de ser maior a calote dos gelos austraes que a dos boreaes. Quando os gelos começarem a ser mais da parte do norte, o centro da gravidade mudar-se-ha para este hemispherio, as aguas deixarão descobertos novos continentes austraes e alagarão os boreaes, cobrindo-os de novos depositos similhantes aos do diluvio.

A maior quantidade de gelos do hemispherio austral e o avizinharem-se estes mais do equador que no hemispherio boreal provam a inferioridade da temperatura do primeiro relativamente ao segundo. Nas viagens antarcticas os navegantes experimentam, mais cedo e em maior grau que nas viagens arcticas, as dificuldades da navegação, resultantes de frio e dos gelos. Eis o motivo porque elles se têem aproximado mais do polo do norte, e porque são hoje muito mais conhecidas as regiões hyperboreas que as do outro hemispherio em latitudes correspondentes.

Basta lançar a vista a um mappa-mundi ou a uma esphera para vêr a extensão das terras no hemispherio boreal proporcionalmente muito maior. Mas esta desproporção tornar-se-ha mais expressiva e concludente, em favor da hypothese que attribue á mudança do centro da terra para o hemispherio austral a deslocação da agua para esse mesmo hemispherio, se a avaliarmos com exactidão por meio da tabella seguinte, que representa numericamente a diminuição successiva e gradual das terras do norte para o sul, medindo em cada parallelo a razão em que está a parte occupada pela terra com aquella que as aguas cobrem. Representando cada parallelo pela unidade, teremos uma fracção para representar a extensão da terra e outra para exprimir a extensão da agua.

LatitudeAguaTerra
60° ao norte0,363 0,647
50° ” 0,407 0,593
40° ” 0,527 0,473
30° ” 0,536 0,464
20° ” 0,677 0,323
10° ” 0,710 0,290
0° ” 0,771 0,229
10° ao sul 0,786 0,214
20° ” 0,777 0,223
30° ” 0,791 0,209
40° ” 0,951 0,049
50° ” 0,972 0,028
60° ” 1,000 0,000

Este augmento tão regular, tão graduado da agua do norte para o sul, dispõe naturalmente o espirito em favor da hypothese de Adhémar, limitando-se a comparação ás regiões que em ambos os hemispherios não ultrapassam a latitude de 60°. Mas alguns graus mais além no hemispherio austral as descobertas da terra Victoria, da terra Enderby, do vulcão Erebus contrariam em parte a pretendida lei, e parece darem antes razão a Lyell, que, exactamente ao contrario de Adhémar, attribuiu o grande frio das altas latitudes meridionaes á vasta extensão e á grande altura do continente que suppoz existir nas regiões antarcticas. Convém saber que, sendo maior a irradiação do calor na terra do que na agua, a existencia de um alto e vasto continente no circulo polar do sul, teria por effeito natural a diminuição da temperatura nos mares proximos. E assim as differenças observadas explicar-se-hiam até certo ponto por essa causa. Mas em quanto se não demonstrar positivamente o que não passa apenas de mera supposição, não será por certo com uma hypothese que se queira destruir a possibilidade de outra.

Quanto á supposição de que a altura e extensão dos gelos teem alternadamente influido, e assim continuarão no futuro, ora n’uma ora n’outra metade do globo, ora cobrindo ora descobrindo as terras com as aguas dos mares, fazendo um diluvio de 21000 em 21000 annos, cousa é tão possivel como indemonstravel no estado actual de sciencia. Que o gelo accumulado para a parte de um dos polos desloque para ahi o centro de gravidade da terra, ninguem o contestará. Chegou até o sr. Croll a calcular que a diminuição de 470 pés na espessura dos gelos antarcticos elevaria no polo do norte a agua do mar á altura de 26 pés e 5 pollegadas, e á altura de 25 pés na latitude de Glasgow que é de 55° e 55′. Se porém a diminuição fosse maior, se fosse, por exemplo de 1 milha, a elevação tornar-se-hia de 280 pés. Assim poderá adoptar a hypothese quem vir nos phenomenos da idade quaternaria e sobre tudo nas dunas e fosseis marinhos em logares actualmente muito superiores ao nivel do mar, e nas grandes florestas submergidas, factos menos explicaveis por outras causas geologicas.

Se, como Adhémar assevera, a temperatura do nosso hemispherio diminue desde o anno de 1248, alguns effeitos se hão de por certo observar de tal diminuição. O auctor cita os seguintes: 1.º A grande cupola de gelo do hemispherio austral tem diminuido depois das viagens do capitão Cook.—2.º As geleiras da Groelandia e da Suissa tem avançado para o Meio-dia.—3.º Têem baixado tambem do norte para o sul os limites da cultura da vinha.

Lyell impugnou ainda este argumento, dizendo que a differença entre o frio do inverno de 1248 e o frio do inverno actual deveria ser insignificante e, por isso, incapaz de produzir os effeitos allegados. Pareceu-lhe que essa differença não passará de 0,3 de grau centigrado. Porém se durante seis seculos a temperatura tivesse baixado apenas 0,3 de grau, a differença entre as temperaturas medias do inverno de 1248 e do mais frio dos invernos anteriores, que, segundo a hypothese, teria sido 10500 annos antes, andaria apenas por uns 5 graus centigrados, o que de certo parecerá pouco. Entretanto a uma differença tripla ou de 15 graus entre aquelles dois invernos, separados por um espaço de 10500 annos, corresponderia ainda uma differença inferior a 1 grau entre as temperaturas do inverno de 1248 e dos invernos actuaes. Outro sabio inglez tambem de grande auctoridade, J. Herschel, foi egualmente de opinião que a mudança de posição da terra causada pela precessão dos equinoxios não basta para explicar as alterações do clima que Adhémar lhe attribue.

Alguns, convencidos da insufficiencia da hypothese, pretenderam completal-a, entrando em linha de conta com outra causa astronomica. Sabe-se que a orbita da terra ora se aproxima ora se afasta do circulo, por meio de variações muito longas, que sómente se fazem sensiveis de milhares em milhares de annos. Quando a orbita se aproximar do circulo o effeito da precessão dos equinoxios deverá diminuir; pelo contrario quando se afastar do circulo, alongando-se, então aquelle effeito redobrará de intensidade. Ora os srs. Croll e Stone calcularam a excentricidade da orbita de 50000 em 50000 annos, no espaço de 1000000 de annos decorridos anteriormente ao de 1800. O sr. J. Carrick Moore calculou os effeitos d’estas excentricidades maiores no clima de Londres e achou que, sendo actualmente a temperatura media do mais frio dos mezes do inverno 20° de Farenheit, ha 100000 annos sería de 5°; de 1°,9 ha 210000 annos; de 0°,6 ha 750000 annos; e finalmente de 3° ha 950000 annos. Lyell inclinou-se á opinião de Croll, e suppoz que este frio maximo de ha 750000 annos sería o da epoca glacial. Lubbock discorda n’este ponto, e julga que o frio de 1°,9 de ha 210000 annos será o que melhor corresponda áquella epoca. Em qualquer das hypotheses os periodos de Adhémar ficarão parecendo bem pequenos em comparação de tão dilatados tempos.

Não falta ainda quem tenha pretendido explicar os phenomenos da epoca glaciaria sómente por alterações geographicas. O Gulf Stream eleva hoje alguns graus a temperatura da grande parte da Europa. Se em qualquer tempo essa enorme corrente seguisse outra direcção, a sua falta manifestar-se-hia logo por uma baixa notavel da temperatura, egual talvez a 10 graus de Farenheit. Admitta-se mais que, por essa mesma falta, se estabelecesse uma corrente em sentido contrario, isto é, dirigida do norte ao sul, o que faria ainda baixar a temperatura 3 ou 4 graus de Farenheit. O resultado bastaria para explicar a epoca glaciaria. Ora, na opinião do sr. Hopkins, a suppressão do Gulf Stream sería a consequencia natural de uma depressão de 2000 pés que transformaria o valle do Mississipi n’um grande braço de mar por onde a corrente passaria do golfo do Mexico para o Oceano arctico, em vez de se dirigir para as costas occidentaes da Europa. N’esta hypothese a excavação do valle do Somme e o apparecimento do homem na Europa seriam anteriores ao delta do Mississipi, cuja formação foi calculada em 100000 annos. Mas o Gulf Stream poderia ser antes desviado pela depressão do isthmo de Panamá, idéa que até certo ponto se torna provavel, pela similhança das faunas marinhas que habitam de um e de outro lado do isthmo.

Finalmente, se, como por tantas razões parece incontestavel, o deserto do Sahara foi n’outras eras uma parte do Oceano Atlantico, a existencia d’essa grande massa de agua no Meio-dia da Europa, modificaria por extremo o clima d’este continente. Os vapores, destacados da superficie da agua, ou se congelariam nas montanhas por onde passassem, cobrindo-as de neve, ou impediriam os raios do sol de aquecer a face da terra, contribuindo assim, por um ou por outro modo ou por ambos juntamente, para abaixar a temperatura.

Taes são as principaes hypotheses imaginadas para explicar a epoca glaciaria. Com quanto se não possa demonstrar a evidencia de nenhuma d’ellas, é todavia certo que, ainda assim, provam até certo ponto a antiguidade da especie humana, pela impossibilidade de se realisarem esses grandes factos astronomicos ou geologicos, a que se referem, senão em epocas muito remotas e em periodos muito dilatados.