NOTAS DE RODAPÉ:

[17] Paleozoico, de palaios antigo e zoon, animal. Meozoico, de mesos, meio, e zoon, animal. Neozoico, de neos, novo e zoon, animal.

[18] Laurentiaco, do nome do rio ou do golfo de S. Lourenço, na America septemtrional.

Cambrico, de Cambria, nome latino do paiz de Galles, na Inglaterra.

Silurico de Siluros, habitantes antigos da parte meridional do paiz de Galles.

Devonico, do nome do condado de Devon na Inglaterra.

Carbonifero, de carbo, carvão, e fero conter.

Permico, de Perm na Russia.

Triassico, de trias tres. Por ser composto de tres camadas principaes.

Jurassico, de Jura, cordilheira notavel da França e da Suissa.

Cretaceo, de creta, cré.

Eoceno, de eos, aurora, e kainos novo.

Mioceno, de meion, menos, e kainos novo.

Plioceno, de pleion, mais, e kainos novo.

[19] A tabella dos terrenos e o computo das suas possanças e dos espaços de tempo que levaram a formar-se foram extrahidos da Histoire de la creation des êtres organisés, d’après les lois naturelles par Ernest Haeckel.—Pariz 1874.

[20] Veja-se adiante o capitulo das cavernas.

[21] Mais de espaço tractaremos esta questão no capitulo seguinte.

[22] Lubbock, L’homme préhistorique, Pariz 1876.

[23] De Quatrefages, L’espéce hummaine. Pariz 1877, pag. 101 e 102.

[24] Zaborowski dá o computo seguinte das idades prehistoricas. De l’ancienneté de l’homme, tom. II, pag. 229. A epoca do mioceno inferior ao plioceno superior corresponde á duração do homem terciario, cuja existencia, posto que provavel, não está ainda evidentemente demonstrada.

Epoca do ferro1500 a 2000 annos
” do bronze 3000 a 4000 ”
” da pedra polida 6000 a 12000 ”
Periodo post-glaciario 100000 ”
” glaciario224000 ”
Duração da epoca do mioceno inferior ao plioceno superior 680000 ”

[25] Adhémar—Revolutions de la mer.

CAPITULO III
ANTIQUIORA MONUMENTA

Classificação dos tempos prehistoricos.—Subdivisões da idade da pedra.—Silex e quartzites lascadas da Beira e da Extremadura, attribuidas ao homem terciario.—Julgamento d’estas provas no congresso de Bruxellas.—Provas indirectas do homem terciario, colligidas n’outros paizes.—Sua incerteza.—É maior ainda a das provas directas.—Primeiros vestigios do homem quaternario na Peninsula.—Estação de San Isidro.—Falta de vestigios da epoca mesolithica.—Bruteza do homem paleolithico.—Progresso na epoca neolithica.—Condições favoraveis d’esse periodo ao desenvolvimento da humanidade.—Primeiras exigencias do sentimento esthetico.—Origem das artes.

Os tempos prehistoricos dividiram-os primeiramente os archeologos em duas grandes idades: a idade da pedra e a idade dos metaes; e subdividiram a primeira, a idade da pedra, em duas epocas: 1.ª Epoca da pedra lascada; 2.ª Epoca da pedra polida. Ainda hoje todos estão accordes na divisão geral das idades, e alguns conservam a sub-divisão da primeira d’ellas nas duas epocas que o apparecimento da arte de polir a pedra separa uma da outra.

No congresso de Bruxellas de 1872 os srs. Dupont e Mortillet admittiram, por mais natural, a sub-divisão da idade da pedra em tres epocas principaes que o primeiro caracterisou pelas faunas respectivas, e o segundo pelos vestigios da industria humana. Já anteriormente em Hespanha o sr. D. João Vilanova propozera uma classificação similhante, dividindo a idade da pedra em quatro epocas, das quaes chamou á primeira archeolithica ou dos vestigios encontrados nos terrenos terciarios; á segunda paleolithica ou dos instrumentos de pedra lascada dos terrenos quaternarios; á terceira mesolithica ou das facas ou do rangifer; á quarta finalmente neolithica ou da pedra polida[26].

Pondo de parte a primeira, por incerta e duvidosa, as outras tres epocas do sr. Vilanova concordam exactamente com as dos srs. Dupont e Mortillet. Com as denominações propostas pelo sr. Dupont e com os caracteres indicados pelo sr. Mortillet, será a seguinte a

CLASSIFICAÇÃO DA IDADE DA PEDRA

EpocasCaracteres zoologicosCaracteres industriaes
PaleolithicaMammouth e outros animaes desapparecidosInstrumentos de pedra lascada
MesolithicaRangifer e outros animaes emigradosInstrumentos de pedra lascada e de osso
NeolithicaAnimaes domesticos ainda hoje companheiros do homemInstrumentos de pedra polida

Esta classificação, ainda que pareça conforme aos factos até hoje observados na França, Belgica e alguns outros paizes, não póde ter applicação em todas as regiões da Europa. A successão dos tres grupos zoologicos é um facto geral, pois que, em correspondencia a cada grupo, se observam geraes vestigios de mudanças profundas nos climas e nas outras circumstancias da geographia physica. Nem seriam possiveis as variações da fauna sem outras variações correlativas nos meios que os animaes habitassem. Mas os caracteres industriaes não estão da mesma sorte e unicamente sujeitos á influencia invariavel e fatal das leis physicas. A maior ou menor disposição das raças humanas para a perfectibilidade, as emigrações dos povos, os commettimentos guerreiros, as emprezas maritimas e outras circumstancias accidentaes poriam muitas vezes em discordancia os caracteres deduzidos da fauna com os dos instrumentos da industria. Assim como, em quanto alguns dos povos menos civilisados percorrem já a epoca do ferro, e outros estacionam ainda na idade da pedra, assim tambem não podia em toda a parte a cada grupo zoologico ou a cada especie de clima corresponder a mesma phase industrial. Suppondo que o synchronismo declarado na classificação existiria em partes da França e da Belgica, é claro que não poderia ser geral em toda a Europa.

Na Peninsula não têem apparecido instrumentos de pedra lascada e de osso em tal quantidade que obriguem a subdividir a idade da pedra em mais de duas epocas. Além de que, para caracterisar a epoca mesolithica tambem nos faltam os animaes proprios, porque nem o rangifer nem a hyena spelœa, nem algumas outras das especies contemporaneas habitaram para áquem dos Pyreneus. Parece haver, em Hespanha e Portugal, entre os silex lascados de San Isidro e os objectos de pedra polida, uma grande lacuna ou interpolação, que as explorações até hoje emprehendidas não poderam ainda preencher. Por isso, a classificação do sr. Vilanova foi notavelmente alterada pelo sr. F. M. Tubino que dividiu a idade da pedra sómente em duas epocas, a paleolithica e a neolithica, e subdividiu esta ultima em dois periodos o mesolithico e o do cobre[27]. Pela nossa parte, prescindiremos d’esta subdivisão, porque o periodo mesolithico, sendo caracterisado pela pedra lascada, não póde pertencer á epoca da pedra polida, e o do cobre, por motivo analogo, sómente na idade dos metaes se ha de comprehender. Conservaremos pois a divisão primitiva da idade da pedra nas duas epocas da pedra lascada e da pedra polida, como ainda hoje fazem Lubbock e outros archeologos, attribuindo á primeira o rangifer e os animaes emigrados.

Da epoca paleolithica ou da pedra lascada e da epoca neolithica ou da pedra polida têem apparecido na Peninsula não sómente vestigios da industria humana, mas tambem restos dos animaes caracteristicos. Porém da epoca anterior, correspondente aos terrenos terciarios, que o sr. Vilanova chama archeolithica não se tem encontrado nada até hoje em Hespanha. Em Portugal o sr. Carlos Ribeiro colligiu em camadas terciarias e quaternarias das provincias da Extremadura e da Beira, e particularmente das bacias do Tejo e Sado, silex e quartzites lascadas nas quaes lhe pareceu evidente a acção intencional do homem. E na Memoria que em 1871 apresentou á Academia das sciencias de Lisboa fez estampar cento e trinta de taes objectos[29].

Examinada esta collecção em 1872 no congresso de Bruxellas, pareceu em principio ao sr. abbade Bourgeois, apaixonado defensor do homem terciario, não ter vestigios da industria humana nenhum dos objectos colligidos. Mudou porém depois de opinião, confessando com o sr. Franks, director do Museu britannico, haver em alguns provas evidentes do trabalho do homem[30]. Por outra parte, o mesmo sr. Franks, examinando trinta e duas pedras, que o sr. abbade Bourgeois apresentára ao congresso, como vestigios da industria humana, encontradas em terras terciarias de Thenay, n’uma só de taes pedras viu signaes positivos da acção intencional do homem. Nomeou-se para examinar as de Portugal uma commissão, entre cujos vogaes não chegou a haver maioria que declarasse attribuiveis á industria humana a maior parte d’aquelles objectos[31].

Bastarão estes factos, occorridos no congresso de Bruxellas, para mostrar a incerteza das provas, actualmente conhecidas da existencia do homem terciario. Na commissão geologica de Portugal ha centenares de pedras, colligidas pelos srs. Carlos Ribeiro e Delgado. Talvez que uma escolha racional apurasse entre ellas algumas em que parecesse menos duvidoso o trabalho humano, nas quaes, comparadas ás congeneres da idade quaternaria, melhor se reconheceria a origem natural ou artificial. Foi isto mesmo que no Museu de Saint-Germain fez o sr. Mortillet, escolhendo algumas das pedras que o abbade Bourgeois para ali enviara, como instrumentos fabricados pelo homem terciario, e expondo-as juntamente com outras do valle do Somme ou de outras estações quaternarias, para os observadores poderem comparar e tirar da comparação as illações que lhes parecesse.

Algumas das pedras da commissão geologica taes como as que as figuras 1, 2 e 3 representam não têem similhança com as formas typicas de Saint-Acheul, Hoxne, San Isidro, etc. Outras que vimos na collecção talvez, sem grande esforço, se reduzam no typo dos denominados raspadores[32].

Das provas até hoje adduzidas em favor da existencia do homem terciario umas, indirectas, consistem nos vestigios da sua actividade; outras, directas, seriam as suas proprias ossadas no estado fossil.

A fauna de Saint-Prest, em pequena distancia de Chartrou, estudada desde 1848 por varios naturalistas, é quasi identica á de outras camadas terciarias de varias regiões da Europa. Encontram-se os seus representantes fosseis n’um valle, cortado em angulo consideravel por outro valle quaternario, por cuja idade mais recente se prova tambem a antiguidade relativa do primeiro. Além de outras especies perdidas, ali têem apparecido o elephas meridionalis, o rhinoceros leptorhinus e o megaceros Carnutorum.

Fig. 1

Fig. 2

Fig. 3

PEDRAS LASCADAS ATTRIBUIDAS AO HOMEM TERCIARIO DE PORTUGAL.

Em abril de 1873, Desnoyers foi examinar estes restos fosseis, e pareceu-lhe ver em muitos ossos estrias ou entalhos, que teriam sido feitos pela mão do homem, armada com instrumento cortante. Não contente d’este exame, buscou as collecções anteriormente constituidas com ossadas de Saint-Prest e em todas achou vestigios similhantes. Além dos ossos riscados ou entalhados, encontrou alguns de ruminantes, partidos pela mesma forma por que ainda hoje os partem alguns selvagens para lhes extrahir as medullas. D’onde entendeu poder com toda a probabilidade concluir que «o homem viveria em França... contemporaneamente ao elephas meridionalis e outras especies pliocenas, caracteristicas do Valle d’Arno na Toscana, e que teria de luctar com as grandes alimarias, anteriores ao elephas primigenius e aos outros mammaes, cujos restos apparecem misturados com os vestigios ou indicios do homem nos terrenos de transporte ou quaternarios dos grandes valles e das cavernas»[33].

A pretenção do descobridor discordava a tal ponto das idéas geralmente seguidas, ácerca da coincidencia da origem da especie humana dentro nos limites de idade quaternaria, que de toda a parte se levantaram logo contraditores a inventar explicações dos factos observados por causas differentes d’aquellas a que se attribuiam. Quaes disseram que os entalhos dos ossos de Saint-Prest teriam sido feitos pelos instrumentos dos operarios que os extrahiram da terra, ou dos preparadores que os alimparam; quaes recorreram á acção das geleiras; quaes ao attrito das raizes sobre os ossos; quaes ao dessecamento consecutivo á putrefacção dos ossos que os cobriria de fendas longitudinaes e transversaes; quaes á acção de transporte da agua que rolaria com os ossos pedras que os riscassem; quaes, finalmente, aos dentes de certos animaes carnivoros ou roedores pertencentes á fauna terciaria.

Movido da importancia da questão, Lyell chegou a instituir um verdadeiro inquerito para resolver até que ponto seriam admissiveis as causas invocadas pelos contradictores de Desnoyers. Pareceu-lhe que, entre todas, duas sómente poderiam ter tido o effeito que se lhes suppunha; e eram a acção da agua corrente e os dentes dos carnivoros ou roedores. Se os ossos não fossem extremamente duros, as pedras e calhaus com elles arrastados seriam capazes de os riscar. «Podemos suppor, dizia Lyell, relativamente a certo exemplar do Museu Britannico, que estando quasi todo o osso enterrado no lodo, as partes que todavia o não estivessem ficariam expostas á acção da corrente, que arrastaria areia e cascalho contra ellas, e com bastante força para formar riscas ou entalhos, no tempo em que talvez o osso estivesse mais molle do que hoje. Uma pequena mudança na posição do osso ou na direcção da corrente da agua poderia produzir uma segunda serie de estrias parallelas, entrecruzadas com as primeiras». Porém sómente em certos ossos se poderiam explicar as estrias por esta hypothese[34].

Por outra parte, o mesmo Lyell mandou lançar uma porção de ossos aos porcos-espinhos do Jardim Zoologico de Londres, que os deixaram riscados e entalhados á maneira dos de Saint-Prest. D’onde concluiu que estes ultimos poderiam ter andado nos dentes do grande roedor de Chartres do genero Trogontherium, ou de algum outro da fauna terciaria.

A fauna do valle d’Arno, na Italia, assimilha-se extremamente á de Saint-Prest: nos ossos das mesmas especies de mammaes apparecem da mesma sorte estrias ou entalhos. Examinou tambem Lyell estes vestigios, e não se julgou habilitado para expender qualquer opinião decisiva. Todavia, reconhecendo a insufficiencia das provas allegadas em favor do homem terciario, appellou para o futuro, cujos acontecimentos lhe pareceu haverem de dissipar todas as duvidas.

O sr. Lubbock, depois de examinar os ossos de Saint-Prest, expendeu a respeito d’elles a opinião seguinte: «Os vestigios das incisões concordam exactamente com os termos em que foram descriptos; alguns pelo menos parece terem origem humana. Entretanto no estado actual dos nossos conhecimentos não ousaria affirmar que não tivessem sido feitos por differente modo»[35].

O sr. abbade Delaunay encontrou em Pouancé costellas e um humero de haliterium, especie miocene, profundamente entalhados, segundo parecia, com um instrumento cortante que só pelo homem poderia ser manejado. E já no anno de 1876 o sr. Quatrefages deu conta á Academia das sciencias de Pariz do descobrimento, que o sr. Capellini ha pouco tempo fizera de ossadas de cetaceos com incisões e entalhos, feitos com instrumento cortante. Os ossos assignalados appareceram em argillas pliocenas do Monte Aperto, juncto de Sienne. O descobridor e outros naturalistas italianos estavam convencidos de que não haveria senão a mão do homem, capaz de entalhar os ossos por aquella fórma[36].

Outras provas tambem indirectas são os silex e quartzites lascadas taes como as colligidas em França pelo sr. abbade Bourgeois, e em Portugal pelo sr. Carlos Ribeiro. Todavia de uns não se demonstra que os terrenos onde appareceram fossem terciarios e não quaternarios; de outros não parece incontestavel o terem sido lascados pela mão do homem. Citam-se observações dos srs. Desor, Escher, Fraas, Livingston e Wetzstein que em varias regiões da Africa viram silex lascados naturalmente pela acção do calor do sol, testimunhando alguns este curioso phenomeno[37].

Infelizmente as provas directas da existencia do homem terciario são ainda mais contestaveis que as provas indirectas. O sr. Issel apresentou ao congresso anthropologico de Pariz, em 1867, ossos humanos com signaes de remota antiguidade, achados em camadas pliocenas na cidade de Savone na Toscana. Correu tambem ha alguns annos, apregoada pelo sr. Whitney, director do Geological Survey, a descoberta de um craneo humano na California em depositos pliocenos, por baixo de cinco ou seis camadas de cinzas vulcanicas, endurecidas. O sr. Quatrefages duvída d’este facto não sómente porque pediu informações e não lh’as deram, mas tambem porque não sahiu a publico nenhuma estampa ou noticia descriptiva do tal craneo. Para a maior parte dos naturalistas a doutrina corrente é que até hoje não se conhecem nenhuns restos humanos fosseis incontestavelmente attribuiveis á idade terciaria.

Das razões, ponderadas no capitulo anterior, se deprehende que, já na idade quaternaria, a humanidade passára milhares e milhares de annos sem outros instrumentos mais que os rudes machados de silex, com o mesmo silex fabricados. Mas, como a duração da idade terciaria fosse quasi cinco vezes maior que a da idade quaternaria[38], a existencia de vestigios da industria humana em camadas miocenas importaria um estacionamento muito mais longo, importaria o decurso de uma eternidade, durante a qual os homens não possuiriam outra arte fabril, senão a de lascar pedras, que mal se differençariam d’aquellas manifestamente resultantes de choques operados por forças physicas. Advirta-se que os depositos miocenos, a cuja epoca se attribuem os mais antigos dos silex e quartzites lascadas, os depositos pliocenos e os diluviaes que se lhes seguiram têem a enorme possança de muitos centenares de metros, e que, em quanto se effeituaram tão longas formações, o homem viveria reduzido á condição dos irracionaes, sem obedecer á lei do progresso, fóra da qual se conservaria até ao fim dos tempos geologicos. A fauna, a flora, as circumstancias hydrographicas e orographicas da superficie do globo na idade terciaria eram obstaculos taes que mal póde o espirito comprehender como, apesar d’elles, se conservaria e desenvolveria a especie humana. Existiam, é verdade, os quadrumanos; mas o macaco, pela sua organisação, avantajava-se ao homem; facilimo lhe sería saltar de ramo em ramo pelas intrincadas florestas miocenas ou pliocenas, para fugir das alimarias que o perseguissem ou para buscar os alimentos indispensaveis á vida. Para fazer compativeis as condições da terra terciaria com a organisação humana, não falta quem tenha supposto que o homem mioceno sería de uma especie differente! Mas contra factos não prevalecem razões, por mais ponderosas que pareçam, e, portanto, bom serviço prestam á sciencia aquelles que se empenham, como o sr. Carlos Ribeiro, em colligir documentos interessantes a esta questão, que talvez dentro em poucos annos vejamos cabalmente resolvida.

Em Hespanha, em terrenos quaternarios, acharam-se já instrumentos de pedra lascada, alguns dos quaes se guardam no Museu archeologico nacional. A estação mais importante, pela maior variedade dos vestigios encontrados, e pelos estudos que n’ella se têem feito, é a de San Isidro del Campo, em pequena distancia de Madrid. Este terreno situado na margem direita do Manzanares, quarenta metros acima das suas aguas, tem vinte metros de espessura e cobre camadas de marga miocenas. Com os vestigios da industria humana primitiva têem apparecido ossos de animaes: de um elephante, talvez o Elephas meridionalis; do Cervus elephas; do Equus fossilis, varietas pliscidens etc.[39] Um machado de silex encontrado em San Isidro provaria que a antiguidade d’essa estação não sería menos remota que a da estação de Saint-Acheul em França, se tivesse havido synchronismo na successão das phases da industria humana em todos os paizes.

Em toda a Peninsula não têem até hoje apparecido outros vestigios certos da industria humana durante a epoca da pedra lascada, excepto os de San Isidro. São já numerosas as estações d’esta epoca da França e de outros paizes e mais numerosos ainda os objectos colligidos nos museus e estampados nos livros. A falta de explorações geologicas e archeologicas será causa, em parte, de tamanha raridade dos vestigios da pedra lascada em Hespanha e Portugal. Entretanto, apesar d’essa falta, mais alguns deveriam ter apparecido, se esta parte da Europa fosse tão habitada, como a França, em tempos tão remotos.

Fig. 4

MACHADO DE PEDRA LASCADA DE SAN ISIDRO

Mas, o que é mais notavel, da epoca seguinte, da epoca do rangifer não se conhece um só vestigio indubitavel de industria humana. De sorte que, se por acaso não se tivesse descoberto a estação de San Isidro, poderia hoje racionalmente affirmar-se que o homem não teria habitado a Peninsula antes da epoca neolithica. Por outra parte nem do rangifer nem d’alguns outros dos animaes contemporaneos têem apparecido restos, havendo-se, pelo contrario, encontrado alguns dos mammiferos mais antigos que viviam em Hespanha e Portugal ao mesmo tempo em que o homem habitava as margens do Manzanares. Explicar-se-ha a falta do homem contemporaneo do rangifer pelas mesmas causas que deveram obstar a que este e outros animaes da mesma epoca passassem para áquem dos Pyreneus? Eis um curioso problema que sómente o conhecimento mais perfeito da geologia peninsular poderá resolver.

É força confessar que o homem da epoca paleolithica vivia quasi tão brutamente como as ferozes alimarias que o cercavam, e sem ao menos dispor dos poderosos elementos de ataque e defeza que as faziam invenciveis e temidas. Percutir uma pedra com outra e fazer saltar lascas da primeira até ficar mais ou menos acuminada ou ponteaguda, transformar os paus, os ossos, os chifres em instrumentos não menos imperfeitos, tirar chispas de fogo da rapida fricção de ramos resequidos, eis quasi tudo a que se reduzia a sua limitadissima industria.

Sem fallar na invenção do fogo, que, só por si, prometteria todo o futuro desenvolvimento da humanidade, avantajavam-se-lhe, por certo, na regularidade e importancia das obras, na delicadeza e perfeição dos processos o castor, a abelha, a formiga. Eram-lhe superiores pelos fortes musculos, pelas garras, prezas ou outras armas naturaes, o hippopotamo, o elephante, o urso, o rangifer ou a hyena. As alterações physicas da superficie do globo livraram a especie humana de alguns d’esses poderosos inimigos. Mas os sobreviventes bastariam talvez para extinguil-a, se o homem, inferior nos recursos da natureza physica, se não tornasse superior a todos, pelo successivo desenvolvimento das faculdades intellectuaes.

Progride rapido esse desenvolvimento na epoca neolithica ou da pedra polida. Cessa a anterior agitação que punha em temerosa desordem as partes solida e liquida da crusta da terra; temperam-se os rigores do clima, e as neves perpetuas recuam para os mais altos dos cerros das cordilheiras; algumas das alimarias que disputavam ao homem a posse das cavernas e dos fructos da terra, emigram para as regiões hyperboreas ou alpinas, em busca de temperaturas mais conformes a organisações affeitas á frialdade dos gelos, que não aos ardores dos raios solares. No meio de condições physicas, similhantes ás da actualidade, o homem sahe por fim da bruteza em que longamente vivera, eleva-se acima dos irracionaes que o cercam, alguns converte á domesticidade, e a aurora esplendida da civilisação illumina pela primeira vez os horisontes das sociedades nascentes.

Outr’ora as armas e os pouquissimos instrumentos da industria humana eram feitos de rochas, que pela sua estructura, mais facilmente lascavam, para tomar, por effeito da percussão, as fórmas acuminadas ou ponte-agudas. O silex, a quartzite, a obsidiana mereciam a preferencia para servirem de materias primas á industria incipiente. Agora essas pedras são muitas vezes substituidas pela diorite, serpentina, porphydo, jade e outras, suceptiveis de tomarem fórmas e côres mais varias e mais bellas, embora á força de trabalho e paciencia d’aquelles que as fabricavam. N’esta nova epoca não basta já como d’antes, que os instrumentos possam ferir ou cortar, importa egualmente que sejam bellos e commodos. As fórmas que dão ás rochas com os percutores, o polimento que lhes põem e as côres que lhes avivam com os alizadores ou com os raspadores satisfazem ás primeiras exigencias do sentimento esthetico, mal despontando ainda no coração humano.

Pelo espaço de milhares de annos a intelligencia do homem não teve á sua disposição mais que uns toscos pedaços de silex aguçados ou acuminados para furar ou cortar. Na epoca mesolithica, e particularmente na epoca neolithica ou da pedra polida, dilatam-se os horisontes industriaes. Fabricam-se martellos, serras, arpões, collares e outras armas ou ornamentos. Aproveitam-se as pontas do veado e de outros animaes para varios utensilios. N’alguns apparecem os primeiros ensaios artisticos em gravuras ou esculpturas toscas e disformes, porém representando já claramente o homem ou os animaes amigos e inimigos que o cercavam. Fabricam-se tambem moinhos de duas pedras para moêr os cereaes, e vasos de barro para guardar as sementes e as farinhas, ou para outros usos. Em fim, a disposição para a mais nobre das artes, para a architectura, revela-se no dolmen, no tumulo, no menhir, no cromleck, monumentos megalithicos da epoca da pedra polida, que foram para esse tempo o mesmo que as basilicas, os mausoleus ou os obeliscos para os tempos historicos.

Examinar d’essas varias memorias aquellas que restam na Peninsula, inquirir a significação que por ventura tenham, relativamente á prehistoria da humanidade, tal será o objecto dos capitulos seguintes.