NOTAS DE RODAPÉ:
[26] D. Juan Vilanova y Piera. Estudios sobre lo prehistorico español. Museo español de antigüedades, tomo 1, pag. 129.
As palavras archeolithica, paleolithica, mesolithica e neolithica foram compostas com as palavras gregas arche principio, palaios antigo, mesos meio, neos novo, e lithos pedra.
[27] Classificação das epocas prehistoricas, proposta pelo sr. Tubino, para o reino de Portugal e para as provincias hespanholas da Andaluzia e Extremadura. Veja Los monumentos megaliticos de Andalucia, Extremadura y Portugal. Museu español de antigüedades, tomo VII, 1876.
| Edad Paleolitica | Hasta ahora desconocida, si prescindimos de los silex tallados recogidos por el sr. Ribeiro en las cuevas del Tajo y del Sado, cuya atribuicion és hipotética[28]. | |
| Edad Neolitica | Primero periodo: El mesolitico. | |
| a | Cavernas del Monte Calpe | |
| Caverna de Alhama de Granada | ||
| Cavernas de Cesareda | ||
| b | Monumentos megaliticos | |
| c | Quioquenmodingo del Cabezo de Arruda | |
| Segundo periodo: El del cobre. | ||
| a | Minas de Cerro-Muriano | |
| Minas del Odiel y de Riotinto | ||
| Minas del Alemtejo | ||
| Edad del bronce | Sin acreditar. Los mas raros ejemplares procedentes de la zona que estudiamos, no tienen la fianza del yacimiento. Pudieron ser elaborados en otras regiones y llevados á aquella en epocas historicas. | |
| Edad del hierro | Carece tambien de estaciones especiales en su seccion prehistorica. | |
[28] Não menciona a estação paleolithica de San Isidro, por ficar fóra da região considerada. Os silex do sr. Carlos Ribeiro não foram achados nas cavernas, porém nas bacias do Tejo e Sado.
[29] Descripção de alguns silex e quartzites lascados, encontrados nas camadas dos terrenos terciario e quaternario das bacias do Tejo e Sado. Lisboa 1871.
[30] Relatorio ácerca da sexta reunião do congresso de anthropologia e de archeologia prehistoricas, verificado na cidade de Bruxellas em agosto de 1872, elaborado por Carlos Ribeiro. Lisboa 1873.
[31] Ibidem.
[32] Vejam-se um terciario de Thenay (Bourgeois) e outro quaternario do valle do Somme, estampados a par, a fim de se compararem, em Hamy.—Précis de Paleontologie Humaine. Pariz 1870, pag. 49.
[33] Note sur des indices matériels de la coexistence de l’homme avec l’Elephas meridionalis dans un terrain des environs de Chartres, plus ancien que les terrains de transport quaternaires des vallées de la Somme et de la Seine. Comptes Rendues de l’Academie des Sciences, 8 juin 1863.
[34] Hamy, Précis de paléontologie humaine. Pariz 1870, pag. 95 e 96.
[35] L’homme préhistorique. Pariz 1876, pag. 381.
[36] Comptes Rendus, 31 janvier 1876, pag. 348.
[37] Matériaux pour servir à l’histoire positive et philosophique de l’homme.
[38] Cap. II, pag. 14.
[39] D. Juan Vilanova.—Lo prehistorico en España. Anales de la sociedad española de Historia Natural, tomo I, pag. 194.
CAPITULO IV
PRIMICIAS DA ARTE
A estação de Argecilla e outras da Peninsula comparadas aos kiokkenmoddings.—Antiguidade d’estas estações prehistoricas.—Pontas de frecha e de lança, encontradas em Hespanha e Portugal.—Estações notaveis de Castella a Velha.—Facas de silex e seu fabrico.—Officinas em Portugal.—Machados.—Picaretas.—Instrumentos de osso.—Puncções.—Fragmentos lavrados.—Placas de shisto.—Outras insignias ou emblemas.—Contas de collares.—Ceramica.—Objectos achados na caverna de Albuñol.—Diadema de ouro.—Vestidos, gorros e bolsas de esparto.—Ornatos feitos de conchas e de dentes.—Bracelete de concha da cueva de la mujer.
Á epoca mesolithica ou do rangifer, da qual—já o dissemos—não ha vestigios certos na Peninsula, attribue o sr. Vilanova os nucleos de silex, facas, frechas e percutores, achados em Hespanha na estação de Argecilla. Descobriu-a o sr. D. Nicanor de la Peña «no sitio chamado Palomar, no terço superior da vertente bastante empinada das collinas terciarias lacustres, que na provincia de Guadalajara caracterisam toda a região conhecida pelo nome de Alcarria. Constitue este deposito um banco de um metro e meio de espessura, sessenta a setenta de comprido, e dez a doze de largo, composto de terra pardacenta, em certos logares muito escura, como se tivera padecido alguma incineração, coroando tudo os extractos calcareos com helix, paludinas e outros fosseis terrestres e lacustres, argillas e margas, que horisontalmente ou com pequena inclinação apparecem na encosta».
A proximidade de uma caverna assaz profunda persuadiu ao sr. Vilanova que o deposito de Argecilla sería analogo aos dos kiokkenmoddings da Dinamarca. Mas, como explorasse o interior da caverna e não achasse vestigios nenhuns de ter servido de habitação ao homem, ficou entendendo que o deposito exterior teria antes sido uma officina da primeira e segunda epoca da idade da pedra. Entretanto, depois de descrever os nucleos, lascas, facas, pontas de frecha e percutores de silex, que o induziram a considerar o deposito de Argecilla, como uma antiga officina, o sr. Vilanova cita varias pedras ali encontradas que parece terem servido de lar para o fogo, similhantes ás dos kiokkenmoddings da Dinamarca. Comtudo, os machados polidos, os alizadores, os fragmentos de louça e os ossos dos animaes domesticos que o sr. Vilanova achou em Argecilla, e que reputou, parece que sem fundamento, de epoca posterior áquella a que referiu os outros objectos, denunciam claramente a idade do deposito, posterior á dos kiokkenmoddings, apesar de todas as analogias mencionadas[40].
Deu-se este nome, que significa rebutalhos de cozinha, áquellas estações prehistoricas do litoral dinamarquez, constituidas de conchas de ostras e outros mariscos, de ossos partidos de mammaes, de restos de aves e de peixes e finalmente de silex pela maior parte lascados, porém alguns polidos.
É maior a similhança entre a estação de Argecilla e aquella que o sr. Pereira da Costa explorou em Portugal no Cabeço da Arruda.
| GENEROS DE ANIMAES, ACHADOS NO CABEÇO DA ARRUDA | GENEROS DE ANIMAES, ACHADOS EM ARGECILLA |
|---|---|
| Bos | Bos |
| Equus | Equus |
| Sus | Sus |
| Cervus | Cervus |
| Felix | Canis |
O sr. Pereira da Costa comparou tambem a estação do Cabeço da Arruda aos kiokkenmoddings, fundando-se para isso na existencia de madeira e ossos carbonisados, de seixos estalados pela acção do fogo, e finalmente na côr avermelhada do lodo, por effeito da cozedura. Isto pelo que respeita aos vestigios do fogo, mas por outra parte notou mais a accumulação de restos de conchas de animaes comestiveis, e tambem o descobrimento de um similhante deposito, feito de conchas quebradas, fragmentos de carvão, ossos quebrados de mammiferos, pedaços de pederneira e seixos, mas sem restos humanos, no porto da Amoreira, a um kilometro de distancia do Cabeço da Arruda; e de outro na Fonte do Padre Pedro, a tres kilometros de distancia, e formado de conchas partidas, ossos e dentes de mammaes e fragmentos de louça grosseira[41].
Se o leitor quizer apreciar mais uma analogia entre a estação da Argecilla e os kiokkenmoddings, compare a faca de silex, ali achada, com aquellas que se têem encontrado n’estas estações da Dinamarca. Compare a [fig. 5, 6 e 7] com aquellas que o sr. Lubbock dá de uma faca do kiokkenmodding de Fannerup no Jutland. Parecer-lhe-hão duas copias do mesmo objecto[42].
Fig. 5
Fig. 6
Fig. 7
FACA DE SILEX DA ESTAÇÃO DE ARGECILLA.
Estabelecidas assim as relações da estação de Argecilla e de outras, tanto de Hespanha como de Portugal, com os kiokkenmoddings da Dinamarca, torna-se-nos extremamente importante determinar a idade d’estes ultimos a fim de conhecer a idade d’aquellas. Na opinião do sr. Worsaæ os kiokkenmoddings pertenceriam á epoca da pedra lascada. Demonstral-o-hiam: 1.º a raridade dos instrumentos de pedra polida; 2.º a falta de animaes domesticos, pois o cão é o unico de que têem apparecido restos fosseis. O sr. Steenstrup sustenta, pelo contrario, a contemporaneidade dos kiokkenmoddings e dos tumulos, cuja construcção ninguem refere além da epoca da pedra polida. Se nos primeiros faltam restos do boi e do cavallo domesticos, nos segundos são muito raros, e não custa nada admittir que esses mesmos fossem posteriormente ali introduzidos.
As longas facas de silex, similhantes á de Argecilla, servem exactamente ao professor Steenstrup a fim de provar que os habitantes dos kiokkenmoddings não estavam tão atrazados, como dizem, na arte de fabricar instrumentos de pedra. É verdade que estes são mais grosseiros, mas os depositos em que se encontram serão os rebutalhos da cozinha de pescadores. Os tumulos pelo contrario seriam as sepulturas dos chefes. De sorte que uns e outros monumentos representam não epocas differentes, mas graus diversos de civilisação de duas classes do mesmo povo. O sr. Lubbock pondera as razões apresentadas por cada um dos opinantes, e conclue que os kiokkenmoddings plausivelmente se attribuirão ao primeiro periodo da epoca neolithica, quando não tinha ainda chegado ao seu completo desenvolvimento a arte de polir o silex[43].
Em fim em varias estações, attribuidas sem contestação á epoca da pedra polida, como a caverna de Pont-á-Lesse, na Belgica, têem apparecido com outros objectos caracteristicos da mesma epoca facas similhantes ás dos kiokkenmoddings e da estação de Argecilla[44]. Todavia convem advertir que os animaes domesticos das estações da Peninsula denotam não terem estas tamanha antiguidade como as da Dinamarca onde se não têem encontrado. Os depositos de conchas partidas encontram-se tambem na Escocia, na foz do rio Somme, em Cornwall e no Devonshire. Mas os fragmentos de louça, achados n’estas ultimas estações, provam tambem não serem tão antigas como os kiokkenmoddings, ou terem tido por habitantes gente mais civilisada.
Fig. 8
Fig. 9
MACHADINHA DE PEDRA DA ESTAÇÃO DE ARGECILLA.
Se taes considerações não bastassem para referir com certeza a estação de Argecilla á epoca da pedra polida, outros objectos ali encontrados completariam a demonstração. A machadinha de pedra furada na base ([fig. 8 e 9]) não se póde classificar senão entre os objectos d’aquella epoca. E brevemente veremos outras similhantes, achadas em Portugal em dolmens ou em outras estações da pedra polida. O orificio poderia servir para ligar a machadinha a uma haste com uma corda ou corrêa, ou para suspendel-a ao peito, como amuleto ou como insignia. N’este ultimo caso faria parte de algum collar.
Pertence tambem evidentemente á epoca neolithica a ponta de frecha, ([fig. 10]). É notavel a sua fórma elegante e apurado lavor. A base prolonga-se á maneira de pé, excavada de um e de outro lado a fim de se ligar á haste com corda ou corrêa que se fixasse n’estes entalhos. Outras similhantes se têem encontrado nas cidades lacustres da Suissa e n’algumas estações de Portugal com fragmentos de louça e outros objectos caracteristicos da epoca neolithica.
Fig. 10
Fig. 11
Fig. 12
Fig. 13
PONTAS DE FRECHA DE SILEX DE ARGECILLA E DA FONTE DA RUPTURA.
Taes são aquellas que em grande numero se conservam no museu da Escola Polytechnica, descobertas na Fonte da Ruptura e na Pena em Setubal, na Casa da Moura e na anta de Bellas ([fig. 11, 12 e 13]).
Wilde classifica as pontas de frecha em cinco grupos, segundo as suas fórmas caracteristicas: 1.º triangulares, muitas das quaes têem um entalho de cada lado da base para fixar a corda ou corrêa com que as ligavam á haste; 2.º bidentadas, cujos bordos se prolongam para além da base formando uma curva concava á maneira de ferradura; 3.º tridentadas, com tres saliencias na base figurando um M gothico (d’estas ultimas appareceu uma em Argecilla); 4.º com uma saliencia na base para se introduzir na haste; 5.º com a fórma de folha, as quaes, sendo muito alongadas, se chamam dardos. As fig. [11 e 13] são do 1.º grupo; a fig. [10] do 4.º; e finalmente do 5.º a [fig. 12].
As pontas de lança, maiores, e, geralmente mais bem acabadas, têem tambem a fórma triangular. Na Commissão geologica ha uma, apparecida n’um dolmen das circumvisinhanças de Niza, que é das maiores conhecidas. Infelizmente falta-lhe a ponta. Se estivesse completa teria de comprimento 0ᵐ,20. Outra menor foi encontrada na Sepultura de Martim Affonso, perto de Muge.
Fig. 14
Fig. 15
PONTAS DE LANÇA DE SILEX DE NIZA E MUGE.
Fig. 16
Fig. 17
FACA DE SILEX DA COVA DA ESTRIA.
Em Hespanha, na provincia de Castella a Velha, ha uns depositos muito notaveis que, mais bem estudados do que até hoje o têem sido, esclarecerão talvez com importantes factos a epoca das estações de Argecilla e do Cabeço da Arruda. Esses depositos, constituidos principalmente por ossos, e em tamanha quantidade que têem sido exportados para França a fim de se lhes darem applicações industriaes, encontram-se n’uma região de trinta a quarenta leguas quadradas nos confins das provincias de Leão, Valhadolid e Palencia. Com os ossos, affirma o sr. Vilanova, apparecem machados toscos e polidos, ceramica grossa e fina, vidro irisado por decomposição, objectos de ouro e outros metaes, esculpturas de osso, etc. Dos restos organicos menciona os paus, mandibulas e ossos largos dos cervos; cabeças d’estes mesmos animaes inteiras ou sem maxilla inferior; alguma aberta intencionalmente na base pelo homem a fim de lhe extrahir a massa encephalica, portanto em condições analogas ás d’aquellas que se tem descoberto nas palafittas ou cidades lacustres da Suissa. Alguns dos paus de veado são lavrados ou polidos ou desgastados, bem como os das mencionadas estações prehistoricas. Em fim o sr. Vilanova cita ainda além dos objectos indicados, dentes de javali com riscas, entalhos (contadores?) e varios ornatos; cabos de pau de veado, cilindros da mesma materia com desenhos e furados n’uma das extremidades talvez para servirem de ornato ou de amuleto; algum chifre do grande cervo, no qual se teria aproveitado a natural disposição de uma das pontas para o empregar como instrumento de lavoura, e mil outros objectos de osso
«Os ossos sem lavor apparecem pela maior parte quebrados, alguns intencionalmente, outros com signaes de longo transporte. Em geral, estes restos organicos encontram-se em jazigos de côr cinzenta, misturados os naturaes com os lavrados, e em profundidade que não passa de dois ou tres metros»[45].
Com uns objectos evidentemente prehistoricos acham-se tambem outros de metal, vidro ou barro da epoca romana. As estações de Castella a Velha são portanto importantissimas, e é muito para lamentar que até hoje não tenham sido estudadas pelos archeologos hespanhoes. Ha grande analogia entre os depositos de Castella a Velha e as terramaras da Italia. Teriam sido, como estas, habitações lacustres, comparaveis ás palafittas da Suissa?
As facas de silex, mais communs em Portugal, são lascas estreitas e compridas, algum tanto recurvadas no sentido do comprimento. Têem a face concava muito lisa, a convexa formada por tres superficies inclinadas entre si em angulos muito obtusos. N’esta face vêem-se pois quatro arestas longitudinaes, duas formadas pela união d’aquellas tres superficies entre si, e outras duas, que são os bordos, pela união de cada uma das superficies externas com a face concava. Os bordos são acuminados e cortantes. N’uma das extremidades vê-se o bolbo de percussão, ou a parte onde percutiram o nucleo ou matriz de silex para fazer saltar a lasca inteira. Adiante do bolbo de percussão notam-se algumas depressões que poderiam servir para fincar os dedos e segurar a faca. Estes instrumentos poderiam ser applicados para fins differentes, taes como destacar a carne dos ossos dos animaes, cortar as pelles, etc. Todavia algumas ha tão delicadas e tão frageis que parece teriam sido antes usadas como symbolos, opinião cuja probabilidade, relativamente a outros objectos, adiante mostraremos.
No museu da Escola Polytechnica de Lisboa guardam-se muitas facas d’este mesmo typo, apparecidas em differentes logares com outros objectos de pedra polida[46].
Lubbock explica mui clara e satisfatoriamente o modo de fabricar as facas e outros objectos de silex. Quem percutir com um martello arredondado a superficie plana de um silex produzirá uma fractura conoide, cujo tamanho dependerá em grande parte da forma do martello. A superficie da fractura formará um cone com o vertice correspondente ao ponto percutido. Supponhamos agora que não se percute a superficie plana, porém o angulo de um silex prismatico, a fractura será em principio semi-conoide, mas tornar-se-ha depois achatada, e poderá continuar-se com essa fórma na extensão de mais de 0ᵐ,20. Obter-se-ha assim uma lasca de silex, similhante á folha de uma faca, mas com uma secção triangular. D’esta sorte, arrancados os quatros angulos primitivos da massa prismatica de base quadrangular, poderão ainda destacar-se do mesmo modo os oito angulos restantes e assim por diante.
Fig. 18
Fig. 19
PERCUTOR ACHADO NO ALEMTEJO.
Para que do silex, por meio da fractura, se obtenham taes resultados, importa que elle seja fresco, isto é, recentemente extrahido da terra. Por isso os homens prehistoricos exploraram esta rocha em grande escala, furando poços e abrindo galerias, alguns e algumas de grandes dimensões. Os instrumentos de que se serviam eram uma especie de picaretas feitas de ponta de veado. Em Portugal algumas se têem encontrado de pedra.
No museu da Escola Polytechnica de Lisboa guardam-se muitas lascas de silex, colhidas em varios sitios onde esta rocha foi explorada e fabricada. Vieram da Matta de Otta, da Charneca de Sacavem, do Arieiro de Telheiras, do Alto de Foz da Ponte, etc. Ignoram-se porém as circumstancias especiaes d’esses logares, que muito conviria saber para determinar a epoca e as circumstancias especiaes das varias officinas.
Têem apparecido n’algumas estações prehistoricas os instrumentos empregados para polir ou para lascar o silex. São tambem de silex. Os polidores têem cavidades de varias formas, onde pelo attrito se alisava a superficie das armas de pedra. Os percutores eram afeiçoados de sorte que se podessem apertar na chave da mão. Tinham tambem cavidades de fórma concava para o artifice fincar n’ellas os dedos, e percutir assim com mais força ([fig. 18 e 19]).
Fig. 20
MACHADO DE FELDSPATH POLIDO, DA PROVINCIA DO ALEMTEJO.
Das armas de pedra aquellas que mais numerosas apparecem tanto em Portugal como em Hespanha e em toda a parte, são os machados. Não foram encontrados, é verdade, nas explorações do Cabeço da Arruda e das grutas de Cesareda; mas, em compensação, acham-se em todas as provincias, onde, desde tempos immemoriaes os camponezes lhes chamam pedras de raio, e os guardam com grande veneração pelas virtudes que lhes attribuem.
Acham-se com frequencia nos dolmens. Na Memoria que ácerca d’estes monumentos escreveu o sr. Pereira da Costa vem desenhados oito com varias fórmas e dimensões[47]. São os typos mais communs em Portugal. Variam tambem muito as pedras de que os machados são feitos. Predominam o silex, o schisto, a amphibole, a diorite e o calcareo. Em Cantanhede appareceram alguns de jade, rocha não existente em Portugal, nem no resto da Europa, segundo dizem. No Alemtejo encontram-se os machados de pedra em muito maior numero que nas outras provincias[48].
Fig. 21
Fig. 22.
Fig. 23
INSTRUMENTOS DE PEDRA DA CAVERNA DE ALBUÑOL E DE MAFRA.
No museu da Universidade de Coimbra conservam-se muitos machados de pedra provavelmente de selvagens modernos. Ignora-se d’onde procederam e a epoca em que foram depositados n’aquelle estabelecimento. Além d’estes, ha um notavel, pela perfeição com que foi fabricado: appareceu na Cegonheira, perto de Bordalo, nas circumvisinhanças e a oeste de Coimbra.
São do mesmo typo os machados de diorite e de jade, descobertos em Argecilla e os que appareceram na caverna de Albuñol, Andaluzia[49]. Aqui porém encontraram-se dois, um inteiro e outro partido, mui differentes dos typos communs em Hespanha e Portugal. É possivel até que não sejam machados, mas outros instrumentos de pedra, conforme a opinião do sr. Gongora, que assim os denomina.
Alguns instrumentos se têem colligido em Portugal com a fórma curva, quasi de crescente ([fig. 23]). Na Commissão geologica conservam-se quatro d’estes instrumentos curvos de calcareo branco e molle, achados um em Mont’Abrão, e os outros tres nas immediações de Mafra, e tambem um fragmento egualmente de calcareo que parece de outro similhante objecto, fragmento encontrado na Casa da Moura, uma das grutas de Cesareda. Outro muito curvo, porém de diorite e de maiores dimensões, apparecido em Thomar, pertence hoje ás collecções do museu da Escola Polytechnica. É notavel esta fórma. Seriam picaretas?[50] Parece que os de Mafra, por serem de calcareo sem dureza, e portanto improprios para se empregarem como armas ou como instrumentos, teriam antes servido de insignias. Muitas facas de silex são tambem tão delgadas que talvez não tivessem outro fim. As que appareceram no concelho de Ancião partiram-se logo na occasião em que foram encontradas, por effeito dos choques que soffreram. O apparecerem algumas com objectos de bronze persuade até certo ponto a opinião, segundo a qual alguns d’estes objectos prehistoricos passariam de uma a outra idade, não com os usos que em principio tiveram, porém como emblemas, como symbolos sagrados, por trazerem á lembrança uma grande antiguidade ou os primordios da especie humana.
Não ha motivos para suppôr alguns dos objectos de osso, encontrados em Portugal nas estações prehistoricas, anteriores á epoca neolithica. Na casa da Moura, uma das cavernas da Cesareda, appareceram varios puncções, uma grande faca partida e um cabo de osso. A faca tem n’uma das faces uma excavação á maneira de meia cana, que é parte do canal medullar. O cabo não passa de um fragmento de um osso grande, cuja fórma natural aproveitaram sem o afeiçoarem. A superficie está desgastada pelo attrito da mão. Parece ter servido para encabar algum machado ou outro instrumento de pedra, da mesma sorte que empregavam para este mesmo fim as pontas de veado. E na Casa da Moura se encontrou tambem um cabo d’esta ultima especie ([fig. 24]). Similhantes ao outro de osso appareceram dois na Fonte da Ruptura em Setubal e um na Azambuja, perto da Penha de França. Todos se conservam no museu da Escola Polytechnica.
Na Fonte da Ruptura appareceram ossos transformados em puncções, algum ou alguns dos quaes, pelo grande comprimento, parecem de ave ribeirinha.
Fig. 24.
CABO DE OSSO DA CASA DA MOURA.
Estes instrumentos, designados pelo nome commum de puncções, ([fig. 25 e 26]) poderiam servir de pontas de frechas ou de dardos e para outros fins differentes. Apparecem com frequencia nas estações prehistoricas e todos os archeologos os conhecem. Pelo contrario deveria ter um fim certo e determinado um instrumento tambem de osso, apparecido na Fonte da Ruptura, em Setubal, e que não consta haver-se encontrado n’outras partes. É um osso macisso de fórma cylindrica, adelgaçado em metade do seu comprimento para se introduzir n’outro osso vasado, cuja capacidade interior corresponde áquella parte menos grossa do cylindro macisso.
O sr. Pereira da Costa julga que este instrumento serviria para abrir furos em pelles. Collocadas as pelles sobre o orificio superior do cylindro vasado, facilmente se atravessariam pela parte mais delgada do cylindro macisso. Sería este ou outro o uso de tão singular objecto? Ninguem o saberá dizer hoje com certeza. Acharam-se na Fonte da Ruptura dois d’estes furadores. Chame-se-lhes assim interinamente.
Fig. 25
Fig. 26
PUNCÇÕES DE OSSO DE ALMERIA E DA FONTE DA RUPTURA.
Na caverna de Albuñol na Andaluzia appareceram puncções de osso e uma folha de faca ou canivete, furado na base, tambem de osso. No Cabeço da Arruda em Portugal encontrára o sr. Pereira da Costa uma faca similhante de osso, porém muito comida do tempo ou do uso que tivera[51].
Fig. 27
Fig. 28
FURADOR (?) DA FONTE DA RUPTURA.
Fig. 29
FACA DE OSSO DE ALBUÑOL.
Na anta de Bellas appareceu um fragmento de cylindro de osso, vasado por dentro, e por fóra muito lavrado. Sería parte de um copo, ou de um ornato de algum objecto de fórma cylindrica?
Fig. 30
FRAGMENTO DE OSSO SEMI-CYLINDRICO DA ANTA DE BELLAS.
Outro fragmento similhante tambem de osso lavrado achou-se na Furninha do Cão (Peniche?). Ambos se conservam no museu da Escola Polytechnica. Têem apparecido em Portugal muitas placas de schisto negro, com lavores similhantes aos do fragmento anterior n’uma das faces. São furadas umas em um, outras em dois pontos, n’uma das extremidades.
No museu da Escola Polytechnica, além d’aquella que appareceu em Monte Real ([fig. 31]), conservam-se mais duas de Vianna do Alemtejo, quatro de uma anta de Pavia, e finalmente outra da anta de Bellas; na Commissão geologica o fragmento de outra placa da Cova da Estria ([fig. 32]). Na collecção de archeología do Instituto de Coimbra outra apparecida em Ancião. Em fim na bibliotheca publica de Evora mais duas, n’uma das quaes se vê o mesmo lavor da [fig. 31], e n’outra apenas umas listas em zig-zag, similhantes ás do fragmento de osso da anta de Bellas.
As placas de schisto riscadas parece terem sido usadas pelos constructores das antas, por se encontrarem algumas d’ellas nas antas de Bellas e de Pavia. Em Bellas, Ancião, Monte Real e Cova da Estria encontraram-se juntamente facas de silex do typo das [fig. 16 e 17], o que tambem demonstra terem sido usadas tanto umas como outras na mesma epoca e pelo mesmo povo.
Fig. 31
PLACA DE SCHISTO DE MONTE-REAL, LEIRIA.
Fig. 32
FRAGMENTO DE UMA PLACA DE SCHISTO DA COVA DA ESTRIA.
Estes objectos são desconhecidos dos archeologos. Não têem sido desenhados, nem outros nenhuns similhantes, nos livros de archeologia prehistorica; excepto na grande obra Reliquiæ Aquitanicæ, onde a pag. 186 vem um instrumento comparavel ás placas de schisto. É de basalto e tem a fórma de um machado. N’uma das extremidades vê-se um orificio e no bordo correspondente oito entalhos que formam uma especie de serrilha. Appareceu na Pensylvania. Os auctores das Reliquiæ entendem que sería uma especie de machado que se ligaria a um cabo, passando o cordão ou corrêa pelo orificio e fixando-se nos entalhos[52].
A placa de schisto ([fig. 31]) tem, além do orificio, um entalho no bordo, e algumas têem mais de um orificio e de um entalho. Por analogia concluiremos que as placas de schisto poderiam tambem ser uns como machados que se ligassem por meio dos orificios e dos entalhos a cabos de madeira. Mas a delicadeza d’estes objectos, e não estarem gastos do attrito, faz crivel que serviriam apenas de amuletos ou insignias ou emblemas ou objectos de culto na epoca dos dolmens, bem como as facas de silex contemporaneas ([fig. 16 e 17]).
Fig. 33
BACULO DE SCHISTO DA SEPULTURA DE MARTIM AFFONSO.
Em fim convem notar que a machadinha de Argecilla ([fig. 8 e 9]), é analoga ás placas de schisto e serviria talvez para o mesmo fim, bem como outra de calcareo com a fórma de coração, achada na Cova da Estria ([fig. 34]).
No museu da Escola Polytechnica ha uma especie de baculo ([fig. 33]), tambem de schisto negro e com ornatos parecidos aos das placas ([fig. 31]). Appareceu na Sepultura de Martim Affonso juntamente com facas de silex, como as da [fig. 16 e 17], e com a ponta de lança ([fig. 15].) Sería talvez insignia de grau superior, pois não se sabe de outra similhante[53].
Convém notar que na parte inferior ha um pequeno espaço liso, por onde talvez se introduzisse n’algum cabo ou haste de pau. É extremamente comparavel esta insignia áquellas que denominaram bastões de commando, feitas de pau de rangifer, e muito communs nas estações prehistoricas de outros paizes. Dir-se-hia que, não habitando o rangifer na Peninsula, os homens se veriam aqui obrigados a substituir aquella materia pelo schisto. Mas a coexistencia das placas, baculos de schisto e dolmens está demonstrando ter sido o uso d’estes objectos muito posterior á epoca do rangifer. Quanto aos ornatos triangulares, foram muito communs na epoca da pedra polida. A ornamentação com linhas curvas representa já um progresso da arte, posterior ao emprego exclusivo da linha recta. Mas advirta-se que a superficie dos triangulos, coberta de traços que se cruzam, formando pequenos quadrados, não é nada commum na epoca neolithica, e póde até considerar-se caracteristica dos objectos de schisto achados em Portugal. Na Scandinavia, como se vê da obra de Nilsson, têem apparecido enxadas de ponta de veado, com figuras de animaes (cervos?) esboçadas, e junto d’estas figuras os triangulos cobertos de traços cruzados como os das nossas placas e baculos. Os dolmens da Scandinavia são tambem aquelles que mais se assimilham aos de Portugal. Adiante veremos as conclusões que se hão de tirar d’estes factos importantes.
Fig. 34
MACHADINHA DE CALCAREO DA COVA DA ESTRIA.
Que as placas de schisto não serviriam de certo para os fins a que se applicaram os machados de pedra claramente se prova com o achado de um objecto similhante, mas de calcareo que a [fig. 34] representa em tamanho natural. Tem a fórma de um coração, com quanto os orificios e os entalhos da base mostrem com certeza que deveria ligar-se a um cabo ou haste de pau para representar o antigo e talvez já obsoleto machado de pedra. A molleza do calcareo, provando que este objecto não poderia servir para qualquer trabalho em que tivesse de se empregar um machado, confirma a hypothese de que estas e outras reliquias prehistoricas não seriam mais que emblemas ou insignias para as ceremonias do culto ou para quaesquer outras, e que se enterrariam com aquelles a quem tivessem pertencido. Assim temos já as facas de silex, as picaretas com fórma de crescente, as machadinhas de schisto e de calcareo, a que é applicavel a nossa hypothese, e que, sem ella, não teriam razão de ser, nem outra explicação possivel.
Fig. 35
FRAGMENTO DE CALCAREO DA COVA DA ESTRIA.
Achou-se tambem na Cova da Estria um fragmento cylindroide do mesmo calcareo esbranquiçado e sem dureza com duas riscas transversaes n’uma das extremidades e tres riscas obliquas do lado da outra extremidade ([fig. 35]). Impossivel parece apresentar no estado actual da prehistoria uma opinião certa ácerca do fim para que tal objecto serviria na epoca dos dolmens. Sería um contador ou uma insignia de graduação determinada?
Do mesmo calcareo é uma conta de collar, achada na anta de Bellas, ([fig. 36]), e tambem duas bolas encontradas na Cova de Estria. Acharam-se mais na anta de Bellas duas contas de schisto ([fig. 37]). Outras similhantes a estas ultimas e da mesma materia appareceram na Casa da Moura.
No dolmen de Vauréal, em França, descobriu-se um esqueleto de mulher e junto d’elle as contas de um collar, umas feitas de osso, outras de schisto e um amuleto com a fórma de machadinha que parecem ter pertencido ao mesmo collar[54]. Se não fôra a grande similhança das placas de schisto do typo da [fig. 31] como o instrumento de basalto da Pensylvania, poderiam antes considerar-se como amuletos ou insignias de collares, bem como a peça cordiforme de calcareo ([fig. 34]); porém a existencia dos entalhos tanto em uns como em outros, faz mais provavel a opinião expendida.
Fig. 36
CONTA DE CALCAREO DE BELLAS.
Fig. 37
CONTAS DE SCHISTO DE BELLAS.
N’algumas das estações prehistoricas de Hespanha e de Portugal têem apparecido juntamente com os objectos descriptos ou outros similhantes, vasos de barro ou fragmentos de louça. Os mais imperfeitos são os vasos hemisphericos da Casa da Moura, sem lavores nenhuns, com a superficie aspera, feitos á mão, antes da invenção do torno, ou por quem não tivesse este instrumento. Estão cheios de uma substancia amorpha que parece haver-se solidificado dentro dos vasos. Seriam alimentos depositados juntamente com os cadaveres? Acreditariam já os antigos habitantes da Casa da Moura o dogma da resurreição?
No alto do Mont’Abrão, na Pena de Setubal e na Fonte da Ruptura da mesma cidade appareceram fragmentos que denotam muito maior adiantamento das artes da ceramica, não sómente pela qualidade do barro, mas tambem pela regularidade dos ornatos. Alguns são cobertos de um verniz vermelho ([fig. 38, 39 e 40]).
Outros similhantes fragmentos se conservam tambem nas collecções da Commissão geologica e do museu da Escola Polytechnica, encontrados em Santa Eulalia, perto de Monte-Mór-o-Velho, em Barcarena, etc.
A [fig. 41] representa um fragmento da ceramica prehistorica da Andaluzia, achado na caverna de Albuñol, e que parece contemporaneo d’aquelles que ultimamente dissemos terem sido encontrados em varias estações prehistoricas de Portugal.
Ha grande similhança entre taes fragmentos e os que se encontraram no tumulo de West-Kennet no Wilt-shire. A [fig. 39] é quasi uma copia do desenho de um d’aquelles fragmentos estampados, descriptos e publicados por Lubbock. Por onde se confirma que a estação da Pena de Setubal e outras estações correlativas de Portugal e Hespanha foram com effeito occupadas na epoca neolithica ou premetallica.
Fig. 38
Fig. 39
Fig. 40
FRAGMENTOS DE LOUÇA DE MONT’ABRÃO, PENA E FONTE DA RUPTURA.
Fig. 41
FRAGMENTO DE CERAMICA DE ALBUÑOL.
Outros achados feitos na caverna de Albuñol da provincia da Andaluzia dão-nos mais alguma idéa dos costumes e do estado social dos homens que habitavam a Peninsula n’esses tempos remotos. A caverna, conhecida pelo nome de Cueva de los murcielagos, tinha sido explorada em 1831 com o fim de extrahir d’ella o guano formado pelos excrementos dos animaes que lhe deram o nome. Não se revolveu o solo n’esta primeira exploração; portanto ficaram intactos os objectos que ali estavam sepultados. Em 1857 constituiu-se uma companhia para explorar os mineraes de chumbo que suppunham haver na caverna. Logo no principio das excavações appareceram á entrada tres esqueletos, um dos quaes cingido com diadema singelo de ouro puro ([fig. 42]).
Continuando a excavação pelo interior da caverna, acharam os mineiros doze cadaveres, postos em semi-circulo á roda de um esqueleto de mulher muito bem conservado, vestido com uma tunica de pelle, apertada com corrêas, e adornado com um collar feito de anneis de esparto, de um dos quaes pendia um dente de javali lavrado na ponta, e dos outros conchas furadas.
Fig. 42
DIADEMA DE OURO DA CAVERNA DE ALBUÑOL.
O esqueleto a que pertencia o diadema de ouro tinha uma veste curta de tecido fino de esparto, ([fig. 43]). Os vestidos dos outros eram tambem de esparto, porém de tecido mais grosseiro, ([fig. 44]). Alguns tinham gorros de tecido similhante ([fig. 45]), e calçado tambem de esparto, á maneira de alpercatas. Cada um dos tres esqueletos tinha uma bolsa de esparto, cujo tamanho variava entre seis e quinze pollegadas ([fig. 46]).
Em fim, na parte mais remota do interior da caverna acharam os mineiros outros cincoenta esqueletos tambem vestidos e calçados de esparto. Juntamente com as ossadas havia facas e machados de pedra, lanças e frechas com pontas de silex pegadas a toscos paus com um cimento fortissimo; vasos de barro, e colhéres de madeira trabalhadas á pedra e ao fogo. O sr. D. Manuel de Gongora, annos depois, encontrou ainda o diadema de ouro e outros objectos, que algumas pessoas curiosas guardavam, e poude mandal-os desenhar e gravar para lhes dar publicidade na sua interessante Memoria[55].
Serão porém authenthicos os objectos que dizem achados em Albuñol? E, sendo-o, não se deverá antes attribuil-os a uma epoca muito menos antiga, de sorte que podessem chegar aos nossos dias tão bem conservados? Que o sr. Gongora viu os objectos é indubitavel. Responde pela sua veracidade a Academia Real de Historia que deu o parecer favoravel á impressão da Memoria. Que abusassem da boa fé do explorador e da sua paixão pela archeologia não é crivel; uma falsificação denunciar-se-hia logo por qualquer incompatibilidade entre os objectos encontrados. Ora todos elles revelam claramente a epoca neolithica. Entre tantos objectos achados não houve um só de bronze ou de ferro. Appareceu, é verdade, o diadema de ouro, mas ha toda a razão para suppôr que este metal sería fabricado anteriormente ao cobre, por se apresentar no estado nativo e não exigir portanto a invenção de processos especiaes de extracção. Demais andam conformes os auctores antigos em descrever as areias dos rios da Peninsula como abundantes de palhetas de ouro.
Fig. 43
Fig. 45
Fig. 44
TECIDOS DE ESPARTO DA CAVERNA DE ALBUÑOL.
Os tecidos de esparto não ha impossibilidade nenhuma em attribuil-os á epoca neolithica, pois têem apparecido em estações lacustres da idade da pedra, sobre tudo em Wangen e em Robenhausen, fragmentos similhantes áquelles que se descobriram em Albuñol[56].
Mas como se conservariam os esqueletos, alguns com as carnes mumificadas, os tecidos e as pelles, por tantos seculos? A falta do ar e da humidade no subsolo da caverna, poderiam ter obstado á putrefacção. Por outra parte concorreria igualmente para o mesmo effeito o salitre que o sr. Gongora diz ter encontrado dentro da Cueva de los murcielagos.
Fig. 46
BOLSA DE ESPARTO DA CAVERNA DE ALBUÑOL.
O uso das conchas e das prezas de javali, como ornatos, era muito commum aos habitantes das cavernas e dos dolmens. No entulho superior da Casa da Moura encontraram-se valvas de Pectunculus com as faces muito desgastadas, e furadas no umbão. Outras valvas d’aquella mesma especie ou de Pecten maximus não tinham signal nenhum de terem sido furadas, como as outras, mas estavam similhantemente desgastadas[57].
O sr. Vilanova dá noticia de conchas dos generos Pecten, Pectunculus, Helix, Melanopsis, Cyclostoma, Cardium, Bulimus, Conus e outras achadas nas cavernas de Parpalló na falda occidental de Monduber; de Avellanera, na falda septemtrional de Matamon, provincia de Valencia; da Roca em pequena distancia da cidade de Orihuela; attribuindo os vestigios das duas primeiras cavernas á epoca paleolithica e os da terceira á epoca mesolithica. Mas é possivel que os vestigios d’estas cavernas, bem como os de Argecilla, não tenham a antiguidade que se lhes attribuiu[58].
Na Cueva de la mujer, nas circumvisinhanças da Alhama de Granada, achou o sr. Mac Pherson um bracelete muito notavel, feito de uma concha ([fig. 47])[59]. Pelos fragmentos de louça encontrados n’esta caverna se prova serem os seus habitantes contemporaneos d’aquelles que ficaram sepultados em Albuñol, e dos outros que frequentavam a Pena e a Fonte da Ruptura em Setubal. Entretanto, não consta que se tenha até hoje achado na Peninsula outro bracelete similhante. Em França n’uma pedreira da estrada de Dijon a Auxonne appareceu em 1849 uma sepultura, e d’entro n’ella, juntamente com os ossos, um bracelete como o da Cueva de la mujer e dois anneis feitos tambem de conchas bivalvas e desgastadas no meio, ficando uma parte muito mais grossa que sería para formar saliencia pela parte de fóra do dedo. Acharam-se mais no mesmo logar outras conchas furadas que parece teriam sido de um collar.
Fig. 47
BRACELETE DE CONCHA DA CUEVA DE LA MUJER.
Ainda hoje os Neo-Caledonios usam braceletes de conchas, e rosarios feitos com as ultimas spiras de conchas pequenas que furam com paciencia e destreza, dignas de admiração. Nas costas da Africa certos negros fazem collares de conchinhas brancas da especie denominada Volvaria monilis[60].