NOTAS DE RODAPÉ:
[40] D. Juan Vilanova, Lo préhistorico en España. Anales de la sociedad española de Historia Natural, tomo I, cuarderno 2.º pag. 201 a 204.
[41] F. A. Pereira da Costa, Da existencia do homem em epocas remotas no valle do Tejo. Lisboa, 1865.
[42] Lubbock, L’homme prehistorique. Pariz 1876, pag. 77 e 624.
[43] Lubbock, Op. cit. pag. 221 a 227.
[44] Dupont, L’homme pendant les ages de la pierre. Pariz 1872, pag. 221.
[45] Vilanova, Lo prehistorico en España.
[46] Muitas das pontas de frecha do museu da Escola Polytechnica provieram da Fonte da Ruptura e da Pena de Setubal, da Casa da Moura (Cesareda), da anta de Bellas, dos montes de Verride, de Barcarena, da Sepultura de Martim Affonso, de Monte-real (Leiria), das circumvisinhanças de Extremoz. As lascas de silex, procedentes do fabrico das facas, foram encontradas na Matta de Otta, na Charneca de Sacavem, nos Arieiros de Telheiras (perto do Campo Grande), no alto da Foz da Ponte (entre a Trafaria e o Cabo), nas Quintinhas de Sant’Anna (junto de Cezimbra?), ao norte de Mindeis (acima de Collares), entre Penedo e Bicas, em S. Francisco de Peniche.
[47] F. A. Pereira da Costa. Dolmins ou antas de Portugal. Lisboa 1868.
[48] Na collecção de archeologia do Instituto de Coimbra conservam-se muitos exemplares, pela maior parte do Alemtejo; ali estão tambem os de Cantanhede.
[49] Vilanova, Lo prehistorico en España. Gongora, Antigüedades prehistoricas da Andalucia.
[50] Ha poucos dias achou-se um d’estes instrumentos, similhante ao de Thomar, pela fórma e tamanho, em S. Miguel de Machede, districto de Evora, no Alemtejo. Apesar de mutilado na ponta, mede 0,ᵐ27 de comprido.
[51] Gongora, op. cit., Pereira da Costa, op. cit.
[52] Reliquiæ Aquitanicæ, pag. 186.
[53] Depois de escripto este capitulo, acharam-se outros dois baculos em Portugal. Um muito similhante á [fig. 31]; outro com os ornatos em relevo. Pertencem á Commissão geologica.
[54] Saint-Aymour. Études sur quelques monuments mégalithiques de la vallée de l’Oise. Pariz 1875.
[55] D. Manuel de Gongora, Antigüedades prehistoricas de Andalucia. Madrid 1868.
[56] Lubbock, L’homme prehistorique. Pariz 1876, pag 178.
[57] J. F. N. Delgado, Noticia ácerca das grutas de Cesareda. Lisboa 1867.
[58] Lo prehistorico en España.
[59] La Cueva de la mujer. Descripcion de una caverna conteniendo restos prehistoricos, descobierta en las immediaciones de Alhama e Granada. Por G. M. Pherson, parte 2.ª, pag. 6, est. VIII, fig. 3.
[60] Magasin Pittoresque, 1868, pag. 44 a 46, onde se podem vêr as estampas dos objectos achados em Dijon.
CAPITULO V
AS CAVERNAS
Os troglodytas.—As cavernas imitadas nas mais antigas das construcções.—Seu estudo recente.—Bocas das cavernas.—Vãos interiores.—Como se formariam?—Analogias das cavernas com os veios metallicos.—Causas capazes de formar as cavernas.—Depositos.—Cavernas ossiferas.—Procedencia das ossadas.—Ossos humanos e vestigios da industria primitiva.—Caverna de Cavillon.—Cavernas da Sierra Cebollera, Gibraltar, Parpalló, Alhama de Granada e Albuñol.—Cavernas da Cesareda.—Se a anthropophagia sería um costume geral dos homens prehistoricos?—Razões em contrario.
Pelos vestigios encontrados dentro nas cavernas, se prova terem sido habitadas umas pelos homens e outras pelas feras. Algumas serviriam tambem alternativamente aos homens e aos animaes, conforme a sorte dos combates, em que todos se disputavam a posse, senão dos unicos, ao menos dos melhores dos abrigos que a natureza lhes offerecia contra as intemperies das estações e contra os ataques dos inimigos. Houve, portanto, troglodytas ou gentes que habitavam as concavidades da terra e viviam á maneira dos irracionaes. Nem é muito que assim fosse nos primordios da humanidade, quando ainda hoje alguns povos selvagens, refractarios á lei do progresso, habitam similhantemente cavernas e tocas de barro, feitas á similhança d’ellas.
Imitar a caverna parece ter sido a grande aspiração dos primeiros dos constructores e dos architectos. Os dolmens, os tumulos, e até os templos subterraneos do Egypto e da India recordam as lobregas moradas dos homens primitivos, bem como os templos da Grecia fazem lembrar a cabana scythica, habitação de uma epoca e de uma raça que esquecera os antigos costumes dos avoengos prehistoricos.
Depois que, inventada a architectura, as cavernas deixaram de ser habitadas, tornaram-se naturalmente objectos de terror, admiração ou curiosidade. Assim em tempo de Æliano, os lugubres gemidos e vozes lamentosas do bárathro de Plutão inspiravam aos indios de Aria o temor de uma divindade cruel e malfazeja. Por toda a parte, as trevas, os animaes, os sons e ruidos estranhos que enchem os vãos interiores das cavernas punham medo áquelles que não ousavam mais que observar-lhes a furto as bocas mysteriosas, ou perscrutar-lhes com olhos timidos as reconditas profundezas. Só algum pastor mais destemido, ou viajante mais curioso, chegavam a aventurar-se pelos secretos reconcavos com o intento de medil-os, de examinal-os, de admirar o reflexo das luzes nas gottas de agua pendentes das abobadas naturaes, ou na superficie dos riachos ou cascatas; ou com o fim de contemplar a perspectiva interessante e pittoresca das stalactites e stalagmites a simularem penduroes, laçarias, arcadas, balaustradas, columnatas e outras maravilhas de uma arte phantastica e caprichosa. Mas o estudo geologico das cavernas data de ha poucos annos, e de ha menos ainda o exame das ossadas e dos vestigios da industria primitiva que ellas contêem.
As bocas da maior parte das cavernas abrem-se nas vertentes dos valles ou nos bordos das bacias naturaes. São quasi sempre as unicas partes exteriormente visiveis; e, se n’alguns casos não têem nada notavel, n’outros chegam a parecer portas de templos, com as suas voltas ou archivoltas estribadas em rochas fendidas e esburacadas á maneira de columnatas carcomidas pelos seculos. Outras consistem apenas em estreitas fendas tapadas em parte por incrustações e entulho. Outras dirigem-se vertical ou quasi verticalmente, como poços ou chaminés, da superficie para o interior. Outras em fim estão obstruidas com paredes ou com montões de pedras que difficultam a passagem. Muitas abriram-se natural ou artificialmente em epocas modernas e posteriores ás da formação das cavernas a que pertencem. Algumas e mais em particular as d’aquellas que elle tem habitado, foram alteradas pela mão do homem.
Interiormente ha grande variedade nas cavernas. Umas consistem apenas em cavidades unicas de fórmas regulares ou irregulares. Outras constam de muitas cavidades ou salas que entre si communicam por meio de longas e estreitas galerias. Ás vezes os tectos d’estes vãos interiores são concavos, muito altos e similhantes ás abobadas dos zimborios. Outras vezes abatem-se insensivelmente, chegam a tocar o chão e deixam estreitas passagens, por onde mal pode penetrar um homem. Não é raro em fim estarem as camaras interiores em niveis differentes, e communicarem entre si por meio de galerias muito inclinadas ou quasi verticaes.
Encontram-se nos terrenos calcareos as mais vastas das cavernas. Explica-se este facto pela estructura das rochas calcareas, pela facilidade com que se desaggregam, e finalmente pelo modo porque se fendem ou abrem ou affastam as suas longas bancadas.
Não houve ainda quem formulasse uma theoria racional e sufficientemente explanada da formação das cavernas. Sabe-se apenas que trabalharam em vão aquelles que pretenderam explicar por uma só causa esses factos complexos, intimamente relacionados com outros grandes factos geologicos. Primeiro que tudo convirá considerar as causas que elevaram as montanhas e que, só por si, poderiam ter produzido algumas cavernas, e deixar as camadas da crusta em condições favoraveis á producção de muitas outras. Alguns geologos acreditaram a hypothese da existencia de immensas cavidades no interior do globo, das quaes as cavernas apenas seriam pequenos appendices superficiaes. Todos sabem que, para explicar as fontes, importa necessariamente admittir a existencia de grandes depositos subterraneos, onde se ajuntam as aguas das chuvas, para depois correrem na superficie da terra, filtradas pelas camadas superficiaes. Se taes depositos são vãos interiores, as mesmas causas que os formaram, formariam tambem as cavernas; se pelo contrario estão cheios de rochas porosas, não custa nada admittir que as cavernas fossem ainda da mesma sorte produzidas, tendo sido posteriormente esvasiadas das materias porosas que por ventura contivessem.
Os veios metallicos encheram, em varias epocas da vida do globo, fendas ou rupturas preexistentes da sua crusta. As massas de minerio ficaram portanto com a fórma desses espaços que preencheram. Ora a observação tem mostrado grandes analogias entre a fórma e disposição das cavernas e as dos veios metallicos. Em primeiro logar, na mesma região constituem estes veios systemas determinados, correspondentes a epocas diversas, e seguindo os veios de cada um a mesma direcção, de modo que os differentes systemas se distinguem entre si pelas direcções respectivas que ás vezes se cruzam umas com as outras. Assim tambem n’uma região, abundante de cavernas naturaes, não será difficil classifical-as em grupos varios, conforme as suas respectivas direcções, cada um dos quaes deverá corresponder a uma epoca determinada. A disposição das salas das cavernas multiloculares e dos corredores que as ligam observa-se em ponto pequeno nos systemas dos veios, cujas dilatações em varios niveis se ligam entre si por meio de prolongamentos de muito menor diametro. Em ponto grande encontrar-se-ha essa mesma disposição nas cordilheiras calcareas, nos valles e bacias situadas em diversas alturas e nas gargantas ou passos estreitos, por meio dos quaes se communicam entre si. Taes são os factos, até hoje pouco estudados, que persuadem a possibilidade de subordinar á mesma causa a elevação dos montes e collinas e a formação dos seus vãos interiores ou das cavernas.
Além d’esta causa, algumas outras poderiam ou completar o seu effeito acabando de formar as cavernas e alterando-lhes as formas, ou produzil-as só por si sem qualquer trabalho ou disposição anterior. Taes são: 1.º. Os terremotos, cujas oscillações produziriam talvez, nos pontos em que ellas se entrecruzassem, os vãos ou dilatações maiores: 2.º As rupturas e depressões causadas pela retracção e deslocação dos estratos calcareos, ou pelo desmoronamento d’aquelles que tivessem ficado em vão: 3.º Os gazes e vapores acidos que poderiam dilatar os espaços interiores ou corroer as materias que os enchessem: 4.º A agua que arrastaria umas das substancias interiores e dissolveria outras, esvaseando assim os logares occupados por essas substancias.
Interessa por extremo á paleontologia, tanto do homem como dos animaes, o estudo dos depositos contidos nas cavernas. Muitos foram formados pela agua que circula nas rochas permeaveis e nos vãos interiores da crusta da terra, uns por precipitação de substancias dissolvidas, outros por separação mechanica de materias suspensas n’aquelle liquido. A agua que se infiltra pelas paredes das cavernas calcareas, dissolve uma porção de carbonato de cal. O acido carbonico resultante da decomposição dos restos organicos ou procedente da atmosphera favorece esta dissolução transformando o protocarbonato mui pouco soluvel em bicarbonato soluvel. A dissolução d’este sal, chegando ao ar livre, perde um equivalente de acido carbonico, e o bicarbonato transforma-se em protocarbonato que se precipita. Assim se formam as stalactites e as stalagmites no tecto e no chão das cavernas, quando a agua carbonatada gotteja das suas paredes. Quando porém corre em quantidades maiores e arrasta comsigo areias, restos de plantas e outros materiaes, fórma então aquellas massas leves e porosas que chamam tufo, em que o protocarbonato de cal se incrusta sobre as partes solidas arrastadas. Acha-se o tufo em grandes porções nas cavernas de Condeixa, tres leguas ao SO de Coimbra.
Mas os depositos mechanicos são os mais interessantes pela maior variedade de restos que contêem. Todos sabem que as aguas correntes arrastam em suspensão materias solidas, e muitas especificamente mais pesadas. Se qualquer causa diminuir ou destruir o movimento da agua, as partes solidas depositar-se-hão, em geral, pela ordem das suas densidades relativas. Isto posto, vê-se como os vãos das cavernas deveriam favorecer similhantes depositos, retardando a velocidade das correntes interiores ou das exteriores que dentro n’elles penetrassem. Na maior parte dos depositos, assim formados, predomina a argilla arenosa de côr avermelhada ou amarellada, sem grande consistencia, umas vezes mais ou menos estratificada, outras vezes sem nenhuns signaes de estratificação. Conforme o mechanismo do deposito e a natureza das partes depositadas, assim as camadas são ou extremamente molles ou tão endurecidas pelo calcareo que as impregna, que se não cortam sem dificuldade. Ás vezes nas camadas depositadas acham-se incorporados seixos, calhaus rolados, fragmentos de stalactites e pedras angulosas pela maior parte provenientes das paredes das cavernas. Alguns porém foram arrastados de fóra e de pequenas distancias pela agua corrente. Consideram os geologos os depositos interiores das cavernas como a continuação dos depositos exteriores superficiaes. Têem todos a mesma natureza e textura e até muitas vezes a mesma côr avermelhada.
Muitas cavernas tornam-se notaveis pela quantidade de ossos que encerram. Por isso lhes chamam commumente cavernas ossiferas ou cavernas de ossadas. Estes ossarios têem ás vezes grande espessura. Na caverna de Banwel, no condado de Sommersetshire, em Inglaterra, a sala maior de quinze metros de altura, estava cheia até ao tecto com um deposito de ossos. A regra geral é apparecer a camada molle dos ossos por baixo da camada dura calcarea ou stalagmitica. Algumas vezes acham-se invertidas, e outras vezes alternam camadas de uma com as de outra especie. Para explicar esta alternação importa considerar não sómente as causas já indicadas da formação dos depositos calcareos, mas tambem aquellas que operaram os depositos dos ossos. Primeiro que tudo convirá notar uma circumstancia importante, um facto capital, que em toda a explicação se ha de ter em vista. E vem a ser a grande variedade de animaes, cujos ossos se encontram juntos nas mesmas cavernas.
«As cavernas de Muggendorf e de Gailenreuth, diz Burgmeister, formadas na dolomia do terreno jurassico bavaro, são particularmente celebres. Da ultima têem extrahido ossadas pelo menos de mil individuos, dos quaes oitocentos pertencentes á especie do grande urso (Ursus spelœus), sessenta a uma outra especie do mesmo genero (Ursus arctoideus) e dez ainda a uma outra especie (Ursus priscus). As cento e cincoenta restantes são de lobos, hyenas, leões e texugos. As cavernas de Sundwig em Iserlohn continham restos de especies similhantes, sendo mais numerosos os do Ursus spelœus. A caverna de Kirkdale, na região oriental do condado d’York, contém pelo contrario, sobre tudo, ossos de hyenas com outros ossos roidos de cavallos, bois, veados, trazidos pelas hyenas. Ahi foi que Buckland fez as suas bellas investigações sobre o genero da vida primitiva d’estes animaes, e notou as camadas de excrementos juntos das paredes polidas pelas hyenas. Achou-se em Argou, departamento dos Pyreneus, uma caverna com animaes herbivoros, a qual de resto se ha de considerar como uma raridade. Occupa um schisto liasico, e continha principalmente ossos de cavallos, bois, veados e rhinocerontes»[61].
Os ossos das cavernas podem ter sido de animaes mortos ou dentro ou fóra d’ellas. Se ainda hoje são habitadas pelos morcegos, corujas e outras aves nocturnas e por grande variedade de animaes carniceiros, que muito que em epocas remotas egualmente o fossem, e que esses animaes de tantas classes e de tantas especies lá ficassem sepultados? Morreriam uns de morte natural deixando os seus restos incorporados no solo das cavernas. Outros seriam arrastados, como presas, pelos carnivoros para dentro d’ellas. Em fim, por occasião das inundações, era natural que animaes de especies differentes, e até inimigos, se recolhessem ás cavernas, pois quando é grande o perigo e commum, todos os instinctos cedem ao da propria conservação. Em tal caso, elevando-se o nivel da agua e tapando a boca da caverna e enchendo o seu interior, todos os animaes ali accumulados morreriam por asphyxia.
Todavia em muitas cavernas encontram-se os ossos maiores dos grandes mammaes, como os dos membros anteriores e posteriores, com os angulos arredondados e com as arestas comidas do attrito, e os ossos pequenos reduzidos a fragmentos disformes e boleados. Alterações taes provam que os ossos foram arrastados pela agua juntamente com os calhaus e por estes friccionados. Por outra parte, a natureza das rochas accumuladas com os ossos, differentes d’aquellas que constituem as paredes das cavernas, demonstra haverem-se formado as camadas ossiferas á custa dos terrenos exteriores. Finalmente não apparecerem esqueletos inteiros em taes depositos é ainda outro motivo para crer que, na maior parte das cavernas, os ossos procedentes de animaes, mortos fóra e não dentro d’ellas, seriam arrastados, por occasião das inundações, pela agua com os materiaes constituintes dos terrenos onde jaziam sepultados.
Por entre as ossadas de muitas cavernas têem apparecido ossos humanos e vestigios da industria primitiva, e, como algumas d’aquellas pertenciam a especies extinctas ou emigradas, ao mammouth, ao rangifer, ao urso, allega-se geralmente este facto entre as provas da antiguidade remota da especie humana. Porém na opinião de alguns tal prova é insufficiente, porque, dizem, se os vestigios do homem foram sepultados dentro das cavernas, muito bem o poderiam ser depois de lá existirem ossadas de animaes que tivessem vivido muitos milhares de annos antes. Se pelo contrario taes vestigios foram arrastados de fóra com as ossadas antidiluvianas, é claro que poderiam egualmente uns e outros ter idades mui differentes, e até fazer parte de terrenos mui diversos.
Estas objecções levaram os exploradores a pôr todo o cuidado nas explorações, de modo que os resultados obtidos não ficassem sujeitos a contradictas. Assim as relações de posição dos instrumentos de silex com os ossos dos depositos, o encontrarem-se no mesmo plano ou em planos inferiores, os entalhos feitos nos ossos, o modo por que foram quebrados para se lhes extrahir a medulla e finalmente os desenhos do mammouth ou do rangifer em objectos de osso, de chifre ou nas proprias presas dos animaes, como se encontraram em cavernas da Dordonha, tudo foi minuciosamente estudado e tudo mostrou haverem sido contemporaneos o homem e os grandes mammaes desapparecidos.
Uma das cavernas que mais concorreram para esclarecer a questão foi a de Cavillon, explorada pelo sr. Rivière entre aquellas que se descobriram na occasião de se construir o caminho de ferro de Genova a Menton e a Nice. No dia 26 de março de 1872 achou o explorador os ossos do pé de um esqueleto humano. O esqueleto estava de tal sorte adherente aos materiaes que o envolviam, que só, depois de oito dias de trabalho, se poude destacar d’elles. Estendido no decubito lateral esquerdo e com a maxilla inferior appoiada nas phalangetas da mão esquerda, jazia na attitude de um homem a quem morte subita e sem agonia surprehendesse durante o somno. Em roda do esqueleto acharam-se instrumentos de silex lascados, taes como pontas de frecha, pontas de lança e raspadeiras; um pedaço de puncção de osso, conchas de varios generos e dentes furados que tinham servido de ornatos; dentes do urso grande (ursus spelœus), do gato grande (felis spelœus), do rhinoceros tichorhinus e da hyena spelæa, especies caracteristicas da epoca do mammouth.
Apesar da sua remota antiguidade e do seu prognathismo, o craneo de Menton, pelo angulo facial, pela proeminencia de vertex, pelo grande volume da parte posterior, etc., assimilha-se aos craneos da mais perfeita das raças actuaes. Comtudo para contrapôr a este facto que tenderia a provar a invariabilidade do typo humano durante largos periodos de tempo, ha os craneos de Neanderthal, de Forbes’Quarry, de Brux, de Eguisheim e as maxillas encontradas na caverna de La Naulette e n’outros logares. Estes vestigios, de epocas mais remotas, demonstram a diversidade anatomica dos homens a quem pertenceram, em relação ao typo humano da actualidade.
Nos paizes, onde mais se cultivam os estudos prehistoricos, têem-se explorado as cavernas para colher os numerosos e importantes vestigios que ellas contêem do homem primitivo. Na Peninsula muitas estão já exploradas, mais em Hespanha que em Portugal, mas ha ainda muitissimas para explorar. Falta sobre tudo comparar os resultados obtidos e aquelles que por ventura se possam obter, para lançar alguma luz por entre as trevas espessas que involvem ainda hoje os tempos anteriores á historia.
Em 1865 Luiz Lartet explorou as cavernas do terreno jurassico da Sierra Cebollera, no termo de Torrecilla de Cameros, Nieva de Cameros e Ortigosa, nas mais notaveis das quaes, na superior e na inferior da Peña de Miel e na Lobrega, encontrou machados, facas, raspadores, ceramica e alguns utensilios de osso, pertencentes á epoca neolithica ou da pedra polida. As cavernas exploradas attribuia-as Lartet a tres diversas idades: 1.ª do rhinoceronte, mas de uma especie differente do R. tichorhinus que parece não ter atravessado nem os Alpes nem os Pyreneus. 2.ª Do boi primitivo, e unicamente d’elle, porque na Peninsula não apparecem vestigios do rangifer nem da maior parte dos mammiferos que nas cavernas da França lhe andam associados. 3.ª Das especies domesticas. Das cavernas da primeira idade suppoz o explorador que não seriam habitadas pelo homem na epoca do rhinoceronte. Nas da segunda idade achou instrumentos de osso e de pedra lascada, similhantes áquelles que em França caracterisam a epoca mesolithica, e nas da terceira idade depararam-se-lhe mais numerosos os silex polidos, os instrumentos de osso mais perfeitos, a ceramica, etc.[62]
O Capitão Brome explorou muitas cavernas do monte Calpe na bahia de Gibraltar. Pela situação geographica d’estas cavernas, os fosseis e os productos da industria humana aqui encontrados têem grande importancia para o estudo das origens ethnicas e das emigrações dos povos primitivos. Conheceu-o o governo inglez, e incumbiu os srs. Busk e Falconer de estudarem tão curiosos vestigios prehistoricos. N’uma d’aquellas cavernas, que chamam Genista, acharam estes naturalistas restos fosseis da hyena crocuta, especie africana ainda existente, do leopardo, lynce, gato do Cabo, cervo de Barbaria e de uma especie de ibex. Porém, como os instrumentos encontrados pertencem á epoca neolithica, é possivel que o homem habitasse as cavernas de Gibraltar posteriormente áquelles animaes. O celebre craneo da Pedreira de Forbes, similhante ao de Néanderthal, é que póde ser anterior á epoca da pedra polida e, portanto, contemporaneo de uma fauna differente da actual[63].
O sr. Vilanova explorou na provincia de Valencia as cavernas de Parpalló, na falda occidental de Monduber, no termo da cidade de Gandia; de Cova Negra entre as aguas de Bellus e a cidade de Jativa na margem esquerda do rio Albaida; de San Nicolás, no termo da Olleria; de Avellanera, no termo de Catadau, na falda septemtrional de Matamon; e finalmente das Maravillas, no termo de Gandia. Encontrou o explorador grande variedade de ossos, dentes, conchas, paus de veado, facas e pontas de frecha de silex, ceramica, etc. Estas cavernas attribuiu-as o sr. Vilanova á epoca paleolithica. Basta porém a presença da ceramica e dos animaes domesticos para se conhecer que seriam habitadas na epoca neolithica. O sr. Tubino tambem affirma que, sómente pelos fragmentos de silex, se não podem classificar as cavernas de Valencia na epoca paleolithica[64].
O sr. Mac-Pherson explorou a Cueva de la Mujer, situada n’um cerro chamado Mesa del Baño, junto do estabelecimento thermal de Alhama de Granada, a cincoenta metros sobre o rio Marchan. Em duas memorias, illustradas com muitas estampas, deu o explorador curiosa noticia dos vestigios descobertos em duas explorações successivas, uma no deposito superior, outra no deposito inferior d’esta caverna. Os vestigios foram fragmentos de ceramica, alguns tintos de encarnado com almagre; facas e lascas de silex; ossos furados para servirem de amuletos ou adornos, furadores ou puncções de osso; fragmentos de conchas; craneos humanos, ossos e dentes de varios animaes, alguns abertos no sentido longitudinal, talvez para lhes extrahirem a medulla; carvão e cinza; um bracelete feito de uma concha ([fig. 47]), etc.[65]
Nota-se grande similhança entre estes vestigios, os das cavernas de Gibraltar e de Albuñol na Andaluzia, e os das estações prehistoricas da epoca da pedra polida em Portugal, taes como a Fonte da Ruptura e a Pena de Setubal, a Cova da Estria, etc. No museu da Escola Polytechnica ou na Commissão geologica, talvez em ambas as partes, se conservam tambem fragmentos de louça tintos com almagre. Da exploração da caverna de Albuñol pelo sr. Gongora já demos noticia n’um dos capitulos anteriores[66].
Em Portugal têem-se emprehendido menos explorações que em Hespanha. Comtudo as do sr. Delgado nas cavernas de Cesareda, pelo cuidado com que foram feitas, pela minuciosidade e exactidão das noticias que publicou, serão em todo o tempo dos mais importantes subsidios para o estudo d’esta parte da prehistoria peninsular.
A Cesareda é um planalto de calcareo, situado ao norte da linha divisoria d’aguas do Tejo, a seis kilometros da costa do mar, e além do sopé septemtrional da serra de Monte-Junto. A Casa da Moura, a Lapa furada e a Cova da Moura foram as tres cavernas exploradas na Cesareda, e descriptas em 1867 pelo sr. Delgado. A primeira é de todas tres a mais importante, não sómente pelas suas dimensões, mas tambem pelo numero e variedade de restos humanos e de animaes que se descobriram. Consta interiormente a caverna de duas salas irregulares com abobadas em alturas differentes; a da sala de fóra mas baixa e inclinada, a da outra sala, muito alta e similhante a um zimborio. Dá entrada para a caverna um poço vertical rectangular, com uns quatro metros de profundidade, e tres na sua maior largura.
Verificou-se haver na sala de fóra dois depositos de idades differentes sobrepostos. No superior abundavam os ossos humanos e os utensilios e instrumentos de pedra polida, de osso, de ponta de veado e de barro. Pelo contrario no deposito inferior appareceram apenas alguns silex lascados, o fragmento de um puncção de osso e um craneo humano mesocephalo. Entre os objectos achados no entulho superior da sala exterior da Casa da Moura é muito para notar-se o fragmento de um osso longo, provavelmente um humero humano, cheio de terra amassada com vertebras pequenas e ossiculos que pareceram de morcego. Na sala interior appareceu tambem outro fragmento de osso humano longo, similhantemente cheio de terra amassada com ossos de morcego[67].
O sr. Delgado admitte, como cousa provavel, que os habitantes da Casa da Moura fossem anthropophagos. A sua opinião tem por fundamento os factos seguintes: 1.º Serem muito mais numerosos os ossos longos que os chatos ou curtos. 2.º Acharem-se alguns partidos no sentido longitudinal. 3.º Faltarem á maior parte as extremidades articulares. 4.º Terem pertencido a maior parte das maxillas a individuos novos, e algumas a crianças de tenra idade. 5.º Parecerem alguns excavados por dentro. 6.º Não ter apparecido senão um craneo inteiro, porém muitos partidos em fragmentos pequenos[68].
Esta questão da anthropophagia dos habitantes das cavernas, durante os tempos prehistoricos, tem sido muito debatida. É obvia a sua importancia. A existencia de tal costume importaria necessariamente a idéa de degradação e inferioridade moral. Spring é quem mais tem querido persuadir que os homens prehistoricos, teriam sido anthropophagos, estribando-se n’alguns dos factos observados na Casa da Moura, já antecedentemente conhecidos de outras cavernas.
Na opinião de alguns auctores as provas adduzidas para qualificar de anthropophagos os habitantes das cavernas são insufficientes. Os ossos podem partir-se sómente pela acção do peso da terra que os cobre. A fractura operada em taes circumstancias é transversal. Porém sob a influencia da atmosphera, segundo affirma Dupont, é possivel tomarem os fragmentos a fórma de lascas alongadas, similhantes áquellas que resultariam da fractura intencionalmente feita pela mão do homem. Os esquimaus contemporaneos partem ainda hoje os ossos compridos com os calhaus rolados. Por muitas vezes os percutem nas extremidades para fazer saltar fóra as epiphyses. Depois fendem o corpo do osso com o mesmo calhau. Em certas cavernas têem apparecido ossos partidos por esta fórma, nos quaes se observam os vestigios das percussões que padeceram. Porém nos ossos humanos ainda se não apontaram taes vestigios. É possivel que estes ossos, apparecidos em tantas cavernas e mencionados como provas de anthropophagia, não sejam senão restos de corpos ali enterrados. Acharem-se tão divididos em fragmentos é um facto que se explica ou pelo peso da terra e pela acção do ar, ou por terem entrado as féras dentro das cavernas para revolver a terra e partir os ossos. As cavernas que o homem hoje explora o têem sido já antecedentemente pelas raposas e texugos. A raposa, dizem, chega a exhumar as ossadas, por mais antigas que sejam, para as roer no tempo da neve ou em quanto nutre os filhos; isto é quando a fome a obriga a supprir a falta de alimentos com substancias em que a materia organica deve ter quasi inteiramente desapparecido. Esta causa sería pois sufficiente para explicar a falta das extremidades articulares nos ossos longos, e o desgastamento do canal medullar, observados pelo sr. Delgado[69].
Razões ponderosas obstam a que se considere a anthropophagia costume geral dos habitantes das cavernas. Excepto em condições excepcionaes, como sob o imperio da fome ou de instinctos depravados ou corrompidos, nenhum animal se alimenta com as carnes de qualquer cadaver de um individuo da sua mesma especie. Esta repugnancia deriva provavelmente da lei geral da conservação especifica, segundo a qual, os individuos da mesma especie não podem destruir-se uns aos outros. Os selvagens anthropophagos são excepções. D’alguns se sabe entre os quaes se tem conservado este costume, somente pela razão de não terem carne de animaes para se alimentarem. Em certas ilhas do Pacifico cessou a anthropophagia logo que os navios europeus as forneceram de gados que antecedentemente não tinham[70].
Dos sentimentos de horror, de medo, de nojo que entre as mais antigas das nações civilisadas inspiravam os cadaveres, a ponto de se julgar impuro o individuo que tivesse tocado algum, concluiremos a incompatibilidade da anthropophagia com as condições sociaes de qualquer povo, entrado na via do progresso e capaz de se elevar pelo desenvolvimento das faculdades intellectuaes e moraes, a um grau superior de civilisação e cultura.
Alguns dos craneos inteiros ou mutilados, descobertos em Hespanha na Cueva de la Mujer da Alhama de Granada, e em Portugal no Cabeço da Arruda e nas cavernas de Cesareda pareceu ao sr. Quatrefages reproduzirem alguns dos mais proeminentes dos caracteres do celebre craneo de Forbes’Quarry em Gibraltar, e poderem attribuir-se ao cruzamento de individuos d’aquella mesma raça com os de outra raça differente. Taes foram as razões que induziram o sr. Tubino a referir ao mesmo periodo da epoca neolithica as estações prehistoricas de Alhama, de Cesareda e do Cabeço da Arruda[71].