NOTAS DE RODAPÉ:
[61] Burgmeister, Histoire de la création. Pariz 1870, pag. 591 e 592.
[62] Vilanova, Prehistorico español—Epoca neolithica—Museo español de antigüedades, tomo 1.
[63] Tubino, Los monumentos megaliticos de Andalucia, Extremadura y Portugal, Museo español de antigüedades, tomo VII, 1876.
[64] Vilanova, Mem. cit. do Museo español de antigüedades e dos Anales de la sociedade de historia natural.
[65] G. Mac-Pherson, La Cueva de la Mujer. 1.ª e 2.ª parte.
[66] Vej. cap. IV, pag. 57.
[67] Delgado, Noticia ácerca das grutas de Cesareda. Lisboa 1867.
Animaes das cavernas de Cesareda:
Erinaceus
Canis lupus
Felis
Arvicola
Lepus
Cervus
Vespertilio
Canis vulpes
Myoxus
Mus
Equus
Ovis.
[68] Ibidem.
[69] Dupont, L’homme pendant les âges de la pierre. Pariz 1872.
[70] M.ᵐᵉ Clemence Royer, Les rites funéraires aux époques préhistoriques. Pariz 1876.
[71] Crania ethnica. Tubino, Loc. cit. Vid. o cap. III d’este livro a pag. 27.
CAPITULO VI
OS MEGALITHOS
Os megalithos.—Especies varias.—Menhires.—Fins para que serviriam.—Alguns symbolisavam a Divindade.—Alinhamentos e cromlechs.—Pedras balouçantes.—Algumas serviriam de altares.—Dolmens.—Differenças entre os de Portugal, Andaluzia e Galiza.—Distribuição geographica d’estes monumentos na Peninsula.—Tumulos.—Differem essencialmente dos dolmens.—Serviram de sepulturas.—Lei da distribuição geographica dos tumulos.—Cueva de Mengal.—Cueva de la Pastora.—Lei da antinomia dos monumentos megalithicos e cyclopeos.—Tumulos da provincia de Alava.—Castros da Galiza e de Traz-os-Montes.—Cava de Viriato em Vizeu.
As antas ou dolmens, bem como outros monumentos, rudemente fabricados de grandes pedras, eram ainda ha pouco tempo attribuidos aos celtas. Chamavam-lhes altares ou monumentos druidicos, por julgarem que teriam servido para as ceremonias do culto, usadas por aquelles povos, cujos sacerdotes n’algumas partes se denominavam druidas. Tal era a opinião dos archeologos do seculo passado e da primeira metade d’este seculo, seguida pelo nosso Martinho de Mendonça de Pina, da Academia da Historia, na dissertação que escreveu do assumpto[72].
Porém modernamente demonstrou-se por uma parte haver taes monumentos em paizes aonde os celtas não chegaram, e por outra parte que, pertencendo estes já aos tempos historicos, aquelles, pelo contrario, estavam envolvidos nas trevas da prehistoria, não se sabendo ao certo quem, quando e para que os construira. A fim portanto de prevenir qualquer opinião anticipada e por ventura erronea, convencionaram os archeologos dar-lhes o nome de Megalithos ou Monumentos megalithicos, o que significa apenas serem feitos de grandes pedras, verdade a todos manifesta[73].
Dos megalithos ha varias especies, taes como o menhir, o cromlech, o dolmen, o tumulo a galeria e a pedra balouçante[74].
O menhir é o monolitho alongado, vertical, pousado no chão ou enterrado em pequena ou grande profundidade. O da communa de Plouharzel, um dos mais altos da Bretanha, tem doze metros. Mais de vinte e dois metros de altura tinha outro que parecia presidir aos numerosos megalithos da peninsula de Locmariaker. Jaz actualmente por terra, partido em quatro. De todos os conhecidos, os das regiões centraes da Asia são os unicos comparaveis aos da Bretanha na altura.
Em Hespanha, na provincia de Galiza, no municipio de Esgos, ao norte da egreja parochial, eleva-se á altura de onze metros um menhir formado de quatro pedras sobrepostas. Na mesma provincia ha outras pedras alongadas, verticaes, porém de menor altura, que o sr. Sivelo classifica tambem entre os menhires. Tal é o do municipio de Lobios, na Serra de Gerez, o qual tem seis metros de altura[75].
O sr. D. Manoel de Assas julga serem menhires certas pedras que lhe consta existirem na provincia de Navarra. Na Andaluzia, entre Baena e Bujalance, provincia de Jaen, ha o celebrado Menhir de las Virgenes, do qual os camponezes cantam:
Jilica jilando
puso aqui este tango
y Menga Mengal
lo volvió á quitar[76].
Em Portugal consta haver duas alas de pedra e um menhir proximo, no caminho de Cepães a Fafe, no districto de Braga[77]. Em Castello de Paiva ha outro muito notavel. Compõe-se de seis marcos ou pilares, de tres pedras cada um, sobrepostas, tendo as ultimas pedras de cima a sua extremidade oblonga. Os pilares eram sete, mas o setimo jaz cahido por terra[78]. Este monumento, bem como o primeiro que mencionámos da Galiza, parece não ter sido levantado em epocas muito remotas.
Quem, e com que fim erigiria os menhires em tantos logares da superficie da terra habitada? A nenhuma d’estas perguntas responde a archeologia. «Ao menhir, diz Rougemont, podiam aquelles que o erigiam fazer significar tudo o que bem lhes approuvesse. Ora, na maior parte dos casos, é mui difficil, para não dizer impossivel, descobrir os motivos determinantes da erecção de taes monumentos. Quando porém se podér rastejar a verdade será sómente pelos testimunhos da historia, pelo exame attento da fórma dos menhires, ás vezes assaz complicada; pelo modo por que estiverem situados nos valles, ou nas montanhas, ou nos tumulos; pelas relações em que estiverem com outros monumentos circumvisinhos; e finalmente pelos rudimentos de esculpturas ou de inscripções, que por ventura contenham, traçados por mão inexperta»[79]. Resta accrescentar o exame dos objectos que estiverem sepultados junto ou por baixo de taes monumentos, e que pareçam contemporaneos. Assim é que as ossadas humanas e restos de carvão, achados ao pé de alguns menhires em França e na Grã-Bretanha, fazem suspeitar d’essas pedras que seriam monumentos funerarios; outros, como os de Tredion (Morbihan) e de Loudun (Vienne, Poitou), parece terem antes servido de idolos por terminarem á maneira de cabeça, posto que disforme.
Levantar uma pedra para commemorar um facto importante, é costume que a historia nos prova existir em differentes povos, e que póde até nascer espontaneamente, em qualquer estado social, em gentes que não tenham communicado entre si. O menhir é a fórma primitiva da columna monumental com inscripção e baixo relevo. Ora se estes monumentos apparecem no seu estado perfeito em povos mui differentes e incommunicaveis, que muito que na sua fórma primordial nascessem espontaneamente n’um estado social inferior? Da mesma sorte as pedras brutescas antecederam os cippos com ornatos e inscripções; e dos rudes vasos d’argilla, feitos á mão e seccados ao sol, por varios povos primitivos, derivaram por differentes modos, obras notaveis da ceramica na China, no Egypto ou na Etruria.
Ha porém certas particularidades dos usos e costumes que parece antes haverem sido transmittidas de um a outros povos, do que apparecidas espontaneamente em diversos logares habitados da superficie da terra. Tal é, por exemplo, commemorar o numero de inimigos mortos por um guerreiro, collocando outras tantas pedras de roda do seu tumulo, como faziam iberos e tartaros orientaes. É possivel que o principio d’este costume esteja na origem commum da civilisação dos dois povos, posto que de raças differentes, ou então n’um povo asiatico que por suas emigrações influisse egualmente nos turcos orientaes e nos iberos transmittindo tanto a uns como a outros as suas ceremonias funerarias.
Muitos dos menhires, erguidos com um fim diverso e mais elevado, qual era o de symbolisarem a Divindade, tornaram-se objectos de adoração. Prova-nos a historia que os phenicios, os arabes, os egypcios, os assyrios, os gregos primitivos e outros povos representavam por meio dos obeliscos ou pilares de pedra os principaes dos seus deuses; entre alguns, como foram os scandinavos, a mesma palavra significava idolo e pedra[80]. Ainda, depois de convertidos á religião christã, certos povos continuaram a adorar os seus antigos menhires, vendo-se obrigados os ministros do culto a mandar esculpir cruzes n’esses monumentos para fazer cessar, transformando-a em adoração religiosa, uma idolatria que o habito perpetuava de geração em geração. Presentemente continuam os camponezes a ungir com azeite e a ornar de flores os pilares dos famosos alinhamentos de Carnac, bem como as pedras balouçantes. Os recem-casados vão ainda hoje no districto de Brest esfregar o estomago pelo menhir de Kerloaz, que tem onze metros de alto, para impetrar de algum deus obsoleto o dom da fecundidade[81].
Têem alguns confundido os menhires com as petras fictas. Estas, como se prova com documentos antigos, serviam apenas para demarcar as terras. A palavra Fito, só por si, significava Marco levantado[82].
Os menhires dispostos n’uma linha unica ou em muitas linhas parallelas fórmam os alinhamentos. É dos mais notaveis e conhecidos o de Carnac na Bretanha, feito de onze series de pedras não afeiçoadas, mui differentes em tamanho e altura, a maior das quaes se eleva vinte e dois pés acima do terreno circumjacente. As outras em proporção d’esta são muito menores. As avenidas, hoje mutiladas, parece terem tido outr’ora muitas milhas de comprido.
Quando os menhires fórmam um circulo ou uma oval ou outra curva, a esse grupo megalithico chama-se cromlech. Entre os alinhamentos e os cromlechs não ha differença essencial. A alguns, como ao de Carnac, se dará um ou outro d’aquelles nomes, conforme o sentido em que se considerarem as pedras. Do centro para a circumferencia cada serie é uma linha recta. Em roda do centro, formando curvas concentricas, as series são circulares. Assim no primeiro caso chamar-se-ha ao grupo um alinhamento, e no segundo caso um cromlech. Com effeito ao grupo megalithico de Carnac dão uns o primeiro, outros o segundo d’estes dois nomes.
O loghan ou pedra balouçante é o menos commum e o mais enigmatico dos megalithos. Como o seu nome o está dizendo, consiste n’uma pedra enorme, posta em taes condições de equilibrio, que, por effeito de qualquer impulso, se move e oscilla. Ou tem por base outra ou outras pedras, ou o proprio solo onde se appoia. É muito notavel a Piedra grande de Boariza na provincia de Santander em Hespanha ([fig. 48]).
A uns cem passos ao noroeste da Piedra grande está a Piedra chica, outra pedra balouçante, mas de menores dimensões. O sr. D. Manuel de Assas dá noticia de outra a oeste da villa de Luque, provincia de Cordova, e de mais duas nas ilhas de Bayona de Galiza[83].
Fig. 48
PEDRA BALOUÇANTE DE BOARIZA, NA PROVINCIA DE SANTANDER.
Na provincia de Santander ha outra pedra balouçante que inexactamente tem passado por dolmen.
Fig. 49
PEDRA BALOUÇANTE DE ABRA NA PROVINCIA DE SANTANDER.
Eis aqui a descripção que de tão notavel megalitho nos dá o sr. Amador de los Rios:
«Sobre este campo se ergue uma grande rocha granitica perpendicularmente cortada na altura de cinco a vinte pés, em toda a circumferencia, e rodeada de outras menores, desordenadamente amontoadas em estranhas situações, bem como as muitas que cobrem o terreno. Não assim a grande, que é quasi plana na face superior, formando já de per si um dolmen natural de uns trinta pés de diametro. Na extremidade meridional d’esta especie de mesa e dirigindo-se á parte de nordeste, se ergueu a segunda pedra com a fórma de um grande cubo ou silhar posto de esquina sobre quatro ou cinco pedras applicadas a um e outro lado, porém de modo que a superior, n’ellas suspensa, não toca immediatamente nenhum dos pontos da grande mesa inferior. Isto demonstra ali palpavelmente a mão do homem; e tanto que, estando uma das pedras que sustêem a superior na posição diagonal, para adaptar-se ao lado da mesma, acha-se pela sua parte appoiada por outra pedrinha que não tem mais de oito pollegadas de comprido e tres de grossura; isto não obstante não se póde arrancar do seu logar, por mais que por ella se puxe, e ninguem até o ousaria tentar com medo de se desaprumar o todo. A pedra superior tem vinte e dois pés de largura, dez de altura e vinte e cinco de circumferencia, cingida perpendicularmente pelo meio. Basta indicar taes dimensões para se conhecer que o seu peso deverá ser de milhares de arrobas.
«Pela mesa inferior póde-se andar commodamente, rodeando a de cima, excepto pela extremidade meridional em que estão ambas na mesma linha perpendicular. Junto a esta extremidade e da parte de sueste, as pedras pequenas que sustêem a superior, encaixadas á maneira de cunhas, servem de degraus para subir á mesma pedra, que, segundo já indicámos, fórma um espinhaço bastante agudo, posto não haver impossibilidade de qualquer se suster nos dois lados. Desde o meio do espinhaço corre por elle da parte de nordeste com alguma inclinação para o lado de sueste, uma fenda ou rego, chegando quasi até á ponta do pedregulho: e como por esta parte está bastante adelgaçado pela extremidade inferior, segue-se que uma ou mais pessoas poderiam collocar-se por debaixo d’elle, para receber o baptismo de sangue, se com effeito era esse e não outro o fim do sulco»[84].
Similhante á de Abra ha em França uma pedra balouçante, de fórma oblonga e equilibrada pelas suas duas extremidades ao mesmo tempo sobre dois pilares que servem de eixos. A pedra balouçante do cemiterio de Perros Guyrech, que pesa um milhão de libras, e mede quarenta pés de comprimento e vinte de largura, tem na sua superficie uma bacia com desaguadoiro, e parece ser o altar, onde se faziam os sacrificios pelos mortos, cujos tumulos a cercavam[85].
Estes factos bastarão para auctorisar a analogia entre a pedra balouçante de Abra e a de Perros Guyrech, e tambem para mostrar que as pedras que, por suas estranhas posições, prenderam a attenção do sr. Amador de los Rios, serão da mesma sorte os cippos funerarios de um cemiterio prehistorico.
Segundo uma informação do sr. Pereira Caldas, proximamente de certo sitio do monte da Polvoreira, sobranceiro á estrada de Guimarães a Vizella, onde se encontram duas galerias formadas de pedras verticaes, que o povo chama Furnas, está uma pedra oscillante a que se liga uma tradição popular de mouras encantadas[86].
Fig. 50
Fig. 51
DOLMEN DA LAIRINHA, NO ALEMTEJO.
Não passa de mera hypothese quanto se tem dito para definir as applicações das pedras balouçantes. Symbolos da divindade, emblemas do mundo suspenso no espaço, emblemas do livre arbitrio, meios de conhecer a culpabilidade dos accusados, tudo isto se julgou poderem ter sido estes singulares megalithos. Se é licito suppôr dos de Perros Guyrech e de Abra que seriam altares, onde se fizessem sacrificios pelos mortos enterrados á roda, nos outros faltam inteiramente os indicios que n’aquelles dois se têem encontrado.
O dolmen, formado por uma grande pedra achatada, posta horisontal ou obliquamente sobre outras pedras verticaes ou quasi verticaes, é o mais commum dos megalithos em Portugal. O sr. Pereira da Costa, depois de ter descripto trinta e nove na sua Memoria, impressa em 1868, chegou a colligir desenhos talvez de mais de cem que mandou lithographar para uma segunda Memoria, a qual infelizmente não chegou a entrar no prelo. Onde se encontram em maior numero é na provincia do Alemtejo, tambem a mais abundante de machados e outros instrumentos de pedra polida e de bronze.
Fig. 52
Fig. 53
DOLMEN DE VALLE DE MOURA.
O typo da anta da Lairinha é o da maior parte das de Portugal, com quanto se não reconheça facilmente n’algumas já meio derruidas. Entre aquellas que estão mais bem conservadas citaremos a do Outeiro das Vinhas, perto do Dejebe, sete kilometros a oriente de Evora, no Alemtejo; a do Crato na mesma provincia; e finalmente a de Ancora na provincia do Minho[87]. As modificações deste typo fundamental são pequenas. Tal é por exemplo na anta de Valle de Moura a grande espessura da mesa que lhe dá a apparencia de um cogumello.
Quem tiver a curiosidade de comparar os mais communs dos dolmens de Portugal com os da Andaluzia, achará que estes ultimos constam de pedras menos irregulares, maiores e mais aprumadas. Além d’isto os primeiros são, pela maior parte, circulares ou ovaes, os segundos quadrangulares e lageados com grandes pedras. É por tanto provavel que os dolmens da Andaluzia, menos imperfeitos que os de Portugal, sejam tambem menos antigos. Isto mesmo se prova pelos objectos de cobre que se encontram n’uns e faltam nos outros.
Na Galiza ha dolmens com as pedras inclinadas de fóra para dentro, como o da Lairinha, e trilithos, cujos esteios verticaes constam de duas pedras sotopostas, á maneira do menhir de Rocas[88]. Esta particularidade denota uma epoca menos antiga, em que se empregariam já cinzeis de metal. Os trilithos da Galiza têem sua similhança com os dolmens de Constantina em Argelia, nos quaes se encontram sepultados objectos de bronze e de ferro[89].
Nos dolmens da Andaluzia entrava-se por estreitas passagens, feitas de grandes pedras. Em alguns de Portugal subsistem ainda pedras, restos de similhantes passagens ou galerias de entrada. Eram á parte do oriente nos dolmens da Tisnada e do Pinheiro, a treze e dezeseis kilometros, pouco mais ou menos da cidade de Evora. Ambos foram erigidos sobre monticulos artificiaes. Não resta porém um só indicio de que fossem primitivamente cobertos de terra[90].
A Hespanha, proporcionalmente, não é tão rica de dolmens, como Portugal. Todavia sabe-se de muitos, sobre tudo na Andaluzia e na Extremadura, onde lhes chamam garitas. Já mencionámos os da Galiza; e é provavel que egualmente se encontrem nas terras litoraes do norte, onde existem outros megalithos. Nas provincias orientaes não são conhecidos. Lamentamos que se não tenham descripto e estampado os dolmens das provincias hespanholas, das quaes sómente se conhecem pelo livro de Gongora, uma parte dos da Andaluzia. Em Portugal, graças aos trabalhos de Mendonça de Pina e de Pereira da Costa, podemos fazer alguma idêa do numero, estructura e distribuição geographica d’estes monumentos.
O sr. Gongora mencionou treze dolmens, entre os quaes se contam os de Hoyon e de Ascensias, n’uma região comprehendida entre Illora e Alcalá la Real, na distancia de mais de tres kilometros[91]. É muito notavel pelo grande comprimento, inclinação e fórma brutesca, a mesa do dolmen de Ascensias. O dolmen que chamam Piedra de los sacrificios, no termo municipal da Ronda, na provincia da Andaluzia, tem tambem a mesa inclinada, porém não tanto, como o de Ascensias[92].
N’alguns dos dolmens, cujas mesas são obliquas, é possivel que a obliquidade resultasse de se terem desviado ou abatido as pedras de um dos lados. N’outros porém parece que de proposito se teria inclinado a mesa; e não falta quem interprete esta particularidade de construcção, dizendo que ou sería em signal de reverencia á Divindade, ou para indicar a direcção da alma para o ceu, que assim apontariam ao alto a pedra superior. Mas será licito applicar á construcção dos monumentos prehistoricos uma regra observada na edificação das cathedraes da edade media?
Fig. 54
DOLMEN DEL HOYON.
A lei geral da distribuição dos dolmens pela Europa, convem a saber o abundarem nas regiões litoraes e faltarem nas terras interiores, applica-se tambem aos da Peninsula. Com effeito encontram-se numerosos na Galiza e em Portugal, e aqui no Alemtejo mais que em qualquer outra parte; continuam depois pelo Algarve e pela Andaluzia; e com quanto não tenham sido mencionados nas provincias litoraes do golfo de Biscaia, é provavel que lá existam por se conhecerem por esses sitios outros monumentos megalithicos. Na região menos distante dos Pyreneus ha nas provincias vascongadas os tumulos com dolmens interiores de Alava e de Eguilaz, e suppõe-se existirem outros nas proximidades de Salvaterra, em Arizala e Ocáriz. De Santander já conhecemos as pedras balouçantes de Abra e de Boariza.
Os dolmens cingem, como extensa faxa, a Peninsula pelo norte, occidente e meio-dia. Faltam, porém, nas provincias orientaes, apesar de banhadas pelas aguas do Mediterraneo. Pelo menos até hoje não se têem mencionado nas provincias de Murcia, Valencia e Catalunha. Pelo contrario n’estas regiões encontram-se vestigios da architectura denominada cyclopea, que escassêam muito, se não faltam inteiramente, onde os dolmens predominam. Adiante, por mais de uma vez nos occuparemos d’este ponto interessante da antinomia dos dolmens e das construcções cyclopeas, e portanto da incompatibilidade das civilisações correspondentes.
Fig. 55
DOLMEN DE ASCENSIAS.
Todos os monumentos de que temos tractado erguem-se livres e descobertos na superficie da terra. Ha dolmens cobertos de terra formando collinas ou monticulos artificiaes. Os archeologos chamam-lhes tumulos (tumuli). Em Portugal têem o nome vulgar de mamunhas; de mamôas, madorras ou modorras na Galiza[93].
De Caumont e outros suppozeram que todos os dolmens seriam em principio cobertos de terra, ou verdadeiros tumulos, e que, pelo decurso do tempo, cahiria a terra a uma e outra parte, deixando descarnado o esqueleto megalithico. Esta hypothese teria a vantagem de reduzir a uma só especie tanto os dolmens como os tumulos, cuja similhança está não somente na construcção, mas tambem nos objectos que dentro de todos se têem encontrado. Foi, porém, abandonada, por estar em discordancia com os factos observados. Com effeito em muitos dos dolmens descobertos têem apparecido numerosos objectos de mais ou menos valor. Ora, quem lhes tivesse tirado a terra que os cobria de certo não deixaria dentro d’elles taes objectos. Em muitos logares acham-se promiscuamente os dolmens e os tumulos: tambem não é crivel que desenterrassem uns e deixassem outros debaixo da terra. Finalmente alguns dolmens, como os da Tisnada e do Pinheiro, perto de Evora, foram construidos sobre monticulos artificiaes, o que ninguem de certo faria, se houvesse de cobril-os de terra.
Fig. 56
VISTA INTERIOR DO TUMULO DE ANTEQUERA.
Já vimos que a maior parte dos archeologos acreditam que os dolmens serviriam de sepulturas. Com relação aos tumulos, é mais geral ainda esta crença, fundada no descobrimento que se tem feito de ossos humanos em grande numero d’estes megalithos. Os auctores hespanhoes que em varias epocas têem escripto das mamôas concordam em consideral-as como sepulturas[94]. O nome de modorra, somno, por que são conhecidas, derivaria provavelmente d’essa mesma opinião.
Nem todas as mamunhas são verdadeiros tumulos na accepção archeologica d’esta palavra. Falta em muitas o dolmen interior. Não são mais que montões de terra ou de pedras. Estas mesmas têem sido geralmente consideradas como sepulturas; e escriptores ha que affirmam terem-se encontrado urnas cinerarias dentro n’ellas[95].
Na Galiza são frequentissimas as mamunhas e raros os dolmens. Da Andaluzia, pelo contrario, conhecem-se muitos dolmens e não se mencionam mamunhas. Similhantemente em Portugal são innumeros os dolmens no Alemtejo, onde não apparecem as mamunhas, que se encontram nas provincias do norte. Tambem da mesma sorte nas regiões meridionaes da Europa abundam os dolmens, e nas septemtrionaes os tumulos. É possivel que as condições do clima tenham influido na distribuição de uns e de outros monumentos; que o frio obrigasse a revestir os dolmens com uma espessa camada de terra nos paizes septemtrionaes; e o calor favorecesse a sua conservação ao ar livre nas regiões meridionaes.
Fig. 57
VISTA EXTERIOR DO TUMULO DE ANTEQUERA.
Na Europa os paizes mais abundantes de tumulos são a Suecia, a Dinamarca, Bretanha, Suissa, Inglaterra, Escocia e Irlanda. Na Peninsula ha tambem alguns, dos quaes o mais notavel é o de Antequera na provincia de Malaga ([fig. 56]).
Chamam-lhe Cueva de Mengal. Ha grande analogia entre esta palavra mengal e a palavra gal-gal com que os bretões designam os monumentos congeneres da Bretanha. Em linguagem celtica, dizem, a palavra men significa pedra, e gal significa tambem pedra. Outros suppoem que mengal se ha de antes derivar de men-lac’h, equivalente a pedras sagradas[96].
Do tumulo de Antequera dá o sr. D. Manuel de Assas a seguinte descripção, seguindo a Memoria de D. Rafael Mitjana y Ardison, á qual se reporta:
Fig. 58
VISTA LATERAL DO TUMULO DE ANTEQUERA.
Fig. 59
PLANTA DO TUMULO DE ANTEQUERA.
«O monumento de Antequera é um monticulo artificial de terra carreada, da qual já as aguas levaram grande parte, e contém um dolmen complicado, com uma só entrada, que a [fig. 57] representa, e corresponde á parte do oriente. Tem interiormente o comprimento de oitenta e seis e meio pés hespanhoes, e vinte e dois de largura na parte onde é mais largo. A sua elevação actual é de dez a dez e meio pés. Consta de trinta e uma pedras, lavradas (labradas) pela face interior e em bruto pela parte opposta, as quaes fórmam as paredes de tres pés de espessura. O fundo ou topo do dolmen é uma só pedra da mesma grossura. Estão enterradas tres ou quatro pés, servindo-lhes a terra de cimento. Cobrem todo o espaço cinco pedras colossaes, apoiadas sobre aquellas que fórmam as paredes lateraes, e tambem em tres grandes pilares, de uma só peça cada um, e lavrados nas quatro faces, erguidos na linha media do vão interior, e dando cada um assento a duas das pedras do tecto. Estes pilares estão enterrados mais de tres pés, e a sua altura total até ao tecto será de quatorze ou quinze pés, com tres de grossura e quatro de largura. Ha mais duas grandes pedras que formam a entrada, e estão descobertas, ignorando-se se sempre assim terão estado. Vêem-se por fim separados a um lado da entrada tres grandes pedaços de pedra que seriam talvez parte d’aquella que falta no dolmen. Os pedregulhos que fazem de paredes estão lavrados a picão grosseiramente pela face, em bruto por detraz, recortados pelos cantos e mettidos na terra de tres a quatro pés.
«As cinco pedras de mesa têem as seguintes dimensões, contando da entrada:
| Pedras | Largura | Comprimento | Grossura |
|---|---|---|---|
| 1.ª | 16 | 18 | 4 |
| 2.ª | 14¹⁄₂ | 21 | 4 |
| 3.ª | 12¹⁄₂ | 26 | 4 |
| 4.ª | 16 | 27 | 4¹⁄₂ |
| 5.ª | 23 | 27 | 4¹⁄₂ |
«Todos estes numeros se referem ao pé hespanhol. A 3.ª pedra está fendida, como se vê na planta. As tres primeiras pedras do tecto estão actualmente descobertas. A qualidade da pedra é de calcareo terciario, porém de grãos mui pequenos, como areia grossa. É mui tenaz e avaliando o pé cubico em quatro arrobas castelhanas, imaginem os leitores como poderiam os homens, sem os apparelhos hoje conhecidos, mover, manejar e collocar tamanhas moles. A pedreira d’onde extrahiram as pedras é o sitio e cerro do Calvario, distante do tumulo mais de mil varas.
«Na collocação das pedras lateraes observa-se que, por detraz das junturas, entre pedra a pedra, está posta com arte uma porção de pedras pequenas formando parede, a fim de que não entre por essas junturas terra ou agua. Os tres pilares, postos para ajudar a suster as pedras do tecto, estão relaxados, por terem cahido parte dos seus calços, e poderiam tirar-se sem perigo nenhum de ruina para o monumento, porque não se apoia nada sobre elles. Fez-se uma excavação no centro da cova por baixo da grande pedra, onde se esperava encontrar ossadas, urnas ou outros objectos, na profundidade de vinte a vinte seis pés, porém nada se descobriu. O mesmo aconteceu n’uma galeria que se fez no fundo e que dá para outro montão de terra existente detraz da cova»[97].
Ha outro monumento congenere na mesma provincia da Andaluzia, a algumas leguas de Antequera, para a parte de oeste, além de Sevilha, a alguma distancia da margem direita do Guadalquivir. Chamam-lhe Cueva de la Pastora. Visitou-a, poucos annos depois de ser por acaso descoberta, D. F. M. Tubino que a descreveu pela fórma seguinte:
«A cova da Pastora é uma galeria artificial com vinte e sete metros de comprimento na parte que até hoje se tem descoberto. A sua largura é de um metro, mal medido, e a maxima altura não passa de dois. Não se desce ao interior sem algum trabalho, pois a entrada está na profundidade de um metro, ao qual se ha de accrescentar a altura da galeria. Esta dirige-se de oriente a occidente, e n’esta ultima direcção deverá ter a entrada. Caminhando pelo subterraneo para oriente, pois da parte opposta se conserva obstruido, chega-se a uma primeira porta ou marco situado a onze metros da abertura. Consta a galeria de dois muros de sustentamento, feitos de pedregulhos sobrepostos, sem especie nenhuma de cimento ou argamassa que os una. O pavimento está coberto de terra, porém cavando até tres ou quatro pollegadas de fundo apparece a pedra, de que realmente é formado. Sobre os muros assentam pedras enormes de natureza granitica ou arenosa, sem vestigios de lavor artificial, com angulos irregulares nas junturas, por onde a habilidade suppriu a arte, pois se fez com que as depressões de uma pedra correspondessem ás saliencias de outra.
«Passada a primeira porta, formada por tres lages de trinta a trinta e dois centimetros de espessura, duas collocadas vertical e a terceira horisontalmente, sobresahindo tanto aos planos normaes da galeria que simulam bastidores ou umbraes, segue-se um espaço de dezeseis metros, que termina n’uma segunda porta, similhante á primeira. Transposta esta passagem, entra-se n’uma camara semi-circular, cujo pavimento fica inferior ao da galeria, e cujas dimensões verticaes tambem são maiores. O diametro d’esta especie de rotunda é de dois metros e sessenta centimetros; a altura não andará longe de tres metros. Observam-se nos muros duas zonas; a inferior de fabrica similhante á da galeria; a superior tem grandes pedras collocadas no sentido ou do seu eixo horisontal, ou do seu eixo vertical, as quaes vão avançando para o centro do circulo até formar um rebordo ou moldura (repisa) contínua, sobre a qual descança outra grande pedra que por si só cobre toda a circumferencia. O pavimento está da mesma sorte coberto por outra pedra assaz espessa»[98].
Perto da entrada artificial da galeria acharam-se, debaixo de uma pedra grande, trinta frechas de bronze. Este facto e as condições architectonicas do monumento que o afastam por extremo dos rudes e grosseiros dolmens, faz crer que teria sido construido já na epoca do bronze. Á mesma epoca deverá pertencer o tumulo de Antequera, no qual o lavrado das faces interiores das pedras que o fórma está egualmente indicando uma epoca menos antiga que a dos dolmens.
O sr. Tubino acha grande similhança entre as plantas, as fórmas e outras particularidades da cova da Pastora e do monumento sepulchral de Mane Nelud de Locmariaker. E por isso julgou que tanto a galeria de Castilleja de Guzman como o megalitho de Antequera seriam monumentos sepulchraes. N’aquelle não se tem até hoje encontrado objectos nenhuns além das mencionadas frechas de bronze[99].
Serão galerias da mesma especie que a de Castilleja as Furnas do Monte da Polvoreira? A pedra balouçante proxima indicará talvez que estes monumentos pertencerão aos menos antigos dos megalithos da Peninsula. O mesmo diremos das alas de pedra (galerias?) com o menhir proximo no caminho de Cepães a Fafe. Todos estes monumentos jazem no districto de Braga, e distarão alguns cinco kilometros uns dos outros[100]. Porém não foram ainda estudados.
Na galeria de Castileja observam-se alguns caracteres notaveis que parece denotarem a fusão da architectura cyclopea com a dolmenica n’uma região da Peninsula, onde viriam a encontrar-se as duas civilisações que ellas representavam. A galeria não é feita unicamente de pedras disformes, umas postas verticalmente, outras horisontalmente sobre as primeiras, como em todos os monumentos congeneres da Europa. Antes de chegar á camara semi-circular passa-se por duas portas, cujos umbraes sobresahem ás paredes interiores da galeria. Nas paredes da camara vêem-se os dois apparelhos dolmenico e cyclopeo, e, o que até hoje não nos consta que tenha sido observado em monumentos d’esta especie, começaram a formar uma abobada sobre os muros, a qual acabaram de fechar com uma grande lage. Aqui sobre tudo se nos patentêa a fusão dos dois estylos, n’esta abobada cyclopea fechada á maneira dos dolmens.
Os vestigios da architectura cyclopea até hoje notados em Hespanha vem a ser a parte inferior das antigas muralhas de Tarragona, o Castillo de Ibros no districto judicial de Baeza, os Corralejos na Andaluzia. Os talayots e mapalias ou magalias das ilhas Baleares acabam de mostrar o desenvolvimento da architectura cyclopea nas regiões orientaes da Hespanha, isto é, onde não apparecem dolmens. Finalmente na Andaluzia, onde as duas architecturas chegam a encontrar-se, misturam-se, como em tempos posteriores, por algumas partes das mesmas regiões se fundem, apesar de antinomicos, os estylos arabe e christão, formando o denominado estylo mudejar.
O tumulo de Eguilaz na provincia vascongada de Alava tem muito menores dimensões que o de Antequera ([fig. 60, 61 e 62]). Contam-se dentro treze pés em comprido e dez em largura. A pedra que cobre o tumulo é uma só peça com dezenove pés de comprido e quinze de largo. A entrada para o tumulo da parte do oriente principia a vinte pés, pouco mais ou menos, por um caminho coberto, de quatro pés de largura e quatro de altura.
Quando se descobriu este recinto estava cheio de ossadas por entre as quaes se encontraram algumas armas, taes como lanças, umas de pedra outras de cobre. Havia tambem corações pequenos com orificios na parte mais larga, todos de pedra durissima, e alguns dentados á roda á maneira de serra. Os esqueletos jaziam deitados com a cabeça para o oriente e os pés ao poente. Tal era tambem a orientação do tumulo[101].
O tumulo de Eguilaz foi descoberto em 1832. Na mesma provincia appareceu outro sobre o rio Zadorra, a uma legua de Victoria, quando reconstruiam o moinho de Escalmendi. Dizem haver outros similhantes monumentos em pequena distancia de Salvatierra, em Arizala e Ocáriz. Ha tambem na provincia de Alava, debaixo da ermida de S. Miguel de Arrechinaga, tres pedras grandes encostadas umas ás outras, formando uma como pyramide. D. José Amador de los Rios e outros consideram estas tres pedras como um megalitho, talvez a parte de um dolmen, outros porém julgam que taes pedras appareceram assim naturalmente, e seriam aproveitadas para servir de base á ermida[102].
Ha uns monumentos que, posto que em rigor não mereçam o nome de megalithos, estão comtudo tão naturalmente com elles relacionados, que ficaria incompleto este capitulo, se não dissessemos a seu respeito algumas palavras. São os castros que na Galiza tambem chamam croas, contracção de corôas, pela sua fórma circular. O sr. D. José Villa-Amil y Castro descreveu sessenta e tres castros d’aquellas provincias. Em Portugal, particularmente nas provincias septemtrionaes, tambem se encontram alguns, mas até hoje não têem sido estudados.
Fig. 60
Fig. 61
Fig. 62
TUMULO DE EGUILAZ NA CHAPADA DE ALAVA[103].]
Aquelle escriptor define os castros nos termos seguintes: «O elemento caracteristico de um castro é a fortificação de um terreno, de fórma elliptica, e na extensão, termo medio, de uma fanga ou vinte e cinco areas. Essa fortificação consiste n’um fosso e n’um parapeito, ou em varias d’estas obras defensivas, aproveitando-se em certos casos as condições vantajosas do terreno (procuradas talvez de proposito), taes como a elevação e o escarpamento das vertentes; a maior separação possivel dos montes convisinhos, sem ter com elles outra ligação mais que um pequeno isthmo ou lingueta; e a proximidade de riachos para o abastecerem de agua e para difficultarem o accesso ao logar fortificado».
O auctor suppõe que os castros não eram unicamente fortificações, mas tambem povoações, o que prova pelos vestigios de casas n’alguns encontrados, e por varias referencias de documentos antigos. Finalmente das armas e instrumentos de pedra, de bronze e de ferro, dos fragmentos de lança deduziu que os castros da Galiza teriam a sua origem em tempos prehistoricos, mas que continuariam a servir de habitações e de fortificações durante a dominação romana, pelo espaço de mais ou menos seculos na idade media, e alguns em fim ainda no alvorecer da idade moderna. Prova tambem com documentos a conservação e habitação dos castros em tempos tão pouco remotos[104].
Viterbo não reporta além dos romanos a origem dos castros. Na opinião do auctor do Elucidario, castrum sería um pequeno arraial para uma legião ou brigada. Alguns, accrescenta, se povoaram, e ficaram conservando a povoação, para ser defensavel, e servir mesmo de atalaya, cidadella e guarda ás campinas e logares chãos e abertos ás correrias dos inimigos.
J. da C. Neves e Carvalho observou pessoalmente os castros de Traz-os-Montes e definiu-os dizendo serem elevações circulares formadas de terra, e pela maior parte circumdadas de grossas lages, se o terreno as fornece, e n’outros de um pequeno vallado ou parapeito de terra, em toda a circumferencia. Estimou-os eguaes em tudo aos da Galiza, e adoptou a opinião expendida pelo auctor de uma historia d’esta provincia, que entendeu teriam servido de templos aos celtas[105]. Esta hypothese vogou por algum tempo em Hespanha. Mas as observações citadas de Villa-Amil y Castro deram em terra com este e outros velhos preconceitos.
Será talvez um monumento do mesmo genero a denominada Cava de Viriato em Vizeu, com quanto não conserve já hoje a fórma caracteristica dos castros. Em 1461 tinha portas que se abriam e fechavam e dentro havia uma capella com a dedicação de S. Jorge. Em 1728 foi medida por ordem regia a Cava de Viriato e achou-se que os muros ou aterros tinham tres Lanças de altura e quarenta palmos de largura no cimo. O circuito dos muros era de tres mil e sessenta e cinco passos, e conservavam ainda quatro grandes vãos, d’onde tinham tirado a cantaria. Já ha muito que a parte oriental do circuito está arrazada, e aforado o terreno respectivo[106]. A parte restante, depois d’esta destruição e das cerceaduras dos possuidores das glebas contiguas, é ainda muito extensa, e está hoje coberta de arvores que asseguram a sua conservação. Na face que olha á cidade vê-se, em parte d’ella, um muro de pedra ensossa, que parece ter sido feito para sustentar d’esse lado o aterro.