NOTAS DE RODAPÉ:

[72] Collecção dos documentos e memorias da Academia Real de Historia Portugueza, tomo XIV, conferencia de 30 de julho de 1733.

[73] Megalitho, do prefixo mega, grande, e de lithos, pedra. Esta palavra tem o inconveniente de ser tambem applicavel aos monumentos cyclopeos ou a quaesquer outros, feitos de pedras grandes.

[74] Menhir de men, pedra, e de hir, longo. Cromlech, kroumlech de kroumm, curva, e de lech, pedra sagrada. Dolmen de tolmen, mesa de pedra.

[75] D. Ramon Barros Sivelo, Antigüedades de Galicia. Coruña 1875, pag. 73 e 74.

[76] Semanario Pinturesco Español 1857. Nociones fisionómico-historicas de la arquitectura en España, pag. 130.

[77] Pereira da Costa, Dolmins ou antas de Portugal. Lisboa 1868, pag. 91.

[78] Os dolmens. Lisboa 1876, pag. 10.

[79] L’âge de bronze. Pariz 1866.

[80] Idem, pag. 53 e 54.

[81] L’âge de bronze. Pariz 1866.

[82] Esta significação acha-se em Viterbo verb. Fito.—Alguns documentos da collecção Portugaliæ monumenta historica dão o verdadeiro sentido da expressão Petra ficta. Nos Dipl. et Chart. pag. 11, doc. 17... et inde per petras fictas que ab antico pro termino fuerunt constitutas.

«Estes marcos são designados de mui differentes modos nos documentos. Eis alguns:... per monte usque ad memorales in terminos de figaretum... petras fictas ubi dicet terminum... et de illa petra balestaria... petras fictiles... duas contesta qui dividet inter villa cova et laureda per areas antiquas et per petras sicilatas... petra fitada... petra ederata...

«Alguns marcos tinham signaes ou characteres... petra scripta ubi dicet terminum... Invenimus ibidem in petra caracterem Sancti Vicentii, et exinde in alia petra invenimus cruce... quousque ad barca qui sedet sculta in petra... quousque in terra tumeda qui fuit manum facta. Nota do sr. Gabriel Pereira no Instituto, tomo XXI, pag. 286.

[83] Semanario Pinturesco Español, tom. cit.

[84] Semanario Pinturesco Español, tom. cit.

[85] Rougemont, L’âge de bronze, pag. 56.

[86] Pereira da Costa, Dolmins ou antas de Portugal, pag. 91. Resta provar se as galerias e pedra citadas serão obras da arte ou da natureza.

[87] Os desenhos das antas do Crato e de Ancora vem na Memoria de Pereira da Costa e no Boletim da Real Associação dos Archeologos portuguezes, num. 11.

[88] Sivelo, Antigüedades de Galicia.

[89] Magasin Pittoresque 1864, pag. 80.

[90] Gabriel Pereira, Antas dos arredores de Evora.

[91] Antigüedades prehistoricas de Andalucia.

[92] Do dolmen da Ronda, deu ha poucos dias uma bella gravura o periodico de Madrid La Academia.

[93] Em documentos antigos de Hespanha e de Portugal encontram-se os termos mamóla, mamonela, mamula, colles, manufacti, etc. Os primeiros nomes derivaram naturalmente da fórma dos tumulos, comparavel á do peito mulheril. É expressivo o nome de Mamaltar que dão a certa mamunha, situada alguns kilometros ao norte das minas do Braçal, na Beira. Vej. Pereira da Costa, Antas de Portugal, pag. 89. N’alguns documentos, segundo diz Viterbo, tambem chamavam arcas ás mamunhas ou mamôas.

[94] Villa-Amil y Castro, Los castros y mamôas de Galicia, Museo español de antigüedades, tomo VII.

[95] Villa-Amil y Castro, Los castros y mamôas de Galicia, Museo español de antigüedades, tomo VII.

[96] F. M. Tubino, Los monumentos megaliticos de Andalucia, Extremadura y Portugal, Museo español de antigüedades, tomo VII.

[97] Semanario Pinturesco español, 1857. Antigüedades prehistoricas de Andalucia, pag. 90.

[98] F. M. Tubino, op. cit.

[99] Idem.

[100] Pereira da Costa, Os dolmins ou antas de Portugal, pag. 91.

[101] Semanario pinturesco español, 1857.

[102] Ilustracion española y americana.

[103] 60 Alçado pela parte B do dolmen.—61 Secção do dolmen e parte do tumulo dado pelos pontos A a B da planta.—62 Planta do dolmen.

[104] Villa-Amil y Castro, Los castros y mamoas de Galicia, Museu español de antigüedades, tomo VII.

[105] Archivo Pittoresco, tomo V, pag. 84.

[106] Antonio de Oliveira Berardo, Noticias historicas de Vizeu. No Liberal. Vizeu 1857.

CAPITULO VII
PROBLEMAS

Difficuldade de interpretar os vestigios das construcções prehistoricas.—Hypotheses de Bonstetten e de Bertrand ácerca dos dolmens.—Factos em contrario.—Leis da distribuição geographica dos dolmens.—Os dolmens e as construcções pelasgicas.—Têem a mesma antiguidade.—Objectos achados nos dolmens de Hespanha e de Portugal.—Insignias de schisto.—Sua ornamentação similhante á de objectos prehistoricos da Scandinavia.—Para que seriam os dolmens.—Porque não ha vestigios de cinzel na maior parte dos da epoca do bronze.—Antiguidade da epoca do bronze e do periodo da pedra polida em que principiaram a erigir os dolmens.—Foram introduzidos por um povo navegador.—A navegação já era praticada no Atlantico durante a epoca da pedra polida.—A civilisação dos dolmens e a civilisação pelasgica.—Signaes esculpidos em dolmens e em rochas.—Duas epocas da civilisação dos dolmens.

É complexo o problema dos dolmens. Em que tempo e por quem e para que fim seriam erigidos? Taes são as tres perguntas ou questões fundamentaes, a que não responde por ora a archeologia senão com simples conjecturas. Para melhor se comprehenderem as difficuldades com que luctam os archeologos n’este ponto, imagine-se um futuro remotissimo, um tempo em que chegassem a desapparecer todos os vestigios da civilisação europêa, excepto os templos pagãos da Grecia e da Italia e os templos christãos de todas as partes do mundo, tambem já em grande parte mutilados. A hypothese, com ser inverosimil, não deixará por isso de servir ao nosso intento. Algum futuro sabio, depois de meditar profundamente em tantos e tão admiraveis vestigios, diria:

«Houve um povo notavel pelo costume de construir grandes edificios de pedra. Parece ter vindo do norte e progredido depois pela Europa central e meridional, erigindo por toda a parte edificios magestosos, provas evidentes da sua alta civilisação. Este povo, solicitado por grandes forças expansivas, não podia caber no continente europeu. As mesmas construcções grandiosas provam ter povoado extensas regiões da America septemtrional e da America meridional. Encontram-se tambem similhantes vestigios nas costas orientaes e occidentaes da Africa, no Meio-dia da Asia, etc. N’alguns dos grandes edificios da Europa têem desenterrado ossadas humanas; serviam portanto de cemiterios, e não de templos, como alguns pretendem. Em muitos acham-se as paredes exterior e interiormente ornadas com estatuas, que de certo representariam os mortos, cujas ossadas continham. N’outros, porém, ainda não foi possivel descobrir nem ossos nem estatuas. Todos os esforços têem sahido baldados. Provavelmente viajantes curiosos ou collectores de antigualhas os exploraram nos tempos passados para, em beneficio dos museus, os despojar d’essas reliquias de uma civilisação remota. Sabe-se, pelos craneos encontrados nas sepulturas, que o povo constructor pertencia á raça caucasica. Parecerá talvez inadmissivel que um povo n’uma epoca de pequena duração, como sería a dos grandes edificios de pedra, se dilataria assim por todo o mundo; mas por mais extraordinario que o facto seja, deveremos curvar-nos á evidencia dos descobrimentos archeologicos. Na epoca dos grandes edificios de pedra, a Europa, Asia, Africa, America e Oceania eram povoadas pelo mesmo povo de raça caucasica!»

Comtudo, entre os sabios do futuro algum haveria que, por se jactar de mais severo na critica, impugnasse uma d’estas conclusões, aceitando as outras. Esse tal argumentaria contra a direcção do caminho seguido pelo povo constructor, observando que, se os vestigios mais imperfeitos appareciam na Asia, era porque os architectos teriam por ahi começado, aperfeiçoando-se depois ao passo que se iriam dilatando pela Europa. Segundo esta ultima opinião, as obras mais antigas da architectura seriam portanto os templos das possessões asiaticas e africanas; depois seguir-se-hiam os templos de estylo romão e byzantino da Europa; depois os grandes templos ogivaes; depois os do renascimento; e por fim o Parthenon, o templo da Concordia e os outros restos grandiosos da architectura grega ou romana.

Hoje, á falta de noticias positivas para a historia dos dolmens, não faltarão archeologos que raciocinem da mesma sorte, e cheguem a conclusões similhantes. Taes opiniões não convirá recebel-as senão com as duvidas que inspiram as hypotheses infundadas. Infelizmente poucas deixarão de o ser em assumpto de tamanha obscuridade.

Vista á primeira face a distribuição geographica dos dolmens, occorreu naturalmente a idêa de que um povo emigrante, constructor d’esses monumentos, percorreria do sul para o norte ou vice versa as regiões onde se encontram. Na opinião do sr. Bonstetten, a Criméa sería o centro d’onde teria partido o povo dos dolmens, seguindo duas vias differentes; uma para a Italia e Corsega, outra para o norte, pela Silesia, até ás margens do Baltico. D’aqui uma causa desconhecida obrigaria os constructores dos dolmens a emigrarem para o poente dirigindo-se para a Normandia occidental e para a Bretanha, d’onde passariam á Inglaterra, pelas ilhas Jersey e Guernesey, e á Irlanda, pela ilha de Anglesey.

A parte restante do povo, que teria ficado no continente, só mais tarde se atreveria a invadir a Gallia, marchando para o sul. Chegado ao Gironda, abandonaria rapidamente as costas do mar, fugiria das areias incultas da Gascunha, e, tomando uma direcção contraria ao curso do Dordonha, atravessaria a França obliquamente e chegaria ao golpho de Lyão. Não lhe serviriam de barreira os Pyreneus; atravessal-os-hia, e, seguindo a vertente meridional d’estas montanhas, occuparia Portugal, desceria mais ao sul e atravessaria obliquamente a Hespanha pelas provincias de Cordova, Granada e Malaga; passaria o mar, espalhar-se-hia pelo litoral da Africa septemtrional, e pararia finalmente na antiga Cyrenaica, nas fronteiras do Egypto.

O sr. Bonstetten, fazendo partir o povo dos dolmens da Criméa, não julga ser esta a sua patria, porém alguma região da Asia, d’onde, pelos desfiladeiros do Caucaso, passaria á Europa, preludiando assim as posteriores emigrações de celtas, godos, hunos e vandalos[107].

O sr. Bertrand suppõe tambem ter vindo da Asia o povo dos dolmens, que sería de uma raça rebelde a toda a transformação e a toda a absorpção pelas raças superiores. Repellida das regiões centraes d’aquelle continente para o norte, seguiria as margens do Baltico demorar-se-hia na Dinamarca; d’aqui de novo repellida, subiria até ás Orcadas; depois, descendo pelo canal que separa a Irlanda da Inglaterra, chegaria, de estação em estação, primeiro á Gallia, depois a Portugal e finalmente á Africa, onde os restos de tal gente se extinguiriam, destruidos pela força de outra raça mais civilisada[108].

Contra a opinião de Bertrand protestam os objectos de pedra, barro ou metal, encontrados nos dolmens, por onde se prova que as gentes constructoras d’estes monumentos não eram refractarias á civilisação. E, admittido este facto, a sua consequencia necessaria, será que taes gentes, obedecendo á lei do progresso, deixariam provas de mais avançada civilisação nos paizes que ultimamente occupassem. Ora os archeologos concordam em que não sómente a architectura megalithica é mais perfeita no norte do que no sul, mas, tambem mais bem acabados e de mais preço os objectos achados nos dolmens septemtrionaes; e que portanto, se houvesse de se attribuirem os dolmens a um povo emigrante, este povo deveria ter seguido do sul para o norte e não do norte para o sul, como Bonstetten e Bertrand suppozeram[109]. Por outra parte, quem se der ao trabalho de marcar n’um mappa as regiões dos dolmens, reconhecerá que algumas de taes regiões ficam inteiramente separadas por grandes distancias, como as da Criméa e as da Palestina.

Em regiões tambem muito afastadas, como a Bretanha e o Jutland apparecem n’uns dolmens sómente objectos de pedra polida, n’outros encontram-se instrumentos de pedra e de bronze. Parece portanto que os povos constructores dos dolmens passariam synchronicamente, e em logares muito distantes, de uma a outra phase industrial pelas influencias civilisadoras de povos mais avançados. Têem notado tambem nos dolmens das diversas localidades certas differenças especificas que se oppõem a que se reputem construidos por um só povo. Em fim, a mais concludente de todas as provas da diversidade dos povos que erigiram os dolmens está na variedade de restos humanos achados em taes monumentos. Na opinião do sr. Quatrefages não póde haver duvidas a este respeito. Nos dolmens da Dinamarca, por exemplo, apparecem dois typos humanos misturados, nos de Lozère outros dois, e d’estes quatros typos não ha dois que se assimilhem[110].

Alguns dos mais auctorisados archeologos modernos, taes como Desor, Worsaœ, Vogt, Quatrefages, Broca e Mortillet, rejeitam absolutamente a idêa da existencia de um só povo constructor dos dolmens. Preferem antes acreditar que varios povos e varias raças, que se não sabem especificar ou denominar, erigiriam os megalithos pelas regiões onde se encontram, estribando esta asserção n’alguns dos factos anteriormente citados contra as hypotheses de Bonstetten e de Bertrand. Julgam mais que o costume de construir os dolmens se propagaria do sul para o norte, em direcção contraria áquella que faziam seguir ao povo emigrante.

Não tem sido notada na distribuição geographica dos dolmens uma circumstancia que se nos afigura importantissima; e vem a ser o encontrarem-se quasi sempre nas regiões proximas do mar. Começando pelo sul deparam-se-nos primeiramente os da costa septemtrional da Africa, na Argelia e na Cyrenaica, juncto das fronteiras do Egypto, todos no litoral do Mediterraneo. Depois os de Sinai e da Arabia nas costas do Mar Vermelho, os da Palestina, proximos do Mediterraneo. Em frente da costa septemtrional da Africa, para áquem do Estreito, os de Hespanha e Portugal, occupando por uma parte a Andaluzia, no litoral do Mediterraneo; por outra parte o litoral portuguez e a Galiza, banhados pelo Atlantico; e finalmente as costas meridionaes do golpho de Biscaia. Na França a região dos dolmens está tambem em similhantes condições maritimas. Defrontam com o Mediterraneo, como os da Andaluzia, apparecem do outro lado do golpho da Biscaia nas margens do Gironda; vêem-se em fim e em maior numero na Bretanha e na Normandia, nas costas da Mancha. Observa-se a mesma lei nos da Inglaterra e da Irlanda. Os da Europa septemtrional occupam regiões banhadas pelo mar do Norte ou pelo mar Baltico, ou pouco distantes das suas aguas. Com razão pois advertiu Bertrand abundarem os dolmens pelas regiões occidentaes e faltarem nas regiões orientaes da Europa. Mas este facto não é senão a consequencia da posição relativa d’aquellas regiões, das quaes as do occidente ficam á parte do mar e as do oriente mais ou menos distantes[111].

Outra lei da distribuição geographica dos dolmens vem a ser a incompatibilidade d’estes monumentos com os cyclopeos. «As construcções cyclopeas e os dolmens, diz Rougemont, excluem-se reciprocamente ao sul de Caucaso, dos Alpes e dos Pyreneus. A Perêa e o Caucaso, as duas patrias dos dolmens não têem muros feitos de pedras irregulares. A Aramêa, aonde referimos o berço da architectura cyclopea, não tem dolmens»[112].

Na peninsula Iberica já vimos como esta lei se verifica, pois que nas regiões orientaes, nas provincias de Murcia, Valencia e Catalunha não consta haver dolmens. Vimos tambem como n’uma região, onde os dois systemas se encontraram parece ter-se operado entre elles uma singular fusão, se não é pura casualidade o que se observa na Cueva de la Pastora em Castilleja de Guzman, a oeste de Sevilha, na Andaluzia[113].

Da lei da correspondencia dos dolmens ás terras litoraes ou pouco distantes dos mares, deduz-se que a origem do costume de erigil-os se ha de buscar n’algum ou n’alguns povos já em certo grau de civilisação, os quaes percorrendo os mares da Europa, transmittiriam esse mesmo e outros costumes aos povos com quem estivessem em contacto, e que passariam assim da phase, caracterisada pela habitação das cavernas, áquella que se distingue pela construcção dos dolmens. Similhantemente, nos seculos XV e XVI, os portuguezes e os hespanhoes alçaram cruzes e erigiram templos pelos vastos litoraes e pelas ilhas da Africa, Asia, America e Oceania, convertendo os indigenas ao christianismo, e transmittindo-lhes aquelle mesmo costume, caracteristico da civilisação que representavam. Devemos porém acreditar que este ou outro movimento civilisador dos tempos prehistoricos acharia de certo menos resistencia, por ser menor a differença entre o estado dos povos civilisandos e o dos povos civilisadores.

Da lei da incompatibilidade dos dolmens com as construcções cyclopeas deduz-se que estes dois generos de monumentos representam duas civilisações prehistoricas tambem incompativeis; e que, portanto, seriam contemporaneos os povos constructores dos primeiros e aquelles que erigiram as segundas. Ora, como abundam os monumentos cyclopeos nas Baleares[114] na Sardenha e na peninsula Italica, e como as costas orientaes da peninsula Iberica defrontam com aquellas ilhas e peninsula, concluiremos que até a essa parte da Hespanha se extenderia a influencia da civilisação pelasgica, e que esta mesma civilisação repugnaria o costume de construir os dolmens e os demais que a este andariam associados.

Na Peninsula a cintura megalithica extende-se desde o golpho da Biscaia, no logar onde as vagas do Atlantico se debatem contra as vertentes escarpadas dos Pyreneus, até ao golpho de Almeria, onde as ultimas ramificações da Serra Nevada se escondem nas aguas menos agitadas do Mediterraneo. Toda a costa oriental desde o cabo de Gata até ao cabo de Créus, comprehendendo quasi seis graus de latitude, não tem dolmens, ou pelo menos não se tem até hoje dito que os haja nas provincias de Murcia, Valencia e Catalunha. Por onde se vê que as construcções pelasgicas sómente correspondem ás regiões banhadas pelo Mediterraneo, e os dolmens ao litoral do Atlantico e ao do Mediterraneo mais proximo do Estreito de Gibraltar, que serve para communicar os dois mares.

Com a civilisação portanto com que se hão de relacionar os dolmens da Scandinavia, das ilhas Britannicas, das costas septemtrionaes e occidentaes da França, com essa mesma civilisação se devem relacionar tambem os dolmens das regiões septemtrionaes, occidentaes e meridionaes da peninsula Iberica. Ignorando-se o povo que introduziu o costume de construir os dolmens, e a epoca de tal introducção, posta a lei da antinomia dos monumentos megalithicos e dos pelasgicos, seguir-se-ha, como consequencia necessaria, o terem sido todos contemporaneos. Vejamos até aonde poderemos chegar, tentando resolver com estes dados o problema da antiguidade dos dolmens. Os objectos encontrados dentro nos dolmens, armas, instrumentos, ornatos, em muitos são sómente de pedra polida, n’outros de pedra polida e de cobre ou de bronze, n’outros sómente de cobre ou de bronze, n’outros em fim, de alguma das especies mencionadas e de ferro[115]. N’alguns, têem apparecido objectos de ouro, posto que o fabrico d’este metal devesse preceder o do ferro e até o do cobre, como se provou na caverna de Albuñol da Andaluzia. Encontram-se tambem commumente vasos de barro inteiros ou partidos, toscos e sem ornatos, ou adornados com riscos ou impressões digitaes ou unciaes. A disposição dos riscos é irregular nos mais imperfeitos, regular ou symetrica nos menos imperfeitos. Estes achados provam, em geral, que os dolmens foram construidos na epoca da pedra polida e na epoca do bronze; e alguns mais raros na epoca do ferro.

Na Peninsula não têem explorado methodicamente os dolmens e os tumulos. Apenas consta de certos objectos n’alguns encontrados. O sr. D. Manuel de Gongora, por exemplo, achou em varios dolmens da provincia de Jaen ossos dispersos, armas de cobre, anneis do mesmo metal, fragmentos de louça e armas de silex. Este observador, entre outras leis, applicaveis aos dolmens que observou, estabeleceu as seguintes:

1.ª Entra-se n’estes monumentos por estreitas passagens feitas de grandes pedras, excepto nos de Dilar e nos de Gitanos.

2.ª Excepto os das Majadas del conejo, todos são quadrangulares.

3.ª Interiormente os dolmens estão lageados com grandes pedras.

4.ª Excepto um sómente, em que apparece uma peça de bronze, em nenhum se encontram armas ou objectos que não sejam de pedra ou de cobre.

5.ª Os cadaveres apparecem collocados em leitos horisontaes e com pequenas pedras em redor dos craneos[116].

Aos dolmens de Portugal não são applicaveis as leis 2.ª e 3.ª. As outras sómente depois de novos estudos se poderão verificar. O sr. Pereira da Costa encontrou machados de pedra nas antas de Alcogulo e n’outras[117]. N’uma de Niza appareceu a grande cabeça da lança de silex [fig. 14]. Na anta de Bellas encontraram-se facas e pontas de frechas de silex, contas de collares de schisto e de calcareo, o fragmento de osso esculpido com ornatos triangulares [fig. 30], e uma machadinha de schisto similhantemente ornada, e do mesmo genero d’aquella que appareceu em Monte-Real, e a [fig. 31] representa. N’uma anta de Pavia appareceram quatro machadinhas similhantes de schisto com os mesmos ornatos triangulares.

Na sepultura de Martim Affonso, perto de Muge, encontraram-se objectos do mesmo genero, e a notavel insignia de schisto que suppomos ser um baculo, [fig. 33]. D’este logar, importantissimo para o estudo da prehistoria em Portugal, nos deu o sr. Pereira da Costa as seguintes informações: «A sepultura de Martim Affonso não é, como á primeira vista parece, de sujeito assim chamado, mas um sitio que é conhecido por este nome, na propriedade do duque de Cadaval (residente em Paris). Esta sepultura era de tres lages compridas e duas estreitas nas extremidades, e tinha um capeamento de lages pequenas. Dentro continha ossos de um esqueleto, dos quaes só se aproveitaram alguns fragmentos de ossos longos, e o mais que V. viu no Museu. Esta propriedade do duque é nas margens da ribeira de Muge, e perto do Cabeço da Arruda, que tambem pertence ao mesmo duque».

Depois de fallar do baculo, em que não considera a fórma d’esta insignia, porém a do phallus, accrescenta: «Com esta peça, além dos ossos, havia nove facas de silex, uma cabeça de lança de silex, e varios vasos pequenos de barro».

Nos dolmens de Portugal não têem até hoje apparecido objectos de cobre ou de bronze; mas as explorações feitas são mui poucas ainda para se deduzir d’ellas uma lei geral. É possivel que os dolmens, onde se encontraram as insignias de schisto pertençam já á época do bronze, apesar de se não ter achado n’elles esta liga metallica. A sepultura de Martim Affonso, onde appareceu o baculo, prova-nos que o povo que usava taes insignias sabia construir sarcophagos para os cadaveres, o que denota certo grau de civilisação. Em quanto porém se não explorarem mais antas e mais methodicamente do que até hoje, não será possivel passar além d’esta conclusão, cuja importancia, ainda assim, não é pequena. As insignias de schisto são caracteristicas, e, só de per si, denunciarão o povo ou um dos povos constructores dos dolmens, logo que se encontrem n’outras partes. Infelizmente não consta que até hoje se tenham descoberto fóra de Portugal. Na Scandinavia têem apparecido umas enxadas de pau de veado com esboços mais rudes que os do Périgord, e que representam quadrupedes, corsas talvez. Ao lado d’estes esboços vêem-se traços rectilineos formando os desenhos triangulares das nossas placas de schisto. Se a esta circumstancia accrescentarmos que os dolmens mais similhantes ao maior numero e tambem aos mais imperfeitos de Portugal são os da Dinamarca, persuadir-nos-hemos de que ha toda a probabilidade de que gentes da mesma raça povoariam ou civilisariam nos tempos prehistoricos certas regiões da peninsula Iberica e da peninsula Scandinava.[118]

Se os dolmens são contemporaneos das nuraghas, as excavações feitas n’estes monumentos devem dar resultados comparaveis áquelles que temos mencionado. Apesar das poucas explorações até hoje emprehendidas, sabe-se que nos talayots das Baleares[119] e nas nuraghas da Sardenha se tem encontrado objectos de cobre e de bronze. N’algumas d’esta ultima ilha têem apparecido facas de silex. Portanto a maior parte de taes construcções remontam á epoca do cobre ou do bronze; e algumas á epoca da pedra polida. Isto mesmo se confirma pelo apparelho. Umas, de pedras brutas, são anteriores provavelmente á invenção do cinzel; outras, de pedras afeiçoadas, manifestam já a acção de instrumentos de metal. Affirma o abbade Spano que algumas nuraghas são feitas na parte inferior de pedras brutas, e na parte superior de pedras apparelhadas, parecendo aquella da epoca da pedra polida, e esta da idade dos metaes. O apparelho irregular corresponde a uma camara inferior; o regular a uma camara superior que posteriormente sería accrescentada á primeira. Demais são frequentes estes casos de accrescentamentos e reparações das nuraghas primitivas em varias epocas[120]. Dos poucos estudos até hoje emprehendidos nos dolmens de Hespanha e de Portugal deduziremos os seguintes corollarios:

1.º Os dolmens da Peninsula, como outros da Europa, como as nuraghas da Sardenha, foram construidos na epoca da pedra polida e na epoca do bronze ou do cobre.

2.º Geralmente fallando, os dolmens de Portugal são mais imperfeitos que os da Andaluzia.

3.º É provavel que a antiga raça que na Scandinavia construia os dolmens e fabricava enchadas de ponta de veado fosse a mesma que na Iberia occidental construisse ou introduzisse o costume de construir os dolmens, e se servisse de insignias de schisto com ornatos triangulares.

Para que serviriam os dolmens ou com que fim os erigiriam? A opinião mais commum é que os dolmens serviriam para guardar as cinzas dos mortos. Assim se explica até mui naturalmente a origem de taes monumentos, considerando-os ou como um meio de supprir a falta das cavernas sepulchraes, ou como um aperfeiçoamento ou desenvolvimento do montão de pedras que primitivamente lançariam sobre o cadaver. Tambem não ha impossibilidade em crêr que o dolmen, erigido primeiro sobre o cadaver, no proprio logar da morte, fosse depois construido onde parecesse mais conveniente, e o cadaver transportado do sitio, em que jazera, para a sua nova morada.

Consideraram os dolmens, como sepulturas, por conterem muitos d’elles esqueletos inteiros ou ossos humanos dispersos. Na opinião de Rougemont, além d’esta especie que chama dolmen-tumulo, haveria o dolmen-pia ou tumulo-altar cuja mesa com regos e concavidades serviria para receber o sangue das victimas; o dolmen-altar e o dolmen-templo[121]. Será difficil senão de todo impossivel reduzir sempre qualquer dolmen a alguma d’estas especies. O auctor da classificação entende que, para que um dolmen não seja considerado como sepultura, bastará que dentro n’elle não appareçam ossos humanos, ou, se apparecerem, que estejam desligados e dispersos. Mas a falta de ossos humanos debaixo do dolmen, ou acharem-se estes dispersos, como se fossem de victimas, não é motivo sufficiente para o reduzir a qualquer das duas ultimas especies, porque em todos os tempos a terra interior dos dolmens tem sido revolvida por animaes, e por homens a quem incita o desejo de encontrar thesouros escondidos. Nas antas de Portugal não consta que se tenham descoberto ossos. É provavel que, exploradas em maior numero e mais methodicamente, n’algumas se encontrem, como tem acontecido em Hespanha.

Lubbock, depois de examinar attentamente estatisticas de centenares de explorações de dolmens e tumulos, conclue não positiva, mas provavelmente que, na Europa occidental, a posição do cadaver assentado corresponde á epoca da pedra polida, a cremação á de bronze, e finalmente a posição horisontal, á de ferro[122]. Já vimos que na Andaluzia os cadaveres encontrados dentro nos dolmens estavam na posição horisontal, devendo ter sido submettidos á cremação, se fosse verdadeira a regra que se pretendeu estabelecer em Inglaterra.

Porque seriam a maior parte dos dolmens da epoca do bronze, feitos de pedras por afeiçoar e sem vestigios do emprego do cinzel? Não parecerá improvavel que o homem, possuidor já dos instrumentos de metal, prescindisse d’elles nas mais importantes das construcções, destinadas a proteger, a recommendar talvez á veneração da posteridade os restos mortaes dos seus maiores? Nota-se geralmente nas cousas de culto, ou relacionadas com o culto, uma decidida propensão da parte do homem para perpetuar os costumes antigos, ainda quando o progresso da civilisação, a mudança completa das condições sociaes os torne desnecessarios ou obsoletos. É commum encontrar nas sepulturas da epoca do bronze armas de pedra, e objectos de bronze nas da epoca do ferro. Os hebreus e os romanos, já em tempos historicos, serviam-se ainda das facas de silex em certas ceremonias. Mas ainda no genero das construcções megalithicas se demonstra esta mesma lei. Moisés descendo do monte Sinai, e transmittindo aos hebreus os preceitos attribuidos á Divindade, recommenda-lhes que, se levantarem algum altar, não seja de pedras lavradas, porque ficaria polluido aquelle que o cinzel tocasse[123]. Ora, assim como os hebreus, na idade dos metaes, não os empregavam n’aquelle tempo para edificar os seus altares, assim tambem quaesquer povos prehistoricos poderiam conservar por certo espaço de tempo o costume de não tocar as pedras dos dolmens com instrumentos de metal, continuando a construil-os, como as gerações da idade da pedra,—more majorum.

O altar de Moisés, sem degraus, feito de pedras por afeiçoar, não tocadas pelo cinzel, faz lembrar naturalmente o dolmen da epoca do bronze, sem vestigios de instrumentos metallicos. Mas a epoca da pedra polida e a epoca do bronze exprimem-nos apenas, como as epocas geologicas, phases successivas da evolução industrial. De modo nenhum nos dizem, por exemplo, ha quantos seculos se passaram esses factos prehistoricos. Depois, não tendo sido synchronicas as epocas prehistoricas entre os varios povos, pouco importa que n’uma ou n’outra região se tenha conseguido reduzil-as ás epocas historicas, ou antes tornal-as a todas comparaveis. Vejamos porém se, relativamente á Peninsula, haverá algum meio de chegar a determinar a antiguidade dos dolmens, ou ha que tempo terão passado a epoca da pedra polida e a do bronze. O problema não se póde resolver inteiramente; e, na parte em que admitte solução, é só por meio das construcções cyclopeas, de que já nos soccorremos com vantagem para a determinação das epocas prehistoricas, em que os dolmens foram erigidos.

Os povos pelasgicos, habitantes da Sardenha, e da Etruria associados aos libycos, invadiram, treze ou quatorze seculos antes de Christo, o Egypto, e não duvidaram acceitar batalha ao exercito do pharaó. Patentêa-se claramente que, sem terem chegado a certo grau de civilisação, não se abalançariam a tal empreza. Mas, tendo sido derrotados, deixaram entre os despojos, armas e outros objectos que melhor nos deixam avaliar esse grau de civilisação. Serviam-se de utensilios de bronze, prata e ouro[124]; e como por outra parte a destruição de Troia foi mil e duzentos annos antes de Christo, e entre os objectos encontrados por Schliemann não apparece tambem o ferro, concluiremos que os povos mediterraneos estavam por aquelle tempo na epoca do cobre ou do bronze. Ora, se as nuhragas foram construidas na epoca da pedra polida e na do cobre ou do bronze, os mais antigos dos dolmens, seriam erigidos na Peninsula antes d’aquella batalha, isto é anteriormente ao seculo XIII ou XIV. Convém notar que o facto referido de Moisés succedeu no seculo XVI antes de Christo. Eis aqui pois até que ponto actualmente se póde resolver o problema da antiguidade dos dolmens peninsulares; seriam anteriores os mais antigos á batalha dos povos mediterraneos com os egypcios no tempo de Ramsés II.

Estaría porém a navegação tão adiantada na epoca da pedra polida que um povo, precursor dos phenicios, podesse dilatar-se do sul ao norte pelas costas occidentaes da Europa? Dois factos responderão a essa pergunta. Ha alguns annos desenterrou-se da vasa de um paúl irlandez um barco prehistorico, feito de um tronco de carvalho, excavado a fogo e pedra. No fundo tinha uma lamina de cortiça, indicio certo de que o barco teria ido da Iberia ou do meio-dia da França para a Irlanda, se não fosse de mais longe[125]. Entre as conchas fosseis achadas na Laugerie Basse ha algumas que sómente da ilha de Wight poderiam ter vindo. Ora, na epoca do rangifer já não havia communicação por terra entre a França e a Inglaterra[126]. Consequentemente n’esses tempos remotos, anteriores á epoca dos dolmens, já se praticava a navegação no Atlantico.

Demais, para explicar a colonisação ou civilisação das regiões litoraes da Europa por um certo povo mais civilisado, não ha necessidade nenhuma de admittir que este ultimo effeituasse longas derrotas. Custa a crêr que um povo, sabendo apenas fazer barcos de troncos de arvores, abertos a fogo e pedra, chegasse, por exemplo, desde o estreito de Gibraltar até á Irlanda ou á Scandinavia. Porém se lhe suppozermos nas costas occidentaes da Europa ou nas ilhas mais proximas as estações intermedias necessarias, a difficuldade ficará consideravelmente attenuada.

Mais de espaço veremos adiante como, em tempos anteriores á historia, duas civilisações penetraram na Peninsula, uma pelo Mediterraneo, caracterisada pelas construcções pelasgicas, outra pelo Atlantico, representada pelos dolmens. É provavel que os homens, que na epoca da pedra polida construiram os mais antigos d’estes ultimos monumentos, fossem da mesma raça d’aquelles que, na mesma epoca, na Scandinavia, construiram dolmens similhantes. Que milhares de annos terão deccorrido depois d’estes acontecimentos, ninguem o saberá dizer. O mais que se póde affirmar é que, doze ou treze seculos antes de Christo, já os povos mediterraneos estariam na epoca do bronze, e portanto muito para áquem da epoca da pedra polida, em que seriam construidos os mais antigos dos dolmens.

Ha poucos annos que os archeologos tem dirigido a attenção para os signaes esculpidos em certos dolmens. Por isso não se deduziram ainda da interpretação d’esses signaes as consequencias importantissimas que promettem. Tractaremos de todos em geral, porque até hoje tambem não foram ainda comparados de modo que se possam classificar. Aos signaes dos dolmens ajuntam-se naturalmente os das rochas e os de certas armas de bronze. Todos analogos, parecem vestigios que da mesma epoca, ou de epocas prehistoricas pouco distantes, ficariam por varias regiões tanto do Velho como do Novo Mundo.

«Na Inglaterra septemtrional e na Escocia, diz Lubbock, estes signaes consistem ordinariamente em depressões concavas ou espiraes, ou em circulos completos ou incompletos, concentricos, de cujo centro commum parte um traço que corta a todas as circumferencias e se prolonga ainda para fóra d’ellas. Estes signaes acham-se perto das oppidas e fortificações antigas, da mesma sorte que nos menhires e nas pedras dos dolmens e dos cromlechs...»

«Acharam-se esculpturas similhantes na Irlanda. Além d’isso n’este paiz, nos grandes tumulos, proximos de Boyne, vêem-se os vestigios de uma ornamentação mais completa. Por exemplo, a grande pedra á entrada de New-Grange está coberta de espiraes duplas, e as pedras da camara central estão tambem ornadas de circulos, espiraes e outros desenhos. Um dos mais notaveis é aquelle que parece representar uma folha de feto, á similhança de outros da Bretanha e do supposto templo de Hagar Kem, na ilha de Malta...»

«Todas estas esculpturas antigas da Gran-Bretanha, menos a folha de feto, são apenas simples figuras geometricas. Acham-se as mesmas figuras em Bretanha; aqui porém são muitas vezes acompanhadas da representação de machados de pedra com ou sem cabo»[127].

Na provincia das Asturias, em Cangas de Onis, subjacente a uma ermida, ha um dolmen, cuja primeira pedra lateral direita, na face interior, contém gravados signaes que fazem lembrar as pinturas da pelle de certos selvagens[128]. Esta mesma analogia se notara já com relação ás esculpturas de outros dolmens, taes como aquelle do districto de Finisterre na França, descripto recentemente pelo sr. Chatellier[129].

Os mais notaveis e os menos antigos d’estes monumentos são as esculpturas das rochas de Kivik. Representam, na opinião de Nilsson, um combate, depois do qual os vencedores offerecem sacrificios a Baal, cuja pyramide se ergue entre dois grandes machados de bronze[130]. Por esta circumstancia se determina com exactidão a epoca em que foram abertas as esculpturas de Kivik.

N’outras esculpturas de rochas da Norwega predominam as representações de barcos, similhantes áquelles que adornam os cabos de navalhas de bronze achadas na Dinamarca[131]. Nos mesmos monumentos da Norwega vêem-se grupos de pontos á maneira de constellações; o que torna estas esculpturas comparaveis ás da rocha de Carnés de Vimianzo na Galiza[132]. A analogia d’estes ultimos signaes com as constellações é ainda maior, porque os pequenos circulos que representam as estrellas estão involvidos em figuras lineares, formadas por circulos concentricos ou por outras curvas. Alguns d’aquelles circulos concentricos fazem lembrar rodas de carros. Na mesma provincia se conhecem outros signaes similhantes na rocha de Ginzo em Limia[133]. E n’um tumulo, descoberto em 1874 a dois kilometros da aldêa de Melon, termo judicial de Rivadabia, encontraram-se pedras interiores cobertas de signaes gravados e coloridos com tinta roxa e negra[134].

Poderia duvidar-se do facto, e suppõr-se que os observadores teriam sido illudidos por algum oxydo de ferro que tingisse de roxo e negro as pedras do tumulo. Mas o sr. Gongora, sem saber d’este, cita outros casos similhantes. Na Andaluzia observou muitos signaes pintados com tinta rubra bituminosa em certos nichos abertos artificialmente na rocha, na serra de Quintana, a uma legua da villa de Fuencaliente. Na distancia de um quarto de legua d’este sitio, n’um logar chamado Batanera, encontrou o mesmo observador outros signaes similhantes pintados com tinta vermelha na face de um penhasco artificialmente cortado. Apesar da rudeza dos traços, reconhece-se n’alguns d’esses signaes a representação do sol, da lua, da figura humana, de arvores, de béstas, do coração e finalmente de barcos[135]. Por estes ultimos e pela fórma linear dos traços, os hieroglyphos da Andaluzia relacionam-se naturalmente com os das rochas da Norwega, já citados, e portanto com as esculpturas de alguns instrumentos de bronze da Dinamarca, tambem já mencionados.

Mas, cousa notavel! explorações recentes têem patenteado no Novo Mexico outros vestigios analogos, que fazem presuppôr a existencia de uma antiga civilisação, procedente da Asia Menor, e que nas epocas prehistoricas se dilataria por muitas das regiões litoraes da Europa e da America: «De taes inscripções, ornamentações e mais esculpturas apparecem tambem muitos specimens por varias partes da America. E é muito para notar o que a este respeito se lê no Boletim official dos Estados-Unidos:—of geological and geographic survey of territories (março 1876), onde, se encontram curiosas noticias das explorações feitas no Novo-Mexico, especialmente pelas proximidades do Colorado; e os desenhos de antigas ruinas de cliff-houses, que fazem lembrar as habitações kushitas das montanhas da Georgia. Tambem ali se podem vêr os debuxos de hieroglyphos, ou inscripções gravadas em varias pedras e em nichos (como se encontram pela Asia-menor), d’essas habitações das rochas; que se assimilham a outras inscripções achadas n’algumas cavernas da Andaluzia»[136].

Estes factos, sendo como dizem, estabelecem relações de similhança, talvez de communidade de origem, entre os povos da Asia Menor e aquelles que, na epoca do cobre ou do bronze, povoaram algumas partes da America septemtrional, e das peninsulas Iberica e Scandinava. Concernentemente aos iberos, tinha-se já notado certas analogias da linguagem entre os vasconços, os alghonquinos e os georgiamos que faziam presuppôr a mesma origem commum. As menos antigas de taes esculpturas, que vem a ser as de Kivik, poderão attribuir-se aos phenicios. Mas estes monumentos são muito superiores a todos os outros pela perfeição do desenho. Pertencem incontestavelmente a uma civilisação tambem muito superior. Os outros parece corresponderem antes a uma civilisação mais rude, de uma epoca anterior, talvez da epoca do cobre e dos dolmens menos imperfeitos da peninsula Iberica.

Os factos ultimamente referidos levam-nos a conjecturar que, nas epocas prehistoricas, duas civilisações differentes se succederam nas mesmas regiões da Peninsula, ambas antinomicas com a civilisação pelasgica, ambas trazidas por navegadores do Atlantico: a da pedra polida que se dilatou pelas costas occidentaes da Europa, deixando até na Scandinavia vestigios similhantes áquelles que se observam na peninsula Iberica. A segunda sería a dos menhires e das pedras balouçantes e talvez do bronze.

Á primeira d’estas civilisações attribuiremos os dolmens mais rudes de Portugal, as insignias de schisto os fragmentos de osso similhantemente lavrados; á segunda os dolmens mais perfeitos como são os da Andaluzia e de Cangas de Onis; as pedras esculpidas da Galiza e da Andaluzia; os menhires e os trilithos da Galiza; o tumulo de Antequera; a galeria de Castilleja de Gusman, e por ventura outras que dizem existir em pequenas distancias de Guimarães; os menhires e as pedras balouçantes d’estas mesmas ou de outras regiões; e finalmente objectos prehistoricos de bronze, achados nas regiões occidentaes da peninsula Iberica.

Os monumentos menos rudes e menos antigos da segunda civilisação, os menhires e os trilithos, feitos de pedras faceadas e sotopostas, como os da Galiza, pela fórma, pela disposição e afeiçoado dos materiaes, devem ser contemporaneos do celebre monumento de Stone-Henge na planicie de Salisbury na Inglaterra. Este monumento attribue-o Lubbock ao ultimo periodo da epoca do bronze, por se terem encontrado nos tumulos circumstantes restos de cadaveres submettidos á cremação. Ora, como esta pratica era commum na epoca do bronze, a ella reporta o auctor o monumento, e ao ultimo periodo da mesma epoca, por ser feito de pedras grosseiramente afeiçoadas[137]. Este ou outro lavor da pedra não importa de modo necessario o emprego do cinzel de ferro. Os mexicanos ignoravam o fabrico e usos d’este metal; todavia das mais duras das pedras faziam instrumentos de toda a casta, esculpiam até bustos de basalto[138]. Os egypcios exploraram tambem algumas pedreiras de granito com instrumentos de bronze.