NOTAS DE RODAPÉ:

[107] Bonstetten, Sur les dolmens.

[108] Bertrand, Les monuments primitifs de la Gaule.

[109] Este argumento da maior perfeição dos megalithos e das armas e instrumentos prehistoricos das regiões septemtrionaes não tem força probativa. Porquanto, prolongando-se por mais tempo n’estas regiões que nas meridionaes as epocas prehistoricas, não é para estranhar que os processos industriaes chegassem a mais alto grau de perfeição.

[110] Mortillet, Na sessão de 22 de agosto de 1874 da Secção de Anthropologia, Revue des cours scientifiques 2.ᵉ série, 4.ᵉ année, pag. 99 et 200.

[111] Á expressão Lei dos litoraes deve dar-se a mais lata das accepções. O litoral d’um continente abrange um espaço de terra muito mais largo que o litoral de um paiz ou de uma provincia. O litoral de Portugal, por exemplo, não passa para além das provincias do Minho, Douro, Extremadura e Algarve. Mas o litoral da Europa abrangerá tambem as provincias de Traz-os-Montes, Beira Alta, Beira Baixa e Alemtejo; isto é, todo o reino de Portugal vem a ser uma parte do litoral da Europa. N’este ultimo sentido se ha de tomar a palavra litoral relativamente á distribuição geographica dos dolmens.

[112] L’âge du bronze, pag. 73.

[113] Cap. VI.

[114] Nas Baleares encontram-se tambem megalithos, porém de epocas menos antigas. Alguns menhires fazem parte de tumulos com abobadas, por onde parece provar-se a fusão dos dois systemas. Estas indicações, que se nos deparam no Semanario Pintoresco Español de 1857, pag. 173, são deficientes, e muito aproveitaria a historia da Peninsula com o estudo dos monumentos das ilhas mediterraneas.

[115] Lubbock, L’homme prehistorique. Pariz 1876 cap. V.

[116] Antigüedades prehistoricas de Andalucia, pag. 106.

[117] Dolmins ou antas de Portugal. Lisboa 1868.

[118] Vid. os desenhos das enxadas e os dolmens da Scandinavia em Nilsson, Les habitants primitifs de la Scandinave. Pariz 1868.

[119] La Academia 1877, n.º 12, pag. 184. Em o n.º 14. pag. 209 vem reproduzido em gravura um talayot de Trepucó da ilha de Minorca.

[120] G. Spano, Scoperte archeologiche fattesi in Sardegna in tutto l’anno 1874. Cagliaria, 1874.

[121] Op. cit. pag. 66.

[122] Op. cit. cap. V.

[123] Exodo, XX, 25.

[124] Inscripção de Karnak interpretada pelo visconde de Rougè e citada por Tubino, Los monumentos megalithicos de Andalucia, Extremadura y Portugal, Museo español de antigüedades, tomo VII.

[125] Lyell, L’ancienneté de l’homme.

[126] Quatrefages, L’espéce humaine, pag. 242.

[127] Op. cit. cap. V.

[128] Tubino, Los monumentos megalithicos.

[129] Os dolmens, Lisboa 1876, pag. 31.

[130] J. Vilanova y F. M. Tubino, Viaje cientifico á Dinamarca y Suecia. Madrid 1871, pag. 65.

[131] Lubbock, Op. cit.

[132] Sivelo, Antigüedades de Galicia, Fig. 18.

[133] Idem, pag. 9.

[134] Idem, pag. 74.

[135] Antigüedades prehistoricas de Andalucia.

[136] Os dolmens, Lisboa 1876, pag. 36. Convém accrescentar outra analogia importante. As inscripções de certos logares do Novo Mexico são coloridas como as da Andaluzia.

[137] Op. cit. cap. V.

[138] Rougemont, L’âge du bronze, pag. 26.

CAPITULO VIII
IDADE DOS METAES

Porque não admittem a maior parte dos archeologos uma epoca de cobre?—Hypotheses para explicar a raridade dos objectos de cobre.—Abundancia d’estes objectos na Peninsula.—Haveria na peninsula Iberica uma epoca de cobre?—Coincidiriam essa epoca e a da pedra polida?—Substituiria a do bronze?—Objectos de cobre e de bronze, achados em Portugal.—Machados, ponta de frecha, faca, e serrote, espadas.—Punhaes de bronze e de ferro da Galiza.—Brevidade dos punhos.—Lendas dos pygmeus—Idolos e cabras de bronze.—Os primeiros dos exploradores do cobre na Peninsula foram anteriores aos phenicios.—Provas da fundição do bronze na Hespanha, ilhas Baleares e da Sardenha.—Classificação dos jazigos de bronze.—Fundições e thesouros.—Casta asiatica de fundidores nos tempos antigos e modernos.—Os ciganos.

Está commumente adoptada, já o dissemos, a divisão dos tempos prehistoricos em duas idades: a da pedra e a dos metaes; e a subdivisão d’esta ultima em duas epocas: a do bronze e a do ferro. Quem souber porém que o bronze é uma liga de cobre e estanho, que o segundo d’estes metaes é menos commum que o primeiro e de mais difficil extracção, e finalmente que, sem se conhecerem ambos, não se inventaria a sua liga, de certo perguntará porque se não faz preceder a epoca do bronze pela epoca do cobre? A razão é simples. Em quasi todas as nações da Europa apparecem tão numerosos os objectos de bronze e tão raros os de cobre, que se têem refusado os archeologos a admittir uma epoca só caracterisada por este metal. Das construcções lacustres de Neuchatel na Suissa têem extrahido numerosos objectos de bronze e nenhum de cobre[139]. Julgava-se que a Hungria e a Irlanda constituiriam excepções á regra geral. Mas a estatistica dos objectos prehistoricos de bronze e de cobre do museu de Dublin não auctorisou a admittir para o ultimo d’aquelles paizes uma epoca do cobre. Entre mil duzentas oitenta e tres armas apenas se contaram trinta machados de cobre e uma folha de espada que diziam ser tambem do mesmo metal[140]. Relativamente á Hungria logo veremos qual é a verdade.

Para explicar a falta de um periodo naturalmente necessario na evolução de industria metallurgica, ha quem supponha que a arte de fazer o bronze não sería inventada na Europa, mas aqui introduzida por algum dos povos emigrados do Oriente. D’este modo os europeus não teriam fabricado o cobre, porque, iniciados na arte de fundir o bronze, tornar-se-lhes-hia inopportuno o fabrico do cobre por ser muito menos duro no estado simples que unido ao estanho. A fim de provar a possibilidade d’este facto não faltam outros analogos. Affirma-se, por exemplo, que certos povos septemtrionaes da raça dos finnicos, em suas origens, não conheciam nem o cobre nem o bronze, porém sómente o ouro e o ferro. Nos tempos historicos não faltarão exemplos de selvagens, a quem os europeus fizeram passar de repente da epoca da pedra polida á do ferro, sem terem percorrido a phase intermedia da epoca do bronze.

Outra hypothese para explicar a raridade dos objectos de cobre, em relação aos de bronze, na maior parte dos povos da Europa, é que nos tempos prehistoricos se não prepararia o bronze pela reunião immediata de cobre e do estanho; mas pela extracção de um minerio que contivesse ambos os metaes, ou pela mistura do minerio de estanho com o de cobre. A uniformidade da composição do bronze, e até as proporções determinadas em que se encontram o cobre e o estanho em cada genero de instrumentos, conforme deveriam ser mais ou menos duros para bem satisfazer ao fim a que se destinavam, demonstram o nenhum fundamento de tal hypothese.

Outros dizem que a industria do fabrico do bronze sería uma sequencia natural e necessaria de factos anteriores, e que povos differentes e incommunicaveis se elevariam, progressivamente e sem extranho auxilio, do fabrico da pedra lascada ao da pedra polida, d’este ao do cobre, e finalmente ao do bronze, bem como do fabrico do bronze passariam da mesma sorte por uma evolução necessaria ao fabrico do ferro. Causas intrinsecas ou extrinsecas reduziriam em certos povos a pequeno espaço de tempo a duração da epoca do cobre, que por tanto deixaria de si poucos ou nenhuns vestigios. Esta hypothese com quanto seduza a imaginação pela simplicidade, e por se basear na lei do progressivo aperfeiçoamento da industria humana, parece todavia não ser conforme aos factos. Ninguem duvida da similhança e até da identidade dos objectos de bronze, encontrados nas mais distantes e nas mais varias das regiões da Europa[141]. Ora tal similhança ou identidade seriam impossiveis, se cada povo tivesse inventado por si mesmo o cobre, o estanho e a liga d’estes dois metaes.

Além d’isto, será certo, ou ao menos provavel, que os povos da Europa chegassem por si sós e sem extranho auxilio á invenção dos metaes? Se n’alguns paizes se admitte a invenção indigena do cobre ou do ferro, na maior parte não se tem verificado este facto. Affirma Lenormant que os pretos da Africa central e meridional não conheceram nunca o bronze, e até, pela maior parte, não fabricam o cobre. Em compensação, têem dado ao fabrico do ferro certo desenvolvimento, e por meio de processos proprios que não receberam de extranhos. Chegaram pois espontaneamente a descobrir o ferro, e passaram do uso exclusivo da pedra ao d’este metal, sem a phase intermedia do cobre ou do bronze. Os esquimaus, não sahidos ainda da idade da pedra, ignoram os processos de fundir os metaes, mas fabricam certos utensilios de ferro, percutindo com pedras o meteorico, e sem o fazer passar pela fusão[142]. Se aquelles mesmos processos de fundir o ferro não foram ensinados aos africanos por algum povo asiatico, o que parece mais provavel, o facto é excepcional. Na maior parte dos casos verifica-se a iniciação. Citaremos apenas o exemplo dos mexicanos, que os hespanhoes foram encontrar n’um subido grau de civilisação, porém dentro dos limites da epoca do bronze. Durante milhares de annos não souberam inventar meios de buscar, extrahir e fabricar o ferro.

A primeira hypothese, ou a da iniciação dos europeus pelos orientaes, particularisou Nilsson, attribuindo aos phenicios a introducção do bronze na Europa. Antes de examinar esta hypothese, applicada á Europa em geral, e mais em particular á Peninsula, importa-nos saber que objectos aqui se têem encontrado, para assentar sobre fundamentos menos duvidosos essa discussão importante.

Primeiro que tudo convém saber que os srs. Vilanova e Tubino insistem n’uma circumstancia que têem por indubitavel—na escassez dos objectos de bronze em Hespanha, compensada pela grande abundancia dos de cobre. Por isso propõe o sr. Tubino a subdivisão da epoca neolithica em dois periodos: o mesolithico e o do cobre[143]. Para bem esclarecer este ponto importante, importa examinar se: 1.º Haveria na peninsula Iberica uma epoca do cobre? 2.º Coincidiriam essa epoca e a da pedra polida? 3.º Substituiria a epoca do bronze? a existencia da epoca do cobre. Quando se descobriu a America, os povos

Prova-se por analogia a possibilidade de qualquer d’estes factos. Ainda hoje selvagens d’Africa fabricam cobre e ferro e ignoram o processo de fazer bronze. Outros da America septemtrional apenas sabem fabricar armas de pedra e de cobre. Na opinião de Rougemont, os proprios egypcios tiveram a sua epoca do cobre, correspondente ás dynastias IV, V e VI, quatro mil e quinhentos annos antes de Christo, á qual epoca se seguiu a do bronze nas dynastias immediatas[144]. Mas pode-se ainda restringir a analogia e dar-lhe maior força. Em certas regiões abundantes de minas cupricas verifica-se das regiões septemtrionaes estavam n’essa phase da civilisação. Nas circumvisinhanças do lago Superior se conservam hoje os vestigios da exploração de enormes quantidades de minerio de cobre. O sr. Whittesley calcula que esses vestigios occuparão na parte meridional do lago uma extensão de cem a cento e cincoenta milhas; e que as arvores que cobrem alguns terão mais de tres seculos de existencia[145]. Na Asia, da região media do Jenessei até ao Amur para a parte de leste, e para a parte de oeste até ao Oural, ha grande numero de tumulos, de minas abandonadas e de fornos em ruinas. Pelas madeiras petrificadas se conhece a sua grande antiguidade. Está tambem provado que os tchoudes exploraram estas minas de cobre antes de conhecerem o estanho, e que antes da epoca do bronze tiveram portanto a sua epoca do cobre. As mesmas duas epocas se conhecem facilmente na Hungria e na Transylvania, onde existem ruinas antigas inteiramente eguaes ás dos tchoudes do Oural e da Siberia[146]. Ora, a peninsula Iberica, pela abundancia do cobre, pela antiguidade das minas d’este metal, está em condições analogas ou ás da Hungria e da Transylvania, ou ás da vasta região habitada pelos tchoudes. Não custa portanto admittir que o grande numero de objectos de cobre achados na Peninsula provam a existencia de uma epoca do cobre, da qual os povos ibericos mais tarde se elevariam á do bronze, quando o commercio lhes fornecesse o estanho necessario para ligar com o cobre.

Dando como demonstrada a epoca do cobre, passaremos agora a examinar a segunda questão: se coincidiria com a epoca da pedra polida? Em primeiro logar notaremos a incompatibilidade da coincidencia. Se um povo qualquer fabríca e usa instrumentos de metal, como se ha de considerar esse povo na idade da pedra? Não comprehendemos pois que se possa admittir na epoca da pedra polida um periodo do cobre, se não fôr para significar que os peninsulares estariam já n’esse periodo, em quanto os outros povos da Europa estariam no anterior. Mas quem ignora a impossibilidade do synchronismo das varias phases industriaes em toda a Europa? As expressões epoca da pedra lascada, epoca da pedra polida, epoca do bronze, epoca do ferro não significam de modo nenhum condições communs a todos os povos, porém tão sómente a um povo ou a alguns povos. Quando portanto fallarmos da epoca da pedra polida ou da epoca do cobre da Peninsula, não podemos referir-nos senão a esta parte da Europa.

Talvez para a mencionada tentativa da penetração da idade da pedra pela idade dos metaes influisse a circumstancia de se terem encontrado martellos de pedra em minas prehistoricas de cobre, como são as do Milagro nas Asturias, de Cerro Muriano em Cordova e de Ruy Gomes no Alemtejo. Mas o uso dos instrumentos de cada epoca não termina com ella, prolonga-se de ordinario pelas immediatas. Apparecem com frequencia em tumulos da epoca do bronze armas de pedra, e nos da epoca do ferro armas de pedra e de bronze. N’este caso particular das minas de cobre o facto observado na Peninsula não é unico. N’aquelles que já mencionámos do lago Superior apparecem tambem martellos de pedra[147]. No Egypto usavam de certos utensilios de pedra, alguns por extremo grosseiros, juntamente com os de metal, nos mais florescentes dos periodos da civilisação, e até em tempos que não vão ainda longe. Com instrumentos de pedra exploravam os egypcios as minas de cobre da peninsula de Sinai; com os mesmos instrumentos trabalhavam nas pedreiros de granito de Syène, etc.[148]. Certos povos da raça negra fabricam enxadas superiores áquellas que a Inglaterra quer enviar-lhes de Sheffield, servindo-se de uma forja rudimental, constando apenas de uma bigorna de grés, um martello de silex e um folle, feito com um vaso de barro tapado com uma pelle movel[149].

Resta-nos agora examinar o ultimo ponto: se a epoca do cobre substituiria na Peninsula a epoca do bronze? O proprio sr. Tubino, que é quem mais propende para esta idêa, enumerando os objectos metallicos, encontrados em Andaluzia, Extremadura e Portugal, falla dos de cobre e dos de bronze de tal modo que ninguem saberá dizer ao certo quaes serão em maior numero[150]. Nem outra cousa se conclue da enumeração que pela sua parte faz o sr. Vilanova[151]. O sr. D. José Villa-amil y Castro menciona espadas, punhaes e pontas de frechas descobertos na Galiza, todos de bronze e nenhum de cobre[152].

De Portugal ninguem tambem dirá que os objectos de cobre até hoje encontrados sejam muitos mais que os de bronze. No Alemtejo apparecem, é verdade, em maior numero os instrumentos de cobre; mas acham-se tambem n’esta provincia muitos de bronze com as fórmas dos typos correspondentes de outras partes. Dos de cobre asseveram os fundidores de Evora haverem observado no tempo em que os fundiam, (porque não eram ainda procurados pelos collectores) que lançavam um cheiro forte e suffocante, quando os sujeitavam no cadinho á acção do fogo. Este facto prova a impureza do cobre de que taes objectos eram fabricados, e explica-se talvez pela imperfeição dos processos empregados para a extracção, que deixariam uma porção de enxofre combinada com o metal. Repetimos porém, que os objectos de bronze não são tão raros que acreditem a hypothese da existencia de uma epoca de cobre tão notavel e tão prolongada que deixasse no escuro a do bronze, como pretendem alguns dos auctores hespanhoes. As collecções de objectos prehistoricos do Museu da Escola Polytechnica de Lisboa e da Bibliotheca de Evora contêem objectos de bronze em maior numero que os de cobre. A collecção do sr. Gabriel Pereira, pelo contrario, tem mais objectos de cobre; mas esta collecção consta principalmente de machados muito singelos, que são os mais communs e, pela maior parte de cobre. Para se avaliar a superabundancia d’estes instrumentos, relativamente aos outros da mesma epoca, bastará dizer que a mencionada collecção consta de dezesete objectos, dos quaes quinze são dos machados ou cunhas de cobre mais communs, e dois de bronze: convém a saber um machado com azelhas ([fig. 64]) e a espada ([fig. 71]). Note-se tambem que sómente no Alemtejo, e nas regiões meridionaes d’esta provincia consta apparecer tamanho numero de machados de cobre. Haverá alguma relação entre este facto e a mina prehistorica de Ruy Gomes na mesma provincia?

Fig. 63

Fig. 64.

MACHADOS DE COBRE E DE BRONZE DO ALEMTEJO.

Para se servirem d’estes instrumentos, rachavam na parte superior os cabos de pau, e mettiam os machados nas fendas, ligando-os fortemente com cordas ou corrêas. Dos machados mais singelos com fórma de cunhas têem-se encontrado tambem na Hespanha, bem como dos outros com cavidades para os cabos e com azas ou sem ellas. Porém, segundo affirma o sr. Villa-amil, em contrario do que no Alemtejo acontece, os machados lisos, á maneira de cunhas, seriam em Hespanha menos communs que os outros. O escriptor citado achou em castros da Galiza pontas de lança (cuspis) tanto de bronze como de ferro[153].

A [fig. 64] representa um machado de bronze, encontrado no Alemtejo. Mas, como já dissemos, este typo, parecido ao scalprum fabrile, é raro em comparação do typo que a [fig. 63] representa o mais commum de todos.

Fig. 65

PONTA DE FRECHA DE COBRE DA CASA DA MOURA.

Entre os numerosos objectos, encontrados nas cavernas de Cesareda, não appareceu nenhum de metal, excepto uma ponta de frecha de cobre[154]. Este achado bastará para referir aquella estação prehistorica á idade dos metaes? As explorações até hoje feitas em Hespanha e Portugal auctorisam-nos a reportar á epoca da pedra polida os habitantes das cavernas. Todavia o achar-se a frecha de cobre a quatro metros de profundidade, quasi sobre o manto stalagmitico, parece excluir a possibilidade de ter ali ficado em epoca posterior á habitação da caverna. Por outra parte, os objectos, achados no mesmo logar, e particularmente a massa de calcareo claviforme lavrada n’uma das faces, e a placa de schisto com ornatos triangulares estão indicando com a possivel certeza a epoca d’aquella estação prehistorica. Deve ter sido frequentada no tempo dos dolmens de Bellas e de Pavia e da Sepultura de Martim Affonso, de Muge. Ora, esta epoca marca a transição da idade de pedra para a dos metaes.

Fig. 66

Fig. 67

FACA E SERROTE DA FONTE DA RUPTURA.

Seria porventura contemporanea a estação prehistorica da Fonte da Ruptura de Setubal, onde appareceram uma faca e um serrote que se conservam no Museu da Escola Polytechnica. Porém estão de tal sorte incrustados que é impossivel dizer se serão de cobre ou de bronze. Advirta-se porém que em certas estações ficaram sotopostos os vestigios de varias epocas, por terem sido habitadas successivamente por muitas gerações e talvez até por differentes raças. E quando no acto da exploração se não registram cuidadosamente todos os indicios, todas as relações de posição dos objectos entre si e com os materiaes integrantes do deposito, torna-se depois impossivel descobrir a verdade. A Memoria do sr. Delgado offerece-nos todos esses esclarecimentos ácerca das cavernas de Cesareda, mas relativamente á Fonte da Ruptura ignoram-se as circumstancias da exploração e da localidade.

Na Bibliotheca de Evora guardam-se seis ou sete espadas de cobre, achadas em varios sitios da diocese de Beja por D. fr. Manuel do Cenaculo. Fundidores de Evora affirmam terem fundido outras similhantes, o que prova não serem raras nas terras transtaganas. Julgou-as o descobridor feitas de bronze, porém com os objectos de cobre é que ellas têem mais analogia nas suas propriedades physicas ([fig. 68, 69 e 70]).

Estas espadas não têem gumes; serviam portanto para ferir de ponta. Outra circumstancia notavel é serem inteiriças, isto é, cada uma d’ellas formada de uma só peça, e sem articulação dos punhos e copos com a folha, quando as armas d’este genero, já durante a epoca de bronze, eram geralmente articuladas. Esta mesma circumstancia se observa n’outras espadas ou punhaes de cobre ou de bronze, achados no Alemtejo, os quaes são tambem inteiriços ou formados de uma só folha metallica, afeiçoada á força de trabalho com instrumentos cortantes e contundentes ([fig. 71]). Porém outros objectos da mesma epoca foram fundidos. Têem-se encontrado na Irlanda e na Sardenha alguns dos moldes que serviram para este fim.

O sr. D. José Villa-amil y Castro descreve um punhal de bronze, achado na Galiza, de mui differente feitio, e muito mais complicado[155]. A folha não é lisa, mas coberta de riscas muito finas, unidas e parallelas entre si e aos bordos, cuja direcção recta ou curva approximadamente seguem. O punho tem a fórma d’aquelles que chamam de antennas. Mas o que ha mais notavel n’esta arma de bronze é ter o punho furado para entrar n’elle a espiga da folha. Não ha vestigios de ter sido repregada ou fixada por virola ou por outro meio. Pelo contrario a espiga entra no punho e sahe muito á larga, e conserva signaes do attrito que soffreria n’estes movimentos. O sr. Villa-amil suppõe que esta arma curiosa serviria aos sacerdotes nos sacrificios, e que o mesmo individuo poderia ferir differentes victimas com o mesmo punho, substituindo a folha para cada victima. Mas o mais que se póde concluir é que n’este e n’outros similhantes punhaes se substituiria uma folha por outra, quando a primeira estivesse gasta, o que em pouco tempo aconteceria, em razão da pouca dureza do bronze ([fig. 72]).

Fig. 69

Fig. 70

Fig. 68

Fig. 71

ESPADAS DE COBRE E DE BRONZE DO ALENTEJO.

Fig. 72

PUNHAL DE BRONZE DA GALIZA.

Algumas armas de bronze com os caracteres das armas prehistoricas têem apparecido em sepulturas juntamente com objectos romanos. Houve pois uma penetração de certos costumes da epoca do bronze pelas epocas subsequentes. O fragmento de um punhal de ferro ([Fig. 73]), achado na Galiza, e muito similhante á parte correspondente do punhal de bronze, encontrado na mesma provincia e representado na [fig. 72], prova a coincidencia do uso de armas e instrumentos de ambos os metaes n’aquella provincia. Prova ainda que os mais perfeitos dos objectos de bronze não terão grande antiguidade.

Fig. 73

FRAGMENTO DE UM PUNHAL DE FERRO, ACHADO NA GALIZA.

As armas de cobre e bronze, espadas e punhaes, achadas na Peninsula, bem como aquellas que têem apparecido n’outras partes da Europa, parece haverem sido usadas por uma raça de estatura baixa e de mãos extremamente pequenas. Em quanto os punhos das actuaes têem sete ou oito centimetros, os das armas de cobre ou de bronze medem apenas quatro ou cinco centimetros. Na Asia ainda hoje ha povos que se distinguem por terem mãos tão pequenas que os punhos das suas armas são como os das nossas armas prehistoricas. As lendas dos anões e dos gnomos, vulgares em tantos paizes, recordam ainda hoje os homens de pequena estatura da epoca do cobre ou do bronze. Segundo essas lendas, os anões habitavam as cavernas, d’onde sahiam sómente pela calada da noite. Os camponezes das circumvisinhanças vinham depositar pães junto das bocas das cavernas em troca dos instrumentos de metal que os anões fabricavam. Outros povos attribuem á propria Divindade os caracteres dos anões fundidores de metaes; e representam o Demiurgos, o auctor dos mundos, como um homunculo disforme e grotesco. Outros finalmente conservam as tradições de pygmeus que gigantes teriam vencido. Em tudo isto consideram os archeologos outras tantas provas da existencia de uma raça de estatura pequena, que outra mais forte haveria vencido e substituido em varias regiões da Europa.

Conservam-se tambem na bibliotheca de Evora um idolo grosseiro e tres outros idolos similhantes, porém menores, todos de bronze. Ignora-se a procedencia d’estas curiosas antigualhas.

Fig. 74

Fig. 75

IDOLO DE BRONZE DA BIBLIOTHECA DE EVORA.

No Museu da Escola Polytechnica ha um similhante idolo masculino de bronze, pertencente ao sr. Judice do Algarve, e talvez n’esta provincia descoberto.

Apparecem tambem no Alemtejo bodes ou cabras de bronze tão imperfeitos como os idolos e provavelmente da mesma epoca. Os fragmentos adherentes aos pés indicam que estas grosseiras imagens estariam fixas a outros objectos. Conservam-se dois bodes de bronze na bibliotheca de Evora. Outro similhante, foi achado ha alguns annos no Redondo, districto de Evora[156]. Os idolos de dois sexos e as cabras de bronze serão talvez os vestigios de alguma antiga religião introduzida na Peninsula em epoca desconhecida. Os egypcios, os phenicios e outros povos da antiguidade rendiam culto aos elementos masculino e feminino, symbolisados em Isis e Osiris, em Baal e Astarté. A cabra era tambem objecto de adoração no Egypto. Aqui o sol e a lua representavam o principio masculino e o feminino. Já vimos que em certas inscripções da Andaluzia se vêem figurados estes dois astros[157]. O costume, antigo e commum na Peninsula e em tantas partes da Europa, de celebrar com fogueiras e dansas a noite de S. João ou o solsticio do verão, parece tambem a alguns um vestigio da religião phenicia. Mas é provavel que d’uma civilisação mais remota herdassem os phenicios e outros povos este e outros costumes religiosos.

Fig. 76

Fig. 77

Fig. 78

IDOLOS DE BRONZE DA BIBLIOTHECA DE EVORA.

Fig. 79

Fig. 80

CABRAS DE BRONZE DA BIBLIOTHECA DE EVORA.

Os primeiros dos exploradores das minas de cobre na Peninsula, os primeiros dos que fabricaram os velhos machados de cobre devem ser anteriores aos phenicios e ao tempo em que estes colonisaram alguns dos logares septemtrionaes da Africa e meridionaes da Hespanha no seculo XII. As condições de um povo que explorava o cobre com martellos de pedra, e se servia de machados grosseiros d’aquelle metal não concordam de modo nenhum com o que sabemos ácerca da civilisação adiantada dos phenicios e dos povos mediterraneos no tempo da fundação das primeiras das colonias tyrias. A nossa epoca do cobre foi portanto anterior aos phenicios e aos etruscos, conclusão a que chegára Desor na Suissa, relativamente á epoca do bronze, pela falta de objectos de ferro nas palafittas d’aquella epoca. Mas se na Suissa não é possivel determinar, presumir ao menos que, povo ali introduziria o commercio do bronze, na Iberia a exploração e fabríco do cobre parece naturalmente relacionarem-se com algum dos povos da Asia, e de uma região onde as minas de cobre eram tambem exploradas.

Se os bronzes das palafittas da Suissa e das terramaras da Italia se hão de julgar anteriores á epoca do ferro e portanto mais antigos que os etruscos e phenicios, a que remotissimas eras se não reportarão os machados de cobre da Peninsula? Mais adiante examinaremos as razões que fazem provavel a opinião de que as primeiras explorações das minas de cobre na America, na Hungria na Transylvania e na Iberia fossem contemporaneas e talvez resultantes de uma antiga civilisação turania irradiante da Asia para as outras partes do mundo[158].

Á epoca do cobre succedeu a do bronze, quando um povo navegador e commerciante introduziu na Peninsula ou os instrumentos de bronze ou o estanho para se fabricarem. É possivel que esta introducção fosse por algum povo anterior aos phenicios e etruscos. Se a hypothese de Nilsson acha contradictores na sua applicação á Scandinavia, com mais força de razão se poderá impugnar relativamente á peninsula Iberica. É porém certo que o uso do bronze se prolongou durante a colonisação phenicia, dilatando-se até pela epoca romana. Ninguem ignora a importancia que teve Cadix no commercio do estanho que os phenicios iam buscar a Cornwals. Ora, sendo a Peninsula abundante de cobre, não deixaria portanto de haver fabricas de bronze n’aquellas e n’outras colonias phenicias. Strabão falla de espadas de bronze, feitas em Cadix[159]. Na Sardenha têem apparecido até hoje oito matrizes de fundir armas de bronze[160]. O punhal de bronze e o punho de outro de ferro do mesmo typo, achados na Galiza, provam que um mesmo povo, na mesma epoca, ou em epocas proximas, fabricaria armas de bronze e de ferro. Em taes condições estavam os phenicios, pelo menos durante os ultimos tempos da sua existencia nacional.

As Baleares, como a Sardenha, como a Etruria, foram de certo focos, d’onde irradiaram para longes terras, pelo commercio, os objectos de bronze. Strabão diz serem os habitantes das Baleares optimos fundidores, e exercitarem esta arte desde o tempo da occupação d’aquellas ilhas pelos phenicios[161].

O sr. Chantre, n’uma obra recentemente publicada, colligiu innumeros factos que o levaram a classificar em dois grupos principaes os jazigos do bronze: 1.º As fundições; 2.º Os thesouros. A estas duas classes já bem determinadas convem accrescentar certas estações ou centros habitados, ainda mal definidos, e muitas sepulturas em raso campo, cuja presença nenhum signal apparente indica. «Uma fundição consiste ordinariamente n’uma simples cavidade aberta na terra, encerrando o material mais ou menos completo de um fundidor de bronze: barras de metal, escorralhas, restos, escorias, objectos usados inteiros ou partidos, moldes, pinças, ás vezes objectos novos sahidos do molde e por acabar. Taes fundições têem apparecido em muitos logares da Europa, mas particularmente em França, Saboia e Allemanha»[162].

Os thesouros constam unicamente de objectos novos sem terem servido, ás vezes ligados uns aos outros, e tão eguaes que de certo sahiriam do mesmo molde. Encontram-se em pequenas cavidades, feitas de proposito para os esconder. Os mais importantes appareceram nos Alpes.

Da uniformidade das fundições, encontradas na Europa, e de occuparem sempre logares solitarios, distantes das povoações, conclue o sr. Chantre que os fundidores pertenceriam a uma mesma casta nomada, que percorreria a Europa, e talvez outros continentes, exercendo a sua arte. Esta idêa parece-lhe confirmada pelas circumstancias respectivas aos thesouros, que seriam depositados em escondrijos por aquelles que os traziam, até a um regresso que muitas vezes circumstancias fortuitas e imprevistas impediriam.

Além d’estes factos, ha outros que parece egualmente provarem a existencia de origens unicas do bronze. A composição d’esta liga é a mesma por toda a parte. Os objectos encontrados, seja qual fôr o logar onde o tenham sido, denotam tres periodos differentes da epoca do bronze; 1.º aquelle em que apparece como raridade no meio de gentes occupadas a polir a pedra: 2.º aquelle em que o metal chega a substituir definitivamente a pedra para certos usos, em que lhe é manifestamente superior: 3.º aquelle em fim em que o ferro vem fazer concorrencia ao bronze e chega a supplantal-o. Allega-se tambem a falta da exploração do cobre na Europa. E de tudo isto conclue o sr. Burnouf, reproduzindo segundo cremos, a opinião do sr. Chantre, que a origem do bronze sería estranha á Europa, e n’uma região indeterminada da Asia. Admitte porém que, pelas differenças locaes, se ha de distribuir a Europa em tres grupos: o do Oural; o do Danubio e o do Mediterraneo[163]. Não reflectiu o auctor que ao primeiro d’aquelles grupos correspondem antigas minas de cobre exploradas pelos tchoudes; ao segundo as minas da Hungria e Transylvania; ao terceiro finalmente as da peninsula Iberica. Cornwalls, e porventura alguma outra região ignorada forneceriam o estanho aos fundidores do bronze.

Não será hoje facil, unicamente pelos vestigios encontrados, resolver os problemas que nos offerece a metallurgia da epoca do bronze. Entretanto ha certos factos conhecidos que, approximados e comparados uns aos outros, deixam entrever a possibilidade de uma solução. Herodoto falla de uma casta ou corporação de fundidores ambulantes, provenientes da Asia[164]. Durante a idade media ainda a mesma raça frequentava as villas e aldeias da Europa, odiada e perseguida por todos. Com o desenvolvimento da industria cada vez se tornaram menos frequentes as apparições d’estas tribus errantes. Comtudo ainda ha poucos annos uma percorreu a Hespanha e Portugal, acampando fóra das povoações e demorando-se em cada estação emquanto lhe davam trabalho. Esta gente é da casta dos ciganos, e pelo mesmo nome ou pelos correspondentes designada nos differentes paizes.

Segundo Herodoto, os sigynnos seriam os mais antigos dos habitantes da Peninsula e, na oppinião de alguns auctores, seriam tambem os ciganos da antiguidade. Com effeito syginnos, tzigeuners, ziguener, em Allemanha, tchingenés, na Turquia, parecem variantes do mesmo nome. Mas, se já entre os antigos iberos havia ciganos, sel-o-hiam tambem os sicanos ou sequanos, iberos que na Sicilia precederam os siculos? No ultimo capitulo d’este livro diremos algumas palavras mais ácerca d’esta questão obscurissima da ethnologia peninsular.