NOTAS DE RODAPÉ:
[139] Pelo menos Desor não os menciona, estampando e descrevendo minuciosamente os instrumentos de bronze. Vej. Les palaffittes ou constructions lacustres du lac de Neuchatel.—Pariz 1865.
[140] Lubbock, L’homme préhistorique, pag. 53.
[141] Idem, pag. 54.
[142] Lenormant, Les premières civilisations, tom. I, pag. 87 e 88.
[143] Vej. a pag. 27 d’este livro a classificação proposta.
[144] L’âge du bronze, pag. 179.
[145] Lubbock, op. cit. pag. 233.
[146] Rougemont, op. cit. pag. 32 e 33.
[147] Lubbock, op. cit. pag. 233.
[148] Lenormant, op. cit. pag. 106.
[149] Idem, pag. 86.
[150] Los monumentos megaliticos de Andalucia, Extremadura y Portugal y los aborigenes ibericos, Museu español de antigüedades, tomo VII.
[151] Lo preshistorico en España, Anales de la sociedad española de historia natural, tomo I, cuaderno 2.º pag. 210.
[152] Armas, utensilios y adornos de bronce recogidos eu Galicia. Museu español de antigüedades, tomo IV, pag. 64.
[153] Armas, utensilios y adornos de bronce recogidos en Galicia. Museo español de antigüedades, tomo IV, pag. 64.
[154] J. F. N. Delgado, Noticia das grutas de Cesareda.
[155] Op. cit.
[156] A cabra, encontrada no Redondo e pertencente hoje ao sr. Dr. Sanches da Gama, appareceu juntamente com moedas romanas e vasos de barro debaixo de uma pedra, perto da villa de Redondo, districto de Evora. O possuidor da cabrinha conserva tambem algumas das moedas que diz serem do imperador Filippe. O individuo que fez o achado insiste em que todos estes objectos estavam juntos debaixo da mesma pedra. Difficil parecerá attribuir á epoca romana a cabrinha do Redondo, cujo lavor todavia é menos imperfeito que o das que se conservam na Bibliotheca de Evora e as [fig. 79 e 80] representam. O sitio do achado foi junto de certo ribeiro, distante um kilometro de Montoito.
[157] Antigüedades prehistoricas de Andalucia.
[158] Diz Lenormant que, no tempo em que os aryos e os semitas eram ainda pastores, florescia na Asia anterior uma civilisação exclusivamente turania e kuschita. A de Susiana sería anterior á de Babylonia, pois que os chaldeus a denominavam por excellencia o paiz antigo. As gentes turanias que a povoavam, já vinte e tres seculos antes de Christo, emprehendiam remotas conquistas. Les premiéres civilisations, tom. I, pag. 108.
[159] Rougemont, L’âge de bronze, pag. 121.
[160] Revue d’anthropologie, 1875, pag. 508.
[161] Strabão Geograph. lib. III. «... funditores tamen sunt optimi, aiuntque eam artem eos magnopere exercuisse, ex quo tempore Phœnices eas insulas occuparunt. Hi primi hominum feruntur gestasse tunicas laté pretextas.»
[162] Emile Burnouf, L’âge du bronze, Revue des deux mondes, 15 juin 1877, pag. 752 a 782.
[163] Ibidem.
[164] E. Burnouf, loc. cit.
CAPITULO IX
ORIGENS ETHNICAS
Os finnicos e os vasconços.—Os seus idiomas agglutinatívos.—Origem turania dos finnicos.—Será commum aos vasconços?—Provas deduzidas da philologia e da anthropologia.—Hypothese de Retzius e sua classificação das raças humanas.—Refuta-se esta hypothese.—Opiniões dos philologos ácerca da linguagem vasconça.—Os mais antigos dos craneos da Peninsula e da Europa.—Craneos fosseis de Néanderthal e de Gibraltar.—Outros do Cabeço da Arruda, Cesareda e Cueva de la Mujer.—Maxillas.—Raça de Cro-Magnon.—Sua dístribuição geographica.—Povoaria a peninsula Iberica?—Será representada ainda hoje pelos beréberes?—Factos comprobativos.—Necessidade de novas observações.—Os beréberes e os antigos egypcios.—Povos mediterraneos.—Sua civilisação ha tres mil annos.—Extender-se-hia á Peninsula?—Conclusões.
Nos extremos da Europa, entre os pantanos da Finlandia, no meio das brenhas e fraguras dos Pyreneus, remanecem, com os nomes de finnicos e vasconços, os ultimos representantes de duas raças estranhas. Parece que outros povos mais civilisados, a quem teriam de ceder o passo e de abandonar os logares amenos e apraziveis, onde em principio habitariam, os foram de tempos a tempos repellindo e internando para as suas vivendas actuaes. O insolito da linguagem, dos costumes, das propensões, em summa do typo ethnico, em todas as epochas tem feito com que lhes attribuam maior antiguidade que aos outros povos da Europa. A linguagem, sobre tudo, torna-se por extremo notavel, pelo seu caracter agglutinativo, entre idiomas, que, por serem flexivos, correspondem a um grau superior de cultura e desenvolvimento intellectual.
Convém saber que os philologos modernos admittem tres phases distinctas na evolução da linguagem: o monosyllabismo, a agglutinação e a flexão. Ainda hoje alguns povos se conservam na primeira d’estas phases; outros persistem na segunda; outros, em fim, mais perfectiveis, mais dispostos a modificar-se, obedecendo á lei do progresso, elevaram-se á terceira. Ora, assim como o chinez de Cantão ou de Fo-Kien (porque n’outras provincias da China a linguagem offerece o curioso phenomeno da transição da primeira para a segunda phase) assim como o chinez de Cantão ou de Fo-Kien parece incapaz de passar do monosyllabismo á agglutinação, e muito mais á flexão, assim tambem o finnico e o vasconço têem conservado até hoje, no meio e em contacto de povos que fallam idiomas flexivos, a sua antiga linguagem agglutinativa.
Com razão pois se tem considerado estes dois povos como subsidios importantes para a solução do problema das origens ethnicas da Europa. Porquanto, determinada a raça ou determinadas as raças d’onde procederam os finnicos e os vasconços, conhecer-se-hiam desde logo os predecessores dos mais antigos dos povos que a historia menciona. Aos vasconços, isolados como estão, e distantes de outros povos com idiomas agglutinativos, não se lhes póde rastejar a stirpe, mas quem seguir attentamente os passos e vestigios dos povos finnicos para as partes orientaes, lá irá encontrar a mesma raça na Asia; pela Siberia occidental, dilatando-se até ao rio Jenessei e até aos montes Altai. E pois se vê confinar ahi, da parte do nascente, com mongoes propriamente ditos, e, da parte do sul, com turcos e tartaros, não é muito que se tenham os finnicos como um ramo do grande tronco mongolico, e se designem tanto a estes, como aos outros povos com que se emparentam, pelo nome generico de turanios, da região que parece ter-lhes sido berço, para os distinguir dos aryos ou iranios, povos oriundos não do Turan, mas do Iran.
Procederiam, porém, os vasconços egualmente do Turan, e pertencerão por conseguinte á raça mongolica? O caracter agglutinativo da linguagem, só por si, não basta para demonstrar identidade de origem ou de raça. Homens brancos, amarellos e negros fallam idiomas agglutinativos em varias partes do mundo. Mas Luciano Bonaparte e Charancey julgaram achar outras analogias particulares entre o finnico e o vasconço, e entenderam que seriam ambos da grande familia das linguas turanias do norte da Asia[165]. No campo da anthropologia cuidou Retzius ser commum a finnicos e vasconços a mesma fórma do craneo. Assim a identidade ethnica d’estes povos parecia provada por duas das sciencias que mais competentemente o poderiam fazer.
Deixaremos aos philologos a analyse e discussão da prova philologica, por exigir conhecimentos geraes de linguistica e especiaes dos idiomas agglutinativos. Mas, para bem se avaliar a prova anthropologica, importa-nos dizer algumas palavras ácerca da hypothese de Retzius.
A côr da pelle, da iris e do cabello, por uma parte, e por outra parte a distribuição geographica, têem servido de elementos fundamentaes á maior parte d’aquelles que tractaram de classificar as raças humanas. Todavia nem Blumenbach, nem Cuvier, nem Morton, nem Agassiz, nem qualquer dos auctores de classificações principalmente fundadas nos caracteres referidos, deixaram de prestar a devida attenção aos da fórma e capacidade do craneo. Tal é com effeito a importancia d’estes caracteres, que, relativamente aos de outros orgãos, muito bem poderemos consideral-os como subordinadores.
Retzius foi quem primeiro classificou as raças humanas sómente pelas mais apparentes das differenças anatomicas observadas nos craneos. A classificação do celebre medico sueco, ha poucos annos fallecido, é tão simples como engenhosa. Todos os craneos humanos são ou dolichocephalos (alongados), ou brachycephalos (arredondados). Admittida esta divisão geral, as raças humanas, segundo o auctor, dividir-se-hiam tambem em raças dolichocephalas e raças brachycephalas. Cada uma d’estas classes se subdividiria em raças orthognathas (com maxillas verticaes) e em raças prognathas (com maxillas inclinadas de trás para diante e de cima para baixo)[166].
No tempo de Retzius os mais antigos dos craneos que na Scandinavia se conheciam eram brachycephalos; e, como os dos finnicos o fossem tambem, e se julgasse o mesmo dos vasconços, suppoz aquelle anthropologo que a Europa, antes de ser habitada pelos povos actuaes da raça iranía, o teria sido por outros da raça turania, dos quaes o maior numero sería destruido pelos primeiros, e o resto afugentado para as vertentes dos Pyreneus e para as regiões pantanosas da Finlandia.
Outro povo, não menos antigo, na opinião de alguns procedente da Peninsula, e, portanto, aparentado com os vasconços, seriam os liguros. No tempo de Herodoto e de Hecateu de Mileto habitavam uma parte da Italia. Antecedentemente haviam fundado Genova, e em epoca ainda mais remota, mil e trezentos ou mil e quatrocentos annos antes de Jesus Christo, passavam á Sicilia com o nome de siculos; e expulsavam d’ahi os sicanos, bem como, alguns seculos antes, os haviam já expulsado das margens do rio Sicano da Iberia[167]. Os liguros tinham mediana estatura, olhos e cabellos negros e a cabeça redonda. Como por estes caracteres parecesse não pertencerem ás raças iranias, associaram-os tambem aos vasconços e finnicos, reportando-os á raça mongolica e constituindo com todos a população primitiva da Europa. Os liguros seriam dos povos autochtonos totalmente destruidos, chegando a perder-se a sua linguagem, que ninguem hoje sabe qual fosse, mas que, segundo a hypothese, deveria pertencer ao grupo das agglutinativas, e assimilhar-se, portanto, ás dos finnicos e dos vasconços[168].
Todas as apparencias pareciam pois em favor da hypothese. Povos de raça mongolica, taes como os finnicos, liguros e vasconços, habitariam em epocas remotissimas a Europa. Viriam depois os aryos que destruiriam os liguros e porventura outros povos, cuja memoria se perdesse, e deslocariam os finnicos e os vasconços para a Finlandia e para as vertentes meridional e septemtrional dos Pyreneus.
A hypothese de Retzius importava necessariamente: 1.º A brachycephalia dos mais antigos dos craneos humanos fosseis da Europa; 2.º A brachycephalia das raças mongolicas ou turanias; 3.º A brachycephalia dos finnicos, liguros e vasconços; 4.º finalmente, a dolichocephalia das raças aryas, e portanto da maior parte dos actuaes europeos. Contra a opinião de Retzius está hoje demonstrado: 1.º Que os mais antigos dos craneos humanos fosseis encontrados na Europa são dolichocephalos; 2.º Que a brachycephalia não é caracter exclusivo da raça mongolica ou de qualquer outra, mas que em cada raça ha uns craneos brachycephalos e outros dolichocephalos, predominando porém uns mais outros menos conforme os grupos ethnicos; 3.º Que os finnicos são brachycephalos, mas os vasconços hespanhoes dolichocephalos; 4.º Que entre os aryos ha tambem craneos redondos ou brachycephalos. Além d’isto a diversidade dos typos ethnicos dos finnicos e dos vasconços não consiste unicamente na fórma do craneo. Os primeiros têm grande estatura, cabello muito louro e olhos azues: os segundos são morenos com olhos e cabellos de côres escuras.
Destruida a prova anthropologica, resta-nos a prova philologica. Já dissemos que reservariamos aos philologos a analyse e discussão d’este ponto. Entretanto, limitando-nos aos argumentos de auctoridade, poderemos ainda mostrar que a prova não tem o valor que alguns lhe attribuiram. Com effeito, sendo extremamente communs na Asia, Africa e America os idiomas agglutinativos, tanto se póde relacionar o euskara (lingua dos vasconços) com o finnico da Europa, como com qualquer das innumeras linguas da mesma classe d’aquelles tres continentes. E na verdade todas essas hypotheses têm seus propugnadores. O atraso da philologia comparada e a imperfeição dos methodos de demonstração fazem possivel a defesa de todas as opiniões.
Modernamente porém vae prevalecendo a tendencia para reunir no mesmo grupo o euskara e certas linguas da America. A analogia, segundo Pruner-Bey, está na indole geral da linguagem euskara, na construcção da grammatica, e finalmente no systema de numeração. Whitney, sem affirmar decisivamente a analogia do vasconço com os idiomas americanos, entende que no Velho-Mundo não ha nenhum que lhe seja tão similhante[169]. Hovelacque, posto que censure aquelles que não hesitam em suppôr intimo parentesco entre o chippeway e o lénâpé ou outras linguas da America e o euskara, confessa comtudo haver certas analogias de conjugação entre os verbos das primeiras e os da segunda. Nota mais uma particularidade commum aos idiomas dos vascongados e de alguns povos americanos e vem a ser a composição por syncope. O vasconço faz, por exemplo, de ortz, nuvem, e de azantz, ruido, ortzanz, trovão ou, litteralmente, ruido da nuvem[170]. Em fim Max-Müller reune o vasconço, o georgiano e as linguas agglutinativas da America no mesmo grupo que chama das linguas holophrasticas, terceiro das agglutinativas, e colloca a lingua dos finnicos separadamente no segundo grupo das linguas turanias[171].
Mais adiante veremos que não sómente a philologia, mas tambem a archeologia propende a estabelecer interessantes relações entre os habitantes prehistoricos da Iberia e os de certas regiões da America. Por agora, inutilisado o fio que Retzius propozera, para servir de guia no labyrintho das origens ethnicas da Europa em geral e mais em particular da Peninsula, buscaremos outro que nos offerecem os ultimos descobrimentos da paleontologia humana.
Dentro dos limites d’esta sciencia, que não passa ainda para além da idade quaternaria, os vestigios dos primeiros habitantes da Peninsula correspondem ás estações prehistoricas de San Isidro, perto de Madrid, e da pedreira de Forbes em Gibraltar. Consistem os primeiros em instrumentos de silex, os quaes, pelas fórmas e lascado, se assimilham de tal sorte áquelles que se tem descoberto em Saint-Acheul, que mui naturalmente se reportam á mesma epocha, isto é, aos primeiros tempos da idade quaternaria, o que tambem se prova com a grande espessura do deposito que é de vinte e um metros bem medidos. O craneo achado em Gibraltar tem os caracteres anatomicos da mais antiga das raças até hoje conhecidas. Importa-nos pois saber qual foi esse typo humano, e quaes os elementos por onde os naturalistas fixaram os seus caracteres fundamentaes.
No anno de 1857 o dr. Fuhlrott impressionou vivamente o mundo com uma descoberta inesperada. Foi nem mais nem menos que o celebre craneo de Néanderthal, na caverna d’este nome, perto de Hochdal, entre Düsseldorf e Elberfeld, na Prussia. A extraordinaria proeminencia das arcadas supraciliares que formam grosso rebordo na parte anterior, o grande desenvolvimento dos seios frontaes, o angulo facial, calculado aproximadamente no fragmento restante, entre 56° e 66°, o occiput alongado, as suturas escamosas, a espessura dos ossos, a estreiteza e pouca altura da fronte e outras estranhas particularidades tão differente o fazem do typo normal, que, visto por qualquer das faces, não parece o que em verdade é—um craneo de homem.
Alguns naturalistas que o estudaram, como Schaaffausen, Huxley, Vogt, Lyell disseram francamente assimilhar-se ao do macaco o craneo humano de Néanderthal muito mais que qualquer outro das raças contemporaneas. Outros, porém, Busk e Barnard Davis, por exemplo, negaram tal similhança, declarando aquelle craneo mui pouco differente do typo actual. Á Sociedade anthropologica de Pariz apresentou Gratiolet o craneo de um idiota contemporaneo para mostrar que era com este e não com o do gorilla a similhança do craneo de Néanderthal. Em opposição aos naturalistas primeiramente citados, e tambem a Gratiolet, appareceu Pruner-Bey a sustentar que o volume do cerebro, outr’ora contido no craneo descoberto por Fuhlrott, ultrapassaria o volume medio do cerebro do homem moderno, e a attribuir, em conclusão, o mesmo craneo a algum dos celtas, frequentadores das cavernas do valle do Rheno[172].
Os adversarios de Darwin e da hypothese transformista empenhavam-se pois em attenuar o valor de uma prova, que se lhes afigurava concludente para mostrar como a especie humana poderia proceder de alguma outra especie inferior. Todavia Quatrefages, apezar de adversario tambem d’esta idêa, não pretendeu aperfeiçoar a fórma nem reduzir a antiguidade do craneo de Néanderthal. Incapaz de contradizer ou alterar a verdade manifesta para acreditar as opiniões proprias e mascabar as alheias, escreveu:
«Os achados muito recentes de Faudel no lœhm de Eguisheim (Baixo-Rheno), de Cocchi nas argilas post-pliocenas do Olmo, perto de Arezzo (Italia), de Eugenio Bertrand nas alluviões quaternarias das baixuras de Clichy (Sena), de Fitz, em fim, nas areias diluvianas de Brux (Bohemia), ao mesmo tempo que demonstraram serem os caracteres anatomicos do homem de Néanderthal characteres ethnicos, posto que exaggerados, confirmaram tambem as primeiras idêas apresentadas ácerca da sua antiguidade relativa. Com effeito quasi todas estas peças osseas, ajuntando-lhes as maxillas de la Naulette, de Arcy, de Clichy, de Goyet, parece agora poderem referir-se á mais antiga das idades quaternarias, áquella em que abundantemente predominavam os grandes mammaes desapparecidos da face da terra. O estudo anatomico d’estes fragmentos parece attestar haverem pertencido a uma só e mesma raça dolichoplatycephala e prognatha...»[173].
Os mais antigos dos restos fosseis da especie humana, até hoje descobertos, remontam pois aos primeiros tempos da idade quaternaria, quando o mammouth, as especies priscas do rhinoceronte, o megaceronte hibernico e outras alimarias desapparecidas habitavam ainda a Europa, e disputavam aos nossos infelizes antepassados a posse das cavernas, a presa dos animaes ou a colheita dos fructos da terra. Na maior parte d’esses restos humanos se observam, se bem que menos proeminentes, os caracteres do craneo de Néanderthal. Á raça a que todos se attribuem deu-se o nome generico de raça de Canstadt, por ter apparecido no campo dos mammouths, perto d’essa cidade, no Wurtemberg, o primeiro dos craneos em que se verificaram taes caracteres.
Pondo de parte a estação de San Isidro, onde até hoje não tem apparecido nenhum craneo, resta-nos a pedreira de Forbes em Gibraltar, cujo craneo Quatrefages comprehendeu entre os da velha e primitiva raça de Canstadt. Com quanto faltassem no jazigo fosseis caracteristicos para se determinar a epoca do homem a quem pertenceu este craneo, é todavia certo que, pelas suas fórmas, se assimilha por extremo áquelles entre os quaes foi classificado. Eis aqui os mais notaveis dos seus caracteres: paredes grossas, capacidade pequena, occipital alongado para traz, escama temporal com a fórma de curva abatida, arcadas supraciliares muito proeminentes, apophyse orbitaria externa extremamente desenvolvida, fronte muito obliquada para traz e separada, por uma depressão, das enormes arcadas. As orbitas são tambem muito grandes e muito distantes uma da outra. A sua largura, e ainda mais a sua altura, são as maiores que Broca até hoje tem encontrado em craneos de homem. Visto de face, os rebordos externos das orbitas sobresahem tanto, que, bem como no de Néanderthal, encobrem inteiramente a região temporal. Os ossos malares, deprimidos no angulo superior, descem quasi verticalmente, de modo que, apezar da extensão do diametro bimalar, mal se conhecem as maçãs do rosto. São muito largos os buracos das fossas nasaes. Os ramos ascendentes dos maxillares superiores têem a fórma quasi convexa por cima e aos lados d’estes buracos. A arcada dentaria, robusta, alonga-se muito no sentido antero-posterior, formando uma volta de ferradura, que se aperta notavelmente na parte de traz. Huxley, Broca, Alix insistiram n’este caracter que lhes pareceu particular da raça de Forbes’-Quarry. Em fim, a face é prognatha; e o angulo facial de Camper, difficil de medir por causa do desenvolvimento dos seios frontaes, parece de 75 graus, e de 70 graus o angulo facial alveolar. A tamanho prognathismo da maxilla superior corresponderia provavelmente certo gráu de projecção da parte media da arcada dentaria inferior, d’onde resultaria a inserção obliqua dos incisivos, notada por Spring[174].
Os auctores da Crania ethnica vêem o mesmo typo de Canstadt, posto que extremamente modificado, n’outros craneos fosseis descobertos em Hespanha e Portugal. Na raça que habitava o Cabeço da Arruda, e que deixou n’este logar tão abundantes vestigios que se calcula teriam pertencido a uns quarenta e cinco individuos, observa-se o contraste dos caracteres do typo de Canstadt com os de outro typo menos antigo. Assim, á proeminencia das arcadas supraciliares, á larga depressão que as separa, ao desenvolvimento dos seios e á pequena elevação das bossas frontaes correspondem nos mesmos craneos a altura da região frontal, a brachycephalia e a maior capacidade interior, de certo proporcionada a cerebros mais volumosos que os da antiga raça de Forbes e Néanderthal. Os caracteres da face, porém, relacionam outra vez a raça do Cabeço da Arruda com outras mais imperfeitas. Os caracteres dos maxillares demonstram notavel prognathismo e grande largura dos buracos nasaes. Nos maxillares inferiores observam-se tambem signaes de prognathismo; além d’isto alguns dos caracteres da celebre maxilla de Moulin-Quignon, e por fim a saliencia triangular do mento[175].
Dissemos n’um dos capitulos anteriores as razões por que se ha de attribuir a raça do Cabeço da Arruda á epoca da pedra polida e provavelmente ao tempo dos kiokkenmoddings. Á mesma epoca da pedra polida se reportam os vestigios encontrados nas cavernas de Cesareda. Aqui, posto que os caracteres ethnicos de alguns individuos diffiram muito d’aquelles que ultimamente analysámos, outros ha todavia que se lhes assimilham. Parece ter havido n’esta estação prehistorica a sotoposição de varios depositos correspondentes a varias epocas. Não é muito pois, que juntamente com os vestigios da epoca do Cabeço da Arruda appareçam outros differentes, mais ou menos antigos e até de raças diversas.
Nos dentes das maxillas da Casa da Moura, uma das cavernas de Cesareda, nota-se tamanho desgaste, que a face de trituração de todos elles deveria formar uma superficie concava. O prognathismo é maior n’estes maxillares que nos do Cabeço da Arruda. Tanto nas maxillas superiores como nas inferiores se notam, se bem que pouco distinctas, as suturas inter-maxillares, o que, junctamente com o excessivo alongamento de traz para diante, demonstra o grau inferior d’aquella raça na escala dos seres humanos. Os auctores da Crania ethnica, depois de descreverem os principaes caracteres dos ossos maxillares de Cesareda, convem em que, pela sua fórma, são muito analogos aos do homem fossil de la Naulette ou d’Arcy, pertencente á primeira raça que denominaram de Canstadt.
N’um dos craneos de Cesareda a fronte é pequena, achatada de ambos os lados e muito inclinada de diante para traz. As dimensões d’este coronal coincidem com as do osso correspondente do craneo de Forbes ou de Néanderthal. Os caracteres dos parietaes são tambem os mesmos n’estes e n’aquelle; mas, apezar da depressão da sutura sagital, commum a todos, no craneo de Cesareda ha mais alguma elevação na parte media. Este e outros craneos de Cesareda são dolichocephalos ou sub-dolichocephalos, caracter que só por si importa differença grande entre os seus habitantes e os do Cabeço da Arruda[176].
O frontal da Cueva de la Mujer, caverna proxima da Alhama de Granada, offerece, posto que menos salientes, os caracteres da parte analoga do craneo da pedreira de Forbes. O craneo a que pertencia aquelle frontal deveria ser extremamente dolichocephalo, e conter um cerebro pouco desenvolvido na parte correspondente ás faculdades intellectuaes. Com este osso encontraram-se outros do esqueleto, e entre elles um femur, a cujas altas proeminencias se apegariam musculos de grande força. Tambem, pela sua grande curvatura, differe da fórma que tem actualmente nas raças europeas, e até d’aquella que outr’ora teve nas raças antigas da mesma região[177].
Todos os observadores tem sido conformes em considerar analogas as maxillas fosseis da Peninsula e a de Moulin-Quignon. Áquellas que já mencionámos convirá accrescentar outra que appareceu em Gibraltar juntamente com instrumentos de pedra polida e de bronze, e que Falconer e Pruner-Bey acharam tambem similhante á celebre maxilla descoberta em Abbeville em 1863[178].
Auctorisará este facto a suppôr que os habitantes primitivos da Peninsula, excepto os de Forbes’-Quarry e porventura outros contemporaneos de que se não descobrissem ainda vestigios, pertenceriam á mesma raça ou antes á mesma familia de Moulin-Quignon? Não. Porque esta era brachycephala; ora a brachycephalia não se tem verificado senão nos craneos do Cabeço da Arruda. Os outros, entre elles o da Genista de Gibraltar, são dolichocephalos. Além d’aquelles que já mencionámos, ha os da Andaluzia, que Gongora affirma serem dolichocephalos, por ter examinado muitos, achados em varios sitios d’esta provincia[179]. Logo, se os craneos fosseis da Peninsula são pela maior parte dolichocephalos e não se podem classificar entre os do typo de Canstadt, ao que obstam não sómente os caracteres anatomicos, mas tambem o terem apparecido juntos com ossos de animaes domesticos, haveremos de referil-os á segunda raça dolichocephala de Quatrefages e Hamy, isto é ao typo de Cro-Magnon.
É cedo ainda para bem definir e classificar as raças prehistoricas, e muito mais para delinear com exacto rigor a sua distribuição geographica. Não resta duvida nenhuma de que o homem foi contemporaneo dos grandes mammaes desapparecidos; parece incontestavel que tambem o seriam alguns d’aquelles restos fosseis, dos quaes se fez resaltar o typo da primeira raça; mas do craneo de Canstadt que lhes deu o nome, ha quem affirme não ter essa antiguidade. Virchow cita um escripto de Hælder que torna o caso duvidoso[180]. Por outra parte, os diversos typos humanos, até hoje determinados, não se succederam uns aos outros em epocas egualmente successivas. Os typos mais antigos continuaram a apparecer por entre os menos antigos, e, por virtude da lei atavismo, ainda hoje se reproduzem alguns dos seus caracteres em certos individuos contemporaneos.
Da raça de Cro-Magnon conhecem-se melhor os caracteres anatomicos, por terem apparecido restos mais completos e mais numerosos; mas a sua distribuição geographica, fóra da França, não está perfeitamente demarcada. Quatrefages e Hamy affirmam haver-se encontrado o typo de Cro-Magnon em Hamoir, na Belgica; em Léry, no Eure; em Grenelle; em Lozére; nas landes de Bordeaux; em Sordes, na Gascunha; nas Vascongadas, nos craneos dos vasconços primitivos; em Zaraus; nos tumulos megalithicos da Africa, explorados pelo general Faidherbe; no paiz dos Kabylas de Djurjura, na Roknia; e finalmente nos craneos dos guanchos das Canarias[181]. Accrescentemos a estas regiões, pelos motivos ponderados, Portugal e Andaluzia, e as Asturias por se ter descoberto um craneo do mesmo typo na mina de cobre del Milagro. É obvia a importancia fundamental d’este roteiro para a ethnologia da Peninsula. Faça-se corresponder o centro da raça de Cro-Magnon ao sudoéste da França, e mais em particular ao valle de Vezére, a um territorio aproximadamente circumscripto pelos limites da antiga Aquitania, e admitta-se a existencia de vestigios d’esta raça nas regiões habitadas pelos vasconços, nas terras litoraes de Hespanha e Portugal, e finalmente, além do Estreito, na Africa do norte. Ficará assim resolvido, em parte, o problema das origens autochtonicas da peninsula Iberica. Quem ignora que os povos da Aquitania passavam por iberos, que estes occuparam uma grande parte da Peninsula, a que deram o proprio nome, se não o receberam d’ella ou de um dos seus rios; que os vasconços são considerados ainda hoje commumente como os ultimos restos d’essa gente notavel, que, mais pela prehistoria do que pela propria historia, se conhece; e finalmente que a proximidade geographica, as analogias ethnicas, as da fauna e da flora estão indicando a antiga existencia de povos irmãos nas costas meridionaes da Peninsula e nas septemtrionaes da Africa? A raça de Cro-Magnon, já de per si resultante do cruzamento de uma raça mais com outras menos imperfeitas, sería pois o fundo geral, onde, pelo decurso dos tempos, viriam misturar-se e dissolver-se os elementos ethnicos de outros povos, emigrantes de varios logares da superficie da terra, e mui differentes entre si pelos caracteres physicos e moraes.
Será porém a presupposta distribuição geographica da raça de Cro-Magnon, na parte respectiva á Peninsula, um facto real e positivo ou apenas uma hypothese que algumas circumstancias fortuitas fazem parecer provavel? Em que argumentos se estriba tal opinião?
Já vimos que os logares, onde os auctores da Crania ethnica suppõem ter existido a raça de Cro-Magnon, concordam exactamente com a hypothese, quando se applica fóra da Peninsula, e ainda aqui na parte correspondente ás Vascongadas. E, se não referiram ao typo de Cro-Magnon outros craneos fosseis achados em Hespanha e Portugal, os da Alhama e de Cesareda, disseram todavia bastante para se conhecer que tambem não os poderiam classificar entre os de Néanderthal, d’Engis ou de Forbes. Pela nossa parte entendemos que, á falta de mais minuciosa investigação, aquelles craneos pelas suas fórmas menos imperfeitas, por serem dolichocephalos e finalmente por terem apparecido juntos com ossos de animaes domesticos, só á raça de Cro-Magnon se hão de reportar. Os caracteres notaveis do femur de Alhama parece confirmarem esta mesma conjunctura; e tambem a analogia dos vestigios da industria humana achados n’esta caverna com aquelles que se encontraram em França, n’outra caverna de Dijon[182]. Assim pois admittiremos, como extremamente provavel, que a raça de Cro-Magnon habitaria nos tempos prehistoricos uma parte da França, a peninsula Iberica e a Africa septemtrional. E para que a nossa opinião não corra desacompanhada de toda a auctoridade que lhe faça boa sombra, lembraremos em fim que anthropologos taes como Busk, Broca e Falconer, referiram ao typo de Cro-Magnon o craneo da Genista em Gibraltar, e o da mina de cobre del Milagro nas Asturias.
Mas, por outra parte, sabe-se que nos mais antigos dos tempos de que ha memoria, a raça berébere povoava já uma zona extensissima da Africa septemtrional desde as praias do Mediterraneo até ao oceano Atlantico, a Libya, a Numidia, a Mauritania e outros paizes, que os egypcios, os gregos e romanos variamente denominaram. Ora, se os kabylas representam ainda hoje e os guanchos representavam ha poucos seculos a raça de Cro-Magnon, se os primeiros são beréberes e os segundos o foram tambem, natural parecerá perguntar se os beréberes actuaes não representarão hoje em dia aquella velha raça de Cro-Magnon? Se, nos tempos prehistoricos não occupariam, portanto, uma parte da França, a peninsula Iberica e a Africa septemtrional, onde, por fim, mais livres de cruzamentos ou da acção expulsora de outros povos, se perpetuariam até hoje?
Broca e Hamy em França inclinam-se para esta hypothese que ultimamente foi tratada em Hespanha com grande desenvolvimento por D. Francisco Tubino[183]. Topinard não a demonstra, para o que será ainda cedo, mas affirma que fortes presumpções a tornam muito provavel[184].
Broca examinou innumeros craneos vasconços e julgou-os analogos aos dos beréberes[185]. Pruner-Bey tambem reconheceu nos maxillares, encontrados nas cavernas da Cesareda e no Cabeço da Arruda os caracteres do typo do berébere do continente africano[186]. Cita-se, além d’isto, em favor da hypothese a grande similhança da fauna e da flora, em geral, e mais em particular dos typos humanos, nos visinhos litoraes europeu e africano, das serras da Ronda e da cordilheira do Riff, por exemplo. Cita-se mais a união possivel em epocas remotas entre a Africa e a Europa em sitios correspondentes ao Estreito. Finalmente, admittindo este facto geologico, suppõe Quatrefages a raça de Cro-Magnon oriunda da Africa d’onde emigraria para a Europa com a hyena, o leão, o hippopotamo e outros animaes africanos[187].
Em França, onde, se têem descoberto e estudado muitos craneos e outros ossos humanos fosseis, conhecem-se já os caracteres anatomicos da raça de Cro-Magnon e a sua distribuição geographica. Sabe-se, por exemplo, com certeza que era ao sudoeste a parte por ella mais povoada. Na Peninsula faltam-nos os estudos necessarios para affirmar com certeza qualquer opinião. Em vista das razões ponderadas, é provavel que á raça de Canstadt, representada pelo craneo de Forbes, e talvez pelos instrumentos de silex de San Isidro, se seguisse a de Cro-Magnon, á qual se reportam os outros craneos da Genista de Gibraltar, e os de Alhama, da mina del Milagro e de Cesareda. Mas, depois do muito que n’estes ultimos annos tem progredido a paleontologia humana, e particularmente depois da publicação da Crania ethnica, obra abundante de subsidios para os estudos comparativos, importa rever todos esses vestigios peninsulares, medil-os com exactidão, classifical-os e comparal-os entre si e com os typos conhecidos. Importa mais buscar outros vestigios, porque os de quatro ou cinco estações em toda a extensão da Peninsula não bastam para sanccionar qualquer conclusão positiva. Convirá finalmente passar além do Estreito, e determinar as relações de similhança ou de differença, que por ventura existam entre a paleontologia humana da Europa meridional e a das regiões septemtrionaes do continente africano.
A archeologia e a historia revelam-nos outros factos, que, posto que não cheguem a demonstrar cabalmente o predominio da raça berébere na Peninsula, dão todavia a esta hypothese mais alguns graus de probabilidade. Ha mais de tres mil annos os egypcios estavam em relações com os libycos, a quem chamavam lebu, d’onde se derivaria talvez a fórma grega libues. Os tumulos reaes das dynastias XVIII, XIX e XX, em Biban-el-Moluk, estão adornados de notaveis pinturas, entre as quaes se vêem representadas quatro raças que deveriam ser partes constituintes do vasto imperio dos pharaós. Em primeiro logar os rot ou egypcios, pintados de vermelho e parecidos com os paizanos actuaes das margens do Nilo; em segundo logar os namu de côr amarella e de nariz aquilino, correspondentes aos povos asiaticos que viviam ao oriente do Egypto; depois os nashu ou negros prognatas de cabello crespo; e finalmente os tamahou brancos, de olhos azues e cabellos louros[188].
Não falta quem supponha significar tamahou em egypcio homem do norte; e serem, portanto, os homens brancos e louros, em quem imperavam os pharaós, procedentes da Europa septemtrional. Mas o general Faidherbe impugna tal etymologia, e assevera que a lingua berébere ainda hoje se chama tamahoug no Sahara, onde mais pura se tem conservado[189].
Por outra parte, consta de uma grande inscripção de setenta e sete columnas, conservada em Karnak e interpretada pelo visconde de Rougé, que os tamahu capitaneados por Mormuiu, foram derrotados pelos pharaós Ramsés e Merenptah. Em fim, na Argelia appareceram monumentos de Tutmés III, em cujo tempo, consequentemente, se dilataria o imperio egypcio até áquella região extrema da Africa septemtrional[190].
Para combinar, harmonisar e explicar todos esses factos é mister referir os tamahu á Africa do norte, e por tanto suppôr que seriam beréberes, os quaes ora fariam parte do vasto imperio egypcio, ora tentariam libertar-se do jugo pouco toleravel de um povo distante e de raça differente. É verdade que o typo do berébere de hoje não parece muito conforme ao do tamahu de ha tres mil e tantos annos. A maior parte dos beréberes tem olhos, pelle e cabello escuros. Mas este typo contemporaneo póde não ser já o mesmo do tempo dos pharaós, por se ter alterado, por effeito de influencias estranhas, que não deixariam de transformal-o no espaço de tantos seculos. Muitos dos habitantes das montanhas de Marrocos e da Argelia, e os touaregs do Sahara, logares aonde era mais difficil chegar a influencia dos cruzamentos, são de alta estatura, claros, de olhos azues e cabello louro. Assim o attesta o general Faidherbe, que estudou as regiões da Africa septemtrional, e o confirma F. M. Tubino, accrescentando haver tambem observado com frequencia o mesmo typo nas serranias da Ronda áquem do Estreito. Encontrar-se-hão, porém, por todos os logares, aonde menos poderiam chegar influencias estranhas, beréberes brancos e de olhos azues, com quem se pareçam ainda hoje os retratos pintados ha trinta e mais seculos nos tumulos reaes de Biban-el-Moluk?
Mas a influencia da civilisação egypcia dilatava-se ainda para áquem dos limites do continente africano, e chegava muito perto da Peninsula, senão a algumas das proprias gentes que a povoavam. Quinze seculos antes da era christã já os sardos possuiam marinha militar, e duzentos annos antes, no seculo XVII, já o Egypto nomeava funccionarios especiaes para tractarem, em nome dos pharaós, as questões internacionaes com os povos pelasgicos do Mediterraneo, taes como os tuscos, dardanios e gregos[191]. A inscripção de Karnak menciona entre os homens do mar, alliados com os libycos, os sárdainá ou sardos, os turs’a ou etruscos e os mas’uas ou amazirghas[192]. É provavel que a todos tivesse applicação o nome generico de tamahou. Os rebu ou lebu (libycos) e os ma’suas que habitavam tambem a Africa septemtrional, apparecem adornados com o mesmo singular toucado; e vem a ser uma larga trança enroscada que passa por deante da orelha e cahe sobre a espadua, recurvando-se á maneira do chifre inferior de alguns carneiros. O mais notavel é que um dos pharaós, Ramsés II, se adorna com toucado similhante. Por este facto, e porque se vê gravado nos braços e pernas dos tamahou o symbolo conhecido da deusa Neith, se provam as relações intimas que em epocas remotas ligavam estes povos aos habitantes do Egypto.
Os povos confederados, segundo a citada inscripção, invadiram o Egypto e chegaram até Memphis. Foram porém derrotados pelo pharaó ou pelos seus generaes. O principe Mormuiu perdeu o arco, a aljava e as sandalias juntamente com as suas joias de ouro e prata e utensilios de bronze. Os povos do mar deixaram tambem objectos de ouro e prata, espadas, facas, couraças e cnemides. Pela importancia e qualidade dos despojos se avaliará o subido grau de civilisação a que tinham chegado, ha mais de tres mil annos, todas estas gentes convisinhas do Mediterraneo[193].
Os povos da Peninsula, pelo menos os das regiões meridionaes e orientaes, acompanharam de certo os seus visinhos das ilhas do Mediterraneo e do norte da Africa nos estadios da civilisação que successivamente percorreram. Por aquellas mesmas regiões se encontram vestigios das construcções cyclopeas dos povos pelasgicos. Nas ilhas Baleares abundam os talayots analogos ás nuraghas da Sardenha. A par com estas construcções de fórma pyramidal vêem-se outras á maneira de barcos com as quilhas voltadas para cima, e que não são senão as mapalia ou magalia, que os getulos ou numidas do tempo de Sallustio construiam no seu paiz: «ædificia oblonga incurvis lateribus tecta quasi navium carinœ sunt»[194]. Os sardos e os iberos usavam a longa tunica negra e roçagante á moda dos médas, que, por este costume, se differençavam dos outros povos nomadas, celtas, scythas e germanos, cujos vestidos se lhes cingiam aos corpos e apenas lhes cobriam as pernas. Finalmente o cetra ou escudo pequeno redondo era usado pelos libycos, iberos e bretões[195].
De quanto deixamos ponderado parece-nos concluir-se com grande probabilidade: 1.º Que na epoca da pedra polida a Peninsula sería habitada pela raça de Cro-Magnon, pelo mesmo tempo existente na parte meridional da França e na septemtrional da Africa; 2.º Que esta raça é ainda hoje representada pelos beréberes; 3.º Que ha tres mil e mais annos os povos libycos e pelasgicos estavam já tão civilisados que podiam invadir o Egypto e medir-se com os exercitos dos pharaós; 4.º Que os habitantes da peninsula Iberica, pelo menos os de certas regiões, deveriam estar tambem similhantemente civilisados, e ter portanto ultrapassado a idade da pedra.