NOTAS DE RODAPÉ:
[165] Dictionaire universel du XIX siècle par P. Larousse, verb. Basque.
[166] Ethnologische Schriften.
Dolichocephalo, de dolichos, longo, e kephalê, cabeça. Brachycephalo, de brachus, curto, e kephalê, cabeça. Orthognata, de ortho, direito, e gnathos, maxilla. Prognatha, de pro, para diante, e de gnathos, maxilla.
[167] Thucydides, VI, 2.
[168] Virchow. Les peuples primitifs de l’Europe. La revue scientifique de la France et de l’étranger, 2.ᵉ série, 4.ᵉ année, n.º 1, juillet 1874, pag. 12. Vej. tambem Steur, Ethnographie des peuples de l’Europe, verb. Ligures.
[169] La vie du langage. Pariz, 1875, pag. 213.
[170] La linguistique. Pariz, 1876, pag. 87 a 106.
[171] Dictionnaire universel du XIX siècle, verb. Langage.
[172] Bulletins de la Société d’Anthropologie de Paris, tom. IV, pag. 314 a 323.
[173] Crania ethnica, pag. 7.
[174] Crania ethnica, pag. 21 e 22.
[175] Pereira da Costa, Noticia sobre os esqueletos descobertos no Cabeço da Arruda, Lisboa, 1865.
[176] Delgado, Noticia ácerca das grutas de Cesareda. Lisboa 1869.
[177] Mac-Pherson, La Cueva de la Mujer, 1.ª e 2.ª parte, Cadiz, 1870-1871.
[178] Bulletins de la Société d’Anthropologie de Paris, tom. V, pag. 62.
[179] Antigüedades prehistoricas de Andalucia.
[180] Les peuples primitifs de l’Europe. La revue scientifique de la France et de l’étranger, 2.ᵉ série, 4.ᵉ année, n.º 1, juillet, 1874, pag. 12.
[181] Crania ethnica. L’espèce humaine. Pariz, 1877, pag. 248.
[182] Vej. cap. IV, pag. 61. O femur de Alhama parece ser um femur de pilastra como os dos esqueletos dos guanchos e dos outros da raça de Cro-Magnon. As tibias achatadas ou platycnemicas, os peroneos clausteados e os cubitos arqueados caracterisam tambem a raça do Cro-Magnon.
[183] F. M. Tubino, Los monumentos megaliticos de Andalucia, Extremadura y Portugal, Museo español de antigüedades, tom. VII, pag. 353. Esta Memoria sahiu depois na Revista de Anthropologia de Madrid com o titulo; Los aborigenes ibericos ó los beréberes en la Peninsula.
[184] L’anthropologie. Pariz, 1876, pag. 486.
[185] Bulletins de la Société d’Anthropologie de Paris, tom. IV, pag. 38 a 62.
[186] Congrès internacional d’Anthropologie et d’Archeologie prehistoriques, 2.ᵉ session, 1867.
[187] L’espèce humaine. Pariz, 1877, pag. 240. Depois dos tempos geologicos, mas ainda nos prehistoricos, a passagem dos beréberes da Africa para a Europa não era impossivel pelas aguas do Estreito, pelo Mediterraneo ou pelo Atlantico. Entre as conchas fosseis, achadas em França na estação de Laugerie-Basse, algumas ha que não poderiam ter sido trazidas senão da ilha Wight. Ora durante a epoca do rangifer não havia communicação por terra entre a França e a Inglaterra. Idem, pag. 242.
[188] Topinard, L’anthropol., 451.
[189] Anatole Roujou, Recherches sur les races humaines de la France. Pariz, 1874, pag. 86.
[190] Tubino, Mem. cit.
[191] Steur, Ethnographie des peuples de l’Europe avant Jesus-Christ. Bruxelles, 1873, tom. III, pag. 193.
[192] Tubino, Mem. cit.
[193] Tubino, Mem. cit.
[194] Sallust. Bell. Jugurth. in princip. Ácerca dos talayots e das navêtas ou casas com a fórma de barcos ás avessas, da ilha de Menorca, veja-se o artigo do sr. Fernandez Duro, no jornal La Academia, n.º 12, que deu motivo a uma carta do auctor, publicada no mesmo jornal, tom. II, n.º 10.
[195] Steur, op. cit., tom. II, pag. 118. Rougemont, L’âge de bronze, pag. 286.
CAPITULO X
ORIGENS ETHNICAS
(CONTINUAÇÃO)
Se os vasconços descenderão dos beréberes.—Insufficencia das provas allegadas.—Hypotheses da unidade e da pluralidade iberica.—Razões favoraveis a esta ultima.—A philologia e a historia.—A Iberia do Caucaso comparada com a peninsula Iberica.—Os iberos e os povos com quem estavam relacionados.—Difficuldade de determinar os antigos povos peninsulares.—Asserções vagas dos auctores.—Necessidade de resolver o problema por methodos novos.—Até que ponto as invasões historicas esclarecem as prehistoricas.—O Mediterraneo e o Atlantico, vias principaes por onde vieram as civilisações á Peninsula.—Relacionam-se estas vias com as duas correntes das emigrações asiaticas.—A distribuição geographica dos dolmens peninsulares caracterisa uma das civilisações, vindas pelo Atlantico.—Os monumentos pelasgicos caracterisam outra, vinda pelo Mediterraneo.—Antinomia d’estas duas civilisações.—Outras antinomias entre o occidente e o oriente já nos tempos historicos.—As mais antigas das minas de cobre.—Analogias entre os povos antigos da Iberia e os da America.—A civilisação da epoca do cobre.—Os ciganos e os antigos fundidores do cobre e do bronze.
Broca e outros dos modernos propendem, já o dissemos, para classificar os vasconços entre os representantes actuaes da raça de Cro-Magnon, que, nos tempos prehistoricos povoara o sudoeste da França, a peninsula Iberica e o norte da Africa. N’esta hypothese os vasconços seriam pois os ultimos restos dos antigos beréberes, que em epocas remotas passariam da Africa á Europa. A dolichocephalia dos craneos dos antigos e modernos habitantes das provincias vascongadas é o unico facto até hoje conhecido e allegado em favor de tal idêa. Ora a insufficiencia d’esta prova demonstra-se claramente, porque, se os vasconços, por serem dolichocephalos, descendessem dos antigos beréberes ou da raça de Cro-Magnon, seguir-se-hia que todos e quaesquer craneos dolichocephalos pertenceriam á mesma raça: o que seria absurdo. Por outra parte sabe-se hoje que os vasconços francezes são brachycephalos. Por consequencia tão licito parecerá suppôr que os vasconços, primitivamente dolichocephalos, se tornariam, em parte, brachycephalos por effeito dos cruzamentos, como affirmar a inversa, isto é, que os vasconços primitivos teriam sido brachycephalos, e que, por influencia de raças estranhas, se tornariam depois, na região mais sujeita a essas influencias, dolichocephalos[196]. A esta consideração accresce outra não menos ponderosa, e vem a ser que a similhança da lingua vasconça é com idiomas asiaticos e americanos e não com os da Africa septemtrional.
A opinião mais geralmente seguida é ser o euskara a lingua ou antes um dos idiomas dos antigos iberos, que se conservaria entre os vasconços pela resistencia maior que estes povos offereceram á dominação romana, e por serem aquelles em quem menos sensivel se tornou a sua influencia modificadora[197].
Tomando por fundamento as provaveis analogias entre os modernos vasconços e os antigos iberos, pretendeu Guilherme de Humboldt reduzir ao euskara de hoje as designações locativas das regiões da Peninsula que suppunha haverem sido habitadas por estes povos. Este systema, segundo o qual os antigos iberos constituiriam um povo unico e com uma só lingua, teve numerosos sectarios durante muitos annos. O iberismo oppunha-se ao celticismo, pois affirmava que na Peninsula, depois da invasão dos celtas, prevalecera a lingua e o caracter iberico.
Mas recentemente Charnock, Van-Eys e outros têem provado o muito que Humboldt se afastara da verdade nas suas interpretações[198]. Em vista dos interessantes resultados da critica moderna, a hypothese da unidade cede o passo á hypothese da pluralidade dos povos ibericos. Os resultados obtidos pelos philologos estão concordes com as indicações da historia. Com effeito, escriptores de todas as epocas descrevem-nos os iberos, os habitantes das varias regiões da Iberia, com costumes, nomes, idiomas e alphabetos differentes[199]. As tradições restantes representam-os divididos em tribus, sem grandes relações entre si, ao que obstava a diversidade de sangue e de linguagem. Quando os celtas invadiram a Peninsula, a maior parte d’essas tribus não chegaram a confederar-se contra o inimigo commum. Algumas até se alliaram com elle contra os povos visinhos; outras permaneceram solitarias e impassiveis no meio da conflagração geral.
Apezar do influxo de sangue estranho, já de celtas, já de phenicios, já de carthaginezes nos povos peninsulares, os romanos encontram tamanhas difficuldades para subjugar a Iberia, como para unifical-a sob o imperio das mesmas leis. Ora vencedores, ora vencidos, luctam por espaço de dois seculos, e, sómente Julio Cesar consegue em fim fazer aceitar as leis romanas e o mesmo governo aos povos subjugados.
Durante quatro seculos mantem-se a união da Peninsula pela força das armas, e mais ainda pelo commum interesse dos seus habitantes em conservar a civilisação que Roma lhes impozera e ao mundo antigo. Mas, depois da destruição do imperio, rotos os laços que estreitavam os povos, renovam-se as sub-divisões da Hespanha em pequenos estados, differentes uns dos outros pelas religiões, leis e costumes. Mais tarde, estabelecida a unidade religiosa, o elemento monarchico chega a ligar por vezes n’um só todo as varias partes desaggregadas. Mas a esta força oppõem-se sempre mais ou menos, por uma ou por outra fórma, as resistencias derivadas das differenças originaes. Ainda hoje a Hespanha se esforça para conservar unidas as suas provincias, e para obrigal-as a se regularem pelos mesmos codigos, e a se organisarem pelos mesmos principios administrativos. Difficil empreza! Hoje, como em epocas passadas, resistem poderosamente a esse grande esforço os sangues diversos que gyram nas veias dos peninsulares. A pluralidade das origens dos velhos iberos ainda agora se patentêa nos ultimos dos seus descendentes!
Demonstrada, em opposição á unidade, a pluralidade iberica, segue-se naturalmente investigar que povos seriam esses collectivamente designados pelo nome de iberos. E primeiro que tudo vejamos até onde se póde determinar a origem da palavra Iberia.
Junto do Caucaso, na lingua de terra que separa o mar Negro do mar Caspio, no logar actualmente occupado pela Georgia, houve um paiz homonymo com a Peninsula. Chamavam-lhe os latinos Iberia e iberes ou iberi aos seus habitantes. Muitos rios a regavam, em cujos areaes, bem como nos dos rios de Hespanha, diziam antigos auctores abundarem palhetas de ouro. A um d’elles, o rio Arak, chamavam Arago, nome commum ao affluente do Ebro na Hespanha. Em correspondencia a este ultimo, citava Strabão o rio Ibero. Finalmente ambas as Iberias, ricas de metaes, foram exploradas em eras remotas.
Acham interpretadores da Biblia que a Iberia do Caucaso, e não a nossa, como erradamente escreveram auctores portuguezes e hespanhoes, teria sido povoada por Tubal e Mesec, filhos de Japhet e netos de Noé. Nos dois irmãos personificava Ezechiel os scythas que em tempo de Cyaxara reinavam na Asia Anterior, e tinham por berço a Scythia iberica, e concorriam com vasos de bronze aos mercados de Tyro. Alguns dos antigos, desde Homero, qualificam de grandes exploradores e fabricantes de metaes os povos da Iberia Caucasica ou das regiões proximas, abundantes de minas de prata, cobre, ferro, etc. Os chalybes, habitantes do paiz de Thermodoon, inventaram o processo de temperar o aço, designado entre os gregos usualmente pelo nome dos inventores[200].
Taes analogias suscitam naturalmente a idêa de que um povo, emigrado da Iberia do Caucaso, estabelecendo-se nas regiões do nordeste da Hespanha, ahi continuaria a explorar os metaes, applicando a certos rios, e porventura a outros logares, os nomes dos rios e logares que tinha deixado, e designando todo o paiz que viera occupar, ou antes explorar, com o de Iberia, por se chamar assim o seu proprio paiz natal. A preponderancia d’este povo faria depois com que se extendesse a toda a Peninsula e ainda mais além o nome da parte onde elle dominava.
Na antiguidade havia já quem seguisse esta opinião. Outros eram porém pela contraria, sustentando que os iberos da Europa teriam colonisado e denominado a Iberia da Asia. Outros, finalmente, julgavam que entre os iberos da Asia e os da Europa não havia similhança nenhuma nem na linguagem nem nos costumes, e só o nome seria commum. Appiano, contemporaneo de Trajano e de Marco Aurelio, menciona todas estas tres opiniões[201]. A primeira é a mais geralmente seguida; porém não falta quem prefira a ultima, estribando-se nos caracteres iranios dos iberos asiaticos, e na falta de taes caracteres entre os iberos occidentaes, que pertenceriam a uma raça estranha ao grande tronco indo-europeu[202]. A verdade é que, na actualidade, a anthropologia não sabe ainda com certeza classificar estes povos. Ha razões para crer que seriam formados pela mistura da raça turania e da irania. Em fim os argumentos philologicos até hoje apresentados não têem mais força que todas as analogias que mencionámos, como provas da procedencia caucasica dos iberos europeus, e particularmente quando se pretende substituir aquella origem pela incertissima Atlantida de Platão[203].
A Iberia e os iberos apparecem-nos na transição da prehistoria para a historia sem que se lhes possa rastrear as origens. Os mais antigos dos geographos gregos chamavam Iberia ás regiões para áquem do Rhodano. Assim o declara Strabão[204]. Com effeito, Eschylo, escriptor do seculo V antes de Jesus Christo, e Avieno, que escreveu a Ora maritima no seculo IV da nossa era, porém com documentos pouco posteriores á fundação de Marselha pelos annos de seiscentos antes de Christo, indicam o Rhodano como limite da Iberia.
Mas, por outra parte, não faltam egualmente razões para crer que os antigos chamavam em particular iberos aos habitantes do litoral mediterraneo desde o Segura até aos Pyreneus[205]. Parece portanto que o nome de iberos, pertencendo primitivamente a estes povos, se extenderia depois a outros que no resto da Peninsula, e ainda para além dos Pyreneus, se alliariam com elles, e mais por interesses commerciaes ou outros, do que por similhanças ethnicas.
No tempo da guerra de Troia, onze ou doze seculos antes de Christo, os siculos invadiam a Sicilia e expulsavam os sicanos. Ora a origem iberica dos sicanos é attestada por Thucydides, Philisto de Syracusa, Ephoro, Dyonisio de Halicarnaso e outros[206]. Os primeiros d’estes auctores concordam em que os sicanos habitavam nas margens de um rio chamado Sicano, que, segundo a opinião geral, sería o Jucar, que desemboca no Mediterraneo ao sul de Valencia. Avieno e Hecateu fallam de certa cidade chamada Sicana, que no seculo VI antes de Jesus Christo existiria nas margens de um rio[207].
Alguns dos nomes dos povos antigos parece derivarem dos rios, cujas margens elles habitavam. Assim é que os tartessos tomariam o nome do rio Tartesso, hoje Guadalquivir; os sordos, sordones ou sardones do rio Sordo da Gallia Meridional, perto dos Pyreneus: os sicanos do rio Sicano, e finalmente os iberos do rio Ibero, hoje Ebro, que percorre as provincias hespanholas de Aragão e da Catalunha.
Induzidos pelas similhanças onomasticas, pretendem alguns que os sardos seriam tambem iberos. Dos sordones ou sordos das costas do Mediterraneo, ao norte dos Pyreneus, procederiam os sardos. Estes, com o nome de Shardana apparecem já mencionados nos monumentos egypcios do seculo XIV antes de Jesus Christo, ao que nos referimos no capitulo antecedente. Na Corsega menciona Seneca os iberos que fallavam e trajavam á moda dos cantabros da Hespanha[208]. Como hespanhol que era por nascimento, Seneca não deveria enganar-se em tal observação. Comtudo, na opinião de outros, os sardos antes pertenceriam á familia dos liguros.
Aqui temos outros povos, antigos como os iberos, com elles relacionados e cujas origens são egualmente obscuras. Muito antes da guerra de Troia, alguns dois mil annos talvez antes do nascimento de Christo, os liguros, segundo Thucydides, expulsavam os sicanos das margens do rio Sicano da Iberia e os obrigavam a refugiar-se na Sicilia[209]. Avieno refere as fontes do Tartesso ou Betis ou Guadalquivir á lagôa ligustica[210]. Ora, as fontes d’este rio correspondem ás abas das serras que pelo oriente limitam a provincia de Jaen, ao norte das quaes, na provincia antiga de Murcia, passa o rio Jucar, em direcção ao Mediterraneo, onde desagúa ao sul de Valencia. Concordam portanto os dois textos, seis seculos anteriores a Jesus Christo, na região da Peninsula que os liguros habitavam. Accrescente-se ainda que Estevam de Byzancio, compilador do seculo VI da era christã, soccorrendo-se provavelmente de documentos muito anteriores, põe não longe do mesmo rio Tartesso a cidade de Ligustina, cujos habitantes diz serem liguros[211], e ter-se-ha a convicção de que estes povos occuparam uma parte determinada da Peninsula.
O imperio dos liguros dilatou-se pela Gallia e pela Italia, particularmente pelas regiões litoraes mediterraneas até ao rio Arno. No periplo que chamam de Scylax, anterior a Aristoteles, distinguem-se os liguros propriamente ditos, que habitavam a leste do Rhodano, dos liguros e iberos misturados, que habitavam para a parte do occidente, entre o Rhodano e Ampurias, cidade da provincia hespanhola da Catalunha[212].
Tacito no primeiro seculo da era christã classificava os siluros da Grã-Bretanha entre os povos ibericos, por terem a côr morena e os cabellos crespos dos iberos. Suppunha-os oriundos da Hespanha. A Ora maritima confirma até certo ponto o parecer de Tacito, mencionando na Hespanha o monte Siluro[213]. A côr morena, o cabello farto e crespo eram geralmente considerados como caracteres ethnicos dos iberos. N’um epigramma que o ciume inspirara a Catullo, apostropha este poeta a um celtibero nos termos seguintes: «... Ó filho cabelludo da Celtiberia, Ignacio, que não tens outro merito senão o de possuires uma barba espessa e uns dentes que fazes alvos á força de fricções de urina. ...»[214].
Se attendermos a que os liguros são geralmente havidos como iranios, e á presupposta origem caucasica dos iberos, acharemos grande difficuldade em separar completamente do tronco iranio ou indo-europeu os iberos. Por outra parte não se póde tambem negar a existencia dos caracteres ethnicos referidos e de outros, que differençam os iberos dos povos decididamente iranios, em meio dos quaes viviam. Mais adiante se verá que taes factos se explicarão plausivelmente, admittindo que os iberos resultariam da fusão das raças mongolica e caucasica, para o que estavam adequadamente situadas as regiões que separam o mar Caspio do Mar Negro, berço provavel dos iberos occidentaes.
Mas estes povos ninguem hoje poderá sustentar que fossem os primitivos da peninsula Iberica, habitada já na idade da pedra, como se prova pela paleontologia humana e pela archeologia prehistorica. Os homens de San Isidro e da Cesareda não seriam por certo iberos, e já na idade dos metaes é possivel que tambem o não fossem os primeiros dos exploradores do cobre, como adiante veremos. Quaes seriam pois os predecessores dos iberos? É muito para notar-se que, na epoca da pedra polida, no tempo em que as cavernas serviam de habitações ou de sepulturas, a analogia dos objectos encontrados n’uma caverna da Alhama de Granada, na Andaluzia, e n’outra caverna de Dijon, em França, auctorise a suppôr que povos da mesma raça ou representantes da mesma civilisação habitariam estas duas partes remotas, mas comprehendidas na região que mais tarde foi conhecida pelo nome de Iberia, tomada esta palavra na mais lata das accepções. Catão o antigo, pretende que os medas, persas e armenios fossem os primitivos dos habitantes da Peninsula. Na opinião de Herodoto seriam os syginnos. Mas a verdade é que todo o exame e discussão dos textos dos auctores não chegarão a dar-nos outras indicações mais que as que deixámos expostas com relação aos iberos.
As memorias escriptas, só por si, não bastam pois para a determinação dos povos que em epocas remotas, anteriormente aos iberos, habitaram a Peninsula. A solução do problema ficará reservada á critica moderna, que, pela interpretação racional dos factos, achará a luz que nos falta em tantas trevas. Á philologia sobre tudo compete subministrar-nos os principaes dos elementos para a historia verdadeira e positiva das origens ethnicas. Mas o atrazo d’esta sciencia, na parte respectiva á Peninsula, priva-nos por ora dos seus poderosos recursos. Egual importancia tem n’este ponto a archeologia. São poucos tambem os subsidios que ella nos presta, mas ainda assim os unicos de que podemos lançar mão n’este estudo interessante.
Primeira e previamente, para fazer idêa do numero, importancia e procedencia das invasões prehistoricas, importa-nos considerar aquellas que se effeituaram já nos tempos historicos[215]. Ora, estas ultimas foram de povos que se distribuem naturalmente por tres classes: 1.ª Africanos (phenicios, carthaginezes e mouros); 2.ª Asiaticos (iberos, celtas, arabes e alguns dos barbaros da idade media); 3.ª Europeus (gregos, romanos, outros dos barbaros da idade media e normandos). Effeituaram-se tantas invasões no espaço de trinta seculos, pouco mais o menos. Por tres vias differentes entravam os invasores na Peninsula. Pelo Mediterraneo, a mais frequentada de todas, viriam os iberos, os phenicios, os carthaginezes, os gregos, e algumas vezes os romanos e os normandos. Pelo Atlantico, celtas, normandos e outros dos povos septemtrionaes. Pelo Atlantico e pelo Mediterraneo, por uma e por outra parte do Estreito de Gibraltar, arabes e mouros. Em fim pelos Pyreneus entrariam por algumas vezes os celtas, romanos e barbaros.
Pelas invasões historicas impossivel será especificar as prehistoricas. Mas o que das primeiras se conclue relativamente ás segundas é que deverão ter sido frequentes e effeituadas, pela maior parte, pelas duas vias maritimas: pelo Mediterraneo e pelo Atlantico. Ora estas duas vias relacionam-se naturalmente com as duas correntes principaes das emigrações dos povos, que directa ou indirectamente vieram da Asia para a Europa. As regiões da Asia, d’onde em geral se suppõem terem partido as antigas emigrações, formam um vasto espaço circumscripto por duas grandes cordilheiras, a do Altal ao norte e a do Himalaya ao sul. Pondo de parte, por divergentes em relação á Europa, as irradiações para o nordeste e para o sueste da Asia, restam aquellas que se effeituaram para as partes de oeste ou para a Asia Menor, Egypto e Africa septemtrional; e para as partes de noroeste ou litoraes do Baltico e do mar do Norte. Ora d’estas duas vias a primeira foi por certo a das mais antigas das emigrações. Tudo as favorecia por este lado. Eram muito menos os obstaculos naturaes, as distancias tambem menores, e finalmente muito mais doce o clima e a terra mais fertil, além de outras condições, todas conformes ao desenvolvimento da civilisação. Por isso os paizes, onde primeiramente se manifestou, e até com grande antecipação relativamente á Europa, foi na Assyria, Babylonia e Egypto.
As emigrações dos africanos ou beréberes e dos asiaticos, vindos pelo Mediterraneo, devem pois ter precedido quaesquer outras. A dos beréberes póde até reportar-se a epocas anteriores á descoberta da navegação, ao tempo em que a Europa estaria ainda unida á Africa, pela Sicilia ou pelo estreito de Gibraltar. D’esta sorte se explicaria a distribuição geographica da antiga raça de Cro-Magnon e de especies de animaes africanos desde o meio da França até ao deserto do Sahara[216].
Os povos emigrados da Asia pela parte de noroeste occupariam primeiramente as costas do Baltico ou do mar do Norte. Depois dilatar-se-hiam pelas costas occidentaes da Europa, pelas ilhas Britannicas, pela França, e afinal pela peninsula Iberica. A via dos Pyreneus sería menos frequentada, porque ás difficuldades, resultantes dos obstaculos naturaes, accresceriam as resistencias offerecidas por povos da mesma raça, que habitassem áquem e álem da cordilheira. A arte, auxiliada pela natureza, deveria formar por aquella parte uma barreira fortissima a quaesquer invasores, que, vindos de longe, intentassem penetrar na Peninsula. Mas da parte do mar não havia taes difficuldades. Na epoca da pedra polida praticava-se já a navegação entre o norte da Africa ou o meio-dia da Europa e as regiões septemtrionaes d’este continente[217]. A distribuição geographica dos dolmens, que pela maior parte occupam os litoraes e as margens dos rios, prova-nos que a civilisação que elles representam se propagaria essencialmente pela navegação. Na Peninsula formam uma longa faxa semi-circular, uma cintura megalithica, estendida desde a parte mais interna do golfo de Biscaia até ao cabo de Gata, occupando as provincias de Alava, Santander, Galiza, o reino de Portugal e a Andaluzia. A largura d’esta faxa extensa, n’umas partes será pouco maior, n’outras, pouco menor que a largura maxima do reino de Portugal, tomada, como é costume, entre Campo-Maior e o cabo da Roca.
Bastará, portanto, a consideração da cintura megalithica da Peninsula para provar que a civilisação dolmenica deve ter vindo pelo mar. Mas a cintura não é completa. Interrompe-se desde o cabo de Gata ate ao cabo de Creus, isto é nas regiões orientaes, nas provincias de Murcia, Valencia e Catalunha. Qual sería pois o obstaculo á propagação dos dolmens por tamanha extensão de terra, que, por ser banhada pelo mar, estava em condições tão favoraveis como o restante litoral para receber a nova civilisação? Foi uma civilisação anterior, que trouxeram pelo Mediterraneo povos emigrados pelo oeste da Asia, em quanto a outra, a dos dolmens, deve ter correspondido áquelles que emigraram pelo noroeste e vieram á Peninsula pelo Atlantico.
D’esta sorte a civilisação dos dolmens caminharia do norte para o sul, hypothese, contra a qual tem objectado a maior perfeição e variedade dos objectos encontrados nos dolmens do norte em relação aos extrahidos dos dolmens do sul. Mas este facto, apesar de verdadeiro, não constitue prova evidente. Por quanto, havendo a idade da pedra, e em geral os tempos prehistoricos, durado por mais tempo nos paizes septemtrionaes que nos meridionaes, é claro que o costume de construir os dolmens deveria tambem conservar-se até mais tarde. Por isso, tendo mais tempo de progredir, a industria humana deixaria vestigios mais perfeitos, correspondentes a uma epoca posterior da sua evolução.
Não faltam para contrapor aos dolmens outros vestigios materiaes das antigas civilisações, vindas pelo Mediterraneo. São os monumentos cyclopeos, cuja origem se encontra na Asia Menor, na Bithynia, segundo a opinião de Mimaut[218]. Depois continuam pela Arcadia, Epiro, Grecia, Italia, Sicilia, Sardenha e ilhas Baleares. Na Peninsula, diz Rougemont, seguem-se por Tarragona, Sagunto e mais para o interior até Toledo[219]. Mas o que melhor nos convence da incompatibilidade das duas civilisações vem a ser a lei da antinomia dos seus vestigios respectivos. Na Asia, da mesma sorte que na Europa, onde ha dolmens faltam as construcções cyclopeas, onde restam vestigios das segundas faltam os primeiros.
A esta, como a toda e qualquer regra geral, se descobrirão de certo algumas excepções. Nas ilhas Baleares, por exemplo, vêem-se as mapalias ou navetas e os talayots, monumentos cyclopeos, e a par com elles os dolmens e os menhires. Na Andaluzia acham-se tambem dolmens e muralhas cyclopeas, como as do Castello de Ibros em Jaen. Mas estes dolmens, bem como os das Baleares, parecem menos antigos que os de Portugal. Na Cueva de la pastora ha uma galeria subterranea, cuja camara circular é coberta á roda com pedras, dispostas á maneira d’aquellas que formam a abobada de escalão (encorbellée), e por cima e no centro acaba de cobril-a uma lage dolmenica[220]. Ora, se esta singular construcção é, com effeito, uma abobada incompleta, mostraria a fusão dos dois estylos, porque a abobada, inteiramente estranha á architectura dolmenica, encontra-se muitas vezes pelos monumentos cyclopeos. Na mesma região se operou em tempos muito posteriores uma similhante fusão entre o estylo christão ogival e o estylo mahometano egualmente incompativeis.
Da lei da antinomia dos dolmens com as construcções cyclopeas claramente se deprehende o terem sido contemporaneos, porque duas civilisações sómente poderiam repellir-se na mesma epoca e não em epocas differentes. Prova-se porém, até certo ponto, mais directamente esse facto, porque em excavações, feitas em nuraghas da Sardenha e em talayots das Baleares têem apparecido armas de silex e de bronze[221]. Assim, ao tempo em que os introductores do estylo dolmenico abicavam ás praias occidentaes da Peninsula, povos de outra raça, e ligados a outro centro de civilisação, incompativel com o costume ou com o rito dos dolmens, habitavam as regiões orientaes, banhadas pelo Mediterraneo.
A antinomia do occidente com o oriente, ou das civilisações vindas pelo Atlantico á Peninsula, com aquellas que entraram pelo Mediterraneo, ou finalmente dos povos das regiões septemtrionaes da Europa com os do oeste da Asia e do norte da Africa, manifesta-se-nos, pela primeira vez, na epoca da pedra polida, entre os constructores dos dolmens e os constructores dos talayots ou dos muros cyclopeos. Depois, na aurora dos tempos historicos, entre os celtas e os iberos. Mais tarde, outra vez, entre os barbaros, procedentes das regiões septemtrionaes da Europa e os arabes e mouros, vindos da Asia e da Africa. Hoje, finalmente, como ha oito seculos, a resistencia invencivel á união de Portugal e Castella é ainda um effeito d’esta grande e prolongada antinomia do occidente com o oriente. A Galiza é uma excepção, porque, ficando ao occidente, se uniu á Hespanha e não a Portugal. Mas todos sabem que outr’ora o portuguez e o gallego fallaram a mesma lingua, e que ainda hoje, pelo caracter, pelos costumes, pelas propensões populares, Portugal e a Galiza se assimilham mais entre si do que com quaesquer outros povos da peninsula Iberica.
Outros vestigios de uma civilisação primitiva, talvez mais ou menos relacionada com os monumentos cyclopeos, estão nas antigas minas de cobre del Milagro, nas Asturias; de Cerro-Muriano, em Cordova; de Odiel e Riotinto, na Huelva; e finalmente de Ruy Gomes, no Alemtejo[222]. Os machados de pedra com que trabalhavam n’estas explorações denotam uma industria prehistorica, anterior ao uso de ferro e até provavelmente ao do bronze. Ha certa variedade nas fórmas dos taes martellos. Uns assimilham-se áquelles que se tem encontrado em varias estações prehistoricas da Europa; em cavernas da França e lagos da Suissa: outros, como os de Cerro-Muriano, parece terem antes mais analogia com instrumentos congeneres, achados em minas de cobre do Lago Superior, na America do Norte[223]. Aqui apparecem tambem vestigios notaveis de construcções cyclopeas nas margens dos rios Colorado, Mancos, San Juan e La Plata do Novo-Mexico. Tornam-se sobre tudo notaveis as grandes e altas torres redondas, feitas de duas ou tres muralhas concentricas, as habitações excavadas nas rochas, as quaes dizem similhantes a outras da Asia Menor, e finalmente as inscripções entre cujos hieroglyphos se distingue a figura do homem e de varios animaes. Algumas d’estas inscripções foram gravadas na pedra, outras pintadas com argillas vermelha e branca[224]. Ora todas ellas, pelo genero do desenho, e algumas por serem coloridas e pelas substancias colorantes empregadas, se assimilham extremamente a outras da Andaluzia, encontradas tambem em nichos ou casas abertas nas rochas[225]. Por outra parte os philologos aproximam os idiomas dos vasconços aos dos georgianos e aos de certos povos da America, a ponto de os reunirem todos no mesmo grupo[226].
Estes factos estão indicando a existencia de uma antiga civilisação, irradiante da Asia para a Europa e para a America, e caracterisada pela exploração e fabríco do cobre. Os seus vestigios acham-se em regiões extensas da Asia, na Russia scythica, no Caucaso, na Hungria e Transylvania, na Iberia e na America. Tão mal se conhece ainda a archeologia prehistorica d’estes povos, representantes da epoca do cobre, que a maior parte dos archeologos tem chegado a negar a sua existencia, admittindo sómente a da epoca do bronze. Entretanto os estudos, apenas começados, das antiguidades tchoudes na Asia e na Europa, os poucos conhecimentos adquiridos ácerca das minas de cobre prehistoricas fazem já evidente a irradiação de uma antiga civilisação do mesmo centro commum para varias partes do mundo.
A qual das raças humanas se ha de referir este grande movimento prehistorico da exploração e fabríco do cobre? Os tchoudes, a quem se attribuem as minas do noroeste da Asia, da Russia scythica e da Hungria e Transylvania, são de raça turania. Os mais antigos dos povos da America assimilham-se tambem mais aos turanios que aos iranios. Em fim os proprios vasconços parece não serem inteiramente extranhos á raça mongolica. Aristoteles refere que os iberos (de Hespanha), povo bellicoso, erguiam á roda de cada tumulo tantos obeliscos, quantos inimigos o defuncto matára em vida[227]. Os annaes chinezes de Tchéon (567 a 579 depois de Jesus Christo) repetem verbum ad verbum as palavras de Aristoteles, mas a proposito de um povo tartaro. Dizem dos thoukiones ou turcos orientaes, restos dos hiongnon (hunos), que por aquelle mesmo tempo figuraram entre os invasores da Europa meridional, vindos do norte, «que elles põem uma pedra sobre a sepultura, e levantam á roda tantas pedras, quantos homens o defuncto matára em vida».
Á classificação dos vasconços ou dos antigos iberos entre os povos da raça mongolica oppõem-se, bem o sabemos, razões ponderosas, taes como a presupposta origem dos segundos e os caracteres ethnicos dos primeiros. Porém nenhuma d’estas razões constitue uma difficuldade insoluvel. O caracter ethnico dos vasconços não póde ter-se conservado puro durante milhares de annos no meio de povos de raças differentes. É por tanto admissivel que os mais antigos dos exploradores do cobre fallassem algum idioma agglutinativo, hoje perdido, no tempo em que foram construidas as nuraghas e os talayots, e anteriormente á entrada dos iberos na Peninsula. Ainda assim não ha impossibilidade em attribuir a estes ultimos as mais antigas das minas, suppondo que n’elles predominariam os caracteres ethnicos da raça caucasica, posto que, pela linguagem e pela civilisação que representavam, se relacionassem antes com a raça mongolica. As regiões que separam o mar Caspio do mar Negro eram exactamente aquellas, onde vinham encontrar-se as raças caucasica e mongolica, para da Asia emigrar para outras partes do mundo. Tudo são trevas em tão remota antiguidade. Ainda hoje uns sustentam que o euskara fôra a linguagem dos iberos; outros affirmam que as inscripções ibericas, achadas em varias regiões da Peninsula, são inconciliaveis com a lingua dos vasconços. A philologia está portanto tão atrazada, que não resolveu ainda este ponto fundamental. A anthropologia diz-nos apenas haverem-se encontrado dois craneos, um dolichocephalo e outro brachycephalo, cada um em sua mina. A archeologia não sabe classificar os vestigios dos povos primitivos da Peninsula, e nem ao menos, até hoje, demonstrára cabalmente a differença capital entre os dolmens e os monumentos cyclopeos, e as conclusões importantissimas que resaltam da sua antinomia e distribuição geographica.
Quanto ao centro e extensão de uma antiga civilisação mongolica, anterior á historia, recentes descobrimentos confirmam a asserção de Justino, o historiador. Segundo esta asserção, que exprime antigas tradições asiaticas, a Asia Anterior sería inteiramente senhoreada durante quinze seculos pelos scythas, povo mais antigo que os proprios egypcios. Ora os estudos assyriologicos demonstram este mesmo desenvolvimento dos povos turanios na Asia Anterior ainda antes dos aryos e dos semitas[228].
A incerteza do caracter ethnico, verificada nos iberos e n’outros dos povos antigos da Peninsula e da Europa, é tambem commum ainda hoje a uma raça muito notavel, cujas tribus, essencialmente nomadas, vaguêam pela face da terra praticando a arte de fundir ou forjar os metaes. Chamam-lhes tzigeuners ou ziguener na Allemanha, tzigani na Hungria, zingaros na Italia, bohemios na França, gitanos em Hespanha, e finalmente ciganos em Portugal. No Alemtejo encontram-se muitos individuos d’esta raça. Habitam em Evora as ruas de certo bairro, e conservam os seus costumes proprios, entre os quaes se notam sobre tudo as ceremonias e festejos dos casamentos. Vaguêam, como nomadas, pelos campos e de povoação em povoação. Vivem da rapina e de comprar, vender ou trocar cavalgaduras, distinguindo-se nas feiras pela astucia com que enganam os compradores. Ha poucos annos vagueava em Portugal uma tribu de ciganos, que tinha por industria o concerto ou estanhadura de vasos e utensilios de cobre ou de bronze. Estacionavam pelos arrabaldes das cidades, onde abarracavam, como tropas em campanha, demorando-se com as suas forjas, em quanto os moradores da povoação lhes davam trabalho. Durante a idade media estas visitas dos ciganos fundidores ou caldeireiros eram mais frequentes, e então, como hoje, praticavam sempre da mesma fórma que Herodoto já notara. Mas é ainda mais extraordinario que as fundições até hoje descobertas e pertencentes á epoca do bronze auctorisem a suppôr que já n’esses tempos remotos a arte de fundir o bronze sería praticada por estrangeiros que estabeleciam as suas officinas em raso campo, fóra das povoações. Isto mesmo parece deduzir-se dos thesouros achados pelas montanhas, onde teriam sido escondidos pelos fundidores vagabundos, que por qualquer causa não teriam podido voltar em busca d’esses ricos depositos.
Na opinião de alguns os ciganos constituem um povo moderno das margens do Indus ou Sind, cujas primeiras emigrações datariam do tempo de Tamerlan, que pol-os perseguir os obrigaria a expatriarem-se. Outros porém attribuem-lhes muito maior antiguidade, e suppõem que os actuaes ciganos descendem dos syginnos, que Herodoto diz terem sido os primeiros habitantes da Hespanha, e que teriam vindo do Danubio: Strabão é de parecer que os syginnos procederiam antes do Caucaso. Tambem não falta quem tenha achado relações de parentesco entre os syginnos e os sicanos, primeiros habitantes da Sicilia. Haverá apenas uma similhança casual entre os nomes de syginnos, tzigeuners, tziganos, sicanos e ciganos, ou serão com effeito fórmas differentes do nome de uma antiga raça, que, vinda da Asia, diffundiria pela Europa a industria do fabríco do bronze nos tempos prehistoricos?
Ainda outra circumstancia notavel. Diz Herodoto que os syginnos trajavam largas vestes á maneira dos medas, d’onde conclue que os primeiros seriam effectivamente d’estes ultimos povos, que em epocas remotas viriam á Hespanha[229]. Strabão affirma que os habitantes das Baleares eram optimos fundidores e os primeiros dos homens que, segundo se dizia, usaram largas tunicas tunicas late pretextas[230].