I

Na Carta ao Editor Pereira, que precede o Poema da Mocidade, o snr. Castilho fulminou a escola de Coimbra com um despiedoso anathema, que veio levantar uma grande procella no mundo litterario. Causou isso estranheza. Ha muito que em Portugal não havia tempestades litterarias; bonança e calmaria constantes permittiam seguir todos os rumos, vogar pelo vasto oceano das lettras sem que impetuosas correntes, ventos contrarios ou perigosos parceis estorvassem a passagem.

Escondêra a critica as suas agudas garras; sobre as ruinas da imparcialidade levantára-se orgulhosa a escola do elogio-mutuo, apoiando-se nas theocracias litterarias. Aplanaram-se todos os caminhos, arredaram-se com carinhoso disvelo as sarças agudas e os asperos seixos, tapetaram-se de flôres os inhospitos desvios, coroaram-se de louros todas as frontes e elevaram-se ao Capitolio todos os escriptores. Desapparecêra o fel, o odio e a inveja, e os thuribularios do elogio-mutuo entornaram o mel do Hymetho sobre todas as obras, sobre todos os escriptos. A baba immunda{6} de Bavio fôra condemnada ao ostracismo. Era bom? era máo? não sei:—se as tempestades não fecundam o oceano, fecundal-o-hão a bonança e a calmaria?

Desencadeou-se alfim a procella; ergueram-se altas serras d'agua e cavaram-se fundos abysmos. Revolveu-se Encélado nos seios da montanha, e desentranhou-se o vulcão em ardente lava. Os odios adormecidos, as rivalidades mascaradas, os despeitos mesquinhos, despertaram do longo somno, arrojaram os mantos que os acobertavam e estão face a face, provando as forças e os brios. As armas de cortezia foram postas de parte, vestiram-se os arnezes de prova, empunharam-se as espadas açacaladas, travou-se a lucta, renhida, desapiedada, terrivel, e para aquelle que ficar vencido no campo da batalha, não haverá perdão nem misericordia. É odio de familia, o peior de todos os odios, que lhes guia os fundos golpes.

São dois os campeões que se avançam ousados a perturbar a paz; um, cheio de mocidade, de vida e de fogo, o outro velho e cego—cego!—mas não importa: a experiencia, equiparando as forças, supre o valor da mocidade; a sciencia da vida, o esforço não inferior ao do mancebo, igualam os annos, equilibram as probalidades da victoria.

Qual será o resultado da lucta? Qual será o vencedor e qual o vencido? Ficará a pendencia por decidir? Julgo que sim; só se algum Brenno audaz vier lançar a sua espada na balança da contenda—mas a raça dos Brennos está extincta!—

Anthero do Quental levantou a luva, que lhe lançára o auctor da Primavera, e vem ousado e destemido rasgar e calcar aos pés a purpura, que cobria os hombros do illustre cego.

O mancebo inspirado, cheio de vida e de talento, e o velho com os pés na sepultura, o Homero portuguez, estão{7} frente a frente. Um quer cortar as azas á aguia que paira no espaço, o outro despenhar do pedestal da gloria o poeta laureado pelas academias, saudado e applaudido nas duas extremas plagas do Atlantico.

Ha entre os dois um abysmo: a distancia que medeia entre o mais alto pincaro do Hymalaia, escondido entre as nuvens, e o profundo ribeiro que se enrosca lá na sua extrema fralda; não na intelligencia, no talento; não me cabe averiguar isso; mas na escola, nas idêas, nas tendencias. Um, é o resto d'um seculo lançado pelas ondas do tempo nas praias d'outro seculo, um ecco do passado, uma reminiscencia da idade d'Augusto e de Pericles, enfeitada com as galas ridiculas e piegas da Arcadia; é um grego, um romano resuscitado no seculo desenove, sem ter atravessado a Egreja mystica, sem lhe terem borrifado as mãos as lagrimas da Magdalena, sem a corôa d'espinhos de Jesus Christo lhe macerar a fronte, sem que um raio divino lhe rasgasse o véo, que encobre o ideal. Debalde Theocrito e Virgilio lhe emprestaram a agreste frauta, Pindaro e Ovidio as lyras d'ouro; não o visita a inspiração celeste, vagueia entre o céo e a terra; se não é humilde tardigrado, que se arrasta preguiçoso e confundido com a urze da charneca, tambem não é a aguia altiva, que encara ousada o esplendor do sol.

O outro, Anthero do Quental, imbuido de todas as virtudes, de todos os vicios do seculo, baloiçado e combatido pelas doutrinas scepticas e desoladoras do tempo presente, d'espaço a espaço illuminadas por um brilhante lampejo de vivissima fé, de confiança no futuro, não detem sequer um instante, nos tempos que já lá vão, o olhar perdido em vagas contemplações.

A esplendente luz da inspiração abre-lhe as portas dos mundos invisiveis, elevando-lhe a alma para o ideal e mostrando-lhe as suas aspirações realisadas: as cadeias, que{8} algemam o pensamento, partidas, as nevoas do futuro dispersas como fumo, a humanidade caminhando sempre, sempre, como Ashavero, aproximando-se pouco a pouco da perfeição infinita.

N'esse vasto quadro do progresso o Christianismo apparece-lhe como um passo collossal; um monumento gigante, um pharol luminoso; mas não o ultimo estadio da perfeição;—além dos mundos mais mundos, além da perfeição finita a perfeição infinita, além do real o ideal!...

As sarças do caminho não entorpecem o passo do audaz caminheiro, vae sempre ávante—um momento de reflexão, um volver d'olhos para o incendio de Sodoma, não o metamorphoseariam em estatua de sal?—e de que monta isso?—a phantasia sabe doirar tudo.

A doutrina do progresso indefinido prégada por Leroux e Pelletan, apezar de profundamente abalada e desmantelada pela logica de Proudhon e pelos anathemas de Lamartine, tem ganho adeptos em toda a parte. As consolações que derrama, o orgulho e a confiança que insufla, podem mais no espirito do que a aragem desoladora d'esse vento frio e regelado chamado Proudhon, e do que os raios d'esse pallido sol d'outomno, que tem por nome Lamartine—a illusão vence a realidade. É mais doce, mais agradavel, viver embalado por sonhos encantadores do que arcar com as difficuldades da existencia, do que encarar com as tristuras da vida real. Se essa crença no progresso indefinido não resiste ao ataque do raciocinio, se é um devaneio de imaginações brilhantes, tem prestado grandes serviços á poesia, tem feito desentranhar a lyra em sons bem harmoniosos, cheios de magica melodia, repassados de vivida esperança!—e o Christianismo não fez da esperança uma virtude?

O auctor da Primavera embalado no berço pelos murmurios do Tibre, pelas cataractas d'Albano e de Tibur, pelo manso susurrar da fonte do Pausilippo, pelas ondas doiradas{9} do oceano que se quebram mansamente junto do cabo Sunium, pelo melodioso ramalhar dos pinheiraes do Ida, agitados pelas brisas tepidas do Oriente, por todas essas harmonias reflectidas nos versos de Ovidio e de Virgilio, de Mochus e de Hesiodo, pantheista e pagão, entregue todo ás saudades do passado, não crê nas aspirações do tempo presente. O poeta de Coimbra nasce na época da renovação em que as velhas instituições se desmoronam, em que o martello do iconoclasta derruba sem piedade as divindades gregas e romanas; nasce no tempo em que os homens crêem num só Deus, não são pantheistas, nem pagãos, nem atheus—atheus!... crêem em Deus todo poderoso; mas ousam travar uma lucta, arca por arca, com a divindade, novos Titans, collocam Prometheu sobre Ashavero, Ashavero sobre Napoleão e escalam os céos; nasceu no tempo em que Edgard Quinet, Renan, Victor Hugo, Hegel, Vico, Heine, tentando ultrapassar as raias, que separam o finito do infinito, quebraram as columnas d'Hercules, recuaram os limites de tudo; mas, fraco vislumbre de pejo! encobriram as suas aspirações, as suas arrojadas doutrinas, os seus devaneios, as suas profanações, com os nevoeiros metaphysicos e mysticos de Swedenborg e de Boehm; nasceu no tempo em que as intelligencias elevadas, sonhando um ideal para além do céo, procurando a idêa além do mundo real, não encontraram as mais das vezes senão o phantasma, a sombra d'ella, abraçaram a nuvem, julgando apertarem nos braços profanos a formosa Juno!

Castilho cultiva a fórma, a feição litteraria, a harmonia e a melodia das palavras, cinzela a taça com perfeição; mas esquece-se do incenso oloroso, que dentro d'ella hade arder. Despreza Quental os lavores, não cuida dos adornos, dos arabescos; escolhe só a essencia que hade lançar dentro do vaso, descurando cinzelal-o com esmero.

Deprehende-se d'isto, que levamos dito, que são{10} diversissimas as escolas dos dois contendores; mas ha, n'uma e n'outra, bom e máo. São bôas todas as escolas, não ha escolas más, ha máos artistas.