II

A reforma ou renovação romantica, que os vastos genios de Goethe, Chateaubriand e Byron operaram no mundo das lettras, ganhou adeptos em toda a Europa.

Philinto Elysio, respirando em Pariz as primeiras brisas da estação moderna, lançou em Portugal as sementes da revolução romantica com as suas versões dos Martyres e do Oberon, e Bocage, deslumbrado pela esplendente luz, que alumiava a França, principiou insensivelmente a vasar, na estreita fórma das regras classicas, a idêa romantica, mas ainda entorpecida pelos assumptos da invenção pagan; veio depois o auctor de D. Branca trazer o facho, que nos encaminhou pelas novas veredas. Mas a revolução romantica, no principio, estendeu mais a sua authoridade pelos dominios da idêa do que pelos da fórma; se a fórma foi um pouco alterada, deve-se achar a causa dessa alteração na corrente impetuosa das idêas que arrastava os velhos padrões, modelando-os e reformando-os á feição do pensamento, que haviam de revestir. O que era bom era aproveitado e enfeitado, o máo repellido ou melhorado; mas comtudo o pensamento, como força primordial, sujeitou sempre o estylo á sua authoridade. Os sectarios da nova escola, depois, transviados da brilhante senda, illuminada pelo ingenho dos authores de Werther, de Atala e Childe-Harold, exaggeraram a fórma e desprezaram a idêa. Era obvia a razão. Facil era variar a contextura do periodo, cambiar a harmonia, ajuntar palavras melodiosas, e difficilimo innovar o pensamento. O vôo ousado até o throno do Senhor, o pensamento soberano, o genio, a revelação{11} do poeta é luz que illumina poucas frontes; só os escolhidos, os eleitos, se elevam a tão altas paragens no extasis da inspiração. Raros são os videntes, as intelligencias elevadas que encontram o ideal, lembrança e saudade do céo que adeja no pensamento da creatura, ou aspirações anhelantes e anciosas para os sublimes esplendores do paraiso; só do coração dos verdadeiros poetas é que se desdobra a aza que transporta o espirito aos mundos invisiveis. A execução, pelo contrario, filha do estudo, é a arte material; por todos os lados a cercam alcantiladas muralhas; algemam-n'a as regras, as escolas e até as modas, e o circulo limitado, que lhe traça a imitação, não a deixa attingir as alturas aonde floresce o Ideal; mas se o lado subjectivo, o pensamento e a idêa escapam ao seu dominio, a parte pittoresca e objectiva, assim rodeada de tantos perigos e escolhos, quando é vasada num molde artistico, quando se deixa fecundar pelo Bello, tem direito a homenagem profunda.

A escola da fórma, julgou que o estylo constituia a primeira e unica belleza das obras d'arte, e considerando esse theorema como axioma, veio a naufragar nos parceis do ridiculo. Não podendo, ou não ousando, transpor a funda barreira que separa o finito do infinito, o visivel do invisivel, desprezou essa escola o pensamento—enlevada do amor do corpo, que havia de revestir a idêa, deixou escapar atravez dos seus dedos sensuaes a paixão e o ideal. Mas comtudo se não tinha essa escola o arrojo de ir roubar ao céos o fogo sagrado como Prometheu, deliciava o ouvido com musica harmoniosa e encantadora, se não elevava a alma, deleitava os sentidos.

Ha vinte annos a esta parte operou-se então uma nova revolução no mundo das lettras. A idêa, com o seu poder soberano, tendo ganho no desterro novas forças e ousadia, partiu as gramalheiras que a algemavam e campeou de novo,{12} ousada e destemida. Mas não se mostrou aos olhos de quem a procurava, nua como a Verdade sahindo do poço, cercou-se de pudico nevoeiro, que só olhos d'aguia podiam atravessar. Até ahi a melodia e a musica das palavras nada significavam, depois a idêa, envolvida e encoberta em expressões sybillinas, em vagas abstracções, em symbolos mysticos, que só os adeptos e os iniciados podiam comprehender, arrojou-se a taes alturas, perdeu-se em tão alto vôo, que quem ousasse seguil-a até essas longinquas paragens arriscava-se á sorte de Icaro; mas que importa?... contemplava mais de perto a brilhante claridade do sol, os esplendores, que depois encontrava, pagavam-n'o dos perigos que soffrera. Muitas vezes o audaz caminheiro transviava-se por entre os nevoeiros espessos e densos, que o cercavam; mas se a vontade era robusta, que luz divina vinha de quando em quando illuminar-lhe a fronte!

Para encontrar o veio d'ouro, escondido nos seios da montanha, que escuridões é preciso atravessar, que perigos, que horrores! mas não augmenta depois o prazer com a reminiscencia dos penosos trabalhos que se soffreram? Que difficuldades em comprehender a Biblia! mas que alegria tambem quando algum tenue clarão nos esclarece o mystico sentido das palavras, escriptas sob a inspiração divina!

Escutemos bater o coração e arrojemos o odioso cilicio; deitemos por terra tudo o que estorva o ar vivo das montanhas e das florestas, e as frescas brisas do oceano, de afagarem as frontes inspiradas. É o methodo o valhacouto dos estereis; a republica das letras vive do ar, do espaço, do imprevisto. Mas tambem, terrivel dilemma! o que é um livro sem estylo? de que vale? que significa?

O estylo constitue a primeira belleza d'uma obra litteraria—é verdade mil vezes repetida; mas verdade quasi sem objecção. Mudam as idêas, tomam novo curso, succedem-se{13} umas ás outras como as vagas do oceano, e se o estylo as não adorna, se as galas da linguagem as não enfeitam, as não endeusam, o livro lido hontem com interesse, com entranhado prazer, é hoje repellido com tedio e fastio. Se o livro tiver estylo viverá; atravessará, brilhante e esplendente, as idades futuras, faltando-lhe essa condição, entre o levantar do sol no oriente e o mergulhar-se no occidente, desapparecerá da face da terra a sua memoria, ainda que o sentimento do infinito transpareça em todas as suas paginas.

Não ha contradicção no que dizemos; o que se deprehende fatalmente d'aqui, é que a critica tem o direito de procurar nas obras d'arte, o que se encontra na creação; o pensamento e o estylo, o espirito e a fórma, a intelligencia e o corpo, que a reveste: será um inspirado sublime, um semi-deus aquelle, que reunir estas duas forças.

Não é sómente a poesia o perfume das flores da terra, nem a chamma accesa nos céos, é necessario que o perfume habite um calice trabalhado por Deus, é forçoso que o finito se não separe do infinito, que o Bello visivel falle do Bello invisivel, como a creação, o universo, fallam de Deus.

Mas assignalados serviços fizeram á litteratura estas duas escolas. Se a escola da fórma não tinha o vôo ousado, que eleva a alma até ás regiões do infinito, se sensual e material, violava os mysterios do coração e não tinha o segredo de os possuir, contribuiu poderosamente para apurar e enriquecer as linguas; a outra se desprezava os ouropeis, com que se enfeita o pensamento, se escreveu sem freio, sonhando por toda a parte um ideal para além do céo, elevou o sentimento moral rebaixado, e manteve as aspirações do espirito, levantando a alma e o coração para as celestes visões dos mundos melhores, sem as quaes a terra seria um vasto e triste deserto.{14}