III
A Arte, a Poesia, na sua missão suprema, devem aspirar sempre ao infinito, trepando a montanha invisivel, que desce até aos nossos pés, e que se eleva até o throno de Deus. Sobre essa alcantilada montanha é que floresce o Ideal. São necessarios vontade robusta e impulso divino para subir até á extrema agulha—a poucos é dado lá chegar! O cansaço e a fadiga prostram os caminheiros, alquebrados e sem forças, a metade da encosta; mas, quem não tiver os pulmões assaz vastos para chegar até á corôa do gigante alcantil, tome por uma larga estrada, que se abre na lombada do elevado monte, enroscando-se nas suas viçosas e verdejantes fraldas; ao cabo d'esse caminho, encontrará o viajeiro a verdade, a outra face radiosa do Bello. Ha duas sendas a seguir para attingir o Bello—ou caminhar pela terra, ou elevar-se aos céos, ou o sabor agreste da natureza, ou as pulsações do coração, ou o vôo ousado da aguia, ou o rastejar da timida arvéola. O Ideal e a Verdade, eis os dois supremos caracteres da Arte, da Poesia. Mas que Jano potente reune as duas faces radiosas do Bello?...
Mas comtudo o Bello, o esplendor do Verdadeiro, encontra-se sómente no ideal—entre a verdade, que os nossos olhos podem encontrar e a verdade que a arte deve escolher, ha um abysmo.—O fim supremo da Arte não é a realidade; não se deve a invenção limitar a traduzir, a copiar servilmente a natureza, tem um fim mais nobre, mais elevado: transformar, interpretar, comprehender a realidade na sua significação mais intima, e achar para essa significação, isto é, para a Verdade, uma expressão cabal e completa. Desconhecer a distancia que separa a realidade da verdade, é desconhecer a propria essencia do{15} Bello—não ha arte sem a amplificação, sem a interpretação da natureza.
O estudo e a reproducção litteral da realidade são um ensaio util, uma prova indispensavel, uma como que iniciação; mas a realidade nunca deve ser o fim, o alvo, aonde se dirigem os esforços do Artista; cumpre, que seja um meio, e nada mais.
A imaginação humana, manifestando-se sob as suas fórmas diversas, deve seguir este trilho para attingir o Bello, e a poesia que dimana directamente da imaginação, que faz, por assim dizer, parte da sua essencia, que é quasi a antithese da realidade, deve elevar-se sempre para as regiões sublimes, para os mundos ideaes, solta dos asperos e incorrectos limites da natureza. Não é sómente a Arte a combinação judiciosa dos elementos da realidade, a reunião de parcellas reaes escolhidas com discernimento e criterio, é a transformação logica, mas ousada e atrevida, da realidade.
A lucta travada pela escola realista é uma lucta insensata, é uma lucta acima das forças humanas; porque é insensata, porque é acima das forças humanas, a esperança de reproduzir a natureza, de copiar a realidade. Não prendem a admiração as obras realistas; o pensamento que presidiu á sua creação basêa-se num principio falso e impotente, traz comsigo a morte. E é obvio o motivo d'essa impotencia: é impossivel reproduzir a natureza com meios tão differentes daquelles de que ella dispõe.
Exaggerar, amplificar a verdade, não é renegal-a. É um dom sublime, divino, da phantasia crear segunda vez a realidade, metamorphoseando-a. Não é a natureza mais bella, não se adorna com galas mais vistosas, illuminada pelos esplendores do sol da Primavera?...
O snr. Anthero do Quental que tentou subir até os altos pincaros onde floresce o Ideal, e o snr. Castilho, que seguiu pelo{16} caminho da Verdade, encontraram o Bello? O que pesará mais na balança? os vôos ousados do auctor das Odes modernas, livres das peias do estylo, ou o rastejar do cantor da Primavera, adornado com as galas da linguagem, enfeitado com os ouropeis da fórma? É o snr. Castilho um architecto habil, ou ajuntou os materiaes e não soube construir o edificio? A escola de Coimbra encontrou o Ideal, ou abraçou como Ixion uma nuvem phantastica, uma sombra?
Difficil é a resposta; difficilima para nós, que não queremos aventar um juizo erroneo.
A escola de Coimbra envolveu os seus pensamentos, a sua doutrina, em nevoeiros talvez metaphysicos de mais, cahiu em monstruosa exaggeração—e a exaggeração não é um indicio de depravação de gosto?.. e esses nevoeiros, que teem uma harmonia intima, um laço mysterioso com a fria athmosphera do Norte, que povôa de phantasmas os campos e as florestas, poder-se-hão transplantar para os climas do sul, terão a mesma razão de ser, diante dos esplendores do sol do Meio-dia, do sol de Portugal?
É necessario ser um iniciado nesses mysterios d'Isis e de Eleusis, um hierophante, para encontrar, por entre esses hieroglyphos, o pensamento e a idêa, é necessário ter o fio de Ariadna para penetrar n'esses labyrinthos—e penetrando... que montões de duvidas! Quando se solta assim tão alto vôo, para as elevadas regiões do desconhecido, deixa-se á porta a Verdade, como esses aventureiros, que não vendo a fortuna junto do seu modesto e humilde lar, vão, atravez de mil perigos e fadigas, procural-a em longinquas plagas.
Será a aza da sabedoria que encaminha os sectarios da escola de Coimbra para esses incognitos paizes? viajam... chegarão ao porto?... mas será tambem a fórma das poesias do snr. Castilho haurida na pura e crystallina fonte do Bello? Duvidamos.{17}
As poesias do auctor da Primavera são reflexos das tradições gregas e romanas, são imitadas dos poetas da antiguidade pagã, com um pronunciado ressaibo do seculo desoito; é o snr. Castilho um Theocrito enxertado n'um Florian; mas muito, muito superior ao auctor de Estella, e quasi igual ao poeta da Grecia. Além de transparecer nas poesias do snr. Castilho a imitação da antiguidade, adivinham-se tambem n'ellas as numerosas e primorosas (?) versões gregas e latinas.
Não apuram o gosto as traducções, pelo contrario estragam-n'o. Fundamentaremos este asserto.
É impossivel conhecer-se e avaliar-se o merito d'um auctor estrangeiro, quando principalmente o merito se basêa no estylo e na dicção. Os pensamentos, que pertencem ao coração, que são cosmopolitas, sim; porque basta possuir-se uma alma elevada e uma intelligencia robusta para comprehendel-os; mas a dicção e o estylo, que teem uma terra natal, um sol que lhes pertence, não. A individualidade, a nacionalidade dos escriptores, dos poetas, teem mysterios que só um compatriota póde penetrar.
Se isto, que acabamos de dizer, passa como aphorismo em relação aos auctores modernos, é um axioma a respeito dos escriptores da antiguidade, separados do tempo em que vivemos por longos seculos, e escrevendo numa lingua cuja prosodia se ignora.
Como se poderá fazer idêa da harmonia da prosa de Demosthenes ou Cicero, da melodia e da cadencia dos versos de Virgilio ou de Hesiodo, articulados e recitados com as regras de pronuncia e de accentuação dos idiomas modernos e escutados por ouvidos de Barbaros?
Por melhor que se conheça um idioma estrangeiro, nunca será possivel penetrar no sacrario intimo dos seus mysterios; hade-se confundir milhares de vezes o fogo fatuo com o esplendor do sol—falta o leite da ama, faltão essas primeiras palavras,{18} brandamente murmuradas ao ouvido da criança, preza ainda dos seios maternaes.
E reflectindo, imitando a fórma que se não conhece, o estylo que se não póde avaliar, não é seguir um caminho errado?
Se a Musa do snr. Castilho não bebeu na fonte de Hipocrene, se saudosa, busca a inspiração no passado, a prosa do auctor dos Quadros Historicos, tambem vasada pelo molde dos antigos escriptores portuguezes, não segue e acompanha o curso das idêas modernas, retrocede com saudade para os tempos que já lá vão; não se deixa ir brandamente ao som da agua, lucta contra a corrente do caudaloso rio, tentando, sem cessar, attingir o monte d'onde rebenta e se desentranha o manancial.
E este combate entre as idêas novas e as antigas, combate, em que estas ultimas ficam sempre vencedoras, não será indicio d'um gosto pouco apurado?... De que monta que a linguagem seja bôa, se é máo o estylo?
Deve a linguagem ser filha legitima da lingua materna, ter com ella semelhança viva, como que concebida em união amorosa; mas assemelhar-se como uma rapariga formosa e louçan se assemelha á sua mãe. Deve, entre a belleza, os attractivos viçosos e frescos d'uma e os encantos murchos da outra, haver uma relação de parentesco, uma harmonia, um laço intimo e mysterioso; mas não se devem sulcar com fundas rugas as faces da gentil donzella, embaciar-lhe o brilho dos olhos, desmaiar-lhe o encarnado dos labios, denegrir-lhe o branco esmalte dos dentes, substituir-lhe as louras e abundantes madeixas por cabellos encanecidos, para a semelhança ser mais perfeita, para não haver duvidas sobre a genuinidade do parentesco.
Basta, que a imaginação transportada ao futuro, reconstrua na filha os estragos, que o tempo fez nos encantos da mãe, e resuscite no rosto d'esta, atravez das nuvens do passado, os attractivos viçosos, a frescura da mocidade, e as ache depois no pensamento eguaes, gemeas, uma Sosia da outra. Mas n'um barranco talvez mais fundo tropeçou o auctor das Odes Modernas.{19}
Muito lido e versado nas litteraturas do Norte, os vocabulos variados que lhe embaração a memoria tornam-lhe confusas as percepções; quando lhe apparece a idêa, não sabe o véo com que a ha-de envolver: pensou-a o cérebro em differentes linguas, e d'essa união resulta um aborto multiplice e indigesto de concepções synchronas. Carece a idêa d'esse typo de paternidade e raça, sem o qual as obras da intelligencia se assemelham a massas nebulosas. A idêa mais verdadeira não passa muitas vezes d'um enigma indecifravel, se o homem que a concebeu não soube escolher a fórma que lhe convem.
Não deitemos no leito de Procusto nem o sabio auctor da Primavera, nem o inspirado poeta das Odes Modernas; sejamos ecclecticos; saibamos distinguir as bellezas, que brilham nos escriptos d'ambos. Se unicamente considerarmos o merito litterario, qualquer das obras do snr. Castilho pesará mais na balança do que tudo o que tem escripto o snr. Anthero do Quental; mas para quem, n'este valle de lagrimas, se quizer sustentar d'ambrosia e de ideal, viajando com a imaginação pelos esplendores dos mundos invisiveis, dos mundos melhores, que differença entre o poeta philosophico e o poeta pagão, entre o Artista que procura o Bello no Ideal e o Artista que julga encontral-o na natureza, na verdade! entre o sectario da escola realista e o adorador fervente do idealismo!