SCENA II

OS MESMOS E MAXIMO, apressado, com plantas e papeis

Maximo

Estórvo?

Evarista

Não, filho, podes entrar.

Maximo

São dois minutos, tia.

Urbano

Vens do ministerio?

Maximo

Venho da conferencia com os bilbaínos. Tenho hoje um dia de prova tremenda... Immenso que conferir, immenso que falar, immenso que correr, e, para me não faltar mais nada, a casa toda revirada com o debaixo para cima!

Evarista

Mas, homem, que foi isso?! Diz a Balbina que despediste as creadas...

Maximo

Pessoal infame, tia! Tres ladras! Pul-as na rua. Estou com o ordenança e com a ama. Que lindo arranjo, hein?

Evarista

Vem comer cá.

Maximo

Comer cá é bom de dizer. A tia fala bem! E os pequenos com quem ficam? Se os trago põem-lhe a cabeça em agoa, desarranjam-lhe tudo...

Evarista

Não tragas. Eu adoro as creanças. Mas têl-as commigo, não. Revolvem tudo, sujam tudo! corridas, risadas, cantatas, berratas, guinchos, patadas medonhas no chão! fazem-me doida. E mêdo que caiam, que se mólhem, que as arranhem os gatos, que rachem as cabeças, que esburaquem os olhos uns dos outros. Nada... Não quero responsabilidades.

Maximo

Eu o que queria é que a tia me mandasse uma cosinheira.

Evarista

Manda-se-te para lá a Henriqueta. Urbano, toma nota.

Maximo

Bom. (Dispondo-se a partir)

Evarista

Olha lá! os teus negocios parece que vão bem... Já sabes o que te tenho dito: Se o magico prodigioso precisar de dinheiro para a implantação dos seus inventos, não tem mais do que dizel-o...

Maximo

Obrigado, tia... Tenho á minha disposição quanto dinheiro queira... Assim eu tivesse uma creatura que me soubesse fazer sôpa!

Urbano

Esse senhor dentro de poucos annos ha de estar muito mais rico do que nós.

Maximo

Isso bem pode ser que sim.

Urbano

Obra do seu talento.

Maximo

(com modestia) Não: do trabalho, da perseverança, da paciencia...

Evarista

Nem me digas! Trabalhas monstruosamente.

Maximo

Quanto é preciso que trabalhe, por obrigação, por consolação, por prazer, e, a final, por enthusiasmo adquirido tambem.

Urbano

Passa a monomania isso. É uma borracheira de estudo.

Evarista

(grave) Não: é a ambição, a maldita ambição, que a tantos fascina e a tantos deita a perder.

Maximo

Ambição legitima e indispensavel á humanidade. Imagine a tia...

Evarista

(cortando-lhe a palavra) É a ancia das riquezas, para saciar com ellas a avidez do goso. Gosar, gosar, gosar: isso unicamente quereis, e para isso vos consumis, sacrificando o estomago, o cerebro, o coração e a propria alma, sem vos lembrardes da inanidade das coisas da terra e da brevidade da vida. Rapidamente nos vamos, e tudo cá fica.

Maximo

(impaciente por sahir) Tudo, menos eu, que me safo já.