SCENA VI

ELECTRA E SOROR DOROTHÊA

Dorothêa

Tão certo como ser noite, vieram dois sujeitos ao convento com proposito de te arrancar d’aqui e de te levar para o mundo. Não o crês?

Electra

Sem que me digas quem são, o meu coração o adivinha: Maximo e o marquez de Ronda... Se é certo que projectam levar-me é enorme a perturbação que me causam. Desde que entrei n’esta santa casa emprehendi, como sabes, a grande batalha do meu espirito. Procuro, humildemente e com a ajuda de Deus, transformar em amor fraternal o amor de uma natureza bem diversa que arrebatou a minha alma... Converter o ardente fogo do sol numa fria claridade da lua... O constante meditar, lento mas progressivo, o desmaio do coração, e as ideias submissas e dôces que Deus me envia vão-me dando forças para vencer.

Dorothêa

Querida irmã, se em ti sentes a fortaleza d’esse novo amor, porque tens mêdo de te encontrar com D. Maximo de Yuste?

Electra

Porque, vendo-o, sinto que todo o terreno ganho o perderia n’um só instante.

Dorothêa

(incredula) E achas, em tua verdade, que tenhas algum terreno ganho?...

Electra

Oh! sim, algum... não muito por emquanto.

Dorothêa

Talvez, irmã Electra, que o vêr essa pessoa te demonstre se effectivamente podes...

Electra

(vivamente) Oh! não m’o digas, que não posso!... No estado em que me sinto, n’este principio de lucta, se o visse, se o ouvisse, eu perderia toda a esperança de paz... Não vês que em minha consciencia eu me estou debatendo contra dois impossiveis: não poder amal-o como esposo; não poder amal-o como irmão? (Aterrada) Que supplicio, meu Jesus!... Para o mundo não, não... Prefiro estar aqui, n’esta solidão de morte, n’este laboratorio da minha alma, junto do cadinho divino, em que estou fundindo um viver novo.

Dorothêa

Não esperes que as tuas ideias te deem a paz. Confia em Deus e n’aquelles que Deus te envia... (Resolvendo-se a falar mais claramente) Não te amedrontes assim perante o que suppões teu irmão. Alguem talvez negará que o seja.

Electra

(em grande excitação) Cala-te! Cala-te! Em assumpto de tão grande melindre toda a palavra que não contenha a certeza é inutil e cruel... Póde levar-me á loucura. O que eu peço a Deus é a morte, ou a verdade inteiramente indubitavel e definitiva.

Dorothêa

Socega, pobre Electra...

Electra

(exaltando-se cada vez mais) Todas as confusões que me atormentaram ao vir para aqui estão renascendo no meu espirito... Atropelam-se-me no pensamento anjos e demonios... Deixa-me... Eu quero fugir de mim mesma... (Corre a scena em grande agitação. Soror Dorothêa segue-a procurando acalmal-a)

Dorothêa

Tranquillisa-te, por Deus!... Esse tormento vae ter fim. (Olha com anciedade para a porta da esquerda)

Electra

(parecendo-lhe ouvir uma voz longinqua) Ouve... Minha mãe que me chama.

Dorothêa

Não delires... Outras vozes, vozes de pessoas vivas, te chamarão.

Electra

É minha mãe... Silencio!... (Escutando. Entra Pantoja pela direita)