SCENA VII
EVARISTA E PANTOJA, que com mostras de cansaço e desalento se atira para o banco da esquerda, primeiro plano.
Evarista
Entramos?
Pantoja
Perdão: deixe-me respirar por um momento. Na egreja abafava-se... com o calôr, com o apertão de gente...
Evarista
Vou-lhe mandar vir alguma coisa fresca... (chamando) Balbina!
Pantoja
Não, obrigado.
Evarista
Uma taça de tilia...
Pantoja
Tambem não. (Na occasião de Balbina sahir, a senhora dá-lhe a mantilha, que acaba de tirar, e o livro de missa)
Evarista
Não ha motivo, emquanto a mim, para nos affligirmos tanto...
Pantoja
Não é, como querem dizer, o meu orgulho; é n’um ponto mais delicado e mais profundo que eu me sinto ferido. Nega-se-me a consolação e a gloria de dirigir essa creatura e de a levar commigo pelo caminho do bem. E vejo com grande magoa que você, tão affecta aos meus principios, e que eu considerava uma fiel amiga e uma fervorosa alliada, me abandona na hora critica.
Evarista
Perdoe-me, D. Salvador. Eu não o abandono. Estavamos inteiramente de accordo, com relação a Electra, em guardal-a por algum tempo—nunca se tratou de a encerrar para sempre—em S. José da Penitencia, attendendo á disciplina e purificação d’aquella casa... Mas surge agora repentinamente esta inesperada veneta de Maximo, e eu não posso, realmente, não posso de modo nenhum recusar o meu consentimento... É uma loucura? será... Mas de Maximo, como homem de honrado e correcto procedimento, que tem que dizer?
Pantoja
Nada. (corrigindo-se) Isto é: alguma coisa poderia talvez... Mas, por agora, o que unicamente digo é que Electra não está preparada para o casamento, não tem aptidão para eleger marido... Não reprovo em absoluto que se case, quando seja com um homem cujas ideias a não pervertam... Mas este ponto é para mais tarde... O essencial n’este momento é que essa tenra creatura entre quanto antes no sagrado asylo, onde nos cumpre estudar, com o tacto mais subtil e mais carinhoso, a configuração do seu caracter, as suas predilecções, as suas tendencias, os seus affectos; e em vista do que observarmos, fundamentadamente e seguramente depois d’este prévio exame, resolveremos... (Altaneiro) Que ha que dizer a isto?—pergunto eu agora.
Evarista
(acobardada) O que digo é que para esse plano... na realidade perfeito... eu não posso, não ouso offerecer-lhe a minha cooperação.
Pantoja
(com arrogancia, passeando) De modo que, segundo os seus caridosos principios, se Electra se quer perder, que se perca!... que importa?... Se ella quer condemnar a sua alma, que a condemne!... Que temos nós com isso?
Evarista
(com maior timidez, suggestionada) Perder-se! condemnar-se! E está porventura na minha mão evital-o?
Pantoja
(com energia) Está.
Evarista
Oh! não... Não tenho a audacia de intervir... E com que direito?... Impossivel, Salvador, impossivel...
Pantoja
(affirmando mais a sua auctoridade) Saiba, minha amiga, que o acto de apartar Electra de um mundo nefasto, em que por todos os lados a rodeiam appetites e voracidades ferozes, não é um despotismo: é o amor na expressão mais alta e mais pura do carinho paternal. Ainda por acaso ignora, Evarista, que o fim supremo e unico da minha vida não é hoje outro senão o bem d’esta menina?
Evarista
(acobardando-se mais) Bem sei que é assim.
Pantoja
(com effusão) Eu amo Electra com um amor que as grosseiras palavras do homem não podem definir. Desde que os meus olhos a viram, a voz do sangue me bradou do mais fundo do meu ser que essa creatura me pertence... Quero têl-a, e devo têl-a, santamente, debaixo do meu dominio paternal... Quero que ella me ame como os anjos amam... que seja a pura imagem da minha crença, o limpido espelho do meu eterno ideal... que se reconheça obrigada a padecer por aquelles que lhe deram a vida, e purificando-se pela mortificação, nos ajude a nós, que fômos maus, a alcançar o perdão de Deus... Não comprehende estas coisas, Evarista?
Evarista
(abatida) Comprehendo-as e profundamente admiro a elevação do seu entendimento.
Pantoja
Menos admiração e mais eficacia em meu auxilio é o que lhe peço.
Evarista
Não posso... (Senta-se chorosa e abatida)
Pantoja
É bem natural que Electra lhe não mereça o mesmo interesse que tão profundamente me inspira a mim. (Empregando suavidades de persuasão) Convenho em que n’estes primeiros tempos lhe tenha de pesar algum tanto o seu brusco apartamento das alegrias mundanas, mas muito rapidamente se adaptará á dôce paz, á venturosa quietação do claustro... Eu a dotarei amplissimamente. Tudo quanto tenho será para ella, para o esplendor da sua santa casa... Será nomeada Superiora, e sob a minha auctoridade, e pelo meu conselho, governará a congregação... (Com profunda commoção) Que celestial ventura, meu Deus! Que felicidade para ella, e para mim! (Fica-se como em extase)
Evarista
Comprehendo que por não acceder ao que deseja de mim eu privo talvez uma creatura de chegar ao estado mais perfeito da condição humana... Conhece bem os meus sentimentos, Salvador... Sabe com quanto prazer eu trocaria sem vacillar toda a opulencia em que vivo pela gloria de dirigir obscuramente uma modesta casa religiosa do maior trabalho e da maior humildade! Sempre o admirei pela sua larga protecção a S. José da Penitencia, e subiu de ponto essa admiração quando soube que redobrou o seu auxilio desde a occasião em que a minha pobre Eleuteria foi procurar n’esse instituto o esquecimento, a paz e o perdão dos seus erros de amor, como os de Magdalena. N’esse acto da vida do rico snr. de Pantoja se me revelou a espiritualidade mais pura a que se pode elevar um homem.
Pantoja
Sim: desde que a sua desventurada prima deu entrada n’aquelle sagrado asylo, a minha protecção não sómente se tornou mais positiva mas ainda mais espiritual. Nunca, nunca mais tornei a pôr os meus olhos em Eleuteria depois de convertida, porque de ninguem—nem de mim!—ella se tornou a deixar vêr desde que lhe cortaram os cabellos e lhe botaram o escapulario. Mas eu ia quotidianamente á egreja; e invisivel do côro, n’um recanto da nave, praticava em espirito com a penitente, considerando-a tão perfeitamente regenerada como eu proprio o estava. Morreu a infeliz aos quarenta e cinco annos da sua edade. Então obtive o consentimento de uma sepultura no interior do edificio. E desde esse dia não protegi mais a congregação, tornei-a inteiramente minha, porque n’ella repousavam debaixo da pedra de uma campa os restos d’aquella que eu amei. Juntára-nos o peccado, reunia-nos o arrependimento, ella na paz da morte, eu na tempestuosa provação da vida...
Evarista
E ainda agora aquelle a que bem podemos chamar o senhor e o reformador do convento, todos os dias, sem excepção de um unico, visita aquella santa casa e se ajoelha no cemiterio humilde e docemente poetico, onde as monjas dormem o somno eterno.
Pantoja
(vivamente) Sabia isso?
Evarista
Sabia... E que no claustro, silencioso e florido, entre loendros e cyprestes...
Pantoja
É certo... quem lh’o disse?
Evarista
...vagueia, como um propicio phantasma da saudade, o sombrio fundador d’aquella casa, implorando de Deus o descanço d’ella e o seu.
Pantoja
Sim... Ali repousarão tambem os meus pobres ossos. (Com vehemencia) Quero, além d’isso, que assim como em espirito eu me não aparto por um só momento d’aquella casa, ahi passe tambem, pelo tempo que fôr preciso, o espirito de Electra... Não a violentarei á vida claustral; mas se, experimentando essa existencia, e apreciando o seu incomparavel sabor, ella deliberasse persistir na clausura, eu acreditaria então que Deus me destinara para a mais ineffavel graça. Ali as cinzas adoradas da peccadora redimida; ali, na candida alvura do seu habito de noviça, a minha filha; ali eu, pedindo a Deus para ellas a gloria eterna. E na morte, o escondido e imperturbado repouso na mesma terra amada,—todos os meus amores commigo e todos nós em Deus...
Evarista
(com viva commoção) Perfeita grandeza, por certo... Idealidade incomparavel.
Pantoja
Duvída ainda de que o meu pensamento seja o mais elevado? De que me não move nenhuma paixão ruim?
Evarista
Como quer que duvíde?
Pantoja
Pois se com effeito lhe parece bello o meu plano, porque me não ajuda a realisal-o?
Evarista
Porque me não considero com poderes para isso.
Pantoja
Nem assegurando-lhe eu que a reclusão de Electra terá um caracter provisorio?
Evarista
Nem assim. Não, D. Salvador, não conte commigo... (luctando com a sua consciencia) Reconheço toda a elevação, toda a formosura das suas ideias... D’ellas sinto um ecco suave e acariciador na minha propria alma. Mas—que quer, meu bom amigo—vivo no mundo em que Deus me collocou: tenho tambem para com este mundo deveres sagrados. Dêvo-me, com aquelles que me rodeiam, á vida social; e na vida da sociedade e da familia o seu projecto é... como lh’o direi, sem o magoar?... é uma anomalia angelica.
Pantoja
(dissimulando o seu enfado) Bem. Paciencia... (Passeia caviloso e sombrio)
Evarista
(depois de uma pausa) Em que pensa? Desiste?
Pantoja
(com naturalidade e firmeza) Não, minha senhora.
Evarista
Qual então o seu projecto?
Pantoja
Não sei... Ha de acudir-me uma ideia... Pensarei... (Resolvendo-se) Minha cara amiga, quer fazer-me o favor de escrever uma carta á superiora da Penitencia?
Evarista
Dizendo-lhe...?
Pantoja
Que venha aqui immediatamente, com duas irmãs, n’uma carruagem.
Evarista
Porque lhe não escreve directamente?
Pantoja
Porque tenho de acudir a outras coisas.
Evarista
Quer já?
Pantoja
O mais breve possivel...
Evarista
Bem. (Dirige-se para casa)
Pantoja
Peço-lhe que mande a carta sem perda de tempo.
Evarista
(olhando do alto da escada para o jardim) Creio que elles ahi vem.
Pantoja
Depressa a carta, minha cara amiga.
Evarista
Vae já... Deus nos inspire a todos. (Entra em casa)
Pantoja
Lá vou ter. (Áparte) Que me não vejam! (Esconde-se atraz do macisso da direita junto da escada)