SCENA X

ELECTRA E O MARQUEZ

Electra

(meditativa) Meu Deus, que devo pensar? Aquellas meias palavras parece que ainda me dizem mais do que palavras completas. Mãesinha da minha alma!... (O marquez entra pelo jardim e adeanta-se devagar) Ah! O snr. Marquez!

Marquez

Assustei-a?

Electra

Não: surprehendeu-me apenas... Se vem para me ouvir tocar, aviso-o de que perdeu a viagem. Eu não toco hoje.

Marquez

Tanto melhor: assim fallaremos... Mal lhe sou apresentado entro em cheio na admiração das suas prendas, e, conhecida uma parte do seu caracter, vivamente desejo conhecel-a mais... Vae estranhar esta curiosidade, e julgar-me importuno...

Electra

Não acho. Eu sou curiosa tambem, e tanto que desde já me permitto fazer-lhe uma pergunta: é amigo de Maximo?

Marquez

Estimo-o e admiro-o muito... Coisa rara não é verdade?

Electra

Coisa naturalissima, me parece.

Marquez

Tão moça como é, talvez que se não dê bem conta das causas da minha amisade com o magico prodigioso... Vamos a vêr se me faço entender.

Electra

Explique-m’o bem.

Marquez

Senhorita, a sociedade que eu frequento, o circulo da minha propria familia e os habitos da minha casa produzem em mim um effeito de asphyxia, de lento ameaço apopletico. Quasi que sem dar por isso, por simples impulso instinctivo de conservação, lanço-me de vez em quando á procura de um pouco d’ar respiravel. Os meus olhos, velhos e nostalgicos, voltam-se então avidamente para a sciencia e para a natureza... Maximo, para mim, é um sanatorio.

Electra

Quer-me parecer que vou começando a entendêl-o, e á sua doença de confinado, com faltas d’ar e de vida...

Marquez

Prova de que raciocina. Devo tambem dizer-lhe que tenho por esse homem um interesse immenso.

Electra

Estima-o devidamente, admira-o pelas suas altas qualidades...

Marquez

E lastimo-o pelo seu infortunio.

Electra

(surprehendida) Maximo, desafortunado?

Marquez

Que desdita maior que a da solidão em que elle vive? A viuvez prematura submergiu-o nos estudos mais profundos e mais absorventes, que podem comprometter-lhe a saude e a vida. É um dos meus receios.

Electra

Tem os filhos, que o acompanham e a consolam... O Marquez viu-os hoje... Que lindas creaturinhas! O maior, que vae fazer agora cinco annos, é um prodigio de intelligencia. O pequenito, de dois annos, é o mais engraçado sujeitinho de todo o mundo. Eu adoro-os, sonho com elles, e gostava, por elles, de ser creada de meninos.

Marquez

O pobre Maximo, aferrado aos seus estudos, não pode attendêl-os como devia ser.

Electra

É o que eu digo tambem.

Marquez

Claro! Maximo do que precisa é de uma mulher... Aqui principiam as difficuldades e as dúvidas. Por mais que olhe e que procure, não vejo, não encontro a mulher digna de repartir a sua vida com a do grande homem.

Electra

Não a encontra, está visto, porque a não ha, não a ha. Para Maximo deve-se arranjar uma mulher, principalmente, de muito juizo...

Marquez

Primeiro que tudo, isso: de muito juizo.

Electra

O contrario de mim, que, não tenho nenhum, nenhum, nenhum!

Marquez

Não direi eu isso...

Electra

Que, ainda assim, quando lhe digo tolices e lhe chamo brutamontes, tonto e sabichão, não vá o Marquez pensar que o digo a sério. É brincadeira!

Marquez

Tambem me queria parecer que não era uma convicção philosophica.

Electra

Brincadeira descabida, talvez, porque elle é seriissimo... E sobre esse ponto gostaria de ouvir o seu conselho: acha que eu deva tornar-me séria?

Marquez

Nunca! Cada creatura é como Deus a quiz fazer. Ninguem precisa de ser serio para ser bom.

Electra

Pois veja lá! eu que não sei nada, tinha pensado isso mesmo!