SCENA XIII
ELECTRA, MAXIMO, EVARISTA, PANTOJA, URBANO, MARQUEZ E PATROS (Conservam-se na scena a superiora e as irmãs)
Evarista
Deliras, minha pobre filha!
Maximo
Ouve, minh’alma, vem, escuta. O meu carinho será a tua razão.
Electra
(afasta-se de Maximo com um movimento de pudor. O seu delirio é sereno, sem gritos, sem risadas. Manifesta-o com uma accentuação de dôr resignada e melancolica) Não te approximes. Não te pertenço. Já não sou tua.
Maximo
Porque me foges? para onde vaes sem mim?
Pantoja
(que passou para a direita, junto de Evarista) Para a eterna verdade, para a inalteravel paz.
Electra
Vou por minha mãe. Sabem onde está minha mãe?... Vi-a no côrro dos meninos... Foi depois até a mimosa que está á entrada da gruta... E eu a seguil-a sem a alcançar... Olhava para mim e fugia... (Ouve-se ao longe o canto dos meninos)
Marquez
Aqui está Maximo... Olhe... É o seu noivo.
Maximo
(vivamente) Serei o teu marido... Ninguem se oppõe, e não ha força nenhuma que o empeça, Electra, minha vida.
Electra
(impondo silencio) Quem fala aqui de noivos e noivas? Quebradas as festas do noivado: não ha bôda... Que tristeza a da minha alma!... Só ha padres com tochas a rezar por defuntos... Que grande é o mundo, e que só que está! que vazio!... Acima da terra, pelo ceu, passam nuvens negras, que são illusões, as illusões que foram minhas e não são de ninguem agora... as illusões sem dôno!... Que solidão!... Tudo escurece, tudo chora... Vae acabar o mundo... vae acabar. (Com arrebatamento de medo) Quero fugir, quero-me esconder. Não quero padres, não quero tochas, não quero officios... Quero ir para a minha mãe... Onde m’a enterraram?... Levem-me á pedra da sua campa, e ali juntas, nós ambas, minha mãe e eu, lhe direi as penas da minha alma, e ella me dirá verdades... verdades!
Pantoja
(áparte, a Evarista) É a occasião. Aproveitemol-a.
Evarista
Vem, minha filha, nós te levaremos á quietação e á paz.
Maximo
Não: o descanso e a razão estão aqui. Electra é minha... (Evarista procura leval-a) Exijo-a.
Electra
Adeus, Maximo... Já te não pertenço: pertenço á minha dôr... A minha mãe chama-me para o seu lado... (Extactica, anciosa, prestando uma attenção intensissima) Ouço-lhe a voz...
Maximo
A voz!
Electra
Silencio, que me chama! (delirando de alegria) que está chamando por mim!
Evarista
Torna a ti, meu amor!
Electra
Não ouviram? Não ouvem?... Lá vou, mamãsinha, lá vou! (Corre para o alto da escada) Vamo-nos! (A Maximo, que quer seguil-a) Eu só... É por mim só que chama. Tu não... Para estar sósinha commigo... Não ouves a voz d’ella dizendo: Eleectra! Eleeeectra!... Vou vêl-a, vou falar-lhe... (Vae entrando na casa com Evarista e Pantoja)
Maximo
Que iniquidade e que horror! Para m’a roubarem, enlouqueceram-na. (Quer desprender-se dos braços de Urbano e do marquez)
Marquez
(contendo-o) Não enlouqueças tambem tu.
Urbano
Socega!
Marquez
Descansa, que eu te asseguro que a recobraremos!
Maximo
Amarrem-me! Levem-me manietado para a solidão, para a sciencia, para a verdade. Este mundo incerto, mentiroso e iniquo, não é para mim!
FIM DO QUARTO ACTO