I

O velho Coruja, o coveiro, o bom amigo dos mortos, tinha pelo seu pequeno cão, uma affeição pura e desinteressada.

O Coisa acompanhava-o em toda a parte, com uma fidelidade insistente: nos enterros apparecia cansado, reflexivo e de cabeça baixa; no palheiro, onde ambos dormiam, deitava-se junto d’elle, corpo a corpo, como um companheiro familiar; nas diversas cosinhas das casas ricas da visinhança, onde o coveiro apparecia ao meio dia, sempre se mostrou submisso, quieto, esperando pacientemente que lhe dessem a sua brôa e as rapaduras do pote do caldo de farinha.

O Coruja olhava para elle com ternura, dava-lhe do seu comer, interrogava-o com naturalidade, affagava-o dizendo-lhe palavras boas, repassadas de carinho e de benevolencia...; porque partia da hypothese sensata, de ser comprehendido. O Coisa, pequeno, magro, de pello faminto, com as barbas de guloso sempre sujas, escutava-o attenciosamente, sem pestanejar e deitando-lhe a cabeça nos quartos, ficava como adormecido muito tempo.

O Coveiro comprehendia estas finas delicadezas do seu companheiro... Por isso fallava-lhe com polidez, com cuidado, escolhendo as palavras, estudando um timbre de voz meigo e delicado. Que dois corações unisonos e isochronos! As unicas desavenças que se tinham dado entre elles, eram por causa das creanças pobres... O cão perseguia-as insistentemente, se as encontrava agglomeradas, a pedir esmola, junto dos portaes ricos! N’este ponto era formalmente desobediente á palavra austera de seu amo!... O Coruja que, quando tinha vontade d’isso, sabia ser iracundo, figurava então uma voz aspera, severa e reprehensiva, ameaçando-o arrogantemente:

—Pedaço de bregeiro! Tenho-te dito muitas vezes que me deixes os rapazes. Fizeram-te algum mal? Diz lá: fizeram? Não entendes isto, maroto?!...

E se depois o cão se lhe ía enroscar aos pés, humilde e submisso, concluia com energia:

—... Pois devias entender. Elles são como nós ambos e como os outros desgraçados—andam na sua vida... Se são pobres, quem lhes ha de dar o pão, se não forem os ricos?! Vel-os acolá?—indicava incautamente os rapasitos. Andam ás esmolas, como tu e como eu!...

O Coisa olhava fixamente para o seu amigo, escutando-o sem pestanejar, e como vira que as ultimas palavras haviam sido acompanhadas de um gesto em que eram apontados os pequenos pedintes, que, amedrontados, tinham fugido para longe, interpetrando-as mal, arremettia de novo contra as creanças, perseguindo-as com mais raiva pelos caminhos.

O Coveiro mostrava-se estupido e confundido... Não comprehendia!... ficava scismando, para ver se encontrava o motivo que o animal teria, para odiar com tão afincado accinte, as creanças pobres, que via encostadas aos portaes ricos!... Não o podia perceber, elle que ignorava inteiramente a biographia do Coisa...

Encontrára-o n’uma tarde de chuva, perto de um ribeiro, onde, no dia seguinte, appareceu afogado um velho pedinte, de longa barba esqualida. O pobre animal tiritava de frio, recolhido humildemente dentro do tronco carcomido de uma cerdeira desfolhada. O Coruja, vendo-o assim, teve um ar compacido e lastimou-o com um sorriso triste. Lembrou-se que levava n’um bolso restos de pão do jantar, e, com um ar de bondade, atirou-lhe um pedaço, dizendo:

—Talvez tenhas fome... Pega lá, come.

O cão, saindo do esconderijo, abocou com rapidez e mastigou sofregamente, auxiliando a deglutição com movimentos rapidos e impulsivos de cabeça. O coveiro observando este facto, disse sorrindo:

—Home... tinhas larica. Toma lá mais um naco!...

E, tirando mais brôa do bolso das calças, deu-lh’a. O animal, enguliu com rapidez o pão e aproximou-se do coveiro com obediencia—arqueava a espinha dorsal arrastando a barriga na terra, tinha movimentos lateraes e cadenciados de cauda, levantava a cabeça para lhe cheirar a mão benefica e ouviram-se-lhe latidos de agradecimento. O Coruja, olhou reflexivo para elle e, cofiando-lhe a cabeça, observou com sorriso:

—Diabo! sempre és muito feio, ladrão!

Depois atirou para o hombro a enxada de abrir as covas e foi pelo caminho adiante... Ia para um atterro.

O cão ficou quieto, humilde, a olhar para o seu bemfeitor. O coveiro, olhando para traz, viu-o n’esta posição quasi supplicante e gritou-lhe de longe:

—Tó Coisa.

O animal veio para elle depressa, contente, feliz, dando pulos de alegria, movendo festivamente a cauda, lambendo os pés do Coruja, que o affagava. E para mostrar logo, áquelle seu amigo fortuito, um bom fundo de cão agradecido, arrastava o ventre pela terra, gania amoravelmente, roçava-se-lhe pelas pernas, e por fim, conservou-se alguns momentos n’um aspecto captivante, deitado no chão, olhando para o coveiro, com a cabeça firme, a mostrar os dentes e a piscar os olhos...

Foi assim que se tomaram por companheiros inseparaveis!... O coveiro não indagou quem era o Coisa, mas eu que o sei, posso dizer que era o cão do pedinte, que no dia seguinte appareceu morto na levada do ribeiro! Tinha sido amestrado para ladrar ás creanças, para escorraçar os pequenos, magros e sujos, que podesse encontrar pedindo esmola junto dos portaes ricos. Os perseguidos fugiam assustados e chorosos, gritando muito, apertando na mão os saquinhos vasios... e ficavam de longe, a ver quando o pobre da barba esqualida saíria de ali com o maldito cão, para elles voltarem a implorar a esmola, com as suas vozes finas e plangentes.

Porém, o velho pedinte era experimentado e sceptico. Se alguem, casualmente, observava a perseguição injusta que o animal fazia aos rapazitos, elle, que fingia de aleijado, chamava-o com modos de homem irritado, ralhava-lhe muito, chegava mesmo a bater-lhe. Com este procedimento conseguia, muitas vezes, captar a benevolencia de quem o observava e obtinha alguma esmola que agradecia, dizendo:

—... Pelas bemditas almas... Por mais que me mate, não posso ensinar este ladrão. Um dia como-lhe os figados. Apesar do amor que lhe tenho, sou home p’ra isso!

E, com o fim de se mostrar digno de admiração, erguia para o companheiro o pau da justiça, tremente de cóleras! O bemfeitor, compadecido, entrevinha caridosamente a favor do animal, aconselhando:

—Deixa lá. São brutos, não sabem o que fazem. Se elles não têem alma!...

—É tamem do que me tenho lembrado, meu rico pae da caridade! Se elle tivesse uma alma, eu era capaz de lh’a metter n’um inferno, só pelo que elle é de mau para as creancinhas... coitadas!

Mas o animal não era responsavel. Tendo sido educado, por seu amo, no proposito de perseguir os concorrentes ás esmolas, obedecia-lhe. Mesmo quando o velho pedinte lhe ralhava, apontando as creanças que fugiam espavoridas e elle continuava a preseguil-as, é porque sabia ser este um signal para as escorraçar com mais impeto! Tinham-lhe ensinado que, todas as admoestações lhe impunham dever de ladrar com maior energia e vivacidade, por isso assim procedia!...

O pobre da barba, depois de obtida a esmola, premio da reprehensão infligida ao maleficente, dizia vagamente, de modo a ser ouvido pelo bemfeitor que se distanciava:

—Diabo do cão é tolo! Não sei que mal lhe fizeram os rapazinhos!...

E voltando-se para elle, outra vez, com o pau no ar, concluia:

—És mesmo ruim, como as cobras!

Mas, logo que ficavam sós, cofiava amoravelmente a barriga do rafeiro, chamando-lhe seu rico cachorrinho, ganindo como elle para o reconciliar comsigo, e dando-lhe fartamente brôa da sacola, com o fim de o excitar ao crime. Incomprehensivel preversidade!...

Eis aqui estão os motivos, em virtude dos quaes, o coveiro, nunca poderia fazer comprehender ao Coisa, que a sua benevolencia era sincera e não mentirosa, como a do velho pedinte, que primeiro o educára. O modo compassivo como o Coruja entendia deverem ser olhadas as creanças pobres, que aos sabbados encontrava junto dos portaes ricos, o cão não o podia comprehender facilmente e até o interpretava ao inverso, princialmente quando lhe apontavam os rapazitos que se conservavam agrupados e cheios de susto a olharem de longe.

Mas, apesar d’esta divergencia, viveram muitos annos em concordante familiaridade, dormindo promiscuamente nos mesmos palheiros e comendo da mesma ração. Como o Coruja era um bebedo declarado, entendeu que devia habituar o Coisa a gostar de vinho, exactamente como elle, e dava-lh’o. O cão principiou pelo provar, com evidente repugnancia. Nos dias de fome, que o seu antigo amo lhe fizera passar, quando as esmolas não corriam para o sacco, tomára habitos de sobriedade. Vinho! Tal guloseima nunca provára! O pedinte de barba esqualida era extremamente egoista... emborrachava-se só. Mas, passado algum tempo, depois de ter sido preciso abrirem-lhe a bôca á força para lhe emburcar o liquido nas guelas, o Coisa gostou, e por fim já escorripichava a tijella, por onde o coveiro bebia a meia canada habitual... Tão fino bebado se mostrou depois, que andava sempre lambendo, com cuidado e esmero, até as deixar enxutas, não só a tigella do amo, mas todas as cuncas da sopa de bestas que encontrava ás portas das estalagens e tendas minhotas. Então dizia-lhe o seu amigo, rindo abertamente, com effusão, piscando os olhos, já muito torto:

—Anda grandissimo borrachão, que me pareces um padre!

Esta phrase usual, sincera e inoffensiva, que tantas vezes dissera impune, preferiu-a incautamente, uma vez, diante de um ecclesiastico que, julgando-se offendido, o reprehendeu severamente, levantando a bengala com uma intenção aggressiva! O coveiro que, pelo habito de viver entre batinas, não as respeitava, e, considerando mesmo que os padres eram homens como os outros e igualmente peccadores, lembrando-se até de que elle já tinha enterrado um bom par d’elles, respondeu com desdem e indignado:

—Olhe, talvez o seu coração não seja tão bô como o d’elle!...

O padre ficou auctoritario e colerico, e o coveiro retirou-se cheio de justiça, por ter pugnado pelo seu camarada.

Ás vezes, nos dias de muita chuva, o Coruja não podia saír do palheiro onde dormia, por causa das malditas dôres que lhe vinham á perna doente. O Coisa, n’essas occasiões, parecendo-lhe que devia prover as necessidades communs, saía a procurar comida. N’esses dias não respeitava nenhuma casa, fosse ella de quem fosse! Previdente e sagaz, obedecendo á sua primeira educação na vida mendicante, ía por ahi fóra... Porta que encontrasse aberta e d’onde saísse bom cheiro, entrava com ousadia e abocava desceremoniosamente qualquer posta de bacalhau ou qualquer salpicão que encontrasse. Mas, em vez de comer o producto da ladroagem, como faria qualquer cão vulgar e sem sentimentos, vinha depositar a comida intacta nas mãos do seu companheiro, para elle a repartir. O coveiro, no proposito de se dar seriedade, reprehendia-o com brandura, sorrindo com os seus olhos vesgos:

—Ah! grande ladrão! Home, isso não se faz!... Ir roubar o que não é da gente!... Muito mal feito, seu patife!... Come tu, anda, que eu não tenho grande fome.

No entanto, para não ser descortez e mal agradecido, acceitava o alimento que repartia com rectidão e igualdade, dando muitas vezes ao Coisa, qualquer bocado, que julgava mais appetitoso.