I

N’uma excellente manhã de um maio risonho e feliz, duas creanças, que já eram orphãs de mãe, perderam igualmente seu pae! Além da orphandade, teriam tambem a negra fome e a sombria miseria indigente, se não fôra o bom cura, o padre Clemente Carvalhosa, que as foi buscar a casa, levando uma de cada lado, pela mão, para a residencia! O Thomé Barbante, um tio d’essas creanças, tambem compadecido, ou, talvez, humilhado pelo caridoso procedimento do ecclesiastico, foi-lhe pedir que lhe désse uma para sua casa. O Carvalhosa cedeu-lhe a Quina, ficando com o Tone, que elle, n’um momento egoista, pensou vagamente em ir mettendo pela igreja, para de futuro ter quem lhe ajudasse á missa. Porém o Bernardo Repolho, lavrador remediado, que morava n’outra aldeia, a distancia de leguas, não lhe consentiu realisar esta ambição: sabendo da orphandade dos filhos de seu irmão André, que tanto eram seus sobrinhos como do Barbante, condoeu-se e, consultando a sua auctoritaria Engracia, resolveram adoptarem Tone, visto Deus não os ter favorecido com um rapaz, que tanto haviam desejado!... Para a mulher de Bernardo, era uma consolação forçada!... Por espaço de annos presenteára generosamente todos os santos acreditados nas visinhanças, chegando a ir em romaria beber das diversas aguas milagrosas, tão apregoadas e tão efficazes, que nascem debaixo dos penedos, onde esses bemaventurados tinham apparecido!... Frequentára, tambem, com assiduidade, os banhos de mar, indo durante muitos annos, a Vianna, pelo tempo da Agonia, sempre dominada por um tamanho desespero de maternidade, que de uma vez chegou a tomar trinta banhos nos tres dias da festa!... Porém, as esperanças de ter um filho íam desapparecendo, a esterilidade de Engracia affirmava-se de cada vez mais com a idade! Viveu muito tempo n’uma constante aspiração, impaciente e nervosa, chegando aos quarenta e cinco annos—ao momento dos desenganos! —sem descendencia... A sua intransigencia, o seu mau humor, contra os filhos dos outros, ía caíndo n’uma melancolia latente, quasi n’um ediotismo, quando seu marido lhe propoz o trazerem para casa o orphão de seu irmão André, que acabava de morrer pobre... Engracia abraçou, inesperadamente, com alegria, esta idéa e adoptou com benevolencia a creança desamparada! Pediu instantemente a seu marido, que fosse, mesmo n’aquelle dia, buscar o pequeno... Para a satisfazer, o Repolho não teve remedio senão pedir ao padre Beiral, a bôa egua lanzuda. O ecclesiastico cedeu-lh’a facilmente, perguntando com a sua curiosidade de homem idoso:

—Então é o filho d’esse teu irmão que morava lá para os lados de Monção?...

—Sim, senhor, esse mesmo—respondeu o Repolho. Era muito pobre, não deixou nada...

—Pois fazes bem, fazes bem—applaudiu o sacerdote. É uma obra de caridade... Deixal-os ao desamparo, é creal-os para ladrões. Vae homem, vae, leva a egua da côrte...

E, no dia seguinte de manhã, Bernardo partiu, chegando ao anoitecer a casa do Thomé Barbante, dizendo-lhe peremptoriamente, qual a sua resolução e mais a de Engracia. Foi muito gabado este procedimento. Todas as pessoas diziam, inclusivamente o Carvalhosa, que o pequeno viria a ser bem feliz; porque, estes tios que o adoptavam, eram ricos e não tinham herdeiros necessarios. Porém, quem não entendia as cousas do mesmo modo enthusiasta, era o proprio Tone. Quando lh’o fizeram comprehender, principiou a berrar desalmadamente, dizendo que não, que não... que não queria ir. E, no momento em que o punham ao collo do Bernardo, que já estava montado, prompto para a partida, principiou a estrebuxar, a morder nos punhos de seu tio que o segurava amoravelmente, a chamar alto por seu pae enterrado e porfiando por se atirar abaixo do albardão. A final, como lhe prometteram que voltaria de tarde, para brincar com sua irmã Quina, que tambem ficava a chorar em altos gritos pelo Tone, deixou-se levar. Porém, só quiz ir ao collo do tio Barbante que elle conhecia, e não ao d’aquelle home, que nunca tinha visto. Foi por esse motivo que o padre Carvalhosa teve de emprestar a malhada para o Barbante ir montado, e lá partiram ambos, pelos caminhos ensombrados da freguezia, o Thomé com o pequeno adiante de si, escachado no albardão.

D’este modo, assim illudido, é que o Tone foi e ficou. O Barbante, para não ser presentido pelo sobrinho, retirou-se ao amanhecer, quando elle ainda dormia innocentemente. Desde essa hora, as duas creanças irmãs, que sempre tinham brincado juntas, na mais simpathica convivencia, ficaram vivendo a distancia de leguas, separadas por altas montanhas, que no inverno se costumam cobrir de grossas camadas de geada!

A nova paisagem, com a qual o pequeno Tone se tinha de familiarisar, era de uma sombriedade austera, penetrada de melancolia. É verdade que em baixo, no coração do povoado, havia campos onde os ribeiros sussurravam, indo regar os prados, de um verde claro, e os milharaes alegres. Porém em volta, era uma cinta escura de altas montanhas, com plantações de pinheiros que tem uma côr energica, mas triste, e com arrogantes penedias, que ameaçavam desmoronar-se. Lá no alto, onde os penedos se accumulavam toscamente, uns postos sobre os outros, viam-se frequentemente, occupados no seu rude trabalho, sob a inclemencia dos soes e das chuvas, os quebradores de pedra! Estes homens de um aspecto rude e carregado, com a pelle pergaminhada pelos rigores de todos os tempos, perfuravam pacientemente com as suas brocas, os penedos, que depois quebravam a tiro, cujo som ululante e cavernoso echoava pelas quebradas da montanha!

Na aldeia onde Tone nascera, o aspecto dos campos, a vegetação, era mais familiar e intima. Os terrenos mais suavemente accidentados, deixavam aos seus olhos vivos, mais largo espaço para ambicionar. Havia um rio largo, que no inverno engrossava arrogantemente com as chuvas copiosas. Dos silvados impenetraveis, povoados de sombras que lhe mettiam medo, costumavam saír inesperadamente, quando elle se aproximava, os melros, voando para longe, com assobios agudos e espantados. A sua memoria tenaz de creança devia possuir por muito tempo, nitidamente, o vivo quadro da sua linda igreja caiada e alegre, com uma torre alta, e os tres sinos que tocavam ao domingo! Era a igreja onde elle ia á missa com sua mãe e onde os primeiros deslumbramentos produzidos pelos opulentos dourados dos altares e pelas attitudes senhoris das imagens das santas, se lhe ergueram na imaginação! Era de um pittoresco mimoso o quadro d’essa igreja, collocada na encosta, com a sua brancura que se destacava do souto de velhos castanheiros e carvalhos que a cercavam! Áquella imaginação infantil de Tone, deviam fazer falta estas cousas amadas pelos seus olhos vivos e ingenuos! N’estes caminhos pedragosos de agora, não se podia correr doidamente como n’aquelles outros, pelos quaes andara atrás de sua irmã Quina, para a agarrar. Por isso, nos primeiros tempos, fartava-se de chorar, tinha perrices freneticas e chamava em altos gritos por seu pae, por sua tia Clara, por sua irmã e não queria comer. Mas a mulher do Bernardo Repolho affeiçoou-se-lhe imprevistamente e acarinhava-o, procurando consolal-o, promettendo-lhe dôces e santinhos, que lhe havia de trazer das romarias. E n’um dia, para mostrar a effectividade das suas promessas, fez-lhe uma dadiva surprehendente, a qual foi recebida pelo Tone com tal alvoroço, que por si só parecia capaz de lhe obscurecer todas as lembranças risonhas do seu passado mediocre! Engracia comprou-lhe um pequeno cabrito, de pello lusidio e negro, um pequenino cabrito que fazia , , com uma voz tremida e saudosa, na qual talvez quizesse exprimir a saudade de seus companheiros, que deixára na liberdade incondicional das montanhas!

Todos os rapazes da visinhança, que já se davam muito com o Tone, lhe invejaram, desejando-a, a posse d’este animal, e não occultavam que, nos seus peitos infantis, se guardavam estragados sentimentos de cubiça! Acercavam-se do possuidor, dizendo-lhe em tom melifluo e condescendente, palavras agradaveis, de muita e sincera amisade, por meio das quaes desejavam captar-lhe a benevolencia. Porém, como elle resistia, afastando-se, altivo e orgulhoso, com o cabrito pelo baraço, que lhe atara ao pescoço, um dos amigos propoz-lhe de um modo astuto:

—Olha, se mo deixas levar a comer ali adiante, dou-te esta carapuça nova...

O Tone olhou com modo avido para a carapuça offerecida, que era vermelha e, depois de calcular mentalmente as vantagens, condescendeu:

—Pois sim, dá cá a carapuça!

Foram os dois e muitos outros, com o cabrito em grande distincção, festejando-o com alaridos, como um triumphador romano. Quando chegaram junto de uma poça, onde encontraram um pasto verde, que julgaram appetitoso, pararam, porque entendiam que o cabrito deveria comer. Para conseguirem isto, usaram de subterfugios infantis, escolhendo-lhe meticulosamente a melhor herva, que profiavam metter-lhe na bôca... Quando o animal, com os seus dentes finos, mastigava, levantava-se da parte das creanças uma expressiva satisfação, olhando para o animal n’um silencio attencioso e meditativo; todos deante d’elle, agachados, contemplando-o com veneração!...

Estes e outros factos similhantes, fizeram com que o Tone fosse esquecendo gradualmente o seu estreito passado. Como tinha os mimos de Engracia e as lisonjas cavilosas dos seus companhiros, principiou a desenvolver-se-lhe uma vontade forte, desejos impertinentes, certa irascibilidade e orgulho. D’entre os rapazes com quem brincava, só distinguia o Zé do sachristão; porque este lhe consentia o tocar o sino pequeno, a bambom, nas occasiões de enterro! E como o Zé na escola já escrevia debuxado e o Tone, apesar de ter oito annos ainda nem sabia as lettras, disse-lhe o do sachristão:

—Ó coisa, quando é que tu vaes com a gente p’ro studo?

O Tone respondeu-lhe com um desdem despresador:

—Eu não vou... Isso de studo não presta...

—Presta meu asno... Vae, e tu verás que presta. Começas logo na carreira do A.

—O que é a carreira do A?!—indagou o da Engracia, com modo suspeitoso...

—É a carta. Ai! tu não sabes! Olha, pede á tua mãe que te merque a carta, que é muito linda. Tem um gallo... é muito linda. Depois vae ao studo, que andam lá muitos rapazes. Quando não está o senhor mestre, a gente brinca ás escondidas, joga o talo na eira... Vae meu asno que é bonito.

Influido d’este modo pediu, n’esse mesmo dia, á mãe, que o levasse á escola. Engracia, para o não ouvir chorar, lavou-lhe logo a cara e conduziu-o a casa do mestre que era o senhor Antoninho Beiral... O senhor Antoninho Beiral, um rapaz forte, espadaúdo, alentado, era tambem o melhor caçador de perdizes da redondeza! Andára em Braga a estudar para padre, com o fim de succeder na encommendação a seu tio; mas não conseguira presbiterar-se, por ter desfeitiado um velho conego na pessoa de uma creada massiça e de rosto oval... Depois d’isto, cortada a carreira, retirou-se definitivamente para a sua aldeia, deixando crescer grandes barbas, andando pelos montes e por entre os milhos ás perdizes e ás moças... De vez em quando, para se desaborrecer, dava aula de instrucção primaria, pois era o professor official!... Os seus discipulos temiam-n’o; porque elle era severo e zurzia-os, com uma vargasta pelas orelhas ou com duzias de palmatoadas bem puchadas, quando os suppunha delinquentes! Se emquanto o senhor professor andava ás perdizes, elles se divertiam na eira, a jogar o talo ou ás escondidas, logo que persentiam ao longe o ladrar do podengo, arregimentavam-se pressurosamente para irem ao encontro do senhor Antoninho pedir-lhe a benção, do que elle os dispensava, passando de espingarda ao hombro, com um modo carregado e negativo.

No dia em que Engracia lhe levou o Tone, a mulher do Repolho teve de esperar que o senhor mestre viesse; porque andava no monte... Logo que chegou, viu Engracia, humilde, com o rapasito ao lado e perguntou-lhe com indifferença:

—Queria alguma cousa?...

—Se me fazia a esmolinha de me deixar entrar este pequeno cá para o studo—respondeu.

—Que idade tem?

—Oito annos.

—Traz a carta?

—É isto que comprei lá em baixo na tenda, senhor?

E mostrou-lhe, com o braço estendido, um pequeno folheto de capa de papel pintado. O senhor Antoninho, lançando-lhe um olhar infimo e despresador, concluiu:

—É isso mesmo, sim senhora. Deixe ficar. Olha rapaz, vae p’rá acolá.

E apontou-lhe a estremidade de um banco, onde o Tone, amedrontado e encolhido se foi sentar... Em seguida, o senhor mestre entregou a um discipulo a espingarda, para lh’a ir pôr na varanda, emquanto elle se foi sentar, de modo brusco e pesado, na cadeira professoral, onde se conservou silencioso, durante alguns minutos com a testa apanhada na mão esquerda!... Por fim, tirando de uma gaveta e collocando em cima da mesa, n’uma evidencia terrificante, a palmatoria disciplinar, indicou aos descipulos que n’esse dia, não passariam sem molho, como elle costumava dizer.

Mas o Tone da Rosaria não gostou d’aquelle studo: o mestre era brusco, tinha uma voz grossa, que repellia, uma cara rude, com muita barba. Na mesma tarde em que entrou para a escola, viu, com um semblante cheio de susto, que, o seu amigo, o Zé do sachristão, a unica veneração que o Tone tinha n’este mundo, foi severamente castigado com dois murros, levantando-se do chão a deitar sangue pelo nariz, só por lhe ter caido um borrão na escripta! O Zé chorou soluçando reprimidamente, desculpando-se, e ficou muito tempo no seu logar, a olhar para o manual, com os seus olhos vermelhos do chôro, fingindo uma penetração que não tinha. Por um movimento espontaneo e sympathico, o Tone foi ter com o seu amigo, para o consolar! Porém, o mestre, disse-lhe com uma voz estrondosa, que se fosse sentar... Elle obedeceu, encolhido de medo, como um cão escorraçado, e principiou tambem a chorar, soluçando...

Quando chegou a casa disse:

—Ora eu não quero mais aquelle studo...

—Porque?—indagou sua mãe.

—O mestre bate nos rapazes. O Zé da igreja verteu sangue pelo nariz e chorou muito...

—Mas tu has de saber a lição e o senhor mestre ha de ser muito teu amigo...

—Não quero ir mais... Elle bate-me e faz-me deitar sangue pelo nariz...

E não voltou mais. Quiz antes os seus devertimentos:—ir para o campo com os filhos dos lavradores que andavam com o gado e não estavam para aprender a ler, jogar o talo com elles, abrir covas á mão para enterrar pedras que fingissem de mortos, comprar aos outros gaitas, com o pão que levava de casa... O Tone andava quasi sempre acompanhado do seu cabrito, que elle mandava com ama voz exigente e imperiosa... Os seus amigos, para o desgostarem, desmereciam-lhe o animal. Porém, n’um dia, em que esse cabrito appareceu puxando um carro novo, todos os invejosos se submetteram. O Zé do sachristão que lh’o viu e lhe cubiçou, carro e cabrito, disse-lhe:

—Das-m’o, Tone?

—Não—respondeu energicamente.

—Pois tambem, quando quizeres tocar o sino pequeno, a repique nos dias de festa e a bambom nos enterros, não te hei de deixar...

—É o mesmo—respondeu com isenção.

O Zé propoz-lhe:

—Se me désses o carro e o cabrito, deixava-te tocar o sino e dava-te uma cousa muito linda que eu tenho...

—O que é?—indagou com os olhos muito abertos.

—É um ninho com cinco melrinhos...

—Isso não presta—desdenhou o Tone, cheio de soberba.

—Ai, não presta, tomaral-o tu! Os melrinhos já têem pennas, estão quasi a voar...

—E onde é o ninho?—indagou o dono do cabrito e do carro.

—Arreguilal-o—respondeu arregaçando a palpebra inferior do olho esquerdo. Querias saber; mas não chuchas. É n’um sitio...

—Vamos lá ver?

—E das-me o carro?

—Dou; mas tu has de me deixar tocar o sino no dia da festa, e das-me o ninho.

—Pois sim, então dá p’ra cá o carro. Amanhã não ha studo e então vamos tirar os melrinhos, que já são grandes!

—Eu quero hoje o ninho...—exigiu o Tone.

—Hoje vou p’ro studo, não posso!—desculpou-se o Zé, visivelmente infeliz.

—Não vás hoje ao mestre. Isso de studo não presta!—aconselhou o Tone desdenhoso.

—Ai, elle é o não vás hoje. E o meu pae? Não, que o meu pae, depois, bate-me.

—Elle não sabe. Gazeia hoje Zé...

E o do sachristão, para obter o carro, resolveu-se a gazear. Com elles ambos foram outros rapazes que tambem andavam na escola e outros que não andavam. Desejavam ver o ninho, que estava n’um carvalho, perto de uma poça, segundo affirmava o Zé.

Encaminharam-se por entre uns silvados. Como era no tempo das amoras, pararam muitas vezes para as colherem. Houve algumas bulhas, porque todos desejavam apanhar as que estavam mais maduras. Antes de chegarem ao sitio do ninho, passaram por umas cerejas que tiveram tentações de comer... Porém, como eram do padre Beiral, reconsideraram, com a lembrança de que o mestre, que era sobrinho do ecclesiastico, sabendo-o, os zurziria com a chibata de marmeleiro, que tinha encostada á parede, na aula. Quando chegaram ao pé do carvalho annunciado, disse o do sachristão:

—Olha, Tone, o ninho é ali.

—Deixas-me subir p’r’o tirar?

—Não senhor, que tu és muito pequeno—respondeu com orgulho, alongando os beiços. Podes cair e depois a tua mãe vem com aquellas...

—Deixa-me ir Zé, que eu não caio—insistiu o Tone, com voz de pedinte.

O do sachristão, para conciliar todos os desejos propoz:

—É melhor tu ires para cima dos penedos. Eu subo e dou-te o ninho para a mão. Queres?

—Pois então vá lá—rematou o da Engracia, concordando. Mas não dás a estes, não?

—Não, dou a ti...

Os companheiros, offendidos com esta exclusão, disseram orgulhosamente:

—Olhem, o diabo do asno! Tem medo que lhe comam a porcaria do ninho!...

O Zé do sachristão principiou a subir. Primeiro abraçou-se ao carvalho, depois encolheu as pernas, em seguida fincou o lado interno dos joelhos para se segurar, e por fim, o lado interno dos pés para se impellir... Quando se ia chegando ao cimo do carvalho, elevando-se assim, prudentemente, agarrou-se a um forte galho, segurando-se com presistencia. E disse para os que, debaixo, o seguiam attentamente com os olhos:

—Cá estão, os cinco melrinhos. Já tem penna.

—Dá-os para cá—disse o Tone de cima de penedo, relanceando um olhar despresador para os outros rapazes, que se conservaram afastados, n’uma reserva sensata e orgulhosa...

—Chega-te mais para cá—observou-lhe o Zé.

—Não posso mais—respondeu desconsolado, inclinando-se do penedo para o carvalho.

—Então levo-os eu para baixo. Se caem no chão morrem e depois tu não me dás o carro.

E principiou a descer, tendo previamente mettido no seio, os cinco melros pequenos. Como precaução, para os não esmagar, descia afastando o corpo do velho tronco do carvalho, agarrando-se tenazmente com as mãos e fincando os pés na casca nodosa. Quando chegou a baixo, disse mostrando os cinco passaros, que ia tirando um a um, de dentro da camisa:

—Toma. Agora dá cá o carro.

—Dá tu primeiro os melros—observou-lhe o Tone.

—Isso arreguilal-o!... Então, mão por mão, como os rapazes.

Todos os companheiros cercaram o possuidor dos melros, olhando-o com olhos seccos e avidos!...

Um pediu-lhe com um tom melodioso e humilde:

—Dás-me este melrinho, Tone?

—Não!—respondeu avaramente o da Engracia.

—Tambem eu te não dou uma cousa...

—O que é?

—Quatro botões amarellos de duzia, muito lindos...

E mostrou-lhe na palma da mão, para lhe causar inveja, quatro botões com armas reaes, que tinham sido furtados de uma antiga farda meliciana do avô. O filho da Engracia gostou muito dos botões amarellos de armas reaes, que valiam cada um, doze fôrmas! Por isso trocaram. O Tone deu-lhe um melro por todos, por isso ficou sómente com quatro, que metteu sensata e reservadamente dentro da carapuça, para os não opprimir e para lho’s não cubiçarem com os olhos. Os outros rapazes, com o fim de captarem a confiança do Tone, davam-lhe generosos conselhos:

—Sabes o que deves fazer? Dá aos melrinhos sopas de vinho—dizia um.

Outro offerecia:

—Ó aquelle, tu queres pão para elles, que eu dout’o? Olha que hão de ter fome...

E n’esta idéa caritativa, afastavam-lhes com os dedos sujos as mandibulas, introduzindo-lhes na bôca pão esfarellado, que os melros regeitavam.

Um dos rapazes teve esta idéa:

—Sabes o que os passarinhos querem? É beber.

Passava ali um regato que em baixo ía fertilisar um campo de herva. Na superficie da corrente, iam folhas verdes e guiços. As tenras plantas que tinham nascido no logar onde corria a agua, curvavam-se obedientemente, à sua passagem. Porém, nos momentos em que a força da corrente era menor, erguiam-se com orgulho, retomando a sua posição habitual. Os rapazes, quizeram dar de beber aos melros n’este regato. Para isso mettiam-lhe o bico na agua, empregando um esforço meticuloso e cuidado. Porém elles, assim, não bebiam bem, e o Zé do sachristão, que tinha onze annos, disse com voz emphatica:

—É que os melrinhos não sabem como se bebe, meus asnos? Ensinae primeiro aos animaes como se bebe!...

Este alvitre foi adoptado e, para conseguirem o fim desejado, lembraram-se de imitar, o modo como presumiam que os melros velhos dariam de beber aos seus filhos. Tomavam a bôca cheia de agua e introduziam o bico de cada passarito entre os beiços. Porém, como d’este modo ainda não bebiam, abriam-lhe de novo as mandibulas á força, e com uma palha molhada na corrente, deixavam lhes cair gotas na garganta. Mas este processo era demorado, a paciencia infantil esgotou-se e o Tone, para andar mais rapidamente, metteu debaixo de agua a cabeça de um dos melros, ao qual se encarregara de dar de beber e afogou-o, principiando depois a choramingar. O Zé possuidor do carro, disse com desconfiança:

—Sim, matta-os e vem cá para eu te dar o carro que has de vel-o por um canudo!...

Na realidade, o filho da Engracia achava-se descontente com a troca e principiava a pedir outra vez o seu carro e o seu cabrito. O Zé respondeu lhe:

—Isso é que não! Quem dá e torna a tirar ao inferno vae pagar!

E ao pronunciar estas palavras cabalisticas, fez no ar uma cruz de maldição, com a mão em gume, afastando-se com o cabrito e com o carro.

O sol ainda ía alto e os rapazes, para gazearem correctamente, deviam chegar a casa ás horas a que poderia ter terminado a escola. Para se entreterem mais algum tempo, lembraram-se de jogar o botão. A sorte marcou o rei e o fossa—o primeiro e ultimo a atirar á buraca; porque foi este o jogo preferido. Era n’uma encruzilhada de dois caminhos, onde havia um cruzeiro. O Zé do sachristão e os outros maiores, tiravam das saccas que traziam ao pescoço, por dentro da camisa, as fôrmas... O Tone conservava-se triste, a certa distancia; pois que, antes de principiarem á buraca, já lhe tinham ganho os botões amarellos, á parede. Com o fim de obter mais fôrmas para poder jogar, teve que vender ao Teixugo os melros por duas duzias. Porém, no momento em que estavam verdadeiramente presos n’este entretenimento ambicioso, ouviram uma voz tremenda que lhes bradou de cima do muro sobranceiro, com uma ironia terrificante:

—Sim senhores, lindos meninos! Então uma gazeadella, ein?!

Era o senhor Antoninho, que ali apparecera casualmente, andando á caça! Quando o mestre suppunha que aquelles discipulos o estavam esperando na eira como de costume, vae-os encontrar ali a jogar o botão!... Os rapazes ao verem-n’o, olharam-se repassados de um terror estupidificante, ficando n’uma coacção espasmodica! Os musculos faciaes permaneceram n’uma regidez tetanica, e os olhos, muito abertos, fixaram-se, com uma insensibilidade apparente, no senhor professor! Porém, quando este se dispunha a descer o muro para os punir a murro, elles seguiram o instincto salvador!... Fugiram, deixando o carro, o cabrito, os melros, as fôrmas e... tudo! O sobrinho do padre Beiral ainda lhes gritou de longe, iracundo:

—Andae meus grandes marotos, que ámanhã vos ensinarei. Assim é que se vae á escola?! Ella vos saberá ao alho, a gazeadella! A pelle das vossas mãos é que o ha de pagar!

Depois de mais os não ver, pegou nos melros, estorcegou-lhes o pescoço, metteu-os no bolso, e disse para si, com mais reflexão:

—Sempre servem para um arroz!...

E foi indolentemente, pelo caminho adiante, assobiando, com a espingarda ao hombro.