O EMBARCADIÇO
Miguel Timão era um homem corpulento, de feições energicas e leaes. Em linhas pontilhadas, de um azul indelevel, tinha no braço direito um navio com o seu velame e no esquerdo um signo-samão. Partira da sua aldeia descalço, por uma crua manhã de geada, com toda a roupa n’uma pequena trouxa, enfiada n’um pau!... Seu pae, a este tempo, era um cego que vivia da caridade... Na aldeia não havia ganhos... Foi por isto que elle, na companhia de outros emigrantes, foi pelo mundo fóra, procurar fortuna... Ah! como a sua alma boa e generosa estremecia alegremente com a idéa consoladora de ganhar dinheiro para sua irmã Catharina, e para seu velho pae cego!...
Andou por lá muitos annos sem dar noticias... Na terra chegaram a esquecel-o, suppunham-n’o morto... O padre Beiral, que lia as gazetas, vira, entre as victimas de um naufragio, o nome de um Miguel... Não podia ser outro. Catharina chorou um dia inteiro e deitou lenço preto... Porém, este convencimento foi precipitado; porque, o rapaz, não morrêra, apesar de ter passado muitos annos n’uma vida trabalhosa, cheia de incertezas e de perigos, no meio dos quaes nunca poude esquecer a sua pequena aldeia, risonha e distante.
Durante largo espaço de tempo, correu uma boa parte do mundo e foi todas as cousas que um homem rude pôde ser:—acompanhou um inglez no Egypto e na India; foi soldado nas republicas hespanholas da America, entrando em muitas conspirações; foi carroceiro no Brazil; e, durante os ultimos vinte e cinco annos, andou embarcado, percorrendo grande numero de portos do mundo, ouvindo todas as linguas e conhecendo homens de todas as côres...
Á sua organisação temeraria convinham as incertezas de amplo mar, mysterioso e amigo... Uma vida accidentada, com alegrias e desesperos, mas sempre com dinheiro no bolso, quando saltava em terra, eralhe sympathica! Tambem agora, depois de velho, n’estas noites chuvosas da sua aldeia, Miguel tinha sempre que contar aos seus conterraneos, que o escutavam absortos e pasmados. No entanto, de tanta aventura extraordinaria, aquella que mais os impressionava era a de o maritimo ter comida carne de gente! Apesar da circumstancia attenuante da fome a bordo e da morte irremediavel para todos, as velhas beatas da aldeia acreditavam firmemente que, o filho do cego, não poderia ter na outra vida um destino bemaventurado...
O que mais os horrorisava era, de certo, a serenidade com que o irmão de Catharina descrevia este enorme momento de desespero, tirando longas fumaças do seu cachimbo requeimado!... Fôra no alto mar, na soberba amplidão infinita, com o céu misericordioso e azul sobre a cabeça... O navio, depois de uma tormentosa viagem e quasi sem mantimentos, teve uma calmaria no mar das Indias, boiando, monotonamente, como um cetaceo morto, durante semanas... Por baixo o mar immenso, sem ondulações providenciaes, liso como a superficie de uma poça, guardando, no seu amplo ventre poderosos animaes, que poderiam sustentar durante tempos a população da Terra... De noite, alguns d’esses peixes vinham á superficie da agua, attraídos pelo brilho das estrellas, pelo pharol de bordo e pela frescura relativa do ar. Gasta a ultima ração de arroz e de bolacha, todos os marinheiros tiveram a heroica firmeza de não comer em tres dias, esperando um soccorro fortuito! Em vão clamaram pela Infinita Misericordia! Em vão tiveram dedicação e coragem!... A Fome Implacavel, como um demonio sinistro, já os fazia estorcerem-se no convez com dôres cruciantes nas entranhas! Sentenciaram-se dois, á sorte, para alimentarem os restantes! Que valentes e bravos companheiros, esses rapazes de trinta annos! Nunca a coragem tomou uma fórma mais sublime e sympathica! Nunca a resignação na morte foi mais austera e imponente! Foram elles mesmos que, risonhos e conformados, abriram as proprias veias, para morrerem! Só quatro dias depois d’este acontecimento horripilante é que, os sobreviventes, avistaram um vapor que vinha da China e os rebocou para Madagascar!...
Outro navio, dos muitos em que embarcára, naufragou no golpho do Mexico! Era de um contrabandista andaluz, que fazia o seu commercio no mar das Antilhas. O dono da embarcação ía a bordo, e vendo diante dos olhos as guelas medonhas do mar, promettia a quem lhe salvasse a embarcação, casal-o com sua unica filha, uma rica herdeira sevilhana!... Porém, o mar estava picado que nem um inferno, e tudo se perdeu morrendo todos n’aquella escuridão tormentosa!... E um rapaz de aldeia, que escutava a narrativa, tranzido de susto, observou com voz timida:
—Mas o tio Miguel não morreu...
—Morri, sim, senhor, seu palerma! Quem te disse que não morri!?...
E ficou a olhar para todos que ouviam, com uma viveza estupefaciente!
Por fim, depois de uma vida cheia de aventuras perigosas, teve uma prolongada doença, que o deteve por dois mezes n’um hospital americano. Foi em S. Francisco, na cidade maravilhosa e quasi phantastica, celebre pelas suas ricas minas de metaes preciosos, d’onde, provavelmente, foi colhido o ouro com que se fabricou essa gargantilha com que vossa excellencia adorna o seu formoso pescoço, minha bella senhora! Aos seus quatro districtos aurificos—o da California—a lendaria California!—o de Idaho, o da Nevada, e o de Varhoe—concorrem todas as extravagantes ambições do mundo moderno, principalmente os ricos judeus e os miseraveis chinezes que ali vão trabalhar! S. Francisco, que domina estas regiões do sonho, é uma das mais modernas, de entre todas as grandes cidades americanas, pois que principiou a povoar-se em 1848, quando appareceu aquelle bocado de ouro, no moinho do capitão Sulter. Tem hoje mais de duzentos mil habitantes e os seus famosos ladrões, e os incendios criminosos que ali houve ainda ha pouco espantaram o mundo inteiro! S. Francisco é uma população cosmopolita, que falla inglez e vive n’uma cidade com nome hespanhol, tão maravilhosa e incomprehensivel para um pacato europeu, que, quando foi da guerra da Independencia, o celebre doutor Belows, presidente do conselho de saude, convocando um meeting a favor dos feridos, fez um discurso e vendeu os apertos de mão a dollar, sendo tantos os dollars que lhe caíram para dentro do chapéu que, o philantropo medico, teve o braço esquecido por oito dias! É uma cidade que não tem nem os pobres immundos e obscenos das ruas de Lisboa, nem os garotos vivos e espertos que se encontram em New-York e Londres!... O seu luxo é de tal ordem que, a vida ali, é dez vezes mais cara do que em Paris!
Miguel Timão, minhoto e sagaz, conservava d’esta cidade nova, levantada pelo enorme poder do ouro, uma impressão energica! Depois de ter percorrido a maioria das cidades maritimas do mundo, em nenhuma vira tanta sumptuosidade e opulencia! Aqui, as vaidades materialistas da civilisação moderna, impõem-se com uma soberba que deslumbra! Talvez, pelo estonteamento que produzira n’este homem obscuro um mundo tão febricitante, elle teve um dia como a reclamação subita de um sentimento perdido, e na sua mente appareceu o quadro pacifico da sua pequenina aldeia, tão sympathica e inundada de luz.
Foi n’esse tempo que, uma das febres endemicas n’aquellas regiões irregularmente humidas, o accommetteu de subito, com um longo calefrio, que o prostou n’um estado comatoso!... Recolheram-n’o ao hospital e, até terminar a convalescença, passaram-se aproximadamente dois mezes!... Durante este periodo de inactividade forçada, a sua memoria principiou a resuscitar-lhe o passado!... Era a primeira vez que estava doente! Alquebrado e enfraquecido que poderia fazer!? Com os elementos dispersos, que o seu pensamento lhe ía trazendo, pouco a pouco formava os quadros da sua vida infantil. As figuras dos homens que então conhecera, as raparigas com quem brincára, appareciam-lhe com um sorriso feliz e benefico, acompanhando-o n’estas distancias... Via-os como os deixára, porém, considerava que deviam estar mais velhos... que muitos teriam morrido... Não fôra elle tambem novo e forte, e não estava agora coberto de cabellos brancos e com rugas serpeando-lhe no rosto?! O tempo não corre debalde, e muitas das pessoas em quem pensava, estariam enterradas n’aquella pequena igreja caiada, que se lhe representava na imaginação!... Tudo isto lhe condensou no espirito o firme desejo de voltar á sua terra... Tinha algum dinheiro e, logo que se encontrou restabelecido, pensou em tomar o primeiro navio que viesse para as costas de Portugal ou de Hespanha. Assim o fez, embarcando com a saudade insoffrida de um rapaz de vinte annos!...
Era um domingo de primavera o dia em que entrou na sua aldeia... O céu azul, a pureza do ar, a alegria dos campos em flor... lançavam-lhe na alma enthusiasta vibrações de uma harmonia complexa e guerreira. Do intimo da terra saíam musicas genesiacas no aspecto da paisagem enebriante. As flores roxas e brancas das macieiras e das cerdeiras abriam-se em leques multiplicados sobre os campos verdes d’onde sobresaia o branco virginal dos malmequeres, a côr serena das violas, o vermelho sanguineo das papoulas bravas... Os trigaes viçosos palpitavam com o seu crescimento gradual, entre as largas manchas escuras das recentes searas de milho.
As raparigas cantavam nos campos, atraz dos seus bois de cornos retorcidos que pastavam, fiando as estrigas da tarefa. A temperatura de um tepido parasidiaco e sensual enlanguescia, produzindo sensações dominadoras, fazendo comprehender os movimentos fecundantes da seiva universal!... Era um estonteamento de vinho forte o que subia á cabeça rija do velho maritimo, que caminhava lento e absorvido, reconhecendo todos aquelles logares queridos da sua infancia! Os olhos humedeciam-se-lhe de lagrimas, e o contentamento e a felicidade que lhe percorria ao longo dos nervos, entorpeciam-n’o... Os homens e as raparigas que passavam, interrogavam este desconhecido com olhares insistentes...
Quem será este homem, que caminha dando sacudidellas aos hombros e que tem o andar de um borracho!?...—pensavam.
Então elle parava para lhes perguntar numa entonação estrangeirada:
—Conheceis a Cathrina, filha do cego da rocha?
Conheciam perfeitamente; mas não era nenhuma rapariga. Muito pelo contrario, a mulher que tinha esse nome mostrava-se já muito velha, corcovada e doente... A sua vida era esmolar pelas aldeias e dormia por caridade n’um palheiro do padre Beiral. Mas espantavam-se que o desconhecido principiasse a chorar com estes esclarecimentos e perguntavam-lhe compadecidos:
—Quem é você, hominho? Para que quer saber da Cathrina, e chora?
Mas o homem da barba branca, que andava como um desengonçado, não lhes respondia e continuava a caminhar para a residencia que se via d’ali, na encosta, ao pé da igreja. Levava ao hombro, enfiado n’um pau, uma mala de couro e umas botas de canos... Este modo de andar aos solavancos impressionava os que o viam... Não podiam saber quem fosse e ficavam a olhar uns para os outros!... Mas quem o reconheceu, mesmo antes d’elle fallar, foi Catharina, que se lhe agarrou ao pescoço, chorando e repetindo muitas vezes:
—Meu rico irmão, como estás velho!
E Miguel, o valente marinheiro temerario, deixou caír ao chão a mala e as botas, dizendo por entre soluços:
—E tu como estás acabada, mulher! Como te venho encontrar!
Mas depois, como Miguel trazia algum dinheiro, que juntára cuidadosamente para esta eventualidade de voltar á sua aldeia, resolveu-se a comprar a mesma casa onde nascera, a qual seu pae tinha vendido por causa da longa cegueira em que viveu. O padre Beiral ajudou-o. A casa era velha e pequena; mas o campo adjunto era largo e magnifico terreno...
O espirito do maritimo principiou a sentir um renascimento, a remoçar-se, a ter os alegres impetos da mocidade. Era aquella a mesma paisagem que sempre vira até aos vinte annos. Havia o mesmo musgo nas mesmas paredes; a mesma hera segurando as pedras dos muros esbarrigados; os mesmos penedos no alto do monte sobranceiro á igreja, manchavam o azul intenso das tardes primaveraes; as sebes de silvas, cobertas de folhas perpetuas e de amoras, embeiravam os campos e caminhos; e, finalmente, na frontaria da igreja ainda estava quebrado o mesmo vidro, como no dia em que elle partira! O que encontrava de differente no longo espaço de trinta annos? Muito pouco: o cypreste do adro tinha crescido e até envelhecêra; a carvalheira do pé da fonte, que tres homens com as mãos agarradas não podiam abraçar, estava carcomida, porque fôra queimada por um raio; as tres casas novas, caiadas, que se distinguiam de longe com as suas claridades vivas, e cujas vidraças scintillavam com o sol poente, tinham sido levantadas por uns brazileiros ricos, um dos quaes tambem presenteára a Nossa Senhora da igreja, com uma lampada de prata, que causára inveja ás outras Nossas Senhoras da visinhança. Mas, de todos os factos que permaneciam, e que Miguel tanto estimava, aquelle que o chocou de um modo energico, aquelle que o penetrou em todo o seu ser com uma força omnipotente, foi o toque do sino grande da igreja, que ainda era falhado como d’antes!...
Quando agora o ouviu pela primeira vez, depois de tantos annos, eram trindades e estava comendo uma posta de bacalhau á lareira do Beiral. Deixou caír o garfo de ferro, ficou a olhar com um modo estupido, e as lagrimas corriam-lhe pelo rosto enrugado! Oh! era aquelle o mesmo som, que o accordava nos domingos despreoccupados da sua vida passada!...
Por todos estes motivos, o embarcadiço resolveu morrer na sua aldeia!... Estava velho, ainda que robusto; as fadigas e os trabalhos por esse mundo fóra tinham-no gasto muito. O mar... o mar para elle já não podia ser senão uma sepultura!... Uma grande sepultura decerto; mas, sepultura por sepultura, tinha ali uma na igreja que era mais perto, ainda que mais humilde. Ficava ao pé dos ossos de sua mãe que não conhecera, e de seu pae que não tornára a ver!... Resolvido isto de um modo terminante, principiou a interessar-se pela historia local, pela monotonia da conversa dos visinhos, a quem elle espantava com os successos da sua vida curiosa. Vieram-lhe tambem os desejos de grandes emprehendimentos agricolas—quiz cultivar o seu campo. Plantava hortaliças que mandava vender á villa, semeava batatas, colhia quasi um carro de milho, uma meia pipa de vinho e tinha muita fructa. Os seus melões e melancias davam-lhe orgulho—mandava-os vender ás romarias, onde já tinham nomeada e eram preferidos aos dos outros cultivadores! Tambem não admira, pois que lhes dedicava muito tempo e amor—regava a tempo, mondava-os com sagacidade, regulava-lhes o sol de um modo conveniente... O padre Beiral disse-lhe um dia, que não se fallava nas gazetas de que houvesse, em qualquer parte do mundo, outros melões como os d’elle. O Timão, orgulhoso e confundido, respondeu:
—Isso, senhor, é da semente e da Senhora da Bôa-Viage a quem os encommendo sempre!...
Mas havia na aldeia uma malta de rapazes, que tinham por brazão não deixar segura qualquer fructa boa, no quintal de quem a tivesse. Estes meliantes, n’esse anno em que o sacerdote gabou os melões, projectaram ir proval-os de noite. O Timão já andava com a pedra no sapato e, para os prevenir, disse um domingo no adro, ao saír da missa, fallando bem alto para ser ouvido, «que se alguem lhe fosse ao meloal o racharia de meio a meio!»
O Tone da Engracia incitou-se com esta ameaça e propoz um assalto á fazenda do embarcadiço... Poderiam ir n’uma noite escura, com cautelas premeditadas, para não serem presentidos... Desceriam do muro de vagar, por uma corda presa a certo carvalho, para não fazerem baque no chão...
O meloal era muito perto da casa, n’um recanto soalheiro, onde podiam á vontade ser meticulosamente vigiados... O Miguel Timão tratava-os com tantos cuidados, que até para lhes tirar a sombra baixára uma videira antiga, dirigindo-a para uma latada, junto ao muro... De manhã cedo, ainda o sol vinha em casa de Deus, já elle, em mangas de camisa, andava contando as boas melancias rajadas, que deixára na vespera, e os optimos melões apimentados assentes sobre folhas, para não apodrecerem com a humidade da terra.
Alegrava o espirito, consolava, vêl-o assim de barba branca, este velho robusto e musculoso, trabalhar com amor, assiduamente, no seu campo, incluindo n’esta preoccupação toda a sua alma e todo o seu tempo... Oh! os rapazes que pensavam em roubar-lhe os melões, decerto se arriscavam muito! O velho Timão levado por mal seria um demonio, em convulsões de desespero!...
Mas o da Engracia, o Teixugo, o Cambado e o Telhas, não se preoccupavam com medos e sómente commentavam com antecipação, a grande risota que se produziria em toda a gente, quando soubessem que aquelle papa-gente tivera, ao seu tão gabado meloal, um inesperado assalto! A não ser o Telhas, os outros, não pensavam em qualquer risco. Sendo alta a noite e bem escura, o embarcadiço estaria a dormir profundamente! Se, ainda tivesse um cão, podia haver receio; mas, o imprevidente velho, dizia muitas vezes que um bom cão era elle!
Quando chegou a noite do sabbado combinado, o Telhas, que era cagarola, ainda disse... assim com um modo engulhado:
—Home, e se elle nos pilha?!
Esta phrase denunciava quanta impressão, diante da mente espavorida d’este rapaz, produzira o quadro terrificante do Timão, n’um canibalismo infimo, mastigando os seus companheiros de infortunio, na desesperada fome que soffrera no mar das Indias! O Tone irritou-se com esta covardia despresivel, chamou fracalhão ao Telhas, que lhe respondeu com um modo prophetico e despresador:
—Olhem o valente! Tamem quero ver, quando te vier um balasio pelos queixos, se não ficas de cara á banda!...
Mas o da Engracia engulia balas—não tinha medo nenhum d’ellas! N’essa mesma noite, estavam resolvidos, foram. Mas, como não queriam ser engarampados com alguma arriosca, ao chegarem ao sitio, caminharam instinctivamente com certa prudencia... O embarcadiço era um velho rijo, que não tinha medo da morte, porque a vira muitas vezes diante de si. Não se importava de matar um ladrão, arriscando-se a ir por uma barra fóra; pois andar por lá sempre fôra sua vida. Com uma navalha de tres estalos e um bacamarte de bôca de sino, costumava fazer ameaças abstractamente, dizendo:
—Aquelle que m’as fizer estiro-o. Ainda seis centos mil raios me partam!
A beata Vicencia, quando lhe ouvia esta jura, recuava berrando:
—Abrenuncio! Santo Nome de Maria, que nos póde vir um grande castigo por causa d’este excommungado!
O Timão retorquia-lhe com olhar de piedade:
—Calla-te minha papa-hostias. Bons castigos soffri eu por esse mundo.
Porém, o plano de roubar o meloal estava estabelecido, os rapazes não trepidaram. O da Engracia é quem saltaria dentro, para encher o sacco. O Teixugo e o Cambado ficariam no caminho, de vigias; o Telhas em cima do muro. Á meia noite o Tone desceu do muro, cautelosamente ajudado pela corda presa ao carvalho, para não ser presentido... Quando assentou os pés na terra defendida pela navalha hespanhola e pelo bacamarte de bôca de sino, estremeceu involuntariamente!... Sentia, dentro em si mesmo, uma opposição, á qual resistiu com toda a força da sua energica vontade. Talvez desejasse retroceder; mas atraz de si, em cima do muro, estava o Telhas, a quem chamára fracalhão, e que logo que o viu um momento parado e apurando o ouvido, lhe disse com uma ironia perceptivel:
—Home, não tenhas medo. O velhote dorme como um porco.
O rapaz encorajou-se subitamente, levantou a cabeça com orgulho e começou a andar com certa resolução temeraria. Na profundidade da noite tranquilla, serena e sem luar, ouvia-se o cochichar subtil dos vigias, o som gemebundo e extenso de dois sapos, o ruido estival, permanente e continuado dos ralos!... Um grande morcego manchou a limpidez do ar com o seu vôo largo, produzindo um silvo. A pequena casa do Timão ainda se percebia ao fundo, por entre as arvores de fructa, como uma massa confusa. A escuridade e o silencio augmentam sempre o medo, e no cerebro do Tone da Engracia, as idéas principiavam a atropellar-se, a confundir-se, a tomar fórmas...—diante dos seus olhos, configuravam-se homens aggressivos. Por isso elle tornou a parar no meio do campo! Então sentiu-se n’um isolamento mais completo, como o do alto mar!... Por cima o céu limpido, as estrellas com movimentos crepitantes de luz, a amplidão cheia de uma sombra grandiosa...—um certo palpitar da natureza que o subjugava! A pequena distancia, em cima do muro, o Telhas, como uma reprehensão sempre viva. Qualquer manifestação de receio, de pavor, que sarcasticas censuras não encontraria?! No entretanto, n’este instante nervosamente inexplicavel, a figura do velho marujo endurecido nos trabalhos e nas difficuldades, appareceu-lhe na imaginação, com uma realidade que feria! N’este momento o Telhas tossiu ao longe! O Antonio estremeceu e teve um calefrio ao longo da espinha! Estas duas circumstancias, bem diversas, deram-lhe o impulso definitivo, e o Tone começou a caminhar ousado, direito, altivo e até insolente! Passando por entre as hervas e calcando as folhas seccas fazia um ruido imprevidente... Que lhe importava a elle que apparecesse o velho maritimo! Aquella tosse casual de um dos seus companheiros teve nos seus ouvidos uma ressonancia ironica, aguilhoara-lhe a vaidade, restituira-lhe a sua coragem e temeridade habituaes.
Entrou no meloal. Principiou a agachar-se muitas vezes, para escolher o que havia de melhor. Estava apparentemente sereno, não temia ninguem. Levantava os melões para os suppezar, para os levar ao nariz pelo lado do pé com o fim de lhes apreciar o adiantamento da maturação. Affastava as folhas largas, carnosas, recortadas das melancias...—queria escolher as mais sazonadas. O que lhe ía servindo cortava rente pelo pé, e logo ía depositar, a dois passos, no carreiro junto do sacco. N’um d’estes instantes, o silencio da amplidão foi cortado por um chiar de gonzos prudentissimo... O Tone levantou a cabeça á escuta... Não percebeu mais nada: talvez fosse a passagem de algum noitibó por entre a ramagem das arvores. A escuridade não o deixou ver a cabeça do Timão, que appareceu ao postigo, escutando... O da Engracia continuou. Mas, quando tinha cortado mais um melão e que o ía levar... sentiu certa difficuldade em mover um pé!
Empregou impensadamente um esforço mais energico para vencer esta opposição; porém, sem logo perceber porquê, caiu redondamente no chão, de bruços, produzindo na quéda o baque de um corpo sem vida!—tinha os pés presos n’um laço intelligente, armado pelo marinheiro, para agarrar um ladrão presumptivo. O temerario rapaz deu um grito e esforçou-se logo por se levantar, colleando como uma cobra ferida na cabeça!... Porém, soccorrel-o, era impossivel. Os companheiros, atterrados pelo som do bacamarte de bôca de sino que o embarcadiço disparou para o ar, fugiram, tendo ainda tempo de ouvir esta phrase temerosa:
—Seus grandissimos ladrões, que os mato!
Taes palavras e aquelle tiro disparado com um fim theatral, produziu o effeito previsto. Os companheiros do Tone, julgando-o talvez morto, abandonaram-no. O Miguel Timão, que saíra da casa com grande rompante para espantar os que estivessem, chegou-se ao que jazia no chão, e disse-lhe com ar de troça:
—Então sempre caíste melrinho?! Deixa que eu t’o digo já. Ha-de-te ficar de escramenta.
O da Engracia, completamente submettido, pediu:
—Ó tio Miguel, não me faça mal, que eu não torno...
O marinheiro não lhe fez mal. Tambem lh’o estava pedindo sua irmã, que era muito obrigada ás esmolinhas, que a tia Engracia lhe fizera em tempos precisados. Porém, apesar dos esforços de raiva e das supplicas, o velho maritimo não prescindiu de enlear bem enleado o seu preso e de o ir collocar no caminho, com o fim de ser solto pelos primeiros misericordiosos que passassem para os campos! E ao deixal-o fóra do muro, disse-lhe:
—Prá outra vez, se cá voltas, ha de ser peor. Entendes?
Depois retirou-se, não cedendo mesmo á intervenção a favor do adoptivo da Engracia, feita por sua irmã Catharina, que lhe pediu para o desamarrar, e a quem respondeu:
—Sabes que mais?! Bae bugiar. É uma ensinadella.