A TRUTA GRANDE

Lá está o padre João, a dormir na sua cadeira de braços, debaixo da fresca lata! Peito ao léo, as abas do amplo casaco de lustrina pendentes, breviario para um lado, lenço para outro, caixa do rapé na mão, o ventre arfando pausadamente... É todos os dias assim, depois de jantar, no tempo dos calores. Para avaliar a tranquilidade de certas almas, é melhor sentir-lhe a respiração suave, do que ler, tudo quanto pensadores e casuistas, tem escripto acerca de moral. E julga-se um homem accordado, o sereno eclesiastico, pois regouga palavras incomprehensiveis! Em que bello paiz de sonhos trabalhará a sua ideia?! Sorri-se, o labio papeja-lhe de contentamento... É que está á borda do rio, a canna de pesca firme, o olho interessado, a respiração silenciosa. Rabea-lhe em volta da isca e em breve a morderá, o peixe guloso e estupido. A superficie da agua é serena. A transparencia deixa ver o fundo limoso e, talvez, a truta grande, com a magestade do seu nadar, passe altiva, a distancia.

Ah! magnifico padre João, como estaes evidentemente enganado! Os tremulos e repetidos puxões que vos agitam o corpo, ebrio de goso, não são do peixe a depennicar na isca, são as gallinhas em cata de moscas. Ellas é que vos tiram pelas abas sebentas do casaco de lustrina, querido e obeso, padre João!...

O dia era d’agosto e bem quente. Atmosphera tremula e translucida, como se fora de crystal fundido. No rio, as lavadeiras entoavam canticos religiosos aprendidos com os missionarios e modas profanas colhidas dos cegos que passavam. Nos campos em redor, áquella hora, não havia murmurios do trabalho, pois já tinham acabado as sachas e as mondas. As regas, essas faziam-se de noite. Eram duas da tarde e entram no quinteiro os discipulos do latim. Ao verem o respeitado mestre, tão docemente adormecido, deixam-no em paz e vão gazear para os lados do rio. O porco foi menos condescendente. Tardava-lhe a lavagem e principiou a grunhir em volta do quinteiro, parando com o focinho erguido para a cosinha. Este barulho espertou o excelente ecclesiastico. Primeiro abriu um olho, depois outro, conservando-se alguns minutos em contemplação, mãos crusadas sobre o ventre. Parecia contar detalhadamente os doirados cachos que formavam um docel sobre a sua cabeça! Por fim ergueu o tronco considerando:

—Então não me ia deixando dormir?! Pois não é o meu costume. Ó Luiza!—chamou repetindo tres vezes.

Uma voz de dentro da casa respondeu:

—Não posso lá ir. Estou a arranjar a lavagem. Não ouve o pórco?

—Tem piedade de mim, moça—exhorou o padre João. Tenho esta bocca como um pau velho.

—Tambem, está sempre com seccuras!

Mas a rapariga compadeceu-se. Primeiro que tractasse do porco foi á adega, trouxe uma infusa de vinho, collocou-a desceremoniosamente no chão, juncto do amo que disse:

—Deus t’o pague mulher! Deus t’o pague! Se não fosse isto, nem hoje podia dar lições.

Com sorriso beatifico, pegou na infusa, repimpou-se na cadeira e começou glou, glou, glou... até um final de saciedade, que consistiu n’um prolongado ahhh!...

A creada, voltando com a lavagem, disse:

—Já ahi vieram os estudantes, mas como vocemecê estava de papo p’r’o ar, lá se foram derriçar co’as raparigas p’r’o rio. Não lhe tem respeito nenhum—censurou.

—Que respeito queres tu que me tenham?! Deixa-os lá, esta vida são dois dias. Gostam das moças? Tambem eu já gostei... e ainda gosto—concluiu arregalando olhos bregeiros.

—Um padre velho, sempre falla d’um modo...

—Historias! Velhos são os farrapos. Vae-me chamar esses estudantes. Se não aprendem latim, não serão nada. Latim é a base. Vae-os chamar, anda.

E acabou de emborcar o resto da infusa, com um beber sereno de satisfação. A creada reprehendeu-o:

—Todo elle é vinho. Quando não está, p’ra lá caminha.

—O que, bebedo? grandissima cachorra. É coisa que nunca me viste, mentirosa. Gosto da pinga e de ti; mas não me embebedo com estas coisas.

—De mim! Arreda, que me quero casar.

—Com esse garotaço que te namorisca? Has-de casar sem banhos, nem benção, eu t’o affianço. Vae-me alli chamar os estudantes, anda.

—Vá você, que tenho a massa a aziumar. Se hade tornar a adormecer...

Luiza subiu a escada de pedra para a cosinha. O padre João levantou-se sem resistencia, sahiu o portal e foi pelo carreiro abaixo, com o lenço vermelho a resguardar-lhe a cabeça, do sol. Chegado á margem do rio, lá viu os discipulos brincando com as lavadeiras. Muitas d’ellas levavam a coisa de galhofa; outras enxotavam-nos com pragas. O professor não se encolerisou, apesar de alguns estarem a fumar—o maior de todos os vicios, e que elle odiava do fundo d’alma. Toda aquella alegria e mocidade lhe arejou os sessenta annos. Enamorado da juventude, quedou-se a contemplar o quadro cheio d’animação. Benevolo e risonho, fatiava comsigo mesmo.

—Não querem ver como se arreitam? Ora, ora, já a formiga tem catarrho!...

Levava o lenço ao nariz para enxugar o pingo da distracção. Escondido por detraz d’um choupo, interessava-se na contemplação d’este quadro virgiliano. Absorvia a fundos haustos o ar impregnado de terriveis prazeres, que lhe revolviam os nervos. Recuava quarenta annos, ao tempo das rapasiadas, dos bons acasos, quando apalpava contornos e sentia na approximaçâo da carne, coisas de mil demonios. Talvez que ainda recuasse mais, á famosa edade em que a imaginação trabalha inquieta, creando gozos, adivinhando extasis e vive de imperiosos desejos, que entumescem. A physionomia graciosa do padre João, expandia-se á vista do quadro simples e primitivo—o beiço tremulo revelava o seu interior. A paisagem era encantadora, a corrente da agua arrepiava-se nos seixos; na mente do mestre de latim só podia haver quadros pittorescos de antigos faunos, a rirem juncto de fontes, em florestas edylicas.

—Olha o Esteves—commentava—como repara nas pernas da Clementina! Grandissimo tratante! Talvez não saibas o Sum, és, fui e estás ahi com esses olhos. Como já tem malicia! Mas que maliciasinha! mas que maliciasona!

Limpou precipitadamente outro pingo. Humedecia os beiços com a lingua, como o guloso de bellos manjares. Tudo aquillo o interessava. Sentou-se na relva por traz da arvore. Tomou uma abundante pitada, fungada em tres tempos, com todas as precauções para que o não presentissem.

—Ahh!!!...—respirou.

Queria ver onde aquillo chegava. Não podia ser grande coisa, estava muita gente, as mulheres velhas são experientes. Alguma apalpadella, um empurrão, talvez cocegas para fazer cahir as raparigas. Lá adeante, no meio do salgueiral andava a Victoria a estender a roupa e cantava o Afasta, janota, arreda. O padre João via-a pelas costas, o tronco inclinado sobre a relva, as ancas largas, as rijas barrigas das pernas, á mostra. Rapariga saudavel, muito alegre, amplo seio destinado a fecunda maternidade. Disiam que namoriscava o filho do sachristão; mas de quem ella parecia gostar verdadeiramente, era do praticante da botica, que lhe dava fartura de banha de cheiro, para o cabello. Trabalhava distante das outras lavadeiras, no coradouro, e para molhar as teias que lhe estavam confiadas, mettia-se no rio até aos joelhos, atirando agua ás manadas. O sol faiscando sobre a areia do seixal enlanguescia os corpos, estonteava as cabeças. A Victoria desappareceu entre os salgueiros, para os lados onde não havia gente. E pouco depois, o discipulo mais graúdo do Padre João, o Thomaz do mercador, para lá se dirigiu, assobiando disfarçadamente.

—Olhem o moinante! Não querem ver?—rugiu o mestre do latim.

Porem, mais longe, n’uma clareira, a moça, reappareceu. O padre d’alli mesmo se pôz a vigiar, que não houvesse qualquer coisa. O estudante encontrou-se com a lavadeira, quiz effectivamente agarral-a, mas a rapariga esquivou-se-lhe, correndo adeante d’elle, furtando-se por entre troncos d’arvores. O ecclesiastico para ver melhor, levantou-se, seguia-os com prazer, inclinava-se para um lado e para o outro, punha-se nos bicos dos pés.

A Victoria a dar gargalhadas condescendentes, gritava pelas companheiras, ameaçava com um gougo o preseguidor. «E pilha-a.» «E agarra-a...» «Agora... fugiu...» «Lá cahiram ambos...»—ia elle commentando, comforme os cambiantes da lucta.

—O diabo é o Thomaz! Não escolheu mal o patifão—considerou, quando os dois, junto um do outro, conversavam sensatamente.

Mas o aspecto de conciliação perturbou-se. O estudante perseguiu de novo a rapariga que lhe fugia, gritando. A Lindoria ouvindo, correu para o sitio, cheia de fervor beato.

Ralhou, esbracejando descompostamente. A sua gritaria era para denunciar o rapaz, ao longe: «Maroto, metta-se com quem lhe der trela, não ande a desinquietar as almas». Ameaçou o estudante com o pae, com os missionarios, com uma queixa ao professor, com o inferno.

—Ah! tambem não é coisa para tanto—disculpava o sacerdote comsigo. Elle não fez mal nenhum.

Mas Lindoria não era d’este modo de pensar. Como Thomaz e outros companheiros lhe retorquiram com palavras feias, ella enfurecida e descomposta, subiu pelo carreiro, mesmo direita á casa do padre João. E berrava pelo caminho:

—Seus tratantes. Hão de dar grandes padres ou doutores. Padres! Abrenuncio! Eram capazes de dar cabo do reino dos céus. Ah! Vossa Senhoria já ahi vem? É que ouviu esta pouca vergonha!

Tinha dado de frente com o ecclesiastico, que retrocedera no caminho, para fingir que vinha de casa. A Lindoria, presumindo-lhe a ideia da procura dos discipulos, indicou-lhos:

—Estão alli senhor. Tire-lhes a pelle das mãos pelo amor de Deus, pelas cinco chagas, senhor padre João. Olhe que não sabe os marotos que tem!

A figura do mestre de latim, quedou-se respeitavel no alto da ladeira. Com um gesto largo de commando, appontou aos discipulos o caminho da aula.

Vieram todos junctos, como um cardume de peixes. O sacerdote caminhou adeante, sem os esperar, com o lenço vermelho pela cabeça, as abas do casaco afastadas como dois remos. E susteve-se um momento voltando-se para traz, com o fim de os increpar:

—São estas as horas d’aula? Eu ha um rôr de tempo á espera!...

A beata ainda lhe quiz contar tudo, mas o padre João nem a quiz ouvir:

—Não me dás novidade. Conheço-os. Deixa-os por minha conta.

Os estudantes seguiram-no, com semblantes de pouco temor. Já tinham experimentado mais vezes aquella farronca. Eram, quasi sempre, os dias mais serenos e benevolos.

Debaixo da varanda alpendrada, onde o ecclesiastico dava lições de verão, que se iria passar?

O padre João fazia um barulho da breca. Movendo-se com uma presteza desusada, foi ao quarto buscar a palmatoria, para amedrontar. Não se queria ver entre os dentes de Lindoria, que era capaz de lhe inventar a peior fama. Aquellas paredes e aquella figueira, habituadas ás objurgatorias tytanicas de Tito-Livio, aos versos amplos do melodico Virgilio, ás palavras conceituosas do velho Horacio e de Esopo, deviam estar atemorizadas, pela subita colera do professor.

Chegou a parecer iracundo—o sobr’olho carregado, os beiços estendidos, o rosto afogueado. Os rapazes curvados sobre os livros, já se não riam. O padre, abrindo o Virgilio, disse desabridamente:

—Tradusa as Eclogas, senhor Magalhães. O senhor Thomaz emenda. Por cada erro uma palmatoada no primeiro e duas no segundo. Vamos a ver se são tão fortes em analyse, como na bregeirice.

Os mais pequenos, com as grammaticas abertas sobre os joelhos, estavam pallidos! Nunca o tinham visto assim! Respirava-se alli uma atmosphera de terror. O mestre tinha baforadas de colera, batia com a palmatoria sobre a meza, arrumava os livros com impeto. O seu fim era crear em volta de si, um ambiente de respeito.

A consciencia gritava-lhe que não seria bastante punidor; mas estava resolvido a amedrontar a propria consciencia.

Para estabelecer uma intransigencia material entre si e aquelles que ia julgar; para se recolher absolutamente no grave papel de juiz, cobriu o rosto com o Virgilio. Não desejava ver os reus. Nenhum aspecto de humildade ou compuncção o tocaria!

O Thomaz era o melhor dos seus estudantes. Traduzia Virgilio com elegancia, penetrando-lhe as subtilidades litterarias. Foi elle quem principiou a licção e não o Magalhães, como ordenára o professor. O padre João conheceu a manha. Deixou-se enganar, até lhe achou graça. Um ligeiro sorriso (o primeiro na tempestade do seu rosto), abriu-se como uma flor de cacto. As paisagens tepidas e enganosas, d’uma suavidade extensa, principiaram a desenhar-se-lhe deante dos olhos. Tityro e Melibeu philosophavam na sua linguagem culta e suave, como o murmurio dos regatos. A pastora das florestas, idyllicamente á sombra das arvores, dizia do seu peito coisas ternas ao pegureiro amado, que tangia frauta rude, juncto d’um ribeiro. O verso sahia claro, levantando-se n’uma cadencia adormecedora. Havia as messes côr de manteiga, enchendo de riqueza o valle; na encosta estendiam-se rebanhos de cordeiros, que balavam por suas mães. Esta completa abstracção de materialidade, foi gradualmente enternecendo o mestre encolerisado.

Ao fim de poucos minutos, já respirava uma atmosphera de bondade natural; havia descoberto o rosto incauto. Não déra pela transição. Foi acompanhando em voz alta o discipulo que em breve o deixou só, limitando-se a ouvil-o. Pouco depois, o professor estava de pé, no meio da varanda, lendo com enthusiasmo, elevando-se nas maravilhas da comtemplação egoista do poeta! Desapparecera o mestre iracundo, não havia palmatoria. Boquiaberto, deante dos discipulos, exclamava:

—Como isto é bello! Como isto é bello!

Foi-se á caixa do rapé, tomou farta pitada, fungou-a sem rebuço, de pernas escachadas. Cahiu extenuado de prazer, na sua cadeira magistral. O Thomaz, que era velhaco, aproveitou o momento para dizer:

—Não sabe o senhor padre João, o que nós vimos ha boccado?

—Que foi?—perguntou.

—A truta grande, a serenar, encostada á pedra branca!

Tornou-se pallido e extatico! Endireitou-se na cadeira e disse, esforçando-se por se mostrar tranquillo:

—A truta grande, que anda ahi no rio!?

—Vi-a com estes.—insistiu o discipulo. É assim!— designou o comprimento d’um braço.

Estes maliciosos conheciam-lhe o fraco, como toda a gente. Muito mais do que apaixonado amante dos classicos latinos, era um pescador de canna. Esta paixão soturna é que lhe enchia a existencia. Por ella esquecia deveres sacerdotaes, obrigações escholares e a propria comida. Borracha á cinta, um naco de brôa, azeitonas... e lá andava um dia inteiro, pela margem do rio, para baixo e para cima, a cocar. Principalmente se o peixe picava, se enchia o cacifre, o seu gozo era infinito. Só para algum Senhor fóra é que tinham ordem de o chamar, com tres badaladas no sino da torre. Esta ideia d’um moribundo se preparar para ir á presença de Deus, era mais forte. E resmungava ao enrolar a sedela:

—Como é para coisa d’estas, não ha remedio.

N’estes termos, habil foi o estratagema dos discipulos, para se lhe apoderarem do espirito benevolente, e conseguirem o sueto que desejavam.

O caso, apontado pelo Thomaz, era grave. Havia annos que elle, ao desafio com o morgado da Torre Velha, procuravam a gloria de pescar a famosa truta grande! Era um animal matreiro, raramente se mostrava fóra d’um fundo poço, onde as redes se não arriscavam.

Juncto da pedra branca, só a tinham visto, duas ou tres vezes. A revelação do discipulo fez com que o padre João desconhecesse immediatamente os encantos bucolicos de Virgilio, as pompas litterarias de Tito-Livio. Deante de si, não tinha o criminoso que minutos antes lhe arrancára berros de colera; só via o individuo, que possuia um conhecimento para elle inestimavel.

—Então era a truta grande! Tu vistel-a bem?! Tu conhecel-a?!

—Se vi! Se conheço! Estava a serenar muito junctinha á pedra. Quando vinha á tona algum bichinho a rabear, ella nadava depressa e, zaz, abocava-o, dando um pulo fóra d’agua.

—Oh! com mil demonios!—exclamou.—Oh! minha Virgem Santissima, que lhe vou metter o anzol, mesmo na guela!

E depois um pouco mais sereno, no abatimento produzido por uma onda de gozo considerou:

—Ha quantos annos ando eu atraz d’essa ladra! O dia hoje está quente... Sol de trovoada, é bom p’ra coisa! Que dirá o D. Luiz, quando souber?...

Mostrava nas palavras verdadeira energia de luctador; o seu campo de batalha era aquelle.

De entre muitas cannas, suspensas ao longo da parede da varanda, escolheu a que tinha ponteira mais flexivel e resistente. Da gaveta da sua banca de professor, tirou uma sedela de côr verde-agua.

Calculava tudo para ficar victorioso, n’esta peleja que durava annos. Alli não havia mestre, nem discipulos. Os rapazes davam-lhe conselhos, offereciam-se para ir ás minhocas, e o Thomaz achou muito grossa a sedela:

—És tolo—retorquiu o mestre. Não ves que é uma truta do tamanho d’um savel! Se a apanho, vocês tem feriado tres dias! Como ficará o D. Luiz? Ai! que regalo.

O morgado da Torre Velha era o seu competidor na pesca á linha.

Encontravam-se frequentemente n’este desafio tacito. A cada peixe que um encacifrasse, o outro fazia um cumprimento espalhafatoso, mas odiento. Ambos se julgavam com eguaes direitos, á creação de todo o rio. A truta grande, porém, como um e outro tinham jurado apanhal-a, era motivo de mais grave conflicto. Por causa d’ella tinham feito pesquizas especiaes. Iam de noite, de dia, nas occasiões das cheias para juncto da azenha; porque, de vez emquando, o formoso animal vinha-se alli refrescar, nas aguas correntes.

Estudavam em separado, os estados climatericos, para calcularem o momento proprio de conseguirem o seu fim. Quando a qualquer d’elles parecia opportuno, tomava a canna precipitadamente, e ainda que o jantar estivesse na mesa, abalava para o rio. Muitas foram as desillusões, fadigas e contrariedades; mas tudo venciam com tenacidade heroica. A dormir e acordados tinham momentos de subito terror: cada um via o outro, apparecendo victorioso, com a truta presa do anzol, usando de mil habilidades para a trazer á margem, sem partir a sedela. Porém n’esta occasião o mestre de latim (talvez ainda resto do espirito de rigorismo com que entrára na varanda) entendeu que devia continuar as licções e disse encostando a canna ao canto:

—Vamos primeiro acabar as licções.

Os discipulos entreolharam-se aterrados! Por esta é que elles não esperavam. A lembrança feliz não sortira effeito. Uma risonha invenção, reduzida a nada. O plano de irem roubar n’essa tarde certas uvas doiradas, completamente gorado! Todos os rostos se voltaram para o Thomaz, que estava cabisbaixo e confuso. Porém, neste apuro, foi o sonso do Esteves, que fallou:

—A estas horas, já está por lá o senhor D. Luiz, com a sua canna...

O padre João, deu um pulo na cadeira e perguntou rapidamente:

—O senhor viu-o passar!?

—Não senhor; mas no outro dia pediu ao moleiro que, quando ella por alli apparecesse, o mandasse chamar.

Era quasi tão terminante como se o tivessem lá visto. Seria mais acertado partir immediatamente, antes que o da Torre Velha tivesse denuncia. Tornava-se indispensavel tomar-lhe a deanteira.

—Bem, bem... Essas licções na ponta da lingua para amanhã. E não me vão para o rio, por causa das lavadeiras. Não gosto da lingua da tal Lindoria, que vae por ahi badalar... badalar...

Partiu de canna ao hombro e n’um passo diligente. Deus nobis heac otia fecit—segredava comsigo. Os discipulos fugiam para o outro lado, com medo que ainda lhe desse a tineta, de voltar para traz. Corriam pelos caminhos, davam saltos, guinchos... O Thomaz relembrou-lhes o que disse o padre João, porém elles, não se importaram, continuando a correr e a gritar sem fazerem caso.

Na margem do rio, o sacerdote, armou-se de todos os cuidados para não ser presentido do esperto animal. Ao dirigir-se á pedra branca, os passos eram miudos, evitando as folhas seccas, que gemem debaixo dos pés.

Que enorme prazer de vingança! Iria passar á porta do morgado, com a truta pendente da mão. «Olha lá! rala-te p’ra’hi!»—havia de dizer mentalmente. Nunca houve bandido que espreitasse com mais sagacidade a sua victima.

Já de longe levava a canna prestes, a sedela colhida na mão para a lançar imprevistamente. Estava a pouca distancia, quando estacou, pallido de colera! O D. Luiz, surgíra n’esse momento da porta da azenha, seguindo rio acima com o anzol tambem prompto!

—Olhem o excommungado do barbaças que teve denuncia!—exclamou o ecclesiastico. Bem disseram os rapazes!

O fidalgo, homem edoso, corpulento, tez morena das soalheiras, olhar emprehendedor, tambem o viu e, provavelmente, faria identicas reflexões.

Comprimentaram-se com sorriso desdenhoso e n’esse instante abriu-se entre elles uma lucta colossal.

Estavam quasi a mesma distancia. Approximarem-se atabalhoados era inconveniente. Tanto um, como outro comprehenderam a gravidade do momento. O peixe era um só e decerto não teria a condescendencia de pegar nos dois anzoes ao mesmo tempo. O padre João humildou-se. Fez ao inimigo um signal em que pedia uma tregua, com o fim de parlamentarem. As circumstancias exigíam prudencia e ambos se afastaram da margem, para virem á falla.

O padre disse primeiro:

—Assim não póde ser, morgado. Nem p’ra mim, nem p’ra Vossa Senhoria!

—Que quer você que lh’eu faça? O rio não é grande?

—Mas a truta é uma, e se vamos á porfia escapule-se. Vossa Senhoria sabe que ella está alli.

—Palavra que não! Porque diabo não está você a dar aula aos seus rapazes?!

O sacerdote, zangado comsigo por lhe ter denunciado a truta, não pôde supportar-lhe a censura:

—E porque diabo não está o senhor a dormir a sua sesta! Ora é muito fina!

Estavam furiosos um contra o outro; mas a occasião era inopportuna para se descomporem. N’esse momento, juncto da pedra branca, a superficie do rio enrugou-se, a agua espadanou e um peixe enguliu um insecto que vinha nadando.

—Seria ella?—rugiu o D. Luiz, com vontade de matar o padre.

—Ná...—opinou este fazendo-se forte—Ella ha de fazer mais mossa.

No fundo ambos acreditaram que podia ser. «Maldito sotaina!» «Maldito barbaças!»—insultaram-se mentalmente.

—Bem—disse o padre. Dois ao mesmo tempo é que não póde ser. Quer Vossa Senhoria que se tire á sorte quem ha-de ir?

—Valeu—concordou o fidalgo.

D. Luiz tirou um pataco do bolso e perguntou:

—Cruzes ou cunhos?

—Cruzes que eu sou padre. Agora trapaceie, se lhe parece.

—Não tenho os seus costumes, seu bebedo!—respondeu o fidalgo, mostrando na palma da mão as cruzes da moeda.

E atirando ao ar o pataco com força, viram-no cahir a distancia. Os dois pescadores correram cheios de commoção.

—Cunhos!—gritou o morgado ao ver a papuda efigie do rei D. João VI.

O padre João acceitou resignado a sentença. Encostou a um valado a canna, tirou prodiga pitada da caixa de prata e foi-se sentar n’uma pedra trauteando cantochão, talvez pela mesma razão que tem os condemnados á morte, para pedirem que rufem os tambores, junto do cadafalso. D. Luiz augmentava-lhe o supplicio, caminhando vagarosamente para a margem. Dois annos de pesquizas e cuidados iriam terminar n’aquelle instante, pela victoria do seu adversario? Desappareceria aquelle tropheu de gloria, que lhe dera tantos sonhos enthusiastas? Principiou a cantar alto, desvairado por um sentimento de malevolencia. O da Torre Velha advertiu-o:

—Isso é para espantar, padre João?

Callou-se ficando n’um abatimento triste.

Ia presenciar a sua vergonha. O dia estava magnifico. Com ar de trovoada o peixe pica, que nem mil diabos! E figurava-se-lhe na imaginação a truta grande de guela aberta, aboccando a minhoca do barbaças. Era horrivel e desoladora esta possibilidade!

Mas porque é que o cubiçado peixe não havia de fugir? A maior parte das vezes é o que succede—consolou-se. A elle mesmo não lhe tinha acontecido? Ella a serenar, a serenar, muito quietinha, deante dos seus olhos, nem parecia coisa viva... Procurava o lado de cima, lançava o anzol a distancia para vir nadando pela agua a baixo como um bicho inexperto, e afinal, a truta que para elle era o animal mais intelligente da creação, escapulia-se por entre os penedos, que era um regalo! Quantas vezes isto lhe succedera? Uma infinidade.

Ainda outra consideração:

O morgado não era grande pescador de linha. Ignorava muitos segredos da arte sublime e não possuia todos os petrechos. Teria elle escolhido uma sedela bastante verde-agua para não ser percebida, e bastante forte para resistir aos repellões do valentissimo animal?! A truta é o peixe mais valente do rio, tem uma força que poucos apreciam. Talvez o seu antagonista não soubesse calcular essa rijeza—considerou.

Porém a gravidade do caso parecia ter dado ao D. Luiz uma intelligencia agudissima. Atirou calculadamente o seu anzol e seguia pela margem, com o olho álerta e prompto a dar a pancada, logo que chegasse o momento. O padre João teve vontade de fingir uma dôr, só para o perturbar. A anciedade do seu peito, crescia tumultuariamente, como oceano em furia. Aquella alma bondosa, teve a ideia repugnante de desejar uma apoplexia ao fidalgo! Mas reconhecendo-se criminoso, por este mau pensamento, poz o coração á larga, tornou-se magnanimo e até, mentalmente, pediu a Deus, que deixasse o morgado pescar a truta grande. Mas o da Torre Velha relanceou-lhe um olhar triumphante e o padre João, logo mudou de parecer, rosnando:

—Ah! ladrão! que se ella te foge muito me hei de rir.

O instante verdadeiramente supremo ia chegar. O anzol já se podia calcular perto da pedra branca.

Que infernal chamma abrazava o peito do ecclesiastico!? Poz-se de pé, só para seguir nas minudencias toda a peripecia. O fidalgo, attento e subtil, empregava o maximo da sua intelligencia.

Afinal, sente a pancada! Curva-se a ponteira! O peixe estava preso!

—Ah! grande maroto, que m’a roubaste—exclamou o ecclesiastico.

O instincto obrigou-o a ser generoso. Gritou ao D. Luiz:

—Agora é não a deixar fugir.

—Elle é o deixa—respondeu com orgulho, o da Torre Velha.

Começou a lucta heroica entre o fidalgo e o peixe. O animal era valente, podia quebrar a sedela, se o quizesse tirar sofregamente do rio. Tambem podia acontecer rasgar-se-lhe o beiço ou metter-se debaixo d’alguma lapa, se não tomasse precauções. Para obstar aos inconvenientes era indispensavel cançal-o, com paciencia e perspicacia. Por isso D. Luiz attrahiu-o a um logar conhecido, e alli o deixou rabear, defendendo-lhe o mysterioso poço, onde a truta se podia enredar n’alguma raiz. Puchava-a vagaroso e com delicadesa, consentia-lhe prudentes guinadas para o largo, dava-lhe linha calculadamente.

Ao fim de cinco minutos, tanto o fidalgo como o padre João, reconheceram que o peixe estava prompto. Condescendia, deixava-se ir para onde o levassem, mostrava-se fatigado e manso.

O sacerdote, já resignado, seguia todas as manobras sem rancor.

—Ande que apanhou—disse. Puche-a para perto e deite-lhe a mão debaixo d’agua, se não, ainda a vê por um oculo.

O D. Luiz aproveitou o conselho.

Attrahiu manhosamente o peixe ao sopé do muro, para que lhe ficasse debaixo d’um terrouço. Depois desceu; deitou-se de barriga, tão baixo que as barbas lhe tocavam na agua; introduziu um braço, guiando-se pela sedela; e, quando conheceu que lhe tinha um dedo na guelra, disse victorioso:

—Esta já não foge, padre! Que bruta que ella é!

Retirou o braço da agua, ergueu-se, ficando com o peixe pendente.

—Olhem o que é! Um barbo!... um peixe reles!—exclamou o sacerdote.

D. Luiz da Torre Velha, assim ludibriado pelo acaso, teve a ideia de atirar com o barbo á cara do padre! Porem era uma injustiça—considerou. Que culpa tinha de tudo isto o mestre de latim?! O seu abatimento, gerado na fatal desillusão era patente. Pegou na canna, na sedela, no cacifre, no peixe e... zaz!... atirou tudo ao meio do rio.

—Nunca mais! Póde ter a certeza de que nunca mais volto a isto—affirmou retirando-se.

Abril—85.


UM CORVO E UM PAPAGAIO
(CONTO PARA CREANÇAS, OFFERECIDO AOS MEUS FILHOS)

Isto passou-se no tempo dos animaes fallantes:

Um velho corvo, tendo de edade perto d’um seculo, n’um dia de muita chuva e vento, veiu, já sem forças, poisar na beira d’um telhado. Este valente da amplidão dos ares, tinha perdido toda a arrogancia do seu porte; encolhido e a tremer não se podia já ter nas pernas. A extremidade amarellada das suas pennas, outr’ora tão negras, mostrava que padecia de velhice e de fome. Ao habitante eterno dos penhascos sombrios, ao motejador das tempestades que assustam os homens, coube-lhe o vir dar o ultimo suspiro da sua longa vida, perto do comedoiro farto e luxuoso d’um vulgarissimo papagaio real. Este, de papo cheio, e aquecido pelo ar tepido da cosinha, ao sentir a queda do corpo enfraquecido do corvo, perguntou d’um modo gracejador:

—Que é lá!? Quem passa?

Uma voz quasi soluçante, conservando a meiguice dum peito corajoso, e o vigor do suspiro d’um general moribundo nos campos de batalha, respondeu:

—Gente de paz, amigo. Descanço um momento.

—Olha um corvo!—gritou o papagaio cheio de medo. Aqui d’el-rei que me come! Antonio, acode!

Mas o corvo, com uma voz tranquilla e cheia de bondade, serenou-o:

—Não te assustes... Não tenhas a meu respeito a opinião do povo, que é errada. Sou meigo e infeliz. Tive filhos, casa, uma companheira de muitos annos e tudo isto me roubaram os homens. Durante a minha vida d’um seculo, tenho visto mais barbaridades praticadas pelos corações piedosos, do que todas as que attribuem á minha raça maldita.

O papagaio, ainda receioso, mas cheio de curiosidade perguntou:

—Então não és feroz e cruel como dizem?

—Não. Tenho affectos; no alto dos meus queridos rochedos, muita vez escutei com prazer o canto dos passaros nossos irmãos e a alguns quiz imitar. Amigos meus e meus irmãos viveram entre homens, tornaram-se familiares, chegando a comprehender a linguagem que se falla. Eu sempre gostei do ar forte e da liberdade das montanhas. Hoje enfraquecido e cheio de fome fui arrumado para este telhado, pelo vento que toda a vida escarneci. Ha muitos dias que não como, dás-me alguma coisa d’isso que ahi tens?

—Não posso—respondeu o egoista.—O meu arroz mal chega para mim... Tu tambem o não comias. Do que mais gostas, segundo dizem, é de carne podre.

—Que remedio tenho eu, á falta de melhor? É o unico alimento dos infelizes que vivem nas solidões. Comemos tudo... a fome é negra. O teu arroz cheira tão bem... Dá-me um bocadinho? Poucos minutos me restam de vida. Deixa-me ao menos aproveitar da tua comida, isso que tu deitas fóra e desprezas.

Fez um esforço para voar; mas não podia. No entretanto esse mesmo movimento d’azas atemorisou o papagaio que bradou:

—Não te chegues, não te chegues! Tu o que desejas é comer o meu arroz e talvez engulir-me a mim mesmo. Nada de brincadeiras. Essa tua fraqueza póde muito bem ser fingida, para me enganares. Não te chegues, senão chamo o Antonio, o meu amigo cosinheiro, que arranja coisinhas boas para o meu papinho, e se elle vem, olha que dá cabo de ti.

O corvo, quasi agonisante, soluçava tremendo de frio e de fome:

—Não me odeies, lá por eu ter má opinião em toda a gente. No tempo em que era forte, quantas vezes não cobri com o meu corpo, muitos passarinhos que não podiam resistir á tempestade?! Fiz o bem que pude. Soccorre-me hoje, que estou para morrer.

O papagaio, desconfiado e vaidoso, temendo que o rustico habitante dos pincaros lhe sujasse a plumagem vistosa, ordenou:

—Então deixa-te estar ahi. Vou pedir ao Antonio que te deite um pedaço de carne, da que não presta. Talvez a não mereças; mas devemos ser caridosos—concluiu espanejando-se.

O velho corvo, já sem altivez, agradeceu com ternura na voz:

—Obrigado. Nosso Senhor t’o pague.

No telhado porém, não podia resistir aos impulsos do vento. Confiado, ou talvez contra vontade, deu um vôo, do beiral onde estava, para o poleiro, desculpando-se:

—Tem paciencia. Não posso estar alli. Comerei n’este cantinho a esmola que me fazes.

Mas a proximidade d’aquelle corpo sujo, volumoso, d’aspecto selvagem, assustou o timido papagaio real, que logo gritou fóra de si:

—Ó Antonio. Traz o pau!...

E esvoaçava sem querer poisar. Agarrava-se á corrente que o prendia ao comedoiro. Tremia de verdadeiro medo, elle saudavel e nedio, diante d’este habitante dos rochedos, que estava a dar o ultimo suspiro.

O cosinheiro, ao ver o corpo immundo e repellente, perto do seu estimado papagaio, exclamou irado:

—Olha o ladrão de um corvo!...

E dando uma pancada no animal desfallecido, atirou-o sobre o lagedo da rua, onde o desgraçado morreu logo. Em seguida, o Antonio com o fim de socegar o seu querido, passava-lhe com brandura a mão na cabeça dizendo:

—Calla-te loiro, não tenhas medo. Queria-te fazer mal? Levou a sua conta. Coitadinho do loiro, coitadinho do loiro.

Assim se cumpre, muitas vezes, a justiça na terra. Meus filhos, não se deve acreditar facilmente nas culpas d’aquelles que são infelizes, principalmente quando precisam de que se lhes faça bem.

Lisboa, Março, 85.


A VISTA DO SALGUEIRO
(CONTO PARA CREANÇAS)

Ambrosio era velho e vivia n’uma casa muito pobre, toda esburacada e de telha vãa. Lá dentro, os ratos eram tantos como as formigas n’um carreiro; e elle, sentado ao lume, via-os ir e vir, sem mesmo ter medo d’elles. Por traz da casa havia um pequeno quintal, ao fundo corria o rio, e pegado estava o moinho, habitado pelo moleiro, homem que elle odiava mais do que a morte.

Na tarde serena d’um dia d’agosto, Ambrosio, foi visto na margem, sentado n’uma pedra, o queixo pousado nos joelhos, a olhar fixamente e pasmado para uma arvore do outro lado. O ceu era dum azul pallido; as aguas passavam silenciosamente, até entrarem na guela d’azenha, onde produziam um sussurro; a roda movia-se de vagar; porque a força do rio era pouca... O pensamento d’Ambrosio voava, n’um mundo de independencia e maldade, planeando vinganças contra o moleiro seu inimigo. Era um odio velho, nascido de conflictos diarios, aggravado por muitos nadas de que, o do moinho, nem tinha consciencia. No corpo d’Ambrosio, magro como de feiticeira, passava-se no momento em que o viram a olhar para o triste salgueiro, uma lucta violenta e feroz.

N’esse dia, apparecera-lhe em casa, um bacoro de perna quebrada. Sem mais reflectir attribuiu logo o maleficio ao damnado visinho e foi para alli ruminar uma vingança, que o deixasse consolado. Tinha um coração de pedra este demonio de velho! Se não fora assim, como poderia gozar, inventando martyrios, n’uma tarde serena de verão, toda silencio e bondade!

Mas não se desprendia do terrivel desejo de matar o moleiro, com os maiores soffrimentos e castigos, que no mundo tivesse havido! Seria capaz de se vender ao diabo, só para conseguir o seu fim.

Veio-lhe esta ideia audaciosa e encarou-a resolutamente. Tão firme foi o seu pensar, que logo o diabo em pessoa alli lhe appareceu deante dos olhos, offerecendo-se-lhe para tudo, em troca da alma se elle realmente lh’a queria vender. Era figura bem conhecida, a que estava deante de Ambrosio:—meio homem, meio cabra; um comprido pello cobrindo-lhe o corpo; um rabo a dar para um lado e para o outro, como o d’um lobo; os cornos arrebitados na cabeça; e os olhos a coriscarem como dois carvões accesos. O velho não se atemorisou, e como desejava vingar-se do moleiro, sentiu o peito cheio de goso, quando o diabo lhe disse:

—Ouvi a tua voz. Aqui me tens. Acceito o teu contracto. Pede o que quizeres.

—Então tu é que és o diabo?—perguntou.

—Eu mesmo. Sou o que tudo posso depois lá do Outro (apontou desdenhosamente para o ceu). No meu reino posso mesmo mais do que Elle.

—Fazes-me tudo quanto eu quizer para matar o moleiro?

—Tudo, com tanto que me entregues a tua alma.

—E para que queres tu a minha alma?

—Para a guardar juncta com outras.

Ambrosio observou escarnecendo:

—Não acredito que faças bom negocio. Pelo que dizem os padres, a minha alma não presta. Dou-ta, mas has-de trazer-me aqui o moleiro pelo cachaço, e depois de bem amarrado e preso, deixares-me fazer o que eu quizer. Mas quero-o bem amarrado e preso, porque tenho medo, entendes?

—Se entendo!... E só queres isso?

—Se perguntas é porque estás em maré de franquesa. Então vá lá: Quero ser rei; ter muito dinheiro, muitos palacios, muitas cidades, muitos cavallos, coisas ricas para comer.

—Só isso?

—Co’a breca! Muito boa deve ser a minha alma para ti. Olha, já que offereces, quero uma sanfona, para tocar aos ouvidos de minha mulher, quando ella estiver a resmungar... Tu sabes; ás vezes leva noites inteiras ... ron-ron-ron... ron-ron-ron...

—E por quanto tempo desejas tudo isso?

—Essa agora é que nem parece sua, seu diabo! Isso por muito tempo.

—Não posso dar-te tudo por mais de cinco minutos.

—Cá me parece sovinice. Cinco minutos não é nada.

—É tempo bastante de gosares todas as coisas que pedes e de te aborreceres de todas ellas.

Ambrosio deu uma estrondosa gargalhada, que encheu todo o valle, repercutindo-se nos reconcavos visinhos. O diabo acrescentou:

—É como te digo. N’esse ponto te mostrarei o meu grande poder. Um minuto basta para eu fazer passar na tua vida, todas as grandesas da terra. Outro minuto para percorreres todas as grandes cidades do mundo. O terceiro minuto para tocares sanfona a tua mulher e ella morrerá de desespero. O quarto para matares com toda a pachorra o moleiro.

—E o quinto?—perguntou Ambrosio.

—Esse é para te aborreceres.

—Como tu és grande, diabo!—disse o velho enthusiasmado. Acceito.

—Deixa tirar uma gotta de sangue das tuas veias. Com esta penna de mocho, molhada no teu sangue, has-de pôr o teu nome n’este livro.

O inimigo do moleiro sentiu uma picada no sangradouro e logo o seu nome appareceu brilhante como o fogo, na pagina onde o escrevera, obrigado por uma força irresistivel.

Depois um vento infernal levou-o pelo espaço. Tudo quanto via e gosava eram deslumbramentos e delicias. Corria-lhe o corpo um calor de mocidade. Ricos manjares eram servidos em pratos d’oiro; as festas mais divertidas e luxuosas, passavam-se em palacios de marfim e cristal. Camas formadas de fofas nuvens, appareciam dispostas para um momento de cansaço. Levado milagrosamente, passou sobre os mares onde ruem tempestades, viu a seus pés cidades cheias de bulicio e riquesa, os reis da terra offereciam-lhe homenagem! Os montes de perolas, oiro e diamantes já eram para Ambrosio coisas sem valor. Por causa d’um mosquito que lhe passou no nariz, teve uma rajada de colera, que fez tremer toda a terra!

Logo em seguida viu humilde e supplicante o moleiro, que já estava preparado para o sacrificio.

—Quero matal-o cá á minha moda—disse para o diabo. Hade ser n’um banco, escochinado, como um porco.

No momento seguinte estava junto de sua mulher tocando-lhe sanfona aos ouvidos. A pobre velha, entrevada na cama, havia muitos annos, supplicava com olhares, que lhe não atormentassem as ultimas horas de vida. Porém o marido, homem de coração duro, foi implacavel até ao fim e viu-a morrer no meio de soffrimentos horriveis. Depois é que deu começo á tarefa mais importante, que era dar morte afflictiva ao moleiro.

Espatifal-o como um porco fôra sempre a sua ideia fixa. Ia realisal-a. A scena passa-se no quintalito junto do rio. A victima, com a sua grande estatura sae do moinho. Vem manietado e humilde, ao pé do algoz, apresentar-se para o sacrificio. Ainda que não ousava levantar os olhos, o seu porte era digno.

—Ah!—disse Ambrosio com grande satisfação. Vamos lá a isto?

O proprio carrasco, é que foi buscar um banco. Apontando para elle, mostrou-o á victima, com riso de mau:

—Hade ser aqui.

O pobre moleiro conservava-se calado e triste. Não ousava ter olhares colericos, talvez, para o suplicio lhe ser menos barbaro. Não pedia; pois era um homem valente, digno, bondoso e reconhecia a crueldade do inimigo.

Ambrosio continuou:

—Só para chegar a isto dei a minha alma ao diabo. Se mil almas tivéra, todas daria, só para te cravar mil vezes uma faca no coração e tirar-te mil vidas que tu possuisses. Quem foi que me quebrou a perna do bacoro? quem me fez secar a larangeira? quem me roubou a panella velha, com que eu tirava agua do rio? quem me estragou o mangericão?

E como a victima dos seus odios, continuava a olhar para a terra, sem responder, escarneceu:

—Ah! não foi ninguem!... Estas coisas fazem-se por si. Alem de seres o grande ladrão, que me roubou os feijões, és mentiroso. Pois vaes pagal-as todas juntas, meu rico amiguinho. Ora deite-se n’esta cama.

E com uma força que não era a do seu braço enfesado e velho, pegou no moleiro que era um gigante, e estendeu-o como uma arveola sobre o banco, atando-o fortemente com cordas.

—Agora espere que vou aqui buscar uma coisa.

Logo appareceu com um alguidar e uma comprida faca de matador. Mostrando estes objectos, acrescentou:

—Isto é um alguidar para receber o teu sangue vermelho e quente. Isto, uma coisa a que se chama faca para te fazer cocegas no coração. Talvez ainda tenha tempo para arranjar um serrabulho d’esse sangue e coração. Vamos á obra que se faz tarde.

Com placidez, gosando á vontade o martyrio do paciente, principiou a arregaçar os punhos da camisa de estopa. Mostrou a faca reluzente á victima que estava deitada. E voltando-se para o diabo disse:

—Você muito póde, seu amigo. Como eu tenho aqui este fanfarrão, sem se mecher? Tenho pena que meu pae me não tivesse feito duas almas, para lhe dar a você!

O demonio austero e grave não respondeu á lisonja. Ambrosio entrou de novo no seu pardieiro e trouxe um pucaro d’agua quente. Tinha de molhar a pelle da victima, para a ponta da faca entrar mais firmemente. E chapinhando na garganta com a mão molhada, tinha uma respiração d’homem feroz.

Apontou a faca ao logar apropriado, principiou a enterral-a lentamente, para a dôr ser mais prolongada, o sangue já sahia em borbotões do peito arquejante do moleiro.

—Não berra como os pórcos, este maldito!—considerou Ambrosio.

Ia-lhe remexendo cruelmente com o ferro nas entranhas! Gosava a sua victoria, fazendo soffrer a victima.

Foi prolongando este goso até aos ultimos momentos do moleiro. E quando reconheceu que alli estava definitivamente um morto respirou:

—Ahhh!... Isto valia bem uma duzia d’almas! Quanto falta senhor diabo?

—Vae acabar o tempo. Já lá te esperam. Olha!

Apontou para a bocca d’um enorme forno, onde entre as labaredas infernaes, estavam homens e mulheres dando gritos. Todas as velhas ideias de Ambrosio sobre penas eternas, se condensaram n’aquella realidade. Affrontou heroicamente um tal espectaculo, deante do qual o seu coração deshumano, ainda teve coragem para beber do sangue do inimigo! Porém o mundo infernal das chammas e gritos, crescia rapida e formidavelmente. O diabo sereno e magestoso estendia-lhe a mão para o agarrar, com as suas unhas de macaco! O aspecto do demonio era tão medonho e terrivel, que o velho Ambrosio teve subitamente um grande medo, todo o seu corpo estremeceu como se oscillasse o mundo, amedrontado e covarde ia a dar um passo para fugir...

N’esse instante escorregou e cahiu ao rio. Começou a berrar por soccorro como um possesso. O seu choro era mais infeliz do que o de uma creança sem mãe.

A agua escaldava-o e sentia-se abrazado como no meio de labaredas infernaes! Quem lhe havia de acudir n’aquelle instante de afflicção? Foi o visinho, o moleiro, a sua victima que sahindo fóra do seu moinho o viu debater-se covardemente, como se estivesse assoberbado, por ondas d’um mar tormentoso!

—Eh!... diabo de gato!—disse o collosso mettendo-se ao rio e agarrando-o pela gola da vestia. Como diabo te aconteceu isto?

Levou-o para sua propria casa, metteu-o na cama agasalhado, deu-lhe um caldo quente para o revigorar. O velho Ambrosio, olhando-o receioso, batia o queixo de medo e dizia com a cabeça debaixo da roupa:

—Nada, não quero; elle póde deitar resalgar no caldo!

Arcos, agosto, 86.