RENDE-TE CENTURIÃO

Esperava-se que d’essa vez os Passos fossem grandiosos. Tinha chegado no verão um brazileiro, que para engrandecer a terra, concorria com cincoenta libras. O abbade, depois da offerta, affirmou cathegoricamente, que ía fazer reviver a memoria dos Passos do fidalgo do Outeiro, que sessenta annos antes, fizera uns de que fallavam ainda com espanto, os velhos das redondezas! Não havia de faltar nada: teriam muitos anjos, musica da melhor e pregador de fama. Se viessem ainda esmolas, mandar-se-hia armar a egreja, podiam-se reformar os andores que estavam velhos; pois seria bonito que apparecessem differentes imagens do Redemptor, significando as diversas partes da notabilissima Paixão.

—Quando foram os do fidalgo do Outeiro—acrescentou o abbade—houve a guarda romana com o Centurião á frente, levando o seu distinctivo de videira como emblema do direito de punição corporea, sobre os soldados. Não sou d’esse tempo, mas ha ahi muitos homens que se lembram—concluiu, dando grande preço ás suas palavras.

Era n’um domingo, depois da missa conventual. O abbade fallava na sachristia, deante d’alguns freguezes, que o escutavam respeitosamente. O benemerito senhor Guimarães, que abrira a subscripção com cincoenta libras, era dos ouvintes. Reconhecendo, como todos, que a somma já apontada era diminuta para se arranjar uma procissão a valer, poz serenamente a luneta, pegou no papel onde estavam lançadas as differentes verbas e leu:

—Tresentos e cinco mil e sete centos e cincoenta reis. É pouco!—disse. Quanto entende o senhor abbade, que será preciso para se fazer coisa de truz?!

O sacerdote olhou fixamente o tecto da sachristia, suspendendo-se do labio inferior por dois dedos. Pronunciou, para si algumas palavras de calculo, resumindo em voz alta:

—Quinhentos mil reis. Com quinhentos mil reis faz-se tudo.

—Pois feche lá essa conta e trate do negocio, meu reverendo—concluiu o Guimarães, atirando generosamente com a meia folha d’almaço, sobre o gavetão.

O abbade agarrou-o entre os seus rudes braços de camponez, affirmando-lhe:

—Com isso, temos tudo! Bom sermão; boa musica; bom côro; anjos; egreja rica; um centurião com a sua guarda, que se lhe mandam ahi na villa fazer vestimentas; e andores de espavento, que eu arranjo a virem de Braga, com imagens e mais pertences. Creia o meu amigo, ponho-lhe ahi uns Passos, que nem na cidade do Porto. Uma riqueza, verá.

—Então é dar ordens, está arrumado—acrescentou o Guimarães, fazendo um gesto largo com a ponteira da bengala. Dinheiro não faltará, ainda que seja preciso mais. Na minha vida de trabalho levei muito chimbalau, e bastas vezes perdi contos e contos. Dê ordens, meu abbade, e ponha a coisa na rua. Percebeu?

Esta grandeza do Guimarães foi muito gabada em toda a parte, bem como a sua devoção. Felizmente não era como o traste do Cerqueira, um herege que embirrava com missionarios. Esse era raro verem-no pela egreja, e até quiz bater no afamado padre Antonio, porque lhe fez uma santa da sobrinha, a Rosaria do Thomaz do Monte, pobre homem, agora maluco, por causa das heresias que lhe mettera na cabeça o cunhado. Ainda bem que o senhor Guimarães não era assim e gastava dinheiro em fazer coisas boas, como ajudar uns Passos de que todos se orgulhavam. Por isso Deus o tinha protegido; por isso, sendo filho d’um pobre artista, era hoje um fidalgo, tinha palacio e suas filhas usavam sedas. Não tardariam em ver-lhe um titulo e era muito bem applicado, a um cavalheiro de tão larga generosidade e que tão amigo se mostrava da terra. Podia ser como outros, despresar do nascimento obscuro, viver n’esse Porto ou Lisboa, e não fazer caso nem da sua aldeia, nem dos parentes pobres. «Viva o senhor Guimarães, que ainda hade ser o nosso deputado»—affirmavam com emphase pessoas de consideração.

Desde aquelle momento o abbade não pensou n’outra coisa. Logo no dia seguinte montou na sua egua e foi encontrar-se com a diligencia, que o levaria a Braga. Como era homem de imaginação e muita fé, logo que alli chegou entendeu-se com as pessoas que melhores conselhos lhe podiam dar. Depois de varias conferencias resolveu encommendar tudo a um homem da rua do Souto, o que era melhor arranjo. Combinou a armação da egreja; os fardamentos do centurião, guardas, figuras e vestidos d’anjos; os cantores para o coro, os andores e até as imagens. Quanto a imagens foi mais difficil; pois que as confrarias entenderam que as não deviam emprestar, sem o parecer favoravel do senhor Arcebispo.

Depois de trabalho insano só pôde conseguir, um S. João e um Senhor prezo á columna. Porém não ficou contente; porque as estatuas, antigas e feias, não eram de causar grande devoção.

—Paciencia—disse resignado. Levam-se os seis andores. Tenho lá Cruz ás costas e Senhora do encontro. Levo d’aqui Preso á columna e S. João. Canna verde e Pretorio arranjo de Valença. Quem tem amigos...

Procurou, depois, saber onde morava actualmente o padre Silvestre, capellão de infanteria 8 e seu antigo condiscipulo. Era um dos pregadores mais afamados do alto Minho e o abbade, pela terceira vez, o escolhia para lhe abrilhantar uma festa da sua egreja.

Tendo conhecimento de que mudára para a Conega, cahiu-lhe em casa d’um pulo. Havia annos que se não encontravam. Por isso houve effusão d’alegria, muitos abraços e expansões n’este momento.

O pregador, escarranchado n’uma cadeira, disse para o seu amigo que se lhe sentára na cama:

—Tu, magnifico, gordo, sempre abbade! Que diabo te trouxe n’este tempo de trabalhos quaresmaes cá por Braga?

—O diabo não, creatura, foi Deus! Deus, o Senhor dos Passos é que me trouxe hoje por cá. Mas deixa-me perguntar-te, antes que me esqueça. Estás de mal c’o as...

—Estou sim—atalhou—não as podia aturar. Eram umas porcas. Nem roupa, nem comida... uma immundicie. Depois tinha por companheiro o Antunes da Cuspinheira, lembras-te? Um cevado com quem se não pode estar á mesa. Deixei-as...

O abbade conformou-se, accrescentando:

—Pois custou-me a dar co’esta casa. Perguntei ao Sampaio, o famulo. E venho cá por um motivo muito grave.

—Oh! com seis centos!—exclamou o capellão. Talvez algum caso de consciencia. O homem é fraco, bem sei. Eu absolvo-te, diz da tua vida, bezerro.

—Não, não é isso. Tenho uma festa de Passos, coisa rica. Paga lá um meu parochiano, um brazileiro. Quero que tu pregues.

—Quando é? Na quarta dominga? Tenho que fazer, vou aos de Bouro.

—Não principies já com lonas. É na terceira dominga, homem.

—Então posso.

—Mas Souséca! eu quero um sermão novo em folha. Posso-te dar quinze moedas.

O padre Silvestre reflectiu e disse:

—Valeu. Escrevo hoje mesmo ao Germano, o Germano das bochechas grandes. Conhecel-o? Quero que elle me empreste um que lhe enviaram do Porto e que fez grande barulho em Guimarães quando lá o pregou, ha dois annos.

—Mas, porque é que tu não o escreves? Com o teu talento...

—Escrevo sim; mas é para me inspirar. Tu bem sabes que estas coisas são sempre as mesmas. Está tudo sabido, já se não póde inventar. A questão é de modo. Percebes abbade?

No sabbado, vespera da terceira dominga chegou a Refuinho o pregador. Foi-se hospedar na Residencia. A sua entrada na aldeia foi celebrada com alegria pelo ajuntamento de povo, que estava no adro da egreja e até haveria repiques e foguetorio, se não fôra tempo santo de quaresma.

O Agrella, que ajudava o armador de Braga, veio dar ao padre Silvestre, um aperto de mão, affectuoso e familiar.

—Cá andas tu como o peixe n’agua—disse-lhe o pregador.

—Não ha remedio senão dar um gaudio á raparigada—respondeu o alfaiate. Muito estimei vel-o por cá, meu senhor. Ha que tempos!... Temos ahi uns Passos d’arromba. Não haverá outros, cinco leguas em redor.

O padre Silvestre saudava a todos de cima da burra. Os semblantes dos camponezes eram risonhos, como se tractassem d’um noivado. Este rumor attrahiu o abbade que se chegou á janella. Ao avistar o seu antigo condiscipulo, gritou-lhe:

—Eh! Souséca! Sobe para cá diabo.

Mas foi elle que veio abaixo, de tamancos e meias de lã, envolvido no amplo capote. Tomou o hospede entre os braços, apertou-o com amisade.

—Já me tardavas, maroto!—disse. Vou-te mandar pôr a ceia. Ó rapariga!—gritou para cima—Elle cá está.

No alto da escada, appareceu a Joanna, de lenço vermelho cruzado sobre os seios magnificos, e expondo, á vista de todos, a optima carne dos seus braços.

—Então uma fornada, ein?—perguntou o pregador.

—Não ha remedio senhor reverendo capellão. A gente hade comer. Estou a mettel-a no forno. Desculpe recebel-o assim.

Mas o padre Silvestre não era de ceremonias. Estava acostumado. Em casa de sua mãe, nos tempos felizes em que vivera na aldeia, era a mesma coisa. O trabalho primeiro que tudo. Faz a gente forte. Deu-lhe um abraço de satisfação, fazendo muito gosto em sujar o capote, sobre o lenço enfarinhado e os braços roliços, cheios de massa. A rapariga riu estrondosamente, entregando-se-lhe com facilidade. O abbade, fingindo-se suspeitoso, observou:

—Cautelinha, cautelinha, sôr Souséca!...

Tudo era levado á boa parte e sem malicia. O padre Silvestre pediu tamancos e meias de lã, que tinha os pés gelados. Oito horas de diligencia e a cavallo era de morrer. Se viesse alguma chuva não faria mal nenhum, pois amaciava.

—Não imaginas abbade, como elle corta lá em cima, ao dobrar o monte.

—Imagino, imagino. Bastas vezes o tenho levado pela fucinheira. Mas toma lá uns soccos e as meias e vem pr’o lume. Ceia-se alli mesmo.

Pouco depois, pozeram diante do pregador a sua gallinha, salpicão e a tigella de bom caldo, fumegante e appetitoso. Nos tempos em que ha muito serviço divino, não se usam jejuns para quem prega ou canta. Tem dispensa, bem merecida; pois que alguns, como o padre Silvestre, andam de terra em terra, levando a palavra sancta, para converter peccadores. É uma lida de seis centos demonios. Ganha-se dinheiro; mas não vale muito a pena. Se os obrigassem a comer sardinhas, morriam no fim da quaresma. Era Christo a subir ao ceu e elles a descerem á cova. Jejuns são para os brutos, para os fortes, que não tem de puchar pela cachimonia.

—Cá na minha—affirmou Joanna atiçando o lume—se nós somos tão tapados é por causa da brôa e do bacalhau.

O abbade, que estava estorcegando a sua posta sobre o prato, levantou a cabeça para dizer:

—Olá, princeza. Vou-te mandar vir carne da villa, para tu comeres.

—E olhe que me havia de fazer bem, ao meu rico peitinho—confessou pondo a mão sobre os proeminentes seios. Ao trabalho que lhe tenho.

O abbade continuou troçando:

—Ora sempre a gente vé coisas! Não te me faças lesma. Dá p’ra cá a infusa e deixemo-nos de contos.

Mas o padre capellão fallou sério, explicando. O seu trabalho n’essa quaresma era extraordinario. Em seguida a esse sermão, tinha outros. Passos em Bouro e toda a semana sancta em Amares, onde tinha de pregar o do lava-pés, o do enterro, o de lagrimas e o da ressurreição, que é sempre uma predica demorada e cheia de conceitos.

—Pois sim—considerou o abbade—mas este d’amanhã é que mais te custa.

—Podéra! Tambem é o de mais pucho. Levou-me oito dias a compôr e oito a decorar. É todo novo, acredita.

Tinham-no prevenido que, para o ouvir, viria gente de longe. Só em casa do Guimarães, uns trinta hospedes—pessoas do Porto, de Braga... o diabo. Mostrava-se preoccupado com o exito. Tinha medo que lhe esquecesse algum d’esses trechos flamejantes, em que firmava orgulho litterario. Peça meditada, feita com reflexão e calculo. Havia a bem conhecida passagem do centurião, convertido por um toque de divina graça. O padre Silvestre não julgava isto muito moderno; mas foi o abbade que lh’a exigiu, por saber que era do gosto dos ouvintes e principalmente do bemfeitor. No emtanto, entendia o pregador, que essa passagem produziria bom effeito, se fosse convenientemente ensaiada.

—Quem tens tu ahi para centurião?—perguntou ao abbade.

—Um rapazote da freguezia. Boa figura, alto!...

—Pois hei-de-lhe querer fallar. Que venha cá amanhã de manha. Bem sabes que isto tem o seu boccado de theatro.

No dia seguinte o pregador estava a repetir o sermão na horta da Residencia, passeando n’um carreiro, por cima do muro. O sol aquecia-o agradavelmente por um lado, a sombra do seu corpo estendia-se na relva, sobre a qual os gestos se lhe reproduziam mais amplos e magestosos! Uma pobre cerdeira, despida de folhas, é que lhe servia de referencia. D’aquelle lado era o Calvario, com a dolorosa imagem de Christo, vergado sob a cruz. O povo estava em baixo, oppresso e contricto. A Virgem mãe, á direita, banhada no pranto redemptor. Os verdugos, os da guarda romana, os discipulos e todos os amigos de Jesus, lá os significava na vertente do monte ignominioso, que no caso presente era um alcouve de cor alegre.

No meio d’uma apostrophe clamorosa, quando de braços abertos e solemne chamava o divino soccorro, foi interrompido por uma voz:

—Senhor reverendo pregador?—chamaram.

O sacerdote, voltou a cabeça, conservando suspenso o gesto e perguntou impaciente:

—Que diabo queres?

—Vossa Senhoria não me mandou chamar?

—Eu!

—Cá o nosso abbade é que disse.

—Ah!—exclamou, deixando cahir os braços. És o centurião?

—Entendo que sim—confessou o filho do Cancella.

Disse-lhe que se approximasse. Explicou-lhe o caso. Em certa altura do sermão, tinha de quebrar a lança, e prostrar-se de bruços, soluçando, como peccador arrependido. Jesus Christo alli estava, coberto d’opprobrio. Todos o tinham insultado no caminho do Calvario; porque estava nas escripturas que assim devia ser. Elle, centurião, tambem maltractára o sublime prisioneiro, dando-lhe com a lança e chasqueando-o. Depois é que lhe veio um toque de luz divina e arrependeu-se.

—Tu entendes—explicava. Toque de luz divina é assim como uma pontuada sobre o coração. Entendes? Diz lá.

—Entendo muito bellamente, senhor reverendo pregador. Eu já figurei n’outros Passos, lá p’ra Monção—acrescentou com sorriso experimentado. Mas senhor reverendo pregador, Vossa Senhoria, quer que eu me arrependa, logo á primeira que mandar?

—Porque?

—Eu á primeira... á primeira... não queria—explicou, coçando a nuca. É cá por causa da rapaziada, que depois chama podrico á gente.

—Ah! isso não tem nada. Lembra-te que estás deante do rei dos reis e do senhor dos senhores. Mas não te rendas logo... logo... Olha bem para mim—detalhou com bondade. Ao primeiro rende-te eu pego no lenço que está do lado da porta, levo-o á bocca, e torno a collocal-o no mesmo sitio. Tu reparas em mim, dás uma sacudidella aos hombros, assim, e continuas lá no teu posto. Eu fallo muito ainda. Ao segundo rende-te, repito o caso do lenço mudando-o então—sublinhou—para o meio do pulpito, d’esta maneira (Pegou no seu lenço de paninho vermelho, conservou-o segundos pendente da mão e depois collocou-o sobre um triste ramo de vide). Tornas a atinar comigo, um pouco mais sério do que da primeira vez; nova sacudidella de hombros, e continuas lá na tua vida. Sim, porque tu és um grande peccador e a divina graça não te póde tocar assim do pé p’ra mão. Entendes isto?

—Muito bem, senhor reverendo pregador—affirmou o filho do Cancella, com o queixo agarrado na mão direita.

—Mas ao terceiro rende-te—accentuou significativamente o padre Silvestre, espaçando as syllabas—quando eu mudar o lenço para o lado do altar mór, tu reparas em mim, com olhos muito arregalados, como quem sentiu que lhe entrou alguma coisa no corpo; se quizeres dás um grande berro, quebras a lança no joelho, atiras-te ao chão de bruços, finges que choras (se te dér p’ra isso, choras realmente) e dizes alto: «Perdão Senhor! Perdão! Perdão! Perdão!»

O rapaz pronunciou:

—Perdão Senhor! Perdão! Perdão! Perdão!

—Isso mesmo. É para o povo repetir: «Perdão senhor, perdão, perdão» e chorar muito, como é costume.

—Entendi muito bellamente. O peior é se depois me chamam, cagarola e podrico, que me levo de mil demonios.

—E que chamem?—observou o pregador. Então queriam que tu te não arrependesses, depois de tocado pela divina graça? São uns brutos.

Logo de manhã principiára a affluir gente que vinha de longe. A egreja, os andores e o que se dizia dos anjos era um pasmo! A musica, logo que chegou, foi tocar um hymno e duas polkas á porta do senhor Guimarães, que veio á janella, com toda a sua respeitavel familia e hospedes, palitando-se soberbamente. Zé Maximo, o homem das occasiões, levantou um viva ao seu compadre e amigo, que foi correspondido atirando-se chapeus ao ar. De tarde, antes de sahir a procissão, a musica voltou para o beberete, que lhe foi servido no quinteiro. Houve vinho do Porto em calices, quatro broas de pão de ló partidas á mão. Para os figurantes, que estavam todos vestidos na vasta salla da tulha, á espera do momento, foram enviados dois cabaços de vinho, meia duzia de brôas de pão de ló, outra de garrafas de Porto e um cesto de cavacas. Houve por este motivo grande barulho e algazarra dentro do casarão da tulha.

Foi a propria esposa do senhor Guimarães, que teve a delicadeza de lhes ir encher os primeiros copos, como signal de apreço e um rasgo democratico na sua vida faustosa. Os rapazes d’aldeia sentiam-se engrandecidos dentro dos seus fatos galileus e romanos. As tres Marias e a Veronica, apenas levaram aos beiços os copos de vinho, com medo de se descomporem nos vestuarios. Os anjos, sentados em duas bancadas, comiam gulosamente rebuçados, babando-se pelos cantos da bocca. Os irmãos do Santissimo, encarregados de os acompanhar, vieram buscal-os para os conduzir á presença do senhor Guimarães e dos seus hospedes, antes da procissão. O destroço nas cavacas, no pão de ló e no vinho era feito, pelo Velho Simeão, por José d’Arimathéa, por Caiphás e Pilatos, que se mostravam altivos; pelo Evangelista e especialmente pelo Centurião e os seus doze romanos, que promettiam não sahir d’alli, em quanto houvesse uma gotta nos cantaros e nas garrafas. O filho do Cancella, estava arrogante, animando os seus com manifesto prejuizo dos superiores, Caiphás e Pilatos, não obedecendo ás palavras judiciosas do piedoso Simeão, que bebia menos por causa da barba, e recommendava aos outros compostura:

—Olhem que tomam por ahi alguma carraspana! É melhor voltarmos cá, outra vez, no fim de tudo.

—Isso é o que tu querias—retorquiu o Centurião. É dar-lhe, rapazes, até lhe chegar com o dedo.

E de tal modo comprehenderam estas palavras, que ao sahirem da tulha, Cancella e os seus homens, levavam todo o seu animo e arrogancia natural, fortalecida pelo vinho.

—Grandissimo odre—disse-lhe com inveja o Simeão da barba, perdendo a suavidade, que era da indole do seu papel.

Os Passos começaram pelas duas horas. O itinerario foi combinado de modo que primeiro que tudo passassem á porta do senhor Guimarães, que seguia o andôr principal, como festeiro. A todas as senhoras que estavam á janella da sua casa d’azulejo, em especial a sua esposa, fez uma larga reverencia, passando ao mesmo tempo a mão na barba. Uma das coisas que mais impressionou a gente postada nos valados, foi o terem os anjos azas! Isso que concordava perfeitamente com o painel do altar mór, que representava a Annunciação, nunca elles tinham visto! E iam todos muito ricos, de setim branco e lentejoilas. Os melhores eram evidentemente os vestidos em casa de D. Maria de Refuinho, apezar de que os da mulher do sachristão e os da Lindoria, tambem não havia que lhes dizer:—ambas tinham sido creadas de conventos em Vianna. Cada anjo distinguia-se pela sua especialidade nas insignias de martyrio, em recordações da celebre paixão; era a coroa de espinhos, o martello, as tenazes e os pregos para crucificarem o Christo.

Havia dois que conduziam simulacros das escadas pelas quaes os verdugos tinham subido aos braços da cruz. Um rapasote, com altivez para que todos reparassem, sustentava na ponta d’uma canna a esponja que servira ao fel e ao vinagre; outro era portador da lança com que se abrira o sacratissimo lado. As chagas, em lacre vermelho, iam em salva de prata. A Veronica, rapariga esbelta, mostrava com ar piedoso, no santo sudario, a face penitente e ensanguentada do divino mestre. Quasi no fim iam as tres Marias, todas a par, cobertas de gaze preto e logo a seguil-as, S. João, o discipulo amado, com o queixo apoiado na mão esquerda. A Magdalena, uma rapariga casadoira, de longas madeixas encaracolladas cahindo-lhe nas espaduas nuas, caminhava em passo theatral, adeante do apostolo, e significava limpar abundantes lagrimas, deitando de vez em quando um riso de soslaio, ás pessoas conhecidas.

Entre os dois andores, o de Jesus vergando ao peso do madeiro, e o da Virgem lacrimosa que implorava do ceu piedade, ia o Cyreneu resignado e humilde logo em frente do Centurião, que commandava com arrogancia os seus doze companheiros. Eram rapazes escolhidos entre os mais espadaudos da visinhança. Orgulhosos dos capacetes prateados, das botas de montar, dos mantos vermelhos e das terriveis barbas, sustentavam intemeratamente as suas lanças, olhando em redor com provocação. O José Cancella levando a insignia da videira, atiçava-os com olhares tremebundos e modos arrogantes de capitão. O povo manifestava-lhes a sua antipathia, principalmente ao José. Chamava-lhe ladrão, carrasco, ameaçava-o com o inferno. A Lindoria, não se teve que lhe não dissesse, quando elle passou:

—Barbas de chibo! Um tição por esses olhos é que tu querias!

Porém o Cancella, apesar de carrancudo, não respondia. Pelos modos, parecia ter cabellos no coração, aquelle diabo—diziam todos. Os seus olhares furibundos sobre o Christo, não podiam constituir um peccado? Era realmente de mais. O Centurião do tempo dos judeus tinha a sua desculpa, porque não conhecia Jesus; mas este já ouvira muitas vezes os missionarios. Era fingido, bem se sabia, mas escusava de estar a fazer arremessos de lança, sobre a imagem que ia no andor; porque a isso é que ninguem o obrigava.

O atrevimento provocou da parte d’um visinho, um sarcasmo reprehensivo:

—Vaes-te ahi a fazer de chibante e logo rendes-te como um sendeiro!

—Não me puches—retorquiu o Cancella—porque se vamos a isso, arraso tudo a pau.

N’este momento o trombeteiro deu signal para continuarem. Ao longe ouvia-se o alarido dos rapazes, que admiravam os prodigios de força, tanto do que levava o guião como do que sustentava o estandarte, pois eram bandeiras que pesavam muitas arrobas. A procissão seguia por uma encosta, no cimo da qual haveria o sermão do encontro.

Um limpido ceu de março cobria os campos, que principiavam a reviver para a alegria primaveral das cores e da luz. O sol glorioso batia de frente nos anjos, obrigando-os a piscar os olhos. As lentejoilas, os galões e os adereços faiscavam com ostentação. Todas essas innocentes crianças iam pomposamente levadas para o Calvario, pelos seus parentes, que lhes forneciam rebuçados em abundancia. A multidão commentava com amor a riqueza dos vestidos e as lembranças do martyrio. O som plangente e dolorido da musica, alastrava-se pelas campinas. O sermão do encontro, só commoveu algumas antigas beatas, que lagrimejaram encostadas aos carvalhos do largo. O pregador era um velho de voz pigarrada e bochecha cahida. Todos o conheciam e não lhe davam valor. N’esse dia memoravel, quem absorvia as attenções, era o padre Silvestre, que viera de Braga. Para o ouvir corriam os mais ageis pelo monte abaixo e atulharam a egreja com enthusiasmo. Para os andores entrarem pediram auxilio ao Cancella e aos da guarda romana. Á força de muito encontrão é que puderam abrir caminho. Houve gritos, exclamações injuriosas; mas as confrarias, os anjos e mais figuras, tiveram os seus logares. Tambem, o Centurião e os seus, foram logo, alli mesmo, pagos d’esse esforço, bebendo um cantaro de vinho que veio para a sachristia. Depois que tudo se acommodou como pôde, a egreja ficou silenciosa. A imagem do Redemptor e da Virgem destacavam-se com energia, no horisonte do calvario, formado de nuvens caliginosas. Havia anciedade pelo apparecimento do pregador.

A figura grave do padre Silvestre mostrou-se no pulpito. Circumvagou a vista, desde o guarda-vento até a repousar na imagem do Christo, ajoelhado debaixo da cruz. O exordio foi longo, mas habilmente preparado n’um crescendo de dôr. Seguiu a vida simples do filho do carpinteiro de Nazareth, levando-o desde a malvadez de Herodes até ao baptismo no Jordão. Mostrou-o predestinado pelas prophecias, para a sua divina missão de soffrer o martyrio degradante que soffreu, por amor dos homens. Anteriormente á vinda de Jesus, a humanidade vivia numa escura masmorra, com porta, só para o inferno! As palavras da escriptura haviam de cumprir-se e era preciso o sacrificio d’um Deus, para salvar o mundo. Elle encarnou, soffreu, demorou-se trinta annos distante da patria celestial, para nos remir e dar exemplo. Nem que todos os homens vivessem eternamente em penas afflictivas, poderiam pagar tão infinita bondade! Por isso, na apaixonada peroração, o pregador, começou por considerar que estando dentro d’aquella egreja, só miseros peccadores condemnados aos rigores do inferno, convidava-os a que se prostrassem de bruços, para pedirem perdão a Deus dos enormes peccados, que todos haviam de ter, no logar mais intimo da alma.

Os gritos e soluços do povo sommavam-se, como elementos d’uma calamitosa tempestade. A gritaria das mulheres, que davam bofetadas nos seus filhos para os obrigar a carpir e conservarem memoria d’este sermão, esfusiavam no ar como uivos de vento. O pregador, para tomar mais pathetico o discurso, quil-o ornamentar com a conversão d’um infiel. O infiel era o Centurião, o filho do Cancella, no qual ia experimentar o poder extraordinario da divina palavra.

Desde o principio se reconhecera, que o José estava casmurro; pois que, a despeito de todo o povo chorar, elle sempre se mostrára atrevido, olhando o pregador com altivez. Os seus soldados tambem o acompanhavam no ar insolente. Algumas pessoas que estavam no segredo do que se passava, attribuiam aquella chibancia ao ultimo cantaro de vinho. O pregador, ignorante do facto, antes o julgou muito bem compenetrado do papel. Por isso começou por pedir aos fieis, que o acompanhassem na exhortação que ia fazer. Como as toupeiras que não tem olhos para a luz do sol, aquelle desgraçado não tinha meio de presenciar o encanto da luz da divina graça. Vivia em trevas infinitas, d’onde só podia sahir pelo enorme poder do Senhor. E estendendo-lhe os braços paternaes, pediu suavemente:

—Rende-te Centurião!

—Rende-te Centurião!—acompanharam os circumstantes, n’uma voz chorosa e precatoria.

O filho do Cancella, que passeava soberbamente no calvario, parou cofiando a barba com magestade e affirmou resolucto:

—Não me rendo!

O Agrella, que estava alli perto, disse-lhe de modo que elle ouvisse:

—Não te rendes! Isso logo se verá meu pedaço d’asno.

Evidentemente, esta ameaça do alfaiate perturbou a vista do esforçado Centurião. Por entre a longa barba, sahiu-lhe um bafo enfurecido de colera, e se não fora a especial situação, era capaz de lhe quebrar a cabeça com a lança.

O pregador, tendo limpo os beiços ao lenço, segundo a convenção, continuou exhortando o infiel e pediu-lhe com mais instancia. Pintou, deante do povo absorvido na sua palavra santa, o triste estado d’aquella alma obcecada, recusando receber em si a divina luz! Empregou maior energia de phrase, foi mais caloroso e persuasivo. O povo seguia-o, supplicando com elle, levantando clamor cheio de lagrimas. Ao segundo rende-te, quando o pregador mudou o lenço para o meio do pulpito, o Centurião respondeu cathegorico:

—Não quero, não rendo!

—Á terceira nós veremos—afirmou de novo o Agrella, que estava certo do que se passara entre o José Cancella e o pregador.

O padre Silvestre investiu no ultimo pedido, dando-lhe a forma de objurgatoria. Para ser mais solemne, começou em tom simples, subindo gradualmente até ao intimativo.

Já via na fronte do Centurião um principio d’arrependimento. O grande Deus ia feril-o com um d’esses raios de divina omnipotencia, como ferira Paulo na estrada de Damasco, como ferira o impio Agostinho, e o proprio Moisés na montanha. Não podia consentir-se que vivesse entre christãos, uma alma peccadora e impenitente. A conversão havia de dar-se a preço da propria morte, porque o Senhor usa de todos os meios, para chamar a si as almas!

O filho do Cancella, perseguido d’ameaças, não se commoveu. Porém, quando o pregador o equiparou aos grandes santos, já parecia amollecido no seu espirito de resistencia. O povo chorava e clamava em altos gritos, o peito enchia-se-lhe de ternura e arrependimento. Talvez fosse melhor acabar com aquillo, prostrar-se por terra, como tinha promettido. O pregador mudou o lenço para a direita e concluiu com voz energica e grave:

—Abre esses olhos peccador! Rende-te Centurião!

—Agora!—intimou o Agrella.

O chefe da guarda romana fixou no pulpito um olhar atrevido. Julgou-se indigno da fama que tinha de valente se obedecesse á voz do Agrella. O vinho dava-lhe coragem e audacia. Tomando a lança ás duas mãos, bateu uma forte pancada no pavimento e respondeu ao pregador:

—Tenho-os bem abertos. Não me rendo! Não e não! Obrigue-me!

Depois d’isto a situação ficou inteiramente perturbada. O padre Silvestre teve uma paragem de surpreza. Não sabia o que aquillo queria dizer. Teria havido algum esquecimento ou engano?! Para que o rapaz percebesse melhor, tornou a pegar no lenço, suspendeu-o no ar e collocou-o á direita. Á voz imprecativa do sacerdote, juntava-se o clamor plangente e formidavel do povo. Pois que! O filho do Cancella tinha duvida em reconhecer o enorme poder da Omnipotencia! em se rojar diante do Senhor dos Senhores, do Rei dos Reis! em reconhecer que o Immaculado Cordeiro veio morrer fragilmente na forma humana, só para nos remir e salvar! Estranha e incomprehensivel cegueira! Empedernido no peccado, devia estar aquelle coração. E pediu-lhe de novo que se rendesse, que attendesse á commovente voz de todas aquellas mulheres que o exhortavam e no meio das quaes estaria sua propria mãe.

As pessoas gradas pareciam irritadissimas. O brazileiro Guimarães lembrou-se de o mandar prender; mas o desembargador João Xavier, achou isso improprio do logar. Enviaram o Zé Maximo, que lhe disse com moderação:

—Rende-te, diabo! Olha que o homem já está rouco.

—Deixe-o estar!—respondeu succintamente o Centurião.

Todos se mostravam inquietos. Semelhante cabeçudo, merecia boa doze de páu—opinavam.

O pregador estava esfalfado. A sua voz, já pouco distincta, era coberta pelo alarido que enchia a egreja! Ouviam-se supplicas, ameaças, palavras soltas, gritos, creanças a chorar...

O filho do Cancella, de cada vez se inculcava mais firme, no proposito de se não render. Foram pedir ao pae que lhe impozesse a obediencia; porém o velho, que sempre tivera prosapias, mostrou má vontade de interferir. Opinou que o rapaz se renderia quando entendesse, que o deixassem lá, elle sabia bem do seu papel. Não era a primeira vez.

Tudo parecia perdido. O padre Silvestre, exhausto de forças, furioso contra aquelle maroto, arrancou do peito um grito sublime. Com a colera estampada no rosto, dirigiu-se ao povo, e apontou vivamente para o Centurião clamando:

—Aqui d’El-rei! contra aquelle maroto! Prendam-no que foi elle que matou Nosso Senhor Jesus Christo! Povo! Faz justiça por tuas mãos.

Os das confrarias largaram as tochas e correram em tropel. O chefe dos soldados romanos preparava-se, juncto com os seus homens, para levarem tudo á bordoada. Só então é que o velho Cancella se adeantou, agarrando o filho pelo tronco:

—Eh! Zé. Que diabo é isso! Rende-te que já fizestes a tua figura, home!

Elle então, arrumando a lança para um canto, submetteu-se:

—Como vocemecê pede, vá lá! Se não ia tudo razo!

Depois na sachristia, o Guimarães, furioso, disse-lhe:

—Precisavas que te mettessem um páu, entendes? Culpa tive-a eu em mandar o cantaro de vinho. Não eras tu que fallavas, não.

O abbade, esse, mesmo d’estola, quiz-lhe esmurrar as ventas. O pregador é que lhe agarrou n’um braço, socegando-o:

—Deixa-o. Quem lhe hade pôr uma farda ás costas, sou eu. Lá é que ellas se pagam. Moinante!

O filho do Cancella, ouviu-os com ar sizudo, sem responder. A vista toldou-se-lhe quando o ameaçaram. N’um impeto de colera, arrancou as barbas postiças e arrumando com ellas ao chão, disse sahindo para fóra:

—Ainda um raio me parta se eu tornar a fazer de Centurião! Macacos me mordam, se pozer outra vez isto na cabeça!

E atirou ao meio da herva do adro, o bello capacete prateado, que foi ter a distancia.

O abbade, ainda se chegou á porta dizendo-lhe deante dos homens que alli estavam:

—Ah! bom marmelleiro! Levem d’ahi esse odre de vinho, antes que eu lhe ponha os ossos num feixe.

Em casa do pae, custou muito a socegal-o. Foi preciso deitarem-lhe uma chapoeirada d’agua fria para o acalmar. O somno que dormiu, foi de mais de doze horas!

Fevereiro de 86.